Ética e cidadania

Ética e cidadania

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UMC – Universidade de Mogi das Cruzes 1 - Introdução

1.1- Referência bíblica : Lucas 19 – Rico também pode salvar-se

Jesus tinha entrado em Jerico, e estava atravessando a cidade. Havia aí um homem chamado Zaqueu: era chefe dos cobradores de impostos, e muito rico. Zaqueu desejava ver quem era Jesus, mas não o conseguia, por causa da ultidão, pois ele era muito baixo. Então correu na frente, e subiu numa figueira para ver, pois Jesus devia passar por aí. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima, e disse: “Desça depressa, Zaqueu, poruqe hoje preciso ficar em sua casa.” Ele desceu rapidamente, e recebeu Jesus com alegria. Vendo isso, todos começaram a criticar dizendo: “ele foi se hospedar na casa de um pecador!” Zaqueu ficou de pé e disse ao Senhor: “A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres; e, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais.” Jesus lhe disse: “ Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. De fato, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.”

Zaqueu era considerado a época de Cristo como um homem sem ética, já que na sua profissão fazia coisas que iam completamente contraditórias a todo conceito ético. Zaqueu como muitas pessoas que tem poderes políticos e econômicos; ou ocupam cargos altos em empresas ou sociedades não se importam com as outras pessoas que estão num nível abaixo e, além disso, fazem o favor de piorar a situação criando meios de tirar o pouco de dinheiro e dignidade com leis absurdas, taxas de impostos, encargos, preconceitos pela situação financeira, entre outros. Essas pessoas que usam seu poder sem ética causam nas pessoas um ódio que é transformado em desprezo sendo assim excluídas de uma parcela da sociedade podem ser bem aceitos pelo seu dinheiro porem não são aceitas como pessoas, porque ninguém quer pessoas sem ética para ficar ser seu amigo. Mas na maioria das vezes pessoas sem ética não se importam com os outros, como exemplo disse Zaqueu que não se importava que estava fazendo mal aos seus irmãos e a sua nação roubando os impostos, ele só mudou seus atos porque conheceu a Jesus. Ao mudar suas atitudes Zaqueu causou um impacto a sua nação pois pode mudar a vida de muitos cidadãos judeus e assim foi aceito na sua sociedade como um homem integro.

É necessário formamos uma comunidade ética, pois o homem, como qualquer outro ser, busca sua própria perfeição, como requisito da sua própria natureza. É verdade que os valores da ação humana estão inscrito na própria essência do homem (SEVERINO, 1997).

Grandes transformações ocorreram no ciclo histórico da humanidade desde a experiência filosófica e democrática vivida pelos gregos antigos, quando instauraram a razão, desmitificando preconceitos e mitos, e quando derrotaram tiranias, instando o cidadão no poder, há dois mil e quinhentos anos atrás.

O mundo conheceu o poder monárquico fundado em heranças “divinas”, que usurparam o poder do cidadão; surgiram novas descobertas filosóficas, científicas e invasões territoriais em

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UMC – Universidade de Mogi das Cruzes nome da civilização, transportando modos distintos e diferenciados de viver; veio a derrocada das monarquias e impérios, fato que conclamou os indivíduos à uma nova postura ante os assuntos políticos.

Emergiu, ainda, uma era de revoluções e guerras: a Revolução Francesa, a Inglesa, a

Americana, o Manifesto Comunista, o Nazismo, o Fascismo, a Guerra Espanhola, as I e I Grandes Guerras Mundiais, e mais recentemente, as duas Guerras do Golfo e outros tantos conflitos nacionais e internacionais que encandeceram e continuam a encandecer as consciências dos povos.

E hoje, com o advento de novas técnicas, tecnologias e processos mais agressivos de globalização, as mudanças ocorrem de forma muito mais complexa, acelerada e de modo escamoteado e camuflado que exige uma atitude crítica apurada.

Portanto, falar sobre ética e cidadania é ter em mente todo esse elenco de fatos e acontecimentos. No entanto, os eventos e fenômenos humanos estão sujeitos às interpretações as mais distintas e diferenciadas quanto às visões sócio-econômica-política e cultural. Inclusive, o próprio ser humano, dada a sua complexidade, continua um ilustre desconhecido. Além disso, os fatos não se apresentam verdadeiramente reais simplesmente porque alguém se propõe a tecer novas interpretações e descobertas. Pois, por detrás de cada discurso emerge um tipo de ideologia na hermenêutica utilizada. É o olhar do sujeito que se põe sobre o objeto dada a sua cultura, a sua estrutura mental e a sua postura valorativa. Uma vez que ninguém age de forma desinteressada.

