A saúde mental está doente - a síndrome de burnout em psicólogos que trabalham em unidades básicas de saúde

A saúde mental está doente - a síndrome de burnout em psicólogos que trabalham...

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Carolina Guimarães Araujo

A Saúde Mental está doente!

A Síndrome de Burnout em psicólogos que trabalham em Unidades Básicas de Saúde.

Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Psicologia.

Área de concentração: Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano.

Orientadora: Profª. Drª. Maria Júlia Kovács Pesquisa realizada com apoio do CNPq

São Paulo 2008

Catalogação na publicação

Serviço de Biblioteca e Documentação Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

Araujo, Carolina Guimarães.

A Saúde Mental está doente! A Síndrome de Burnout em psicólogos que trabalham em Unidades Básicas de Saúde / Carolina Guimarães Araujo; orientadora Maria Júlia Kovács. -- São Paulo, 2008. 244 p. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em

Psicologia. Área de Concentração: Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

1. Stress ocupacional 2. Formação do psicólogo 3. Psicologia da saúde 4. Humanização da assistência 5. Saúde pública 6. Pesquisa qualitativa I. Título.

BF575.S75

Carolina Guimarães Araujo

A Saúde Mental está doente!

A Síndrome de Burnout em psicólogos que trabalham em Unidades Básicas de Saúde.

Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Psicologia.

Área de concentração: Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano.

Dissertação apresentada e aprovada em:

Prof. Dr
Instiruição:Assinatura: _
Prof. Dr
Instituição:Assinatura: _
Prof. Dr

BANCA EXAMINADORA Instituição: ___________Assinatura: _

Dedicatória

ajudarem a nunca desistir dos meus sonhos
Mãe, você me ensinou a sonhar
Pai, você me ensinou a colocar em prática meus sonhos

Aos meus queridos pais, pela intensa dedicação para que eu me tornasse quem sou, por me incentivarem a seguir mesmo os caminhos mais difíceis, por me

contraponto para minhas fantasias e meus contos de fada

Ao meu irmão, por me trazer à realidade quando necessário, por ser o

acadêmica

À querida Madrinha, simbólica e eterna, por ter me inspirado a seguir a vida

persistência para obter o sucesso

Aos meus quatro avós, por terem me ensinado que é preciso bastante estudo e

necessária para sentir que meus passos estão sempre sendo acompanhados
Vento, que me impulsiona para lugares distantes
Brisa, que me mantém suspensa no ar
Seu olhar me dá asas, que me permitem voar cada vez mais alto
Sua admiração me aquece, me ajuda a voar nos dias frios
Seu abraço me dá segurança, nos momentos de fraqueza
Seu carinho me conforta, quando passeio pela tempestade

A você, meu grande amor, por sempre ter acreditado em mim, pelo apoio constante, pela compreensão nos momentos de incerteza, pela segurança Sua simples presença durante todo o caminho me fez voar até aqui!

Agradecimentos

Querida Julia, obrigada por me ajudar a enxergar as coisas de forma mais relativa, propiciando mais reflexões do que afirmações. Obrigada por me incentivar a me “soltar”, e depois trazer meus “pés para o chão”, quando necessário. Obrigada, enfim, por ser ter sido mais que orientadora: você foi mãe, amiga, colega e terapeuta.

excelente profissional em momentos de crise. Se todas supervisoras fossem iguais a você

Ingrid, você esteve ao meu lado desde o começo, e me ensinou muito sobre como ser uma

Ao Prof. Avelino, pela imensa contribuição neste trabalho, sendo uma referência sobre a Síndrome de Burnout.

Às queridas Laura e à Silvana, pela rica ajuda na reflexão sobre este tema a partir da abordagem junguiana.

Às entrevistadas, sem vocês este trabalho não existiria
Aos meus pacientes, que me fazem crescer como pessoa e psicóloga todos os dias

Ao CNPq, pelo apoio financeiro, e a todos funcionários da secretaria da Pós e do PSA.

momentos que precisei

Às amigas do grupo de orientação, Ana, Cláudia, Clô, Elaine, Jana, Jú, Lucélia, Nancy, Silvana, Tissi, Vanessa, pela escuta, pela fala, ou simplesmente pelo carinhoso silêncio nos

escritório, e o interesse em participar de todas as etapas do processo

A meus pais, por conseguirem dosar o respeito aos meus momentos de total isolamento no

Ao meu amor, Marcos, pela paciência e compreensão diante dos momentos de crise durante todo esse percurso, pelo companheirismo e incentivo ao meu trabalho, pela demonstração constante de admiração pelo que eu faço.

