Artigo sobre tipo de ração para cães

Artigo sobre tipo de ração para cães

Ração Equilibrada para Cães

Kyola Sthefanie Camargo¹, Tayná Pires Dobner ²

¹ Graduanda em Medicina Veterinária – IFC

² Graduanda em Medicina Veterinária – IFC

RESUMO - Pretende-se avaliar a influência, em médio prazo, dos tipos de rações encontrados em supermercados sobre a nutrição dos cães domésticos. Os animais serão observados em um período de 30 dias afim de que tipos de rações insuficientes não prejudiquem permanentemente os animais. Os cães vão ser divididos em 3 grupos, contendo cães da raça Golden Retriever, cada grupo com 10 cães. O primeiro grupo será alimentado apenas com ração seca (10 a 15% de umidade), o segundo com ração semi-úmida (22 a 26% de umidade) e o terceiro com ração úmida (contém de 70 a 75% de umidade). Os testes irão avaliar se há diferença significativa nos nutrientes de cada tipo de ração, a quantidade de ração que precisa ser ingerida para se adequar ao mínimo da tabela, se a diferença de preço é significativa, se existe diferença no peso dos animais e sobre a influência da ração na pelagem dos animais, comprovando que a ração seca dentre as três é a que se apresenta melhor nos resultados, perdendo apenas na questão do sabor.

Palavras-chave: Nutrição animal, carnívoros, ração úmida, ração seca e ração semi-úmida.

Introdução

Os animais são classificados de acordo com a sua dieta no estado natural como carnívoros, onívoros e herbívoros. Os cães, assim como os lobos, surgiram pré-históricamente do Tomarctus, predador carnívoro. Assim como seus parentes selvagens, o cão doméstico é fundamentalmente um carnívoro e apresenta um sistema digestivo adaptado a tal: aparelho digestivo curto e com ação digestiva orientada principalmente para a digestão de proteínas e gorduras, comparativamente com fraca digestão de carboidratos complexos, como amido e celulose. Em seu habitat, o cão selvagem tem tendência social e a caça, o que levou seus descendentes a serem adotados pelo homem, originalmente como cão de guarda dos rebanhos e auxiliar de caça, evoluindo daí para o cão doméstico de hoje, que constituí o mais notável exemplo de adaptação de hábitos alimentares novos entre os animais. Entretanto esta é uma adaptação forçada, pois o alimento que recebe não é de sua própria escolha e sim adaptado pelo seu dono, que nem sempre conhece suas necessidades nutricionais, forçando assim uma alimentação a base de cereais e outros vegetais que nem sempre são tratados para permitir a hidrólise do amido e a continuidade do processo digestivo.

Devemos entender o cão como um animal carnívoro, e assim orientar a sua alimentação nesse sentido. Ao enfatizar a condição de carnívoro, não significa que sua alimentação deva ser à base de carne, mas sim, que deve ser adaptada às condições físicas e químicas de seu aparelho digestivo. Os cães constituem entre as espécies animais aquela que apresenta maior variação do peso adulto, devido a presença de diversas raças, o que dificulta estabelecer a correta necessidade de nutrientes, que estão correlacionados com a energia e esta por sua vez é estabelecida pelo peso físico do animal, correlacionado com a superfície, resultando o que pode se chamar de peso metabólico, que representa a necessidade inicial a qual se somam aquelas referentes às necessidades energéticas para a homeostasia calórica, a atividade, o crescimento, a reprodução e a produção de leite nas cadelas em lactação, o que implica necessariamente a separação de fases, correspondendo cada uma a suas necessidades nutricionais próprias. A alimentação dos cães está estreitamente relacionada com a evolução da situação socioeconômica da população que os abriga. Muitos são alimentados com restos de refeições e estão consequentemente sujeitos a possíveis carências nutricionais. Porém, nos dias de hoje as rações balanceadas possuem menor custo que os alimentos tradicionalmente usados, rações que portam ingredientes adequados ao paladar e sistema digestivo dos cães.

Revisão Bibliográfica

De acordo com as Normas e Padrões de Nutrição e Alimentação Animal, revisão em 2000, o tipo de alimento do cão deve ser uma ração equilibrada que combina diversos nutrientes que se adequem ao seu metabolismo.

Fonte: NORMAS E PADRÕES DE NUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO ANIMAL, ano 2000, pág. 144.

