Hsiou, 2007 - Pleistoceno Aves e Repteis

Hsiou, 2007 - Pleistoceno Aves e Repteis

ULBRA – CANOAS, RS 20-2 DE JUNHO DE 2007

Secção de Paleontologia, Museu de Ciências Naturais, Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, Av. Salvador França, 1427, cep: 90690-0, Jardim Botânico, Porto Alegre, RS, Brasil, anniehsiou@gmail.com

O registro fóssil de répteis e aves no Pleistoceno do Estado do Rio Grande Sul (RS) é escasso e pouco conhecido, sendo que as ocorrências estão restritas em sua grande maioria nas regiões oeste e costeira do estado. A fauna fóssil de répteis e aves é relativamente diversa no Arroio Touro Passo (Município de Uruguaiana, extremo oeste do RS [Formação Touro Passo - datado com idades entre 42.0 e 6.0 anos AP, Milder, 20]), apresentando restos fósseis de Testudines, Squamata e Ciconiiformes. Os Testudines apresentam os registros mais expressivos, que inclui restos de cascos e fragmentos pós-cranianos de Criptodira, que foram atribuídos à espécie recente Trachemys dorbigni (Emydidae) e para um Testudinidae indeterminado (Bombin, 1976; Maciel et al., 1996). Os Pleurodira foram identificados para a família Chelidae, representados por fragmentos fósseis referidos a espécie recente Hydromedusa tectifera. Os Squamata são registrados apenas por alguns poucos fragmentos de crânio, mandíbula e restos pós-cranianos de um único exemplar atribuído a um lagarto Teiidae, pertencendo ao gênero atual Tupinambis. Embora seja maior e se distinga de todas as espécies conhecidas do gênero, é até agora, o primeiro achado de Squamata fóssil para o estado (Hsiou, 2006). Apenas um único registro de ave foi reportado para o Arroio Touro Passo, representado por um fragmento de tarsometarso de um Ciconiiformes indeterminado (Ribeiro et al., 1995). Provavelmente este espécime possa pertencer à família Ciconiidae, por apresentar morfologia da perna muito similar ao da espécie atual Mycteria americana (Ribeiro comunicação pessoal). Para o Arroio Quaraí (Município de Quaraí, extremo oeste do RS [datado entre 3.0 a 1.0 AP, Miller, 1987]), também foram identificados restos de Phrynops cf. P. hilarii (Chelidae) e Geochelone (Testudinidae) (Maciel et al., 1996). Os fósseis de répteis e aves encontrados na Planície Costeira do Rio Grande do Sul (PCRS), estão associados a Sistema Laguna-Barreira I, mais especificamente a Laguna I (com idade de cerca de 120 Ka Buchmann, 2002), sendo encontrados na atual linha de praia. Fósseis de Testudines foram encontrados nas localidades Balneário Hermenegildo, "Concheiros", Farol da Conceição e Lagoa do Peixe, que foram referidos aos Testudinidae (Geochelone) (Maciel et al., 1996) e outros fragmentos representados pelas famílias Chelidae (Phrynops hilarii), Emydidae (Trachemys dorbigny.) e Chelonidae (Caretta caretta) (Buchmann comunicação pessoal). Recentemente, procedente do Balneário Hermenegildo (Município de Santa Vitória do Palmar), um fragmento incompleto de pré-maxila esquerda foi atribuído à família Alligatoridae. Embora único e incompleto, a comparação com os espécimes recentes permitiu a sua designação para o gênero Caiman (Hsiou & Ferigolo, 2006). Também foram encontrados fósseis de aves na PCRS (porção sul do estuário da Laguna dos Patos, região dos "Concheiros", proximidades do Farol Sarita e Balneário Cassino), constituídos por fragmentos pós-cranianos, atribuídos a ordem de aves marinhas Procellariiformes da espécie Thalassarche melanophrys (Lopes et al., 2006). Em relação aos materiais de Testudines (que são relativamente mais numerosos), existem registros ainda indeterminados para algumas localidades pleistocênicas dos municípios de Alegrete, Caçapava do Sul e Pântano Grande (Oliveira, 1995; Maciel et al., 1996, Scherer & Da Rosa, 2003). Entretanto, apenas a localidade Sanga da Cruz (Alegrete) apresenta datação (1.740±600, 13.880±800 e 14.830±750 anos AP, MILDER, 2000). Atulmente os gêneros Hydromedusa, Trachemys, Phrynops e Caretta no RS. Muito embora alguns considerem a presença de Geochelone carbonaria para o Pleistoceno do RS (Maciel et al., 1995), hoje esta espécie não é reportada para o RS, sendo registrada para a região sudoeste, sudeste, centroeste, e nordeste do Brasil, mas também presente em algumas regiões ao leste da Amazônia. Esta espécie na América do Sul estaria associada à vegetação tipo savana ou sendo também encontrada em áreas adjacentes de floresta (Pritchard & Trebbau, 1984). Segundo alguns autores (Maciel et al., 1996; Oliveira, 1999) isso sugere a hipótese de que no Pleistoceno a presença de Geochelone indicaria um inverno menos rigoroso que o atual. Segundo Oliveira (1999) a associação de Tupinambis, a ave atribuída à ordem Ciconiiformes e de alguns mamíferos (capivaras) na fauna local do Arroio Touro Passo, sugeriria um clima quente e úmido no Pleistoceno daquela região. Este dado contrasta, em certa forma, com a presença de

