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Talvez no futuro, quando for escrita a crônica factual dos dois mandatos presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva, o pleito de 29 de outubro de 2006 apareça como mera repetição dos resultados numéricos de quatro anos antes, em que o candidato do PT venceu o do PSDB por uma diferença em torno de 20 milhões de votos1. Remanescerá então encoberto, sob cifras quase idênticas, o deslocamento que, com o aspecto superficial da consagração do lulismo, pode ter significado, na verdade, um importante realinhamento político de estratos decisivos do eleitorado.

[1] No segundo turno de 2002, Lula teve 52.788.428 votos contra 3.366.430 votos para José Serra. No segundo turno de 2006, Lula ficou com 58.295.042 votos, contra 37.543.178 votos para Geraldo Alckmin.

RESUMO O artigo sugere hipóteses para compreender o realinhamento eleitoral que teria ocorrido em 2006. O subproletariado, que sempre se manteve distante de Lula, aderiu em bloco à sua candidatura depois do primeiro mandato, ao mesmo tempo em que a classe média se afastou dela. A explicação estaria em uma nova configuração ideológica, que mistura elementos de esquerda e de direita. O discurso e a prática, que unem manutenção da estabilidade e ação distributiva do Estado, encontram-se na raiz da formação do lulismo. PALAVRAS CHAVE: Realinhamento eleitoral; subproletariado; ideologia; lulismo.

ABSTRACT This article suggests a few hypotheses to understand the new electoral configuration that was formed in 2006. The subproletariat, that has always kept itself away from Lula, accepted in large scale his candidature after the first term of his presidency, at the same time that the middle-class moved away from it. The explanation would be on a new ideological configuration, that mixes leftwing and rightwing elements. The rhetoric and the praxis, that are able to unite the maintenance of stability and the distributive action of the state, are in the origins of the formation of lulism. KEYWORDS: New electoral configuration; subproletariat; ideology; lulism.

André Singer

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[2] Ver, por exemplo, Viana, Gilney. “O PT e o lulismo”, 2007, <w. pt.org.br>, acessado em 25/08/2009; Simões, Renato. “Duas agendas: na crise, de duas, uma”, 2009, <w. pt.org.br>, acessado em 25/08/2009. Em outra vertente, e de modo mais ligeiro, ver a menção ao lulismo na entrevista de Carlos Augusto Montenegro ao jornal Valor, 23/09/2009, intitulada “Identificação ao PT derrota Dilma”.

[3] Ver Oliveira, Francisco de. “Hegemonia às avessas”. Piauí, nº 7, jan. 2007.

[4] Amaral, Roberto. “As eleições de 2006 e as massas: uma emergência frustrada?” <w.psbnacional.org. br>, acessado em 25/08/2009.

[5] Veja, nº 1936, 21/12/2005, p. 5: “De agosto para cá, segundo o Ibope, Lula perdeu 9 pontos porcentuais entre aqueles que, até a eclosão da crise, eram seus eleitores mais fiéis: brasileiros que ganham até um salário mínimo”.

[6] Oliveira, op. cit. No primeiro turno de 2006, que ocorreu a primeiro de outubro, Lula teve 46.662.365 votos e Geraldo Alckmin, 39.968.369, Heloísa Helena, 6.575.393 e Cristovam Buarque, 2.538.544.

[7] Usando balizamentos de mídia, pode-se dizer que a fase aguda do “mensalão” iniciou-se com a reportagem de Veja que começou a circular em 14 de maio de 2005 e terminou com a entrevista presidencial ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, em 7 de novembro do mesmo ano.

[8] Folha de S. Paulo, 5/02/2006.