À Madrinha, pela imensa colaboração durante toda a pesquisa; você me ensinou muito! “Quando eu crescer, quero ser igual a você!”

Ao Gui, ou “Andrezinho”, por resolver minhas “crises” com o computador!

E a todos àqueles que em algum momento cruzaram meu caminho, pois cada pessoa que passou pela minha vida, trouxe algum ensinamento, que me fez ser quem hoje sou.

“Enquanto médico, sempre me pergunto que imagem traz o doente. O que significa ele para mim? Se nada significa, não tenho um ponto de apoio. O médico só age onde é tocado. ‘Só o ferido cura.’ Mas quando o médico tem uma persona, uma máscara que lhe serve de couraça, não tem eficácia. Levo meus doentes a sério. Talvez esteja exatamente como eles diante de um problema.” (C. G. Jung).

Resumo

ARAUJO, C.G. A Saúde Mental está doente! A Síndrome de Burnout em psicólogos que trabalham em Unidades Básicas de Saúde. 2008. 244 f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

acerca do tema

A Síndrome de Burnout consiste em um conjunto de sintomas, físicos e/ou emocionais, que estão relacionados ao modo como cada pessoa lida com os eventos estressores do ambiente de trabalho. Esta síndrome acomete essencialmente profissionais que mantém um contato direto com outros seres humanos. O presente trabalho teve como objetivo investigar a razão pela qual os psicólogos das Unidades Básicas de Saúde de um determinado município do Estado de São Paulo estavam adoecendo. Além disso, buscou verificar se os participantes apresentavam a Síndrome de Burnout e, se confirmado, quais fatores desencadeadores estariam envolvidos. Foram realizadas entrevistas semidirigidas, que partiam de um questionário previamente elaborado, mas com a possibilidade da ampliação e aprofundamento dessas questões, bem como formulação de novas perguntas, seguindo um modelo clínico. As participantes foram sete psicólogas que trabalham ou trabalharam em UBS do Município em questão. Foram realizadas análises individuais, para compreensão qualitativa da experiência de cada uma delas, e depois, foi realizada uma análise temática dos discursos como um todo. Os relatos mostraram alguns fatores envolvidos no desenvolvimento da síndrome, tais como: a) pessoais - tempo de experiência profissional, perfeccionismo, impotência; b) organizacionais - sobrecarga de trabalho, falta de autonomia, não-valorização do psicólogo, falta de suporte (supervisão/psicoterapia), perfil dos pacientes, falta de trabalho interdisciplinar. Foram feitas propostas de intervenções com os psicólogos, para prevenir a Síndrome de Burnout, bem como de reestruturação da grade curricular do curso de Psicologia, e das Instituições de Saúde Pública. Ainda, foi realizada uma reflexão sobre a falta do cuidado que o psicólogo tem consigo mesmo. Por fim, foi sugerido um aprofundamento de pesquisas

Palavras-chave: Stress ocupacional; Formação do Psicólogo; Psicologia da Saúde; Humanização da Assistência; Saúde Pública; Pesquisa Qualitativa.

Abstract

ARAUJO, C.G. The Mental Health is sick! The Burnout Syndrome in psychologists who work in Health Basic Unities. 2008. 239 p. Thesis (Master) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

theme

The Burnout Syndrome consists in a group of symptoms, physical and/or emotional, related with the way each person faces stressful routines/chores in a job environment. This syndrome is more prevalent in those professionals who have a direct contact with other human beings. The objective of this study is to investigate the reason why psychologists of Health Basic Units (Unidades Básicas de Saúde) of a certain city of the state of São Paulo, Brasil, were getting sick. Furthermore, it seeks to verify if the participants present the Burnout Syndrome, and if so, which factors were involved. A semi structured schedule interview was applied, which was based on a previous questionary, but with the possibility of a deeper comprehension of those questions, as well as the formulations of new questions, based on a clinical model. The participants were seven psychologists who work or had worked in a Health Basic Unit. The interviews were analyzed individually, for a qualitative comprehension of the experience of each one of the participants, and then a thematic analysis of their discourses as a whole was conducted. The discourses showed some major factors involved in the development of the syndrome, such as: a) personal – professional experience, perfectionism, sense of impotence to deal with the problems; b) organizational – overload of work, lack of autonomy, undervaluation of the psychologist, lack of support (clinical supervision/psychotherapy), patients profile, lack of interdisciplinary work. Suggestions of interventions with psychologists to prevent the Burnout Syndrome were made, as well as a reorganization of discipline curriculum of the Psychology courses and in Health Public Institutions. Furthermore, a series of comments has been listed emphasizing the lack of self care that the psychologist has. At last, it was suggested more in-depth research about the