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Testudinidae no Arroio Touro Passo. Ressalta-se que durante o Quaternário estes animais desenvolveram formas gigantescas na América do Sul, várias delas extintas, e que se reduziram em abundância e distribuição por causa de mudanças climáticas (De la Fuente, 1999). A escassez no RS de fósseis de répteis e aves talvez esteja relacionada à falta de coletas sistemáticas e de metodologia adequada (e.g. screen washing), indicando a necessidade de intensificar trabalhos neste sentido. Além do mais, há a possibilidade de ser uma limitação no próprio registro fossilífero, visto que o mesmo é por muitas vezes incompleto. [*Bolsista CNPq/PPGGeociências-UFRGS]

Referências Bibliográficas Bombin, M. 1976. Modelo paleoecológico evolutivo para o Neoquaternário da Região da Campanha-Oeste do Rio Grande do Sul (Brasil) – A Formação Touro Passo, seu conteúdo fossilífero e a pedogênese pós-deposicional. Comunicações do Museu de Ciências da PUCRS, 15:1-90.

Buchmann, F.S.C. 2002. Bioclastos de organismos terrestres e marinhos na praia e plataforma interna do

Rio Grande do Sul: natureza, distribuição, origem e significado geológico. Programa em Pós-Graduação em Geociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Tese de Doutorado, 108p.

De la Fuente, M. S. 1999. A review of the Pleistocene reptiles of Argentina: Taxonomic and palaeoenvironmental considerations. In: J. Rabassa & M. Salemme (eds.) Quaternary of South America and Antarctic Peninsula, A.A. Balkema Publishers, p. 109-136.

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Lopes, R.P.; Brião, C. & Buchmann, F.S.C. 2006. Primeiro registro de fósseis pleistocênicos de aves marinhas na Planície Costeira do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Boletim da Sociedade Brasileira de Paleontologia, 53:45.

Maciel, L.; Ribeiro, A.M. & Sedor, F. 1996. Considerações sobre quelônios fósseis do Quaternário do Rio

Grande do Sul, Brasil. Ameghiniana, 3(4):467.

Milder, S.E.S. 2000. Arqueologia do Sudeste do Rio Grande do Sul: Uma perspectiva Geoarqueológica.

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Miller, E.T. 1987. Pesquisas arqueológicas paleoindígenas no Brasil Ocidenta. Estudos Atacameños, 8:37- 61.

Oliveira, E.V.1995. Vertebrados do Quaternário do Município de Caçapava do Sul, Estado do Rio Grande do

Sul. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PALEONTOLOGIA, 14, 1995. Atas,Uberaba, p.102.

Oliveira, E.V. 1999. Quaternary vertebrates and climates from southern Brazil. In: J. Rabassa & M. Salemme (eds.) Quaternary of South America and Antarctic Peninsula, A.A. Balkema Publishers, p. 61-73.

Pritchard, P.C.H. & Trebbau, P. 1984. The turtles of Venezuela. Contributions to Herpetology Number 2,

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Ribeiro, A.M.; Alvarenga, H.M. & Rosenau, M. 1995. Primeiro registro de ave fóssil para a Formação Touro

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Scherer, C.S. & Da Rosa, A.A.S. 2003. Um eqüídeo fóssil do Pleistoceno de Alegrete, RS, Brasil. Pesquisas em Geociências, 30(2):3-38.

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