A hipótese que desejamos sugerir neste artigo é que a emergência do lulismo expressa um fenômeno de representação de uma fração de classe que, embora majoritária, não consegue construir desde baixo as suas próprias formas de organização. Por isso, aos esforços despendidos até aqui para analisar a natureza do lulismo2, achamos conveniente acrescentar a combinação de idéias que, a nosso ver, caracteriza a fração de classe que por ele seria representada: a expectativa de um Estado o suficientemente forte para diminuir a desigualdade, mas sem ameaçar a ordem estabelecida. Diante desse arranjo ideológico, uma possível nova hegemonia não seria “às avessas”, como sugeriu Francisco de Oliveira, ainda que, ao juntar elementos de esquerda e de direita, cause a impressão de subverter a lógica dos argumentos3.

A percepção desse movimento profundo, que definiu a reeleição, foi dificultada porque ele se deu sem mobilização e “sem fazer-se notar”, como assinalou um observador4. O silêncio provocou confusão à direita e à esquerda. Dez meses antes da reeleição, a revista Veja publicava que Lula seria derrotado porque, de acordo com pesquisa do Ibope, 40% do apoio obtido em 2002 tinha se esfumado e a “política assistencialista" não estava conseguindo segurar o eleitor de baixa renda. “A disputa eleitoral de verdade se dará entre Serra e Alckmin", escrevia Veja, mesmo avisando que previsões de longo prazo falhavam tanto quanto as meteorológicas5. Abertas as urnas, Oliveira ainda duvidava da “interpretação corrente" segundo a qual “o Brasil eleitoral se dividiu entre pobres e ricos". “Seria ótimo, se fosse plausível que os 40% de votos de Alckmin foram dos ‘ricos', e que a votação de Lula foi exclusivamente dos ‘pobres'", escreveu Oliveira sobre o primeiro turno6.

A origem do mal-entendido é dupla. De um lado, houve um deslocamento subterrâneo de eleitores não de baixa renda, mas de baixíssima renda, o qual passou despercebido, de outro, porque se deu de modo concomitante ao estardalhaço em torno do “mensalão”, escândalo que teceu, a partir de maio de 2005, um cerco político-midiático ao presidente, deixando-o na defensiva por cerca de seis meses7. No período do “mensalão”, o governo efetivamente perdeu parcela importante do suporte que trazia desde a eleição de 2002. Nas camadas médias, essa rejeição desdobrou-se numa forte preferência por um candidato de oposição à presidência em 2006. “Entre os brasileiros de escolaridade superior, a reprovação a Lula deu um salto de 16 pontos percentuais, passando de 24% em agosto para 40% hoje”, escrevia a Folha de S. Paulo em 23 de outubro de 2005. Três meses depois, porém, enquanto os mais ricos, seguindo na linha anterior, optavam em massa (65%) pelo então pré-candidato do PSDB, entre os de renda familiar de até cinco salários mínimos ocorria uma inflexão, com um aumento dos índices de satisfação a respeito do mandato de Lula8. Sobretudo no fundo da

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[9] Ver resultados das pesquisas Datafolha nas edições da Folha de S. Paulo de 23/1/2005 e 5/02/2006.

[10] Agradeço ao Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp a cessão de dados do Ibope/2006 utilizados neste artigo e a Gustavo Venturi a cessão de dados da Fundação Perseu Abramo.

TABELA 1 Intenção de voto por renda no 1º turno de 2006

Fonte: Ibope. Pesquisa com amostra nacional de 3010 eleitores, realizada entre 28 e 30 de setembro de 2006.

TABELA 2 Intenção de voto por renda no 2º turno de 2006

Fonte: Ibope. Pesquisa com amostra nacional de 8680 eleitores, realizada entre 26 e 28 de outubro de 2006.

sociedade, onde circulam personagens de escassa visibilidade, houve uma crescente inclinação, desde pelo menos o início de 2006, no sentido de manter no Palácio do Planalto o ex-retirante pernambucano que tinha as mesmas origens dos seus recém-apoiadores9.

