Eduardo Motta Alves Peixoto CLORO

A seção “Elemento químico” traz informações científicas e tecnológicas sobre as diferentes formas sob as quais os elementos químicos se manifestam na natureza e sua importância na história da humanidade, destacando seu papel no contexto de nosso país.

Eduardo Motta Alves Peixoto (empeixo@attglobal.net), bacharel em Química pela FFCL-USP e doutor pela Universidade de Indiana (EUA), é docente aposentado do Instituto de Química da USP, em São Paulo.

CloroQUÍMICA NOVA NA ESCOLAN° 17, MAIO 2003

Cl ELEMENTO QUÍMICO do latim clorum, verde. Nome dado pela sua cor amarela esverdeada no estado gasoso. Foi preparado pela primeira vez em 1774, por Carl Wilhelm Scheele (1742-1786), fazendo reagir ácido clorídrico com dióxido de manganês. Scheele considerava-o como sendo uma substância composta. Quase 40 anos depois, em 1810, Humphry Davy (1778-1829) mostrou que ele não podia ser decomposto e que o próprio ácido clorídrico era, na verdade, um composto de hidrogênio e cloro. Reconhecendo-o como um novo elemento, deu a ele o nome de cloro. Nas condições ambientes, ele é um gás amarelo esverdeado, tóxico, de forte cheiro, poderoso irritante dos olhos e do sistema respiratório.

Estima-se que seu teor na crosta terrestre é de 0,13 g/kg. Cloro livre já foi encontrado em gases vulcânicos, onde é mais comum sob a forma de HCl. O íon cloreto, Cl–, é o principal íon negativo encontrado nos oceanos (cerca de 19 g/kg). É também encontrado em mares interiores, como o Mar Cáspio e o Mar Morto e, também, no grande Lago Salgado de Utah, EUA. O íon cloreto está presente nos fluidos dos corpos dos animais superiores, inclusive dos seres humanos. Como ácido clorídrico, ele está presente no suco gástrico, onde o pH pode chegar a ser entre 1 e 2. Industrialmente, o cloro é preparado por vários métodos como: eletrólise de uma solução de cloreto de sódio, NaCl; eletrólise de NaCl fundido etc. Um dos seus principais compostos é o sal comum, NaCl. Uma das duas principais fontes industriais deste sal é o sal de rocha, cujas jazidas são mineradas. Em certos casos, extrai-se o sal de rocha dissolvendo-o em água, produzindo uma solução que pode chegar a ter 25% de cloreto de sódio. Mais conhecida dos leigos, porém, é a produção de sal pela simples evaporação da água do mar e posterior purificação por cristalização. Este, porém, corresponde somente a cerca de 10% do sal produzido mundialmente. Assim produzido e parcialmente purificado, é comercializado atualmente como sal grosso, ou sal natural. Este contém sais de magnésio e muitos outros elementos existentes nos oceanos. Em contrapartida, a maior parte do sal usado na alimentação é um cloreto de sódio bastante purificado e depois impurificado com vários aditivos; alguns, porém, benéficos, como iodatos. A maior parte do cloro produzido industrialmente é usado na preparação de derivados clorados, tais como tetracloreto de carbono,

CCl4, usado em extintores de incêndio; outros derivados usados na lavagem a seco; e em compostos para a síntese de plásticos, como

PVC, cloreto de polivinila, teflon®, borracha sintética etc. Direta ou indiretamente, o cloro e seus compostos são usados no tratamento de águas, para branquear papel e tecidos, na extração de titânio etc. Pode-se assim avaliar que o cloro e seus derivados têm enorme importância na nossa vida. A importância deles vai do humanismo à irracionalidade. O cloro foi a primeira substância usada intencionalmente como arma química. O cloro e o cloreto de carbonila,