Dentre as rações, existem três tipos que podem ser confeccionadas: ração seca (contendo 10% de umidade), ração semi-úmida (contendo de 22 a 26% de umidade) e a ração úmida (contendo de 70 a 75% de umidade). A ração úmida vem enlatada, é mais saborosa, a ração semi-úmida é fácil de estocar, saborosa e de fácil digestão devido ao fato de ser mole, já a ração seca é a mais dura e de custo mais baixo, porém possui as necessidades nutricionais em maior índice.

Segundo o Inmetro, os parâmetros que tendem a comprometer a qualidade, caso sejam adicionados em excesso, têm limites máximos: Umidade, fibra bruta, cinza e cálcio. Outros, cuja falta poderia acarretar problemas para a saúde dos animais, possuem limites mínimos: proteína bruta, gordura e fósforo. Em ambos os casos, os limites são obrigatórios e devem ser respeitados.

Umidade: excesso de umidade pode favorecer a proliferação de microorganismos nocivos no alimento. Além disso, significa que o consumidor está comprando mais água e menos ração.

Proteína: serve para formar os ossos, músculos, e estruturas nervosas.

Gordura: é a principal fonte de energia, importante para o crescimento e a reprodução.

Fibra bruta: componente necessário à saúde intestinal de cães e gatos. A inclusão de farelos vegetais em excesso pode elevar o nível de fibra bruta além do recomendado. Isso pode comprometer a digestão e absorção de proteínas e minerais, causando desnutrição.

Fonte: Nutrição Animal, volume 2, ano 1983, pág. 366.

Segundo o livro “Nutrição Animal” volume 2, de José Milton Andriguetto a ração diária pode ser dada em uma única refeição para cães adultos, ou preferencialmente dividida em várias refeições. Filhotes devem ter acesso constante a ração, e as fêmeas em lactação ou estado de prenhez devem receber várias refeições por dia. A água, alimento fundamental deve ser fresca, limpa e potável como para as populações humanas.

Objetivos

Comparar os três tipos de rações caninas comerciais a fim de comprovar que a ração seca compensa em relação ao custo benefício. Serão levados em consideração o preço, os nutrientes e a qualidade de vida dos animais.

Materiais e Métodos

Para a realização do projeto foi escolhido como raça padrão o Golden Retriever, pelo fato de ser um animal inteligente, possui natural habilidade para o trabalho, é amável e confiável. Atualmente, ele vem sendo usado como cão-guia para cegos, cão-terapia em hospitais e participante de diversos concursos. Os animais serão separados em 3 grupos, cada grupo com 10 cães de diferente genética (não são parentes próximos), são cães adultos (de 2 a 7 anos) sendo este o nível de manutenção da tabela de necessidades nutricionais dos cães, sendo que cada grupo será alimentado com um tipo de ração durante 30 dias.

Grupo I: ração seca.

Grupo II: ração semi-úmida.

Grupo III: ração úmida.

O primeiro teste a ser testado é se os três tipos de rações contêm a percentagem de nutrientes necessários e se alguma delas apresenta diferença considerável. Para fazer as comparações serão usados apenas alguns dos nutrientes escolhidos devido a sua importância:

Lipídios: Constituem a principal fonte de energia para a dieta dos carnívoros, e são essenciais na absorção das vitaminas lipossolúveis. A deficiência de gordura se traduz principalmente por problemas de pele e pêlo. A dieta dos cães deve conter um mínimo de 5% de gordura por quilograma de ração.

Proteínas: Ao serem ingeridas, vão fornecer ao organismo aminoácidos, que por sua vez vão compor as proteínas que o organismo necessita para proporcionar a síntese de proteínas de substâncias celulares, como as próprias proteínas de constituição, síntese de substâncias necessárias para a manutenção dos processos vitais: tais como enzimas e hormônios, síntese de substâncias fundamentais para a transmissão das características hereditárias, proteção do organismo contra agressões infecciosas, regulação do metabolismo da água e transporte de nutrientes. A deficiência em proteínas conduz o animal a crescimentos insuficiente, desenvolvimento muscular e esquelético imperfeitos e uma resposta imunitária incompleta. A dieta dos cães deve conter um mínimo de 22% de proteína por quilograma de ração.

Vitamina D: A deficiência de vitamina D se traduz em cães jovens por raquistismo, ossos arqueados e dentes irregulares. O excesso de vitamina D pode levar a calcificação dos tecidos moles, excessiva mineralização e deformação dos ossos. A dieta dos cães deve conter um mínimo de 500 U.I/kg de vitamina D.

