Linguagem corporal: negociando com o nefasto em Sorocaba

Linguagem corporal: negociando com o nefasto em Sorocaba

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UNAMA – Universidade da Amazônia

Bernardete Stecca Moreira * Hélio Iveson Passos Medrado **

Resumo: Estudo sobre as linguagens do corpo que interferem na melhoria da qualidade de vida. Partimos do pressuposto que a manifestação corporal nas quadras escolares sorocabanas negocia com as ações de violência nas escolas. Objetivamente, construímos ações fundadas no Esporte, na Yoga e na Caminhada possibilitando negociar com os atores – agressores e agredidos que produzem o nefasto escolar. São ações de integralização do corpo e que rompem com a fragmentação do conhecimento. A pesquisa pauta-se por investigações interdisciplinares realizadas na França e em Campinas que apontam ações negociadas e, segundo Tocqueville, fazem parte de qualquer organização social.

Palavras-chave: violência, negociação, instituição escolar, linguagem corporal, interdisciplinaridade.

O corpo fala, portanto, não se cala. Amordaçado ele se degenera, endurece, apodrece, amolece e cai. Morto não exprime nem sua existência nem sua organização do pensamento. E se pensar só existe na natureza viva, e se o corpo necessita exprimir a existência total, então, ele precisa bordar o vermelho da representação do que é vivo. Vivo é tudo aquilo que se move e necessita de liberdade. Esta não pode ser subtraída da existência total, ela é contra a fragmentação. A linguagem corporal é a expressão que constrói a liberdade da existência do ser que não pode ser fracionado. Seguramente é interdisciplinar, nela não há espaço segmentado, só há lugar para o sentido integral e encarnado da fundação entre o espírito e sua existência.

Assim, corpo e espírito se pretendem na linguagem. As agressões subtraem sua vitalidade e seu enclausuramento destrói sua encarnação perpétua, a qual deixa de ser livre. Usar da linguagem corporal é portar vida contra agressões contextuais das sociedades contemporâneas. Negociar com a vida é elaborar a morbidez que endurece o

* Profª. Ms. Universidade de Sorocaba ** Prof. Dr. Universidade de Sorocaba

UNAMA – Universidade da Amazônia pensamento e priva-nos da habilidade para desvendar motivos não aparentes e imbricados no cotidiano social urbano.

Problematizamos em nosso cerco epistemológico os impactos do endurecimento de regras que atingem o corpo escolar, gerando agressões, violências, depredações e outras reações nefastas que professores, alunos, funcionários e diretores não conseguem controlar. Grosso modo, as autoridades políticas, governamentais e hierárquicas da escola encontram saídas repressoras, reforçando regras disciplinares que, geralmente, são tão agressivas quanto as ações que pretendem combater, ações que consideramos nefastas. Cada vez mais se arranha a liberdade da representação do corpo bem como sua integralidade. E o que é pior, essas regras geram uma atmosfera de violências múltiplas, as escolas sofrem e o urbano padece. Desorientados, jovens da cidade de Sorocaba passam a ser as vítimas preferenciais.

Curiosamente, seu corpo deixa de ser duvidoso, ao contrário, é tenso. Então, como subtrair a tensão dessa evidência, ou ainda; de que maneira a Educação Física contribui para questão e qual seria o papel da Yoga1 durante as negociações contra a separação entre o espírito e o físico, símbolo e representação do que não é abstrato?

O bem-estar físico e mental da pessoa necessita do espaço concreto da geografia escolar e as quadras esportivas se traduzem em possibilidades reais.

As quadras esportivas oferecem alternativas para a integração entre a escola e a comunidade. Visão esta evidenciada por intermédio das pesquisas realizadas durante estudos comparativos entre a realidade de Paris-França e de Campinas-SP, onde se conclui que o uso das quadras desportivas revela-se em ações negociadas, diminuindo a incidência de agressões e violências e estimulando a comunidade local a participar da vida escolar. A comunidade aproxima-se da escola e compreende mais facilmente se tratar de um patrimônio que também lhe diz respeito. Alternativas interdisciplinares de intervenções concretas, pautadas em ações em que a Yoga e a Educação Física estabelecem equilíbrios entre o corpo e o espírito. Ações de domínio dos educadores e

1 Existe diferença no emprego da terminologia Yoga. Há autores que empregam A yoga outros O yoga.

UNAMA – Universidade da Amazônia destinadas a negociar com a violência nefasta. São ações preventivas de interesse das partes envolvidas, isto é: educadores, educandos e moradores próximos das escolas. O Esporte, a Yoga e a Caminhada são ações preventivas que negociam com os atores protagonistas das agressões contra as instituições escolares. Momentos privilegiados que exigem dos educadores olhares que contemplem a interdisciplinaridade no lugar da disciplinaridade que favorece a ruptura do conhecimento. As referidas ações suscitam a compreensão integral do corpo, rompendo com as sucessivas abordagens fragmentadas que impedem a prevenção de violências.

