Graffitis: nem tragédia ... nem fatalidade, apenas desafios

Graffitis: nem tragédia ... nem fatalidade, apenas desafios

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Graffitis: nem tragédia ... nem fatalidade, apenas desafios

Prof. Dr. Hélio Iveson Passos Medrado

Programa de Mestrado em Educação Escolar Universidade de Sorocaba – Uniso

O Brasil não possui tradição em negociar com as ações consideradas nefastas. As políticas públicas e as instituições insistem nas diferentes estratégias de eliminação dos problemas, a « cura » por intermédio da assepsia social, a extirpação pura e simples dos « problemas ». São os corretivos violentos que conhecemos.

Se a violência brasileira é a obviedade complexa, sem diagnósticos simples ou soluções miraculosas, então, vamos construir subsídios para pensála por intermédio de processos de negociação, ao invés de se buscar as formas exterminativas. Paradigma que permite conceber que a violência dos traços e rabiscos metropolitanos possa assumir funções e não ser patológica.

Na patologia social, todo desvio deve ser tratado e corrigido. O rigor deste posicionamento paradigmático negligencia que a violência dos graffitis, como expressão coletiva e individual, possa assumir funções. Sendo funcional, não pode ser considerada patológica e, circunstancialmente, a grafiteira, o grafiteiro poderá ser reinscrito na “normalidade social ». Logo, frases obscenas, contestatórias, provocadoras nas paredes urbanas podem ser passíveis de negociação. A negociação, indiscutivelmente, implica no reconhecimento das forças e dos agentes irradiadores. Nesta concepção, deslocamos o conflito genérico para pontos de estrangulamentos antagônicos, grafiteiros e espaços públicos metropolitanos - indivíduos/sociedade (Tocqueville1).

É esta perspectiva aberta, com variantes complementares, que as instituições brasileiras negligenciam.

Além do que, inexoravelmente, as violências dos grafites não são fatalidades abusivas, concursivas do mundo em transformação, as urbanas não são tragédias evidenciadas nas sociedades imaturas, seriam elas, então, incongruências do "inchamento" da vida em sociedade?

E, se não abrigam fatalidades e tragédias, então qual o seu marco histórico e por que é “incursora” de pânico, medo e insatisfação nas sociedades metropolitanas?

Graffitis

Maffesoli (1987, p.60) discute que os «graffitis que surgiram em Nova

Riscos, rabiscos, contos, desenhos, encontros, manchas, misturas de cores, significados insignificantes, frases obscenas, incrustação sobre tudo que move ou privado de movimento, ocupam mais e mais os espaços verticais que delimitam o espaço metropolitano. Graffitis assim são chamados.

uma fala para nada» « Esse coletivo pode ser desprovido de sentido e não

Iorque em 1972, nos muros, nos ônibus, no metrô podem ser analisados como ter finalidade; ele se manifesta espontaneamente e de uma maneira precária, surge e se perde no anonimato, não é passível de nenhuma interpretação, a não ser aquela que reconhece sua inutilidade ».

Os graffitis (grafites) na Europa e nos E.U.A. possuem distâncias similares, assim, traços comuns aparecem. Comuns: anunciam a agressão geográfica urbana. Nos Estados Unidos das Américas podem sugerir o desejo irreprimível de se romper com a legalidade instituída nos centros metropolitanos. Nos países europeus evidências claras de formação de clãs em busca de identidade cultural. Centros como Paris, Londres, Berlim, exceto Zurique considerada epicentro supostamente neutro, concentram diversidades culturais acentuadas e raros são os grafiteiros que respeitam a licitude governamental.

Zonas e espaços urbanos são destinados a discipliná-los, restringindose as agressões coloridas em uma geografia vertical e horizontal previamente anunciada, afastando as incrustações dos olhares que contemplam a opinião pública e comprometem a coleta de votos, poupa-se o “mundo” socialmente civilizado. Resultado: dissimula-se cada vez mais entre grupos a reivindicação de espaços legítimos.

A capital francesa vem, desde a segunda guerra mundial, acentuando o exercício das diferenças entre culturas étnicas. Trata-se de uma política de interesse coletivo substanciada na tentativa de resolver adequadamente o “problema”, este não evidenciado como tal. Aspas para designar insatisfação, denunciada por conservadores do parlamento francês como o mal estar social, provocado por estrangeiros e imigrantes. Já a esquerda constituída mais próxima da sociologia do cotidiano, do exercício dos diferentes, compreende que, se a violência inicia ao invés de terminar, a manifestação passa a ser o termômetro dos fatos reais do dia a dia de qualquer sociedade em conflito. Neste caso, é inconveniente execrar as funções reivindicativas das ações supostamente nefastas. Marroquinos, argelianos, latino-americanos, africanos, imigrantes residentes com respectivas integridades culturais éticas e de gêneros comprometidas, ou parcialmente respeitadas, são, amiudadamente, acusados pela instabilidade social que gera a violência urbana com traços e rabiscos. Resultado, indiscriminadamente, é denunciado como pichadores e agressores. Temos aí o empobrecimento de análises provocando fossos na questão, seja ela intencional, seja ela política dos fatos sociais. Os “beurres”2 buscam semelhanças e reconhecimento a margem dos grupos culturalmente constituídos e, semelhantes, reúnem-se contra a licitude que desvaloriza as diferenças étnicas e culturais. Então, constatamos que as análises e as políticas de assistência negligenciam a identidade de origem reivindicada. O que é pior: os beurres e estrangeiros são responsabilizados pela onda de violências que assolam o Hexágono3 Silogismo hasteado por alas conservadoras como o Front National e outros partidos conservadores.