Discorrer sobre ética e cidadania é, também, correr o risco de repetir o que já foi dito por alguém que tenha passado por essa senda, porque o conhecimento está disperso nos diversos saberes, seja da academia, da arte ou da escola da vida; é, sobretudo, estar numa corda bamba entre a percepção da falta de cidadania nas gentes, que foi e é causa dos mais desgraçosos horrores; e a apologia de sua prática, a qual trouxe mudanças significativas, quando foi assumida com ardorosa sedução.

Falar de ética e cidadania não é tarefa fácil, porque pode-se resvalar num discurso repleto de ufanismo, pensando que pelo simples fato de deter o conhecimento e do consenso sobre a necessidade da ética e da cidadania, possa por si só alcançar grandes transformações e trazer novas esperanças para a humanidade; ou, ao contrário, pode-se trilhar um caminho carregado de desesperança e resignação ante o poder político e econômico. Principalmente, devido ao encabrestamento dos povos à lógica de mercado.

Nada melhor do que discorrer sobre ética e cidadania, tendo por suporte a ciência filosófica.

Não só porque é a filosofia que há milênios pensa a virtude como necessidade humana e o homem como um “animal político”, mas porque ela faz a reflexão da ética e do sujeito ético. Todavia, não se pode perder de vista a diversidade social e cultural no mundo globalizado, seja quanto à produção ou ao consumo, seja quanto aos governos ou aos regimes. Assim, este sucinto texto intenta identificar e refletir sobre os discursos éticos e as idéias valorativos para buscar a compreensão das implicações de uma cidadania não só local, mas planetária; pensando na fundação do sujeito ético.

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1.2 - Ética

A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta. Tradicionalmente ela é entendida como uma reflexão, científica ou filosófica, e eventualmente até teológica sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme aos costumes considerados corretos. A ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento.

Etimologicamente a palavra ética (ethos) é uma transliteração de dois vocábulos gregos: ηθοζ (ethos) que significa morada do homem, morada do animal: covil, caverna, ηθοζ que dá o sentido de abrigo protetor, o homem encontra um estilo de vida e de ação no espaço do mundo. Acostuma-se com sua morada. Daí vem o costume, mas esta morada é passível de perfectilidade, de aperfeiçoamento.

O outro vocábulo εθοζ (ethos), significa comportamento que resulta de um repetir os mesmo atos – uma constante que manifesta o costume, o ato do indivíduo – tem-se aí o hábito. Tanto costume, quanto hábito são construídos.

Estes dois vocábulos levam-nos a perceber que o espaço ético humano instaura-se no reino da contingência (isto é, naquilo possível, naquilo que pode ser necessário, ou naquilo livre e imprevisível, porque dá-se dentro de possibilidades e probabilidades); enquanto que, a natureza está no domínio da necessidade, porque ela é necessidade dada, sempre a sucessão do mesmo.

O mundo do ethos, da ética, começa a surgir, no mundo antigo, segundo o modelo do cosmos ou da ordem da natureza (modelo do cosmos = cosmocêntrico). Esta ética inicial concebida no modelo cósmico presidiu os primeiros ensaios pré-socráticos de uma ciência do ethos.

Heráclito é o primeiro a fundamentar a unidade do logos à ordem do mundo e a conduta da vida humana. O ethos verdadeiro, o modo de vida verdadeiro, deixa de ser a expressão do consenso ou da opinião da multidão e passa a ser o que está de acordo com a razão. O ethos dá-se como logos (razão) e não como dóxa (opinião).

No entanto, Sócrates é que vai ser o grande iniciador da ética. Ele concebe a virtude como fundamento. Não interessa apenas cumprir a lei, mas saber qual o sentido da lei. É uma tentativa de formulação da racionalidade da conduta.

Isto só foi possível, porque os gregos antigos instauraram a razão. Instaurar a razão significa dar sentido às coisas, isto é, explicar o porque às coisas.

O homem antigo se satisfazia com as respostas dadas pelo mito, ele não questionava. Porque o mito dizia a verdade dos deuses. O mito mandava agir de acordo com a lei divina, inquestionável.

Num dado momento, o homem começa a questionar a lei e as respostas dadas pelo mito. Dáse, assim, a grosso modo, o aparecimento da filosofia. Uma dessas primeiras questões levantadas pelo homem grego foi: o que é o mundo, do quê ele é feito?

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Quando os gregos buscam uma resposta na razão do próprio homem, eles superam o mito.