O esporte permite um “afastamento” da vida corrente, estimula criar novas formas de viver, mais aperfeiçoadas, mais justas, mais bonitas. Satisfaz à necessidade da fantasia, da utopia, da justiça, da estética, mas também o gosto pelo inesperado, pelo imprevisível, e à busca da dificuldade gratuita a fim de vencê-la.

Destacamos as atividades esportivas oferecidas para a comunidade escolar e as orientações para participação dos festivais: Futsal; Basquete; Voleibol.

Objetivo: promover um intercâmbio esportivo e social entre os alunos bem como contribuir para a melhoria da qualidade das atividades desportivas.

A organização disciplinar limita-se ao entendimento entre os participantes.

Especificamente, podemos conceituá-la como definição das regras para realização das atividades desportivas. Compreendida como acordo entre as equipes, seguramente, teremos uma diminuição da tensão gerada pela competitividade entre os participantes. Sem grandes tensões competitivas, reduzimos as agressões pontuais dos corpos que se esbarram e geram conflitos durante a disputa nas respectivas quadras desportivas. A arbitragem pode, também, gerar dúvidas que se degeneram em conflitos. Espera-se que esses recursos tenham multiplicadores entre professores, alunos, funcionários e, fundamentalmente, moradores, diminuindo a violência que circula entre o bairro e a escola.

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O que é Yoga?

Se procurarmos o significado da palavra yoga, encontraremos inúmeras definições. “Yoga” vem do sânscrito, significa a união do eu individual com o supremo Si Mesmo, junção e integração. Corpo, mente e espírito, unido através da yoga, direciona o ser humano para a auto-realização. Yoga é o caminho prático e natural para a integração e harmonia da nossa essência interior com o mundo exterior e com o próprio Universo.

Para George Feuerstein (1998.p.36), “O yoga, portanto, é a tecnologia do êxtase, da autotranscendência, (...) o modo de interpretação e os meios de realização desse estado extático variam de escola para escola”.

IYENGAR, S.,(2001) afirma “Yoga significa união. A união do indivíduo com o

Espírito Universal é Yoga”. E os ensinamentos em escolas passados por transmissão oral, de mestre para discípulo.

Yoga não pode ser aprendida apenas na teoria, faz-se necessário sua prática para a sua transformação. Yoga nos conduz para um interior calmo, simbolicamente penetrando neste espaço interior, indo ao encontro do “Eu Interior”.

A mente pode divagar; no entanto, a respiração só tem um percurso: inspiração e expiração. Controlar a respiração e observar seus ritmos poderá manter a mente calma, livre de outros pensamentos, a respiração e a mente estão ligadas e, ao controlarmos a mente, tranqüilizaremos a respiração.

Yoga, um sistema teórico-filosófico que conduz a um estado de hiperconsciência, significa tanto um método quanto um resultado a ser atingido. Os vários sistemas de yoga diferem apenas no ponto de partida. A sua essência e finalidade são sempre as mesmas: o perfeito conhecimento de si próprio, através de uma autodisciplina incondicional. O trabalho que desenvolveremos é o da busca de saúde perfeita, que se denomina Hatha-Yoga.

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Propomos atividades de yoga para proporcionar a melhora de uma doença psíquica ou física, como forma de minimizar defeitos alheios, como uma possibilidade de o sujeito participar do meio social, de buscar autoconhecimento, auto-equilíbrio, convivência social ou com o meio ambiente em que vive. A yoga é uma atividade física que provoca uma adaptação do organismo internamente, ao contrário da educação física tradicional que atua como esculturação (de fora para dentro).

Através de exercícios (ásanas), a capacidade respiratória é aumentada melhorando assim os sistemas cardiovasculares e cerebrais, provocando a normalização gradativa da pressão sangüínea e o fortalecimento do sistema imunológico. Mas, como se manifesta a yoga na cultura ocidental?

A yoga tem sido incorporada pela cultura ocidental em diferentes dimensões.

Em alguns momentos esta incorporação implica na perda de suas características fundamentais, transformando-a em técnica de desenvolvimento corporal. Podemos pensar que a yoga tem sido, nas diversas dimensões da vida ocidental, utilizada para buscar uma religiosidade mística. E como a yoga veio para o ocidente?

A crise da ocidentalidade obriga o indivíduo vasculhar novas práticas corporais, medicinas alternativas, alimentação diferenciada, outras religiões que de alguma maneira se apresentem como negativas dos valores nos quais ele se formou.

precisamos aceitar sem questionamento as idéias e práticas do yogase

[...] É claro que não precisamos nos converter a nenhum caminho nem adotarmos uma idéia ou um estilo de vida sem verdadeiramente assimilá-los nas emoções e no intelecto, corremos o risco de levar uma vida falsa. Em outras palavras, sucumbiremos à exterioridade [...] (FEUERSTEIN, 2004, p. 31).

Apesar das diferenças psicológicas entre Ocidente e Oriente, podemos considerar que a humanidade compartilha das mesmas estruturas de consciência, que prefere a forma de pensamento racional em detrimento das metáforas mitológicas. Sendo assim, podemos estar em sintonia com a filosofia da yoga e utilizar seus ensinamentos com intuito de melhoria da qualidade de vida; esse entendimento do

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Oriente com o Ocidente pode se transformar num dos acontecimentos mais importantes do nosso século.