Em Sorocaba – SP., Terra Rasgada, as vítimas preferenciais, também, são constituídas de uma população carente e à margem da sociedade. São desempregados, pobres, fracassados, desempregados com dentes cariados, são pardos. Aliás, pardo é considerado categoria, é a indecência que, em sua essência, não define nem pretos nem mulatos3 , tampouco brancos, mas uma condenação sumária com julgamento também sumário de etnias que constrói o urbano sorocabano. São trabalhadores, grosso modo, recrutados para o trabalho sujo urbano. Essa afirmação provoca vivas reações de autoridades da cidade, políticos, representantes de organizações sindicais e patronais, insistem afirmar que, progressivamente, os negros estão cada vez mais participando dos benefícios sociais que a cidade produz, melhorando a qualidade de vida dos discriminados.

Salientamos que “categoria pardo” é intencional, politicamente denegridor, usada por instituições repressivas como júris, tribunais, aparelhos repressivos do Estado, passando inclusive por instituições mais à esquerda como universidades, partidos políticos e centros de excelências em pesquisas, exemplo: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas - IBGE. É inaceitável aproximar a natureza humana com animal posto que pardo, referente a pardus do latim, congrega atribuições adjetivas ao leo e essa conotação define-o como sendo àquele que possui manchas de cor escura que diferenciam o leopardo do leão. Portanto, uma etimologia inaceitável.

Criminalizar o mal estar da sociedade sorocabana, brasileira, é uma opção política, é a concomitância de aproximação entre pobreza, miséria, etnia e violência. Os grafiteiros e os agressores contra a geografia urbana cortam verticalmente o tecido social sorocabano. O problema pode ser ancorado por análises que envolvem o espaço social urbano. A falta de espaços culturais, esportivos, organizacionais e de grupos, impede o exercício das diferenças que os sorocabanos necessitam para a troca de direitos e deveres. O espaço social praticamente inexiste na cidade e não é carência específica de grupos mais ou menos favorecidos. Surge, então, a vontade de se viver irreprimível nas arestas da geografia urbana, quiçá, mutilada4 por uma cidadania banida de ser plena. Referimo-nos à paixão da manifestação coletiva de uma geografia urbana presa ao disciplinamento. Neste caso, não estamos diante do exercício da coletividade, mas de uma organização grupal que exige o direito de espaços urbanos verdadeiramente acordados às diferenças. Uma espécie de desejo tribal cujo clã define a regra da vida em sociedade. Assim, o grafite e a pichação representariam reivindicações ao político e ao social da cidade.

Seriam os clãs interpretáveis em qualquer país e sociedade, ou nulos com existências efêmeras, caem no anonimato sem interpretação concreta ?

O que mais nos interessa na questão é o quadro brasileiro e esse tabuleiro é, sim, passível de análises. No Brasil, o grafite, a pichação, aparece como necessidade do reconhecimento do indivíduo, um simulacro contra a atomização, uma cruzada pela valorização da pessoa capaz de realizar. É, também, a tentativa de opor-se contra o discurso que a normaliza como marginal, incapaz e mutilada5 . Discurso observável em instituições que transitam na legalidade ou que representa os aparelhos normativos do Estado, sobretudo, aqueles subjacentes ao poder judiciário e executivo, como penitenciárias e delegacias.

E a escola, a escola não escapa desse julgo, é comum a denúncia de educadores e diretores contra pichadores e grafiteiros. A leitura preliminar condena o ato que é previsto em lei como destruição do patrimônio público. Condenados antes de julgamento esses atos “despem-se” de qualquer manifestação de natureza política de reivindicações contrárias à ordem instituída. Seguramente, nos atos residem consternações de reações. Por conseguinte, as consternações assumem ações de indignações entre aquelas e aqueles que são mutiladas socialmente. Vítimas passam a ser atores, agridem, incrustam nos muros, nas casas, nas escolas, as diferenças de existência e as potencialidades de pessoas excluídas de uma organização social e econômica que é perversa.