Cálcio e Fósforo: Representam função na ossificação, incluindo a formação dos dentes. O tecido ósseo também funciona como reserva de cálcio para o organismo, através da manutenção da calcemia, que fornece íons de cálcio para outras funções do organismo, como permeabilidade normal das células, coagulação sanguínea, regulação na contrabilidade muscular e da excitabilidade neuromuscular. O fósforo aflora a ossificação, representa uma função importante nas transferências de energia ligadas ao metabolismo celular, pelos processos de fosforilação. A deficiência desses minerais debilita todas as funções acima. A dieta dos cães deve conter um mínimo de 1,1% de cálcio e 0,9% de fósforo por quilograma de ração ingerida.

O cão Golden Retriever é uma raça de porte grande, o macho pesa entre 29,5 e 33,7 kg, e a fêmea pesa entre 27,5 e 29 kg. A cada 1 kg de ração o cão tem que ingerir 0,22 kg de proteínas, 0,05 kg de gordura 0,011 kg de cálcio e 0,009 kg de fósforo e 500 U.I/kg de vitamina D.

Fonte: NORMAS E PADRÕES DE NUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO ANIMAL, ano 2000, pág. 144.

Levando em consideração que um cão deste porte come em média 500 g de ração por dia, em um período de 30 dias ele terá que ter ingerido em média 3,3 kg de proteínas, 0,75 kg de gordura, 7500 U.I/kg de vitamina D, 0,165 kg de cálcio e 0,135 kg de fósforo.

Para comparar a média de nutrientes dos 3 tipos de rações num período de um mês, será utilizado o teste t de Student.

Grupo I: tratado com ração seca.

Grupo II: tratado com ração semi-úmida.

Grupo III: tratado com ração úmida.

Fonte: NORMAS E PADRÕES DE NUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO ANIMAL, ano 2000, pág. 144.

O segundo teste será aplicado a fim de saber se o tipo de ração influência no peso dos animais, então será usado novamente, o teste t de Student, levando em consideração a quantidade de ração que teria que ser ingerida para suprir as necessidades nutricionais dos cães, afim de que nenhum cão saia prejudicado permanentemente por causa de uma má nutrição.

O terceiro teste é sobre a pelagem do cão, a gordura e entre outros nutrientes, que é um fator que influência diretamente no brilho do pêlo do cão, e sua deficiência pode acarretar em problemas na pele e ofuscamento do brilho dos pêlos. O teste qui-quadrado será utilizado para comprovar que existe relação entre a quantidade de gordura e o brilho da pelagem.

O quarto teste medirá a adaptação dos animais aos diferentes tipos de rações. Nos quatro primeiros dias será feita a verificação da quantidade em quilogramas de cada ração que o animal irá ingerir, para isso será feito uma média aritmética ponderada, segue a fórmula abaixo:

Onde pi é o peso em quilogramas da quantidade de ração que cada cão de cada grupo irá se alimentar.

O último teste levará em consideração o preço de cada ração e a quantidade de ração ingerida por um cão do porte de um Golden Retriever durante um mês, lembrando que a ração úmida custa em média R$4,00 a lata, e um animal deste porte comerá em média 4 latas ou mais por dia para suprir sua necessidade nutricional. Já a ração semi-úmida gira em torno de R$14,00 o quilograma, por fim, a ração seca é a que contém mais variedades: seu custo pode ser de R$5,00 o quilograma até preços exorbitantes para o bolso da grande maioria da população. Será feita a média aritmética aparada, não prevendo as discrepâncias de cães que comem exageradamente e cães que comem pouco de cada ração durante um mês.

Resultados Esperados

O primeiro teste a ser realizado é se os três tipos de rações contêm a percentagem de nutrientes necessários e se alguma delas apresenta diferença considerável. Para fazer as comparações serão usados apenas alguns dos nutrientes escolhidos devido o grau de importância. Com as médias feitas por 30 dias poderá ser notado que a ração úmida em relação a um quilograma de ração seca apresentará um grande déficit de nutrientes em relação às outras. O teste t será realizado para comparar as necessidades nutricionais da tabela e os nutrientes que contém em cada ração, neste caso será usado como comparação de média entre o tabelado pelas “Normas e Padrões de Nutrição e Alimentação Animal” (Revisão 2000), todas as rações estarão abaixo, porém, apenas a ração úmida apresentará diferença significativa, o que comprovará que esta ração está muito abaixo do nível desejado.