Podemos considerar que o que existe é um ocidente em crise. Em algum lugar está quebrada a racionalidade ocidental. Isto fica evidente em diversos momentos na busca de valores de outras culturas e na mudança de comportamentos. Salientamos referenciais que marcam esta busca por outros valores: a) as gangues, tribos, agrupamentos de jovens que constroem mundos paralelos. b) a busca por terapias naturais, religiões e credos naturais, a expansão do candomblé para sociedade convencional, o espiritismo.

No bojo da incorporação de outras culturas, a yoga especificamente, faz parte de aportes orientalistas, ocorridos nos anos 60/70. CAPRA (1982) procurou romper com os limites e convenções sociais, certificando entre os jovens sentimentos de identidade revolucionária, o mesmo sentiu-se estimulado a estudar e, acima de tudo, vivenciar formas não ocidentais de percepção do mundo para resgatar valores, culturas de povos e etnias consideradas exóticas ao ocidente industrializado. Marcas, deste período da contracultura, encontram-se nos movimentos Hippies, os Beatles, os ecologistas, os pacifistas, e os “não violência”. Outras evidências desse processo são; a recusa das religiões tradicionais, a revolução sexual, o uso das drogas.

Hatha-Yoga desenvolve-se através de seqüência de exercícios, que vão desde o relaxamento, passando pelos exercícios físicos, respiratórios, pelo alongamento, memorização e concentração, atingindo profunda serenidade e libertação, que quando ampliadas, nos levam a uma plenitude do ser. Tais momentos proporcionam um estado de interiorização ao encontro do “Eu”. Tal prática estimula as funções psicomotoras e o desenvolvimento da estrutura psicofísica. Ocasionalmente, sana problemas internos ou externos do corpo, tais como: tensão pré-menstrual, celulite, estrias, desvios de coluna, gastrites, úlceras, colites, dores de cabeça, insônia, ansiedades, desajustes nervosos ou psicológicos e outros.A obtenção desses benefícios advém da prática constante dos ásanas e também da perseverança em modificar os hábitos adquiridos no cotidiano. Novos valores vêm sendo questionados e novas alternativas testadas com o intuito de

UNAMA – Universidade da Amazônia melhoria da qualidade de vida, a diminuição do estresse, a mudança de hábitos alimentares e a inter-relação do homem com o meio ambiente. Pode haver alterações da realidade ultrapassando o limite do visível e da experiência imediata, exigindo a busca de significados não observáveis diretamente.

A consciência psicológica tem caráter seletivo assegurado pelos diversos limiares que impedem o caos, o desmoronamento da estruturada consciência. Cérebro e consciência, produtos e partes da natureza, partes que atuam na transformação da natureza.

“A consciência é interior. Mas ela se forma a partir do exterior, seja material seja social. O caráter social da consciência é fundamental. Pretender que os fatos sociais sejam exteriores à consciência é apenas uma pretensão”, FONTANELLA, (1995)..

Assim, podemos considerar que o ser humano se forma e se transforma, também, de acordo com o meio em que vive. Obviedade remarcada. E, praticar yoga significa do ponto de vista orgânico uma adaptação interna, promovendo a interação corpo-menteespírito, além da melhoria da mobilidade articular e muscular. A Yoga apresenta alternativas concretas que permitem decifrar, interpretar e construir ações negociadas com as agressões nefastas nas escolas.

A caminhada, do ponto de vista orgânico, promove ajustes internos, propiciando a elevação do trabalho funcional e metabólico dos sistemas do corpo humano; e no aspecto mental, ela proporciona ao indivíduo uma aproximação com a natureza existente à sua volta, favorecendo ao mesmo tempo um momento de reflexão sobre aspectos do seu trabalho e de sua vida. A prática da caminhada levará à aproximação entre as pessoas, ampliando o círculo de amizades e interação social, proporcionando aos participantes momentos de afastamento das realidades conflitantes.

Novos valores vêm sendo questionados, novas alternativas testadas com o intuito de melhoria da qualidade de vida, a diminuição do estresse, a mudança de hábitos alimentares e a inter-relação do homem com o meio ambiente. A caminhada por ser prática aeróbica simples e eficiente para o condicionamento físico do ser humano reúne qualidades. As pessoas sem limitações físicas podem caminhar, iniciando com cargas

UNAMA – Universidade da Amazônia leves de trabalho, progredindo lentamente, até atingir a intensidade ideal de treinamento. Seu custo é baixo e permite sua realização em qualquer lugar, na rua, nos parques, na praia, no campo, na área interna dos grandes centros comerciais, etc.

Quanto aos obesos, por terem que carregar o seu peso corporal durante a caminhada, fazem mais esforço do que os magros, portanto, quando um magro está caminhando junto com um obeso, o exercício será mais intenso para a pessoa obesa. É importante que se individualizem as cargas de exercício, respeitando as particularidades de cada um.

Por ser um exercício aeróbico, inicie a caminhada inicialmente por 20 minutos.

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