Keywords: Occupational Stress; Psychologist Education; Health Psychology; Humanization Assistance; Public Health; Qualitative Research.

Lista de Siglas

CAPS AD: Centro de Apoio Psicossocial para usuários de álcool e drogas CAPS: Centro de Apoio Psicossocial CAPS I: Centro de Apoio Psicossocial para crianças e adolescentes com transtorno psicótico e transtorno global do desenvolvimento CAPS I: Centro de Apoio Psicossocial para pacientes com Transtornos Psicóticos, Transtornos de Humor e Neuroses graves. IPq-HC-FMUSP: Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo PA: Pronto Atendimento PS: Pronto Socorro PSF: Programa Saúde Família SUS: Sistema Único de Saúde UBS: Unidade Básica de Saúde UTI: Unidade de Terapia Intensiva

1 Apresentação1
2 A Síndrome de Burnout16
2.1 O termo Burnout16
2.2 História16
2.3 Estresse X Burnout17
2.4 Definições e Concepções Teóricas19
2.5 Principais Sintomas20
2.6 Aspectos Facilitadores e/ou Desencadeadores do Burnout21
2.6.1 Características Organizacionais2
2.6.2 Características Pessoais24
3 Psicólogos que trabalham em Unidades Básicas de Saúde (UBS)27
3.1 Caracterização da Instituição27
3.2 Atenção Primária, Secundária e Terciária: qual o papel do psicólogo de UBS?29
3.3 O cuidado ao cuidador32
3.4 Formação do psicólogo na graduação35
4 A Síndrome de Burnout em Psicólogos: uma visão junguiana41
5 Objetivos51
6 Método52
6.1 Abordagem Qualitativa52
6.2 Participantes54
6.3 Sobre a Coleta5
6.3.1 Procedimento5

Sumário 6.3.2 Instrumento...................................................................................................5

6.5 Considerações Éticas59
7 Análise das entrevistas61
8 Discussão170
9 Considerações Finais198
10 Referências Bibliográficas204
ANEXO A Termo de Consentimento Livre e Esclarecido209
ANEXO B Modelo da Entrevista210
ANEXO C Entrevistas211
1 - Luiza211
2 - Paula216
3 - Renata220
4 - Olívia226
5 - Verônica231
6 - Aline233

6.4 Sobre a Compreensão dos Dados ...........................................................................57 7 - Bruna......................................................................................................................240

Desde a graduação, venho investindo na formação profissional relacionada à área da

Saúde, principalmente em Instituições Públicas. Além dos estágios curriculares em Instituições de Saúde, realizei um estágio extracurricular durantes dois anos no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP).

Logo após a graduação, comecei a aprofundar meus conhecimentos na área clínica, com aprimoramentos em psicoterapia na Pontifícia Universidade Católica, além da atuação em consultório particular. Posteriormente, iniciei o curso de Aprimoramento e Especialização na área de Psicologia Hospitalar, novamente no IPq-HC-FMUSP. De novembro de 2004 até maio de 2006, trabalhei como psicóloga concursada em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) em um município no Estado de São Paulo.

A partir dessa experiência, notei que, apesar da experiência prática, como psicoterapeuta clínica, especializada em Psicologia Hospitalar, ligada essencialmente à área de Saúde, sempre senti a necessidade de um maior embasamento teórico nessa área, bem como de realizar pesquisas que respondessem às questões que acabaram surgindo no dia-a dia.

