Epidemiologia

Epidemiologia

(Parte 1 de 12)

Assunto: • Medidas em epidemiologia

Professor: • Marlos Rodrigues Domingues

Objetivos: • Definir as principais medidas usadas em estudos epidemiológicos;

• Mostrar as diferenças entre estas medidas;

• Demonstrar a utilidade de cada tipo de medida;

• Discutir alguns conceitos comuns vinculados às medidas.

Conteúdo: • Medidas de (freqüência) ocorrência de doenças;

• Prevalência;

• Incidência;

• Conceitos: mortalidade - letalidade – morbidade.

Habilidades (o que se espera do aluno ao final do assunto): • Reconhecer as diferenças entre as medidas estudadas;

• Capacidade de aplicação dos conceitos de medidas e

• Identificar o tipo de medida aplicada em pesquisa.

Bibliografia:

Costa AJL e Kale PL (2002). Medidas de freqüência de doença. In: Medronho RA et al.. Epidemiologia. Rio de Janeiro, Editora Atheneu, páginas 15 – 31.

☺ Vaughan, JP e Morrow, RH. Princípios epidemiológicos. In: Epidemiologia para os municípios. Editora Hucitec, páginas 12 – 16.

Esta unidade trata de medidas de ocorrência de doenças em epidemiologia, e está apresentada na seguinte ordem:

1.1 Introdução; 1.2 Medidas de (freqüência) ocorrência de doenças; 1.3 Prevalência; 1.3.1 Determinação da prevalência; 1.4 Incidência; 1.4.1 Taxa de incidência; 1.4.2 Incidência acumulada (Cumulativa); 1.4.3 Diferenças entre taxa de incidência e incidência acumulada; 1.5 Conceitos: mortalidade - letalidade – morbidade.

1.1 Introdução

Um dos objetivos da epidemiologia é justamente medir (quantificar) as freqüências com que os problemas de saúde ocorrem.

Qualquer resultado em epidemiologia, seja direcionado ao público leigo ou não, é muitas vezes apresentado numericamente, de forma a atrair a atenção do leitor, como por exemplo, no Brasil, 1% da população entre 15 e 49 anos está infectada com o vírus HIV.

Tanto para os profissionais de saúde quanto para os leigos interessa saber o comportamento e as características numéricas dos males que atingem a população. Isso serve para além de mostrar o estado de saúde das populações, informar se os esforços de prevenção e combate a determinado problema estão surtindo o efeito desejado.

As medidas de freqüência estão divididas e são definidas fundamentalmente por dois conceitos – a incidência e a prevalência. Uma referente aos estudos que ocorrem ao longo de um determinado tempo, com no mínimo duas coletas de dados, e outra obtida por uma coleta de dados única (pontual).

Outros termos como mortalidade, letalidade e sobrevivência são variantes da incidência.

Estas duas medidas de freqüência básicas em epidemiologia, prevalência e incidência são termos comumente mal empregados e às vezes não compreendidos.

É comum lermos em jornais manchetes do tipo – “..hoje em Rio Grande existe uma incidência de 18% de desnutrição infantil...”. Na verdade o que o jornalista quis dizer é que a prevalência é de 18%. Para falarmos em incidência é preciso vincular a medida a um espaço de tempo e possuir no mínimo duas coletas de dados, e a comparação de uma com a outra é que vai nos dar a incidência.

Uma analogia comumente usada é dizer que a prevalência é uma foto, e a incidência é um filme.

As medidas podem ser expressas como freqüências absolutas ou relativas, sendo as últimas mais comuns por possibilitarem a comparação entre populações distintas.

Por exemplo, é preferível dizer que no HU de Rio Grande morrem 12 recém-nascidos por mil ao ano, do que dizer – no HU de Rio Grande morrem 84 recém-nascidos ao ano.

Ao acrescentar o termo “por mil” a porcentagem (1,2%) fica clara para o leitor, e em qualquer lugar do mundo ele pode comparar este dado. Numa cidade pequena onde nasçam mil crianças ao ano, se morrerem 20, o número absoluto (20) é menor do que o de Rio

Grande (84), no entanto a medida relativa é bem maior: 20/1000 contra 12/1000, ou 2% contra 1,2%.

A escolha por medidas relativas ou absolutas depende muito do público para o qual se quer passar a informação.

1.2 MEDIDAS DE (FREQÜÊNCIA) OCORRÊNCIA DE DOENÇAS

As medidas em epidemiologia podem ser obtidas então basicamente de duas formas: examinando pessoas num único momento (transversal), ou acompanhando pessoas durante um certo tempo (por exemplo, longitudinal).

A figura abaixo representa um grupo de pessoas num estudo. No momento T0, A0 indivíduos já estavam doentes, e C0 não estavam.

Dos que não estavam doentes, B1 pessoas ficaram doentes até o momento T1, enquanto C1 pessoas continuaram sadias. No final do estudo (momento T2), C2 permaneciam não afetados, estando os demais doentes.

Neste exemplo teórico, a doença ocorre apenas uma vez para cada pessoa, e não ocorrem mortes, curas nem perdas de seguimento, o que na realidade é praticamente impossível.

Um estudo transversal teria analisado as pessoas em T0, T1 ou T2, enquanto que um longitudinal faria a análise em pelo menos dois destes momentos.

Os três momentos mostrados poderiam ser explicados separadamente assim:

Em T0: A0 são os que já iniciaram o estudo doentes e C0 é o resto da população (que está sadia);

Em T1: A1 são aqueles mesmos doentes que já estavam assim no início do estudo, e que não se curaram, B1 são as pessoas que adoeceram neste período de tempo (entre T0 e T1) e C1 são os sujeitos que cismam em continuar sadios;

Em T2: A2 são aqueles mesmos doentes que já estavam assim no início do estudo, e que não se curaram, B2 são as pessoas que adoeceram neste período de tempo – lembrando que agora o tempo aumentou, indo de T0 a T2 (ou seja B1 mais novos doentes) e C2 são os sujeitos que não adoeceram mesmo;

Tabela 2 x 2 auxiliar nos cálculos de medidas:

EXPOSTOS a b NÃO-EXPOSTOS c d

Obs.: em epidemiologia, o termo não-doente aplica-se às pessoas que não possuam a doença de interesse em determinado momento, o que não quer dizer que estas pessoas sejam totalmente saudáveis e não possuam nenhum tipo de problema de saúde.

1.3 PREVALÊNCIA (prevalence)

A prevalência é medida apenas uma vez, é como se fosse uma foto do que existe no momento da pesquisa. É a medida pontual usada em estudos transversais.

É uma proporção, pois o número de casos está contido no denominador. A fórmula básica da prevalência é número de casos (doentes) dividido pelo número total de pessoas estudadas. Pela tabela:

Prevalência = a + c a + b + c + d

É uma medida estática (analisa um único momento) em relação ao processo dinâmico (ocorre ao longo de um determinado período) de adoecimento. Os casos existentes ou prevalentes, são aquelas pessoas que adoeceram no passado recente (casos antigos + casos novos) e que ainda estão vivas na ocasião da pesquisa. Assim sendo, os doentes que vierem a falecer antes da observação, não são computados na medida de prevalência.

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