Isto dá-se, porque a lógica mítica já não satisfaz mais. Surge, naquele momento, um novo modo de vida. Surgem respostas que vão gerando novas perguntas. Há uma procura pelo saber. Nisto, o homem busca educar-se e educar os outros pela razão, não mais pelo mito, pois suas respostas perderam o sentido para os homens.

Aparece, então, o filósofo. Ele é definido como aquele que concretiza o saber. Mais precisamente, o filósofo concretiza as virtudes - virtude é definida como o bem moral - intelectuais, porque elas dão sentido às coisas. É o advento de um novo modo de vida, em que a cultura passa a ser julgada pela razão, pois as coisas começam a ser explicitadas e fundamentadas pelo próprio homem. Tarefa própria do filósofo.

O filósofo, então, ocupa-se do conhecimento – das virtudes intelectuais -; enquanto o não filósofo, o homem da prática, do fazer tem a necessidade de concretizar as virtudes morais. E, uma das virtudes mais fundamentais para os gregos antigos, era a prudência.

Para o filósofo Aristóteles, a prudência tem a ver com as coisas humanas e com aquelas que se referem à deliberação, isto é, à escolha. Pois deliberar é considerar as alternativas possíveis que uma certa situação oferece à escolha.

Por exemplo, ao político não cabe perguntar-se se quer ou não instituir (elaborar) uma boa legislação, porque isto é necessário e o fim do político. O que o político deve fazer é examinar como e por quais meios ele poderá atingir a boa legislação.

De acordo com Aristóteles, a prudência e a política têm a mesma disposição: legislativa e normativa. E o vínculo entre a prudência e a política - doutrina do direito e do moral; teoria do Estado; a arte de governo; o estudo do comportamento intersubjetivos -; é constituído pela subordinação dos bens individuais ao bem comum e pela capacidade de moderar, legislar e escolher corretamente. Aí, surge a virtude moral.

A virtude moral vai dizer respeito diretamente à lei: a justiça. Justiça em dois sentidos: l – a conformidade a uma conduta ou a uma norma - julga o comportamento humano. 2 - a eficiência de uma norma que busca tornar possível a relação entre os homens - julga as normas que regulam o próprio comportamento.

As leis se referem ao bem da comunidade política e são justas as ações que tendem a produzir e a conservar a felicidade dessa comunidade. Assim entendida, a justiça é a virtude completa ou inteira, pois quem a possui é capaz de usá-la para consigo mesmo e para com os outros.

Sócrates já dizia que ouvia uma voz dentro de si dizendo o que era certo. E para o filósofo grego, quem sabe o que é bom acaba fazendo o que é certo: o bem. E se alguém faz o que é certo transforma-se num homem de verdade. Torna-se, além disso, exemplar, paradigma. Dizia mais: se agimos erroneamente é porque não sabemos como fazer melhor.

Então, “justo é o que é conforme a lei e respeita a eqüidade; o injusto é o que viola a lei e a falta à eqüidade”. (Ética a Nicômaco) Platão idealiza uma equação de justiça, ao formular a ação humana como algo que se

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UMC – Universidade de Mogi das Cruzes pretende racional. Ele busca na medicina um referência analógica privilegiada para a ciência do ethos, porque ela – a medicina - alcançara na Grécia desenvolvimento e prestígio.

Platão apresenta, então, uma analogia ou uma proporção entre a justiça e a medicina, isto é, entre a ciência do bem estar do corpo (medicina) e a ciência do bem estar da alma (ética).

Prudência e justiça nos encaminham da ética para a política, mas além disso, preparam a compreensão da mais alta virtude moral para os gregos, que é a amizade. A amizade é também, a mais alta virtude política.

Amizade é o que há de mais necessário para viver. Por isto, Aristóteles afirma que ela é indispensável à vida: “Sem amigos, a vida não vale a pena ser vivida”, escreveu Aristóteles.

O estagirita dizia mais: temos que admitir que a amizade é condição e não conseqüência da vida virtuosa. Na verdade, a amizade é uma virtude, é uma condição da vida virtuosa e é, também, conseqüência da vida virtuosa. Os amigos formam uma unidade mais completa e mais perfeita do que os indivíduos isolados, e pela ajuda recíproca e desinteressada, fazem com que cada um seja mais autônomo e mais independente do que se estivesse só.

Mas, é a política que orienta a ética, a conduta – pois o homem só é verdadeiramente autônomo na pólis. Somente a cidade diz o que deve ser produzido para o bem de cada um e de todos.

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