A Violência Adormecida nas Escolas (Bullying) : o professor contribui ou pode despertá-la? (uma perspectiva interdisciplinar)

A Violência Adormecida nas Escolas (Bullying) : o professor contribui ou pode...

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A Violência Adormecida Nas Escolas (Bullying)- O Professor Contribui Ou Pode Despertá-La? (Uma Perspectiva Interdisciplinar)

ALMEIDA, Adriana Ricardo da Mota. Pesquisadora do Grupo Interdisciplinar Poder e Disciplinamento – Podis Mestranda em Educação MEDRADO, Hélio Iveson Passos Prof. Dr. Orientador Uniso- Universidade de Sorocaba

“Bully” que quer dizer brigão, valentão, tirano, exprime atitudes agressivas intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente, causando dor e intimidação em suas “vítimas”. Pode-se aliar a isso a efervecência hormonal e a necessidade de auto-afirmação, fatos típicos da adolescência podendo-se chegar a uma receita explosiva.

Podemos, assim, considerar como bullying: por apelidos, gozar, ofender, humilhar, discriminar, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, socar, ferir, roubar, quebrar etc. Os sintomas dos que sofrem bullying são: resistência ou mal-estar na hora de ir à escola, baixo rendimento escolar, opiniões depreciativas sobre si, baixa auto-estima, roupas e livros danificados, isolamento e depressão, pesadelos e sono instável e, em casos extremos, atentado contra a própria vida. O autor do bullying normalmente está replicando situações que o constrangem ou o fazem sofrer.

Estamos construindo novos paradigmas e, desde já, assinalamos que o termo não foi aportuguesado por não haver similitude sinonímica da cultura brasileira, que traduza tantas ações, conforme apontam autores como Fante, Costantini, Simmons.

Entendemos que a importação terminológica furta a contextualidade da questão e, concomitantemente, assume a suposta patologia. Então, a contextualidade do universo brasileiro é esfacelada, razão pela qual defendemos a apropriação específica para o caso brasileiro, portanto Bullying é concebido como violência adormecida.

Convém salientar que refutamos a importação terminológica e patológica que acompanha esse processo. Saímos em defesa que as importações conceituais centram-se na cosmologia exemplar e o exemplo é marcado por paradigmas disciplinares, axiomática que não permite outras leituras, sobretudo a interdisciplinar. Resultado passa a ser exemplo e modelo a ser seguido.

As formas de abordagens fixam a postura do educador e será que a violência adormecida é de toda ruim , ou os olhares com respectivas abordagens a torna um nefasto a ser pulverizado pela nossa sociedade que, segundo Maffessoli (1987) , dá sinais de padecimento ?

O paradigma maffesoliano aponta a violência como componente que inicia ao invés de terminar. Por esse caminho é razoável pensar que a violência adormecida também inicia ao invés de encerrar.

Já para Olweus, 1983 “(...) o comportamento agressivo entre os estudantes é um problema universal, tradicionalmente admitido como natural e freqüentemente ignorado ou não valorizado pelos adultos.”

Observável que o autor desconsidera as razões reinvidicadoras de mudanças do comportamento escolar que normatizam os comportamentos. Esta homogenização impede o exercício das diferenças e no nosso entender, o bullying, precisa ser compreendido como um

déficits, sejam eles cognitivos, culturais, sociais, econômicos, físicos

comportamento diferenciado. Nesta perspectiva deslocamos a condenação sumária para pontos de estrangulamento antagônico entre disciplinaridade escolar e a inclusão de pessoas que apresentam

Nossa prospecção temática entende que essa suposta “violência” é comumente confundida nas escolas como brincadeiras próprias da idade, levando à banalização da agressão, tida como normal, não considerando suas conseqüências.

Em nossa prática pedagógica percebemos que profissionais da área admitem ser historicamente constituído como “natural”. Examinamos o problema estendido, e nele destacamos outros lugares de manifestações: família, cyberespaço, trabalho, instituição escolar etc.

Quando ocorrem essas manifestações na família, denominamos bullying doméstico, que está relacionado diretamente ao convívio e relações familiares. Ocorre quando os próprios pais ou familiares ironizam, ofendem, expõe as dificuldades perante o grupo, excluem, fazem chantagens, colocam apelidos preconceituosos e têm a intenção de mostrar sua superioridade e poder, usando deste comportamento frequentemente.

O cyberbullying ocorre quando utilizam-se das modernas ferramentas da Internet e de outras tecnologias de informação e comunicação, móveis ou fixas, com o intuito de maltratar, humilhar e constranger. É uma forma de ataque perversa que extrapola em muito os muros da escola, ganhando dimensões incalculáveis.

No ambiente de trabalho, o bullying manifesta-se na face do assédio moral, entre funcionários e líderes por exemplo.