A divergência entre os estratos de renda irá crescer ao longo de 2006, e os números encontrados pelo Ibope perto do primeiro e do segundo turnos expressam uma disputa socialmente polarizada, como mostram as Tabelas 1 e 210. Nelas, a disposição de sufragar em Lula da parcela mais pobre inverte-se de maneira linear à medida que aumenta o rendimento, de modo que os mais ricos dão folgada maioria a Alckmin. O que atrapalhou a compreensão e levou analistas como Oliveira a considerarem pouco plausível que os quase 40 milhões de votos em Alckmin no primeiro turno fossem apenas dos “ricos” é a dualidade brasileira, que grosso modo transforma em “classe média” todos (aí incluídos setores assalariados de baixa renda) os que não pertencem à metade da população que tem baixíssima renda. Lula foi eleito, sobretudo, pelo apoio que teve no segmento de baixíssima renda, enquanto

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[1] Amaral, op. cit., p. 9.

[12] Holzhacker, Denilde e Balbachevsky, Elizabeth. “Classe, ideologia e política: uma interpretação dos resultados das eleições de 2002 e 2006”. Opinião Pública, vol. 13, nº 2, nov. 2007, p. 294-96.

[13] Hunter, Wendy e Power, Thimoty J. “Rewarding Lula: executive power, social policy, and the brazilian elections of 2006”. Latin American Politics and Society, vol. 49, nº 1, 2007, p. 4.

Alckmin contou, além do voto dos mais ricos, com certa sustentação na fatia de eleitores de classe média baixa, que vagamente corresponde ao que os especialistas de mercado chamam de “classe C”. Na faixa de mais de dois a cinco salários mínimos de renda familiar mensal, por exemplo, Alckmin quase empatava com Lula às vésperas do primeiro turno (Tabela 1), mas entre os eleitores de baixíssima renda (até dois salários mínimos de renda familiar mensal), Lula aparecia com uma vantagem de 26 pontos percentuais sobre Alckmin. Por isso, é verdadeira a interpretação de que o Brasil eleitoral se dividiu entre pobres e ricos. A polarização social do pleito deu-se pela implantação de Lula entre os eleitores de baixíssima renda, visível desde o primeiro turno, assim como a de Alckmin, entre os eleitores de renda mais alta (acima de dez salários mínimos de renda familiar mensal).

Os dados mostram que o lulismo foi expressão de uma camada social específica, e o descolamento entre eleitores de baixíssima renda e de “classe média”, que apareceu nos debates pós-eleitorais sob a forma de “questionamento do real papel dos chamados ‘formadores de opinião’”1, outorgou um caráter único à eleição de 2006. Em perspectiva comparada, as cientistas políticas Denilde Oliveira Holzhacker e Elizabeth Balbachevsky observaram que em 2002 o voto em Lula “não estava especialmente associado com nenhum estrato social”, enquanto em 2006 “os eleitores de classe baixa se mostram significativamente mais inclinados a dar seu voto a Lula”12. Na realidade, o único caso anterior de polarização por renda em eleições presidenciais, desde a redemocratização, surgira no segundo turno de 1989, sendo que naquela ocasião a candidatura Lula estava, não por acaso, no lado oposto da linha que dividia pobres e ricos, como notaram Wendy Hunter e Thimoty J. Power13. Enquanto Fernando Collor de Mello alcançava vantagem de dez pontos percentuais na faixa de eleitores que recebiam até dois salários mínimos de renda familiar mensal, no segmento mais alto quem obtinha essa vantagem era Lula (Tabela 3).

TABELA 3 Intenção de voto por renda no 2º turno de 1989

Fonte: Ibope. Pesquisa com amostra nacional de 3650 eleitores, realizada entre 13 e 16 de dezembro de 1989, conforme André Singer, “Collor na periferia: a volta por cima do populismo?” em B. Lamounier (org.), De Geisel a Collor, o balanço da transição. São Paulo: Sumaré, 1990, p. 137.