COCl2, conhecido como fosgênio, foram usados na Primeira Guerra Mundial. O DDT, diclorodifeniltricloroetano, teve um grande papel no controle de pragas e muitas doenças. No entanto, seu uso foi banido, por ser tóxico e de difícil degradação na natureza; hoje em dia, seus resíduos ainda são encontrados em praticamente todos os pontos do nosso planeta. A sua ação trouxe enormes prejuízos ambientais para a flora e a fauna. Os freons®, certos compostos orgânicos contendo cloro e flúor, eram usados como fluidos de refrigeração; entre estes, o diclorodifluormetano, que, apesar da sua grande utilidade, ironicamente, devido à sua grande estabilidade, consegue chegar às altas camadas da atmosfera terrestre e lá participar da destruição da camada de ozônio, causando grandes males à vida no planeta. A necessidade industrial de Na2CO3, para a fabricação de sabões e vidros, deu origem ao processo Leblanc e, conseqüentemente, à indústria de álcalis e cloro.

Dos compostos de cloro, o sal de cozinha é certamente o que tem desempenhado o papel de maior importância socioeconômica. Ainda hoje, em algumas partes da África Central, o sal é um artigo de luxo, disponível apenas para os mais ricos. Onde o povo vive basicamente de leite e carnes cruas ou assadas (isto é, quando o teor de sal é preservado), não há necessidade dele como suplemento alimentar; os nômades, por exemplo, com seus rebanhos de carneiros e bois, não usavam sal na comida. Por outro lado, pessoas que vivem basicamente de cereais, vegetais ou carnes cozidas, necessitam um suplemento de sal (cloreto de sódio). O hábito do uso de sal parece ter estado ligado à passagem da vida nômade para a vida agrícola. Este foi um passo dado pela nossa civilização e que influenciou profundamente os rituais e cultos da maioria das antigas civilizações. Blocos de sal chegaram a ser usados como dinheiro na Etiópia, na África e mesmo no Tibet. No exército romano, os oficiais e os homens recebiam uma certa quantidade de sal; nos tempos imperiais, este salarium (de onde deriva a palavra salário) foi convertido num certo valor em moeda equivalente ao sal antes recebido. No Brasil, ainda hoje, o Rio Grande do Norte é o grande produtor de sal: cerca de 95% da produção nacional. Muito cobiçado por outros países, a história do sal, no Nordeste do Brasil, remonta ao início do século XVI, quando Pero Coelho de Souza registrou as salinas por ele vislumbradas em Amargoso, Guamaré, Macau e Areia Branca. A História do Brasil (1550-1627) registrada por Frei Vicente do Salvador referiu-se às salinas do Nordeste como onde naturalmente se coalha o sal em tanta quantidade que podem carregar grandes embarcações todos os anos, porque assim como se tira um, se coalha e cresce continuamente outro. Na segunda metade do século XVIII, o Rei de Portugal permitiu o consumo do sal indígena apenas dentro das terras potiguares, visto que todo o sal consumido na corte era proveniente da Europa. A exportação do sal do Rio Grande do Norte para as outras capitanias só foi possível a partir de 1808, quando D. João VI publicou a Carta Régia, na qual permitia a extração e o livre comércio dentro do reino, não impedindo, todavia, a importação do sal. A prosperidade só chegou depois da República. Grandes investimentos só começaram a ser feitos com a entrada de capital estrangeiro na década de 60. Hoje em dia, o sal é o maior bem de consumo mineral industrial no mundo. Seu valor e importância industrial cresceram muito a partir de meados do século XIX, com a descoberta do processo Solvay. Os EUA são os maiores produtores, com cerca de 23% da produção mundial, que foi de ~200milhões de toneladas no ano 2000; neste mesmo ano, o Brasil produziu cerca de 7 milhões de toneladas, colocando-se como o oitavo produtor do mundo. Um excelente resultado, mas que pode ser questionado quando consideramos a enorme extensão do nosso litoral.

Número atômicoZ= 17 Massa molarM= 35,453 g/mol Isótopos naturaisCl (75,53%), Cl(24,47%) Ponto de fusãoT = -103 C Ponto de ebuliçãoT = -34 C

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