Neste episódio, via legalidade ou transgressão, existe o reconhecimento do espaço evidenciado. Trata-se de uma estratégia com intuito de demarcação do território que faz uso da irracionalidade, semelhante àquela encontrada entre a comunicação do chamariz ou de animais que demarcam seu terreno na época do acasalamento. Curiosamente, Maffesoli (1988) em Temps de Tribus destaca a irracionalidade humana que surge da necessidade de reconhecimento, negado pela sociedade neoliberal ou àquelas a deriva do social e por ele imposto. Não são inúteis, possuem uma razão de ser, ainda que primária ou irracional. Diríamos que as ações são intencionais e perturbadoras, provocam prejuízos morais e comerciais. Rigorosamente, são funcionais. Sendo funcionais elas podem ser interpretadas e, outra vez, não ser inúteis. Seu poder é o da criação, sua criatividade está na espontaneidade, gera surpresa, e, surpreendendo o espaço, as autoridades repressivas não terão prontas armas para combatê-los ou combatê-las, é velado.

Provocadoras, as ações, denunciam a maquiagem de uma organização social que não zela, mas, por todos, vela. É a ordem social pelo avesso que esconde do público o que funciona mal.

Aproximando-se da espontaneidade grafiteira, abrimos sua natureza dinâmica, então, compreendemos parcialmente o porquê do fracasso das estratégias e medidas repressivas que, estáticas, falham, reproduzindo violências durante as ações de combate. Tornam-se inúteis, partem do pressuposto inaceitável de se usar da violência, simbólica ou concreta, no combate à violência da pichação e do grafite. Temos aí duas variáveis que merecem breve reflexão. Examinando as ações grafitais desagregadas de interesses, percebemos que o examinador negligencia seu caráter formativo e reivindicatório. Tratadas como delito, perde-se a noção de totalidade, descaracteriza-se sua globalidade e elas deverão ser reprimidas com os instrumentos eficazes às exterminações. Diametralmente oposto, podemos conceber que o grafite e a pichação solicitam um espaço de legitimidade, isto é, clamam pelo social e uso do espaço urbano. Trata-se do cerco epistemológico fundamental à noção de negociação. Na negociação, estrategicamente, desloca-se o vandalismo, a violência contra o patrimônio, a depredação, a violência física e concreta para pontos de estrangulamento antagônicos entre as instituições e a sociedade (pessoas). Esse passo é fundamental porque transforma os conflitos genéricos para conflitos localizados em bairros e centros urbanos. Funda-se, neste momento, relações de forças e de interesse entre autoridades e os grafiteiros. Despolariza-se a noção de crime, fundea-se as ambigüidades e os conflitos que podem e devem ser negociados. A negociação entre os atores envolvidos é o caminho que suscita o exercício das diferenças com o espaço público, com a geografia urbana que interessa à coletividade conservá-la. Afinal, as sociedades urbanas ainda não são suicidômanas. Variáveis importantes à discussão do problema.

Assim podemos chamar de inútil qualquer ação impregnada de normalização, normalizá-la em regras, a pichação, a depredação, é dar a ela corpo, representação e existência, posto seu caráter dinâmico, fundatório e regenerativo.

Domesticá-lo, o grafite, é uma avaliação equivocada do problema, resposta freqüente entre as autoridades e instituições responsáveis pela repressão.

Grupos ousados buscam circundar a questão oferecendo espaço público delimitado. Uma tentativa de negociação infundada. Supostamente, partem do pressuposto que demarcado o espaço, definindo-se os pichadores e os grafiteiros, seria possível pré-estabelecer uma geografia de agressões e ofensas. Inevitavelmente, se teria iniciado um processo disciplinar com os agressores. Disciplinados seriam mais abordáveis e o “belicoso”, progressivamente, ser reinscrito na normalidade social. Via legalidade, alguns propõem até espaços reservados a prática do grafite, o que é perfeitamente absurdo. O grafite converge naturezas dinâmicas, constrói revelações reivindicadoras, dificilmente pode ser aprisionado. Convém assinalar que existem diferenças conceituais para o grafite, pichação e depredação, porém, para a discussão que encaminhamos os conceitos se aproximam, grosso modo, sinônimos.

Grafites incomodam a sociedade normalizada, incrustam a dúvida portadora da libido, uns pobres outros mais elaborados, alguns se realizam em grupos e outros por indivíduos isolados, cuja organização efêmera revela as origens de seus agentes. Não é anônimo, seu único anonimato reside nas tentativas discretas e obscuras durante sua realização que, irrevogavelmente, portará brutalidade numa construção aberta e transparente, longe de olhares “normatizadores”.

E se todo conflito gera perdas ele, o pichador, o grafiteiro, prefere manter-se incógnito, continuar no obscurantismo, o reconhecimento é sua glória a transgressão seu caminho.

Inconclusos, nem tudo é possível relevar, mas acreditamos ter apresentado o escopo central de uma polêmica que transtorna os centros metropolitanos, discutindo com a questão sem prevaricação, sem aprisionamento ou normalização. E se o poder do grafite é o da criação, seu incômodo é o da reivindicação, perturba a geografia política da cidade, deformando formas e expressões ou, ainda, reescrevendo espaços legítimos ou terras rabiscadas.

Notas

1 TOCQUEVILLE, A. De la Démocratie en Amérique I, 1981, p. 247

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