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[14] Singer, André. “Collor na periferia: a volta por cima do populismo?”. In: Lamounier, B. (org.), De Geisel a Collor, o balanço da transição. São Paulo: Sumaré, 1990, p. 138.

[15] Idem. Sem medo de ser feliz. São Paulo: Scritta, 190, p. 98-9.

[16] Ibidem, p. 98.

[17] Sobre os dados que evidenciam a adesão intuitiva à direita, ver Singer, A. Esquerda e direita no eleitorado brasileiro. São Paulo: Edusp, 2000.

Se no primeiro turno de 1989 já havia uma nítida tendência de crescimento do apoio a Collor com a queda da renda, levando a uma concentração do voto nele entre os mais pobres, no campo oposto (“classe média”) ocorria uma dispersão de votos entre Lula, Brizola, Covas e Maluf, não caracterizando, ainda, a polarização, que viria a ocorrer no segundo turno14. Em entrevista concedida depois daquele pleito, Lula afirmava:

A verdade nua e crua é que quem nos derrotou, além dos meios de comunicação, foram os setores menos esclarecidos e mais desfavorecidos da sociedade […]. Nós temos amplos setores da classe média com a gente — uma parcela muito grande do funcionalismo público, dos intelectuais, dos estudantes, do pessoal organizado em sindicatos, do chamado setor médio da classe trabalhadora15.

Consciente do peso eleitoral dos “mais desfavorecidos”, ele acrescentava:

A minha briga é sempre esta: atingir o segmento da sociedade que ganha salário mínimo. Tem uma parcela da sociedade que é ideologicamente contra nós, e não há porque perder tempo com ela: não adianta tentar convencer um empresário que é contra o Lula a ficar do lado do trabalhador. Nós temos que ir para a periferia, onde estão milhões de pessoas que se deixam seduzir pela promessa fácil de casa e comida16.

Em trabalhos sobre a eleição de 1989, notei, entretanto, que a vitória de Collor não decorria apenas de promessas fáceis. Havia uma hostilidade às greves, cuja onda ascensional se prolongou desde 1978 até as vésperas da primeira eleição direta para presidente, e da qual Lula era, então, o símbolo maior. Observava-se um aumento linear da concordância com o uso de tropas para acabar com as greves conforme declinava a renda do entrevistado, indo de um mínimo de 8,6%, entre os que tinham renda familiar acima de vinte salários mínimos, a um máximo de 41,6% entre os que pertenciam a famílias cujo ingresso era de apenas dois salários mínimos (Tabela 4). Em outras palavras, ao contrário do esperado, os mais pobres eram mais hostis às greves do que os mais ricos. Em parte, é essa inversão que faz a nova hegemonia parecer “às avessas”.

À época, assinalamos que a resistência às greves e à candidatura Lula, manifestada por eleitores de baixíssima renda, estava associada, além do mais, a uma autolocalização intuitiva à direita do espectro ideológico17. Não obstante, tratava-se de uma direita peculiar, uma vez que favorável à intervenção do Estado na economia, como se pode ver na Tabela 5. Como resolver a aparente contradição? Sugerimos a interpretação de que os eleitores mais pobres buscariam uma redução da desigualdade, da qual teriam consciência, por meio de uma intervenção direta do Estado, evitando movimentos sociais que pudessem desestabilizar a ordem.

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[18] Marx, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Paz e Terra, 1986, p. 116.

TABELA 4 Concordância/discordância com o uso de tropas contra greves por renda familiar mensal, 1990

Fonte: Cultura Política (Consórcio USP/Cedec/Datafolha). Pesquisa realizada com amostra nacional de 2480 eleitores, realizada em março de 1990, conforme André Singer, Ideologia e voto no segundo turno da eleição presidencial de 1989. São Paulo, Dissertação de Mestrado, 1993, p. 71.

TABELA 5 Reconhecimento de que o governo deve intervir mais na economia por autolocalização na escala esquerdadireta, 1993

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