Para Schilling, 2004, “a escola é uma instituição fundamental na história da “ofensiva

É um tema pouco explorado focando nossa realidade e, curiosamente, a violência adormecida não escolha classe ou padrão social. Temos um agravante, que é o contexto das grandes diferenças sócioeconômicas, e o ambiente escolar torna-se um dos palcos de todos os atores envolvidos (alunos, professores, gestores, família etc.). civilizadora da modernidade, sendo também o lugar da superação das desigualdades sociais da construção da democracia e dos direitos humanos.” “...lugar da reprodução das desigualdades sociais, das desigualdades de gênero e raça, da produção da pobreza e da exclusão, e tem assim, sua cota de violências socioeconômicas.

Michaud, 1989, p.13, propõe uma interessante definição para violência: “...há violência quando numa situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais.”

Podemos afirmar a partir deste raciocínio, que não existem violências propriamente ditas mas sim contextos violentos. E Chauí, 1999, contrapõe violência e ética: “A violência se opõe à ética porque trata seres racionais e sensíveis, dotados de linguagem e de liberdade, como se fossem coisas.” É como se os nossos jovens fossem irracionais, sensíveis, mudos, inertes ou passivos. (E muitos dos agredidos permanecem em silêncio). Incorpora como violência, indo além da violência física, a violência psíquica contra alguém.

A violência adormecida, o bullying, caracteriza-se por agressores e agredidos, estes os que mais sofrem conseqüências, e esse acordar (ou não) repentino pode deixar seqüelas para a vida adulta. Existem os alvos, os autores e as testemunhas sendo que estas geralmente não denunciam os autores nem defendem os alvos, ficando muitas vezes do lado do autor, ou neutros.

Há casos relatados em que jovens vítimas chegam às últimas conseqüências, chegando mesmo ao suicídio ou homicídio, conforme Olweus, 1983, Fante, 2005, Constantini, 2004. É um tema de grande relevância para a educação, apesar de não ser um problema generalizado, no sentido de estar ligado diretamente no aprendizado escolar, já que interfere sempre negativamente, causando inúmeros sintomas entre os escolares, e o pior: muitas vezes a escola e a família tratam como sendo uma patologia. Entre eles: mau rendimento escolar, insegurança por estar na escola, evasão, pânico, depressão, perda de memória, anorexia, enurese noturna, cefaléia, desmaios, vômitos, queixas visuais e outros.

Estes sintomas são percebidos e diagnosticados quase sempre pelos próprios pais, que procuram inicialmente a escola, ou procuram por ajuda médica ou psicológica, e como geralmente esses jovens estão na fase pré- adolescente (7 a 12 anos), e adolescente (13 a 16), e passando por importantes transformações evolutivas ou por condições psicológicas particularmente instáveis, emocionais e físicas, faz-se necessária orientação firme e intensa base afetiva (familiar e escolar), que notamos ausência.

As atitudes, que geralmente ocorrem escondidas podem ser explícitas (xingamentos, ofensas, apelidos agressões físicas) e implícitas (exclusão, difamação, “gelar o colega” não permitindo que participe de festinhas, reuniões), e certamente são muito mais danosas e o pior: são subestimadas pelos pais e principalmente pelo professor. Este por sua vez, ajuda com uma parcela muito pequena, pois apesar de estar diretamente ligado aos alunos, passou por uma universidade, concluiu um ou mais cursos acadêmicos, que infelizmente não valorizam o lidar com o afeto e conflitos na escola. Acreditamos na possibilidade de formação interdisciplinar docente, pois este não está preparado para trabalhar a emoção dos seus alunos (muitas vezes nem as suas).

O próprio contexto de certa forma discrimina e desvaloriza o trabalho do professor, pois, conforme Schilling, 2004, “...seriam professores aqueles que não deram certo, que não tiveram outra escolha”. “...carregam em seu ombro a responsabilidade da educação das novas gerações, o futuro da nação e formam uma categoria desprestigiada. Ambigüidades e contradições cercam o imaginário sobre a profissão. O aluno repercute estas ambigüidades e contradições: Qual é o lugar daquele professor? Ele é uma “autoridade”? Em quê? Há provocações, há agressões.”

O professor torna-se de certa forma agredido e tende também a agredir. Este contexto gera na escola um círculo vicioso de agressores e agredidos que termina por impossibilitar a tentativa de negociações dos conflitos causados pelo bullying.

No passado, os professores eram um modelo para os alunos, hoje competem com as novidades do mercado, que muitas vezes acaba sendo mais atrativo, dificultando o entrosamento e respeito do educando para com o docente.

Constantini, 2004, considera que: “(...)eles devem estar atualizados sobre tudo o que acontece na sociedade e no mercado, o que lhe permite relacionar-se com os jovens com o fim de estimulá-los a ter uma perspectiva que permita reflexão crítica e educativa”. Ainda sobre os professores, Fante vai além: “...muitos docentes temem que com estilos educativos mais liberais, possam perder o controle da situação ou necessitem assumir compromissos pessoais nos quais não podem ou não querem se ver implicados. Assim, nessa indecisão, optam por ministrar suas aulas pelo método tradicional de ensino tornando mais um pesadelo que um momento mágico de aprendizagem.”