Assim, as inquietações que me motivaram a realizar este estudo foram emergindo ao longo dessa minha trajetória como psicóloga clínica no âmbito da Saúde Pública. Com os anos, fui percebendo que os profissionais que trabalham em Instituições de Saúde (Hospitais, UBS, Ambulatórios, etc.), de um modo geral, acabam tendo dificuldades específicas, e que precisam ser investigadas com maior cuidado. Verifiquei também que ainda há bastante necessidade de pesquisa para compreender estas questões.

Desde o momento em que ingressei na UBS, um fator de impacto foi a enorme demanda de pacientes com os mais variados distúrbios psicológicos e a falta de instrumentos essenciais para o desenvolvimento de um trabalho adequado. Percebi que havia uma enorme defasagem tanto do ponto de vista de estrutura física (condições precárias do local em si), quanto do ponto de vista material, pela falta de recursos (desde os instrumentos mais sofisticados, como testes psicológicos, até os mais básicos, como folhas de papel sulfite). Além disso, constatei a falta de reuniões clínicas, supervisões ou algum outro tipo de suporte emocional para o profissional.

Neste contexto, fui percebendo que alguns profissionais da equipe de Saúde Mental desse município, principalmente os psicólogos, estavam adoecendo, sendo os principais sintomas relatados: gastrite, enxaqueca, oscilações de pressão arterial, entre outros. Nos últimos seis meses antes do início da minha pesquisa, pelo menos quatro psicólogas tiraram licença, e outras faltavam muito por problemas de saúde. Durante as reuniões, começamos a refletir em conjunto se essas doenças teriam alguma relação com o trabalho, e a maioria acreditava que sim. Então, fui pesquisar na literatura existente sobre estresse ocupacional, e entrei em contato pela primeira vez com o termo Síndrome de Burnout.

Essa expressão Burnout foi descrita pela primeira vez na literatura por Freudenberger em 1974, e desde então vem sendo discutida como estando relacionada a profissionais que mantém um contato interpessoal constante e direto com outras pessoas.

O fato é que os profissionais da Saúde que apresentam essa síndrome, geralmente chegaram a essa situação extrema porque esqueceram de se cuidar e de buscar ajuda antes da eclosão da crise. Em primeiro lugar, muitas vezes, estão tão empenhados no cuidado com seus pacientes que acabam não tendo disponibilidade para olhar para si mesmos, e ver o quanto precisam de cuidados. (CARVALHO, 2003).

acabamos nos deparando com o seguinte dilema: a Saúde Mental está doente! E agora

Em consulta à literatura existente na época, percebi que existiam ainda poucos estudos realizados sobre possíveis intervenções com os profissionais da Saúde, principalmente com os psicólogos, que muitas vezes trabalham em condições precárias, e estão constantemente em contato com a dor/sofrimento psíquico do outro. Assim, fica difícil para o profissional buscar algum tipo de ajuda específica para lidar com as questões ligadas ao trabalho. Dessa forma, quem cuida do cuidador?

que eu possa cuidar do outro, devo, antes, cuidar de mim (...)”.(ESSLINGER, 2003, p.xi)

Assim, acredito que seja fundamental que se pense não somente em humanização dos cuidados com os pacientes, mas que se pense o mesmo com relação aos profissionais da Saúde. Logo, é necessário um aprofundamento do estudo das causas deste adoecimento, bem como das medidas preventivas e como reabilitá-los. Afinal, conforme Esslinger afirma: “Para

O problema da minha pesquisa traduz algumas dúvidas que tenho, que me impulsionam a encontrar respostas: será que a Síndrome de Burnout está relacionada à impotência em resolver problemas de falta de estrutura física (Instituição)? Ou será que a causa seria mais profunda e de mais difícil solução, como a falta de preparo técnico para lidar com pacientes com distúrbios psicológicos de difícil tratamento? Ou ainda, será que a desvalorização dos psicólogos, somada à sobrecarga de trabalho estão como principais fatores desencadeadores da síndrome? Será que os problemas dos pacientes, somados às questões institucionais, se refletiram nos psicólogos que, apesar do esforço diário empregado, acabariam não encontrando respostas em suas tarefas cotidianas?

Então, minha pergunta é se a combinação das impotências, seja no plano técnico, seja no conceitual, conduz o profissional a um nível de estresse que se acentua a cada dia, visto que ambas as impotências se perpetuam, dadas às dificuldades de sua solução.

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