No segundo teste, que é baseado no primeiro, firmando o déficit de nutrientes da ração úmida em um quilograma de ração, será utilizado um teste t para cada tipo de ração, contando a quantidade de calorias que cada uma possui. Devido aos padrões de necessidades nutricionais um cão pode ingerir 2.700 cal/kg no nível de manutenção, é o que contém em média as rações secas e semi-úmidas, já as rações úmidas tem quantidades altas de óleos para fazer a conservação e a quantidade ingerida em relação aos nutrientes que se necessita para um cão Golden Retriever, é em média de quatro ou mais latas desta ração, tornando ela muito mais calórica. O teste t foi realizado para ver se alguma das três dietas a quais os cães estão sendo submetidos os faz ganhar peso. Na dieta com ração seca e com ração semi-úmida o cão não comerá muito além do 500 g para suprir a necessidade de nutrientes, o que fará com que o t calculado seja maior que o t tabelado, concluindo-se que nas duas rações não há eficácia em termos de ganho de peso. Já na ração úmida, estipula-se que os animais ganharam peso significante, sendo que o t tabelado será maior, comprovando que há eficácia na dieta em termos de ganho de peso dos animais, comprovando assim que a ração úmida é mais calórica para os animais.

No terceiro teste será levado em consideração apenas o que um quilograma de ração possibilitaria na ingestão, independente se faltariam nutrientes no tratamento da alimentação dos cães. Todos os cães que serão pegos para os testes são animais que apresentam Pedigree®, logo possuem uma genética pré-disposta para terem uma pelagem mais brilhante. Como a ingestão de gordura está relacionada cientificamente com o pêlo do animal, o qui-quadrado calculado será maior que o qui-quadrado tabelado, logo, rejeita-se o Ho, isto seria uma variável que comprovaria que não há associação entre as variáveis e aceita-se Ha, existindo relação entre a quantidade de gordura ingerida. Os animais que são alimentados com ração seca estarão dentro dos padrões de necessidade nutricionais, os animais da ração semi-úmida não fugirão muito deste padrão, porém os animais que consomem ração úmida só pela quantidade de gordura teriam que consumir no mínimo o dobro do que consomem para não haver grande necessidade nutricional de gorduras e não prejudicar o pêlo.

No quarto teste será feita a média aparada, e neste caso será levado em consideração que para os cães alimentados com rações úmidas e rações semi-úmidas o alimento contém um sabor mais atrativo, o que torna a média aparada, principalmente na ração úmida, maior que a média aparada da ração seca. Desconsiderando o fato de haver diferença nutritiva, a ração seca será comprovada como a ração de mais difícil adaptação para os animais, já que será a menos ingerida nos primeiros quatro dias, devido à textura e sabor.

O último teste será feito com média aparada, desprezando os animais discrepantes, nesta média contará a quantidade gasta de cada ração levando em média a quantidade que um cão do porte de um Golden Retriever come, e qual é o preço por quilograma da ração. No total compensará comprar a ração seca que se apresenta com variância de preços, contendo preços inferiores ao que são gastos em outros tipos de rações.

A ração seca só perderá em gosto, sendo mais difícil de adaptação, porém em relação às necessidades nutritivas e preço, que são aspectos muito importantes, ela supera os outros tipos de rações, sendo que o sabor da ração seca ainda varia dependendo da marca que será adquirida pelo dono. Cães que se alimentam de ração seca levam uma vida nutritiva mais saudável e se controlados, dificilmente ganharão peso excessivo, o que pode acontecer com o uso da ração úmida para atender necessidades nutricionais tabeladas.

Referências Bibliográficas

ANDRIGUETTO, José Milton. Nutrição animal, 3ed. São Paulo: Nobel, 1983.

INMETRO. Ração para cães e gatos II. Disponível em: www.inmetro.gov.br/consumidor/produtos/racao2.asp. Acesso em: 28 de junho de 2010.

Fisiologia de Animais Domésticos, William O. Reece [tradução Nelson Penteado Júnior] – São Paulo: Roca, 1996 1ª Edição.

Normas e padrões de nutrição e alimentação animal, revisão 2000. Brasília: MA/SARC/DFPA, 2000.

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