Transformam suas aulas em meras transmissões de conhecimento. Ensinar vai para além. “...tudo porque esses docentes resistem a mudar sua forma de trabalhar, descuidam de refletir sobre a aula que irão ministrar, cristalizando posicionamentos que os levam quase sempre ao preconceito diante do aluno, cujo comportamento foge aos padrões nos quais ele , inconscientemente estabeleceu: conformismo, imobilidade, passividade, aceitação de métodos pedagógicos antiquados e desmotivadores, num momento em que a realidade que cerca o aluno é tecnologicamente dinâmica quanto às formas de divulgação das informações”.

Temos reproduzido aqui, Foucault, 1999, p.25: “O Estado e suas instituições (principalmente as escolas) são elementos cuja principal tarefa é a de se ocupar na disciplinarização de seus constituintes. Utiliza-se de meios (na maioria das vezes) extremamente violentos e, mesmo que deles não se utilize, utiliza métodos “suaves” de trancar e corrigir, e é sempre do corpo que se trata- do corpo e de suas forças, da utilidade e da docilidade delas, de sua repartição e de sua submissão”

Sistematizando práticas educacionais em escolas do ensino fundamental há dezoito anos , há a constatação de como se dá esse processo contextual violento, principalmente nas salas de aula e como isso se torna um problema bem mais complexo do que estudar os conteúdos propostos que são inerentes ao ambiente escolar, o processo ensino e aprendizagem, e mais ainda quando as atitudes cotidianas do professor contribuem, direta e indiretamente para tal.

Sposito, 2001. p.94 mostra que: “embora os resultados sejam bastante fragmentários, é possivel considerar ques os anos 90 apontam mudanças no padrão da violência observada nas escolas públicas, atingindo não só os atos de vandalismo, que continuam a ocorrer, mas as práticas de agressão interpessoais, sobretudo entre o público estudantil. Dentre estas últimas, as agressões verbais e ameaças são as mais freqüentes”.

Assistimos a alguns filmes sobre o tema (Elephant, 2003, Bang bang, você morreu, 1999,

Tiros em Columbine, 2004)e pudemos identificar, que quanto mais tradicional e disciplinadora a postura do professor diante de seus alunos, mais ocorriam atitudes de bullying, até porque o aluno não podia contar com o apoio deste adulto, possuidor de algo que poderíamos denominar “couraça”, cujo papel era o de transferir conteúdos (!). Geralmente eram jovens com baixa auto estima, tidos como os diferentes do grupo.

De acordo com pesquisas realizadas, o fenômeno bullying está desencadeando uma nova síndrome: SMAR (Síndrome dos Maus Tratos Repetitivos), estimulando a delinqüência juvenil.

É uma questão social e educacional de relações de poder. Uma relação desigual entre iguais. Interfere no cerne da auto estima, e qualquer um com características específicas (timidez, insegurança, diferenças físicas, culturais ou raciais) tornam-se alvos facilmente. Sposito, 2001. p.94 mostra que: “embora os resultados sejam bastante fragmentários, é possivel considerar que os anos 90 apontam mudanças no padrão da violência observada nas escolas públicas, atingindo não só os atos de vandalismo, que continuam a ocorrer, mas as práticas de agressão interpessoais, sobretudo entre o público estudantil. Dentre estas últimas, as agressões verbais e ameaças são as mais freqüentes”.

Portanto, ao investigar, analisar, estudar na escola esses comportamentos entre atores escolares e principalmente a influência docente, nos seus diferentes contextos, considerando agressores e agredidos, em maior ou menor proporção, estamos relevando sua importância social, portanto não faz-se necessário somente desenvolver ações de combate nas escolas, mas em nome das ações educativas e de socialização que comporta, pôr em campo uma verdadeira estratégia preventiva, que envolva principalmente os adultos atores/ educadores, estudantes, pais, numa contínua construção coletiva de contextos educativos e significativos, de uma postura e atitude interdisciplinares.

Para Fazenda, 2006, no Brasil interdisciplinaridade é conceituada para além da simples junção das disciplinas para um mesmo projeto de trabalho docente, é uma questão de postura e valorização dos contextos: “como uma nova atitude ante a questão do conhecimento , de abertura à compreensão de aspectos ocultos do ato de aprender e dos aparentemente expressos...” “...exige profunda imersão no trabalho cotidiano, na prática sob a metáfora do olhar, com cinco princípios que subsidiam uma prática docente interdisciplinar: humildade, coerência, espera, respeito e desapego.”(p. 10).

Atitudes e práticas interdisciplinares pressupõem novos questionamentos, novas buscas, transformação da própria realidade. Implica uma mudança de atitude, que possibilita o conhecimento, por parte do indivíduo, dos limites de seu saber. Interdisciplinaridade deve ser, entendida antes de tudo, como atitude, pautada pelo rompimento com a postura positivista de fragmentação, visando a compreensão mais ampla da realidade. Através desta postura é que ocorre a interação efetiva, sinônimo do interdisciplinar. É uma forma de superação da divisão entre o domínio do pensamento teórico e o da ação informada.

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