Clássicos da sociologia 1

Clássicos da sociologia 1

(Parte 1 de 3)

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FACULDADE METROPOLITANA

DISCIPLINA: SOCIOLOGIA

PROFº ANDRÉ ANDRADE CURSO: DIREITO

5.5. SOCIALISMO -  

Termo que designa, sobretudo a partir do séc. XIX, diferentes doutrinas políticas tais como o socialismo de Marx, de Saint-Simon, de Fourier, de Proudhon, etc. Todas essas doutrinas têm, entretanto, em comum uma proposta de mudança da organização econômica e política da sociedade, visando o interesse geral, contra o interesse de uma ou mais classes privilegiadas, com base nas idéias de igualdade e justiça social.

Distingue-se o socialismo democrático, que prega essas mudanças por via institucional, através de reformas defendidas e realizadas como parte do processo democrático, do socialismo revolucionário, que defende a necessidade de mudanças radicais através de um processo revolucionário de transformação da sociedade.  

5.6 COMUNISMO  

Todo regime político (ou teoria política) fundado na colocação em comum dos bens ou que absorve os indivíduos na coletividade.

Na teoria marxista, o comunismo é sinônimo de marxismo-leninismo, tanto pode designar a doutrina revolucionária visando a emancipação do proletariado pela apropriação coletiva dos meios de produção quanto o regime político-econômico de tipo coletivista no qual a ditadura do proletariado se estabelece pela destruição total da burguesia, pela abolição das classes sociais e pelo desenvolvimento das forças de produção segundo a forma:"a cada um segundo seu trabalho ou a cada um segundo suas obras"(fase do socialismo); numa segunda fase, a realização de uma sociedade da abundância deve levar à supressão total do Estado, segundo a fórmula: "a cada um segundo as suas necessidades".

Esta é a fase do comunismo propriamente dito: "O proletariado se apodera do poder público e, em virtude desse poder, transforma os meios de produção sociais, que escapam das mãos da burguesia, em propriedade pública. Por esse ato, ele libera os meios de produção de sua qualidade anterior de capital e dá ao seu caráter social segundo um plano determinado. Na medida em que desaparece a anarquia da produção social, a autoridade política do Estado também desaparece" (Engels).

 

5.7 MARXISMO

 

Termo que designa tanto o pensamento de Karl Marx e de seu principal colaborador Friedrich Engels, como também as diferentes correntes que se desenvolveram a partir do pensamento de Marx, levando a se distinguir, por vezes, entre o marxismo (relativo a esses desenvolvimentos) e o pensamento marxiano (do próprio Marx). A obra de Marx estende-se em múltiplas direções, incluindo não só a filosofia, como a economia, a ciência política, a história, etc.; e sua imensa influência se encontra em todas essa áreas. O marxismo e, por vezes, também conhecido como materialismo histórico, materialismo dialético e socialismo científico (termo empregado por Engels).

O pensamento filosófico de Marx desenvolve-se a partir de uma crítica da filosofia hegeliana e da tradição racionalista, considerando que essa tradição, por manter suas análises no plano das idéias, do espírito, da consciência humana, não chegava a ser suficientemente crítica por não atingir a verdadeira origem dessas idéias, que estaria na base material da sociedade, em sua estrutura econômica e nas relações de produção que esta mantém. Isto equivaleria, segundo Marx, a "colocar o homem de cabeça para baixo". Seria portanto necessário analisar o capitalismo - modo de produção da sociedade contemporânea a Marx - para revelar sua natureza de dominação e exploração do proletariado, e desmascará-la.

O pensamento de Marx não se restringe a uma análise teórica, mas busca formular os princípios de uma prática política voltada para a revolução que destruiria a sociedade capitalista para construir o socialismo, a sociedade sem classes, chegando ao fim do Estado. "os filósofos sempre se preocuparam em interpretar a realidade, é preciso agora transformá-la".

O marxismo se desenvolveu em várias correntes que podemos subdividir em políticas e teóricas, embora nem sempre a fronteira entre elas seja muito nítida. Dentre as correntes políticas temos, p. ex.: o marxismo-leninismo, ou simplesmente Leninismo, também chamado de marxismo ortodoxo, ou materialismo dialético, que tornou-se a doutrina oficial na União Soviética após a Revolução de 1917; o trotskismo, de Leon Trotsky, que defendeu contra o leninismo a teoria da revolução permanente; o maoísmo, doutrina desenvolvida por Mao Tsé-tung, que chegou à China após a revolução de 1947.

Dentre as correntes teóricas: Karl Kautsky (Alemanha - 1854-1938), seguidor de Marx, defensor de um socialismo revolucionário; Georg Lukács (Hungria - 1885-1971) propõe interpretação de Marx valorizando suas raízes hegelianas; Antonio Gramisci (Itália - 1891-1937) - fundador do Partido Comunista Italiano e que desenvolveu uma filosofia da praxis; Louis Althusser (França - 1918 - ), que faz uma leitura de Marx em uma perspectiva estruturalista, etc.

 

5. 8 KARL MARX

 

(Trier - Al - 1818-1883) de família judia convertida ao Protestantismo.

O pensamento de Marx desenvolve-se a partir do contato com a obra do economista Adam Smith e David Ricardo, e da ruptura com o pensamento hegeliano e com a tradição idealista da filosofia alemã. Surge o materialismo histórico, segundo o qual as relações sociais são determinadas pela satisfação das necessidades da vida humana, não sendo apenas uma forma, dentre ouras, da atividade humana, mas a condição fundamental de toda a história. Logo, a economia política, que estuda a natureza dessas relações de produção, deve ser a base de todo o estudo sobre o homem, sua vida social e sua expressão cultural.

Grande parte das obras de Marx foram escritas em colaboração com Engels, sendo difícil separar suas idéias. Marx escreveu grande número de artigos para jornais, meio como ganhou a vida em Londres. Nunca abandonou a militância política, nem a convicção de que a tarefa de uma filosofia, que se queria verdadeiramente crítica, deve ser a transformação da realidade.

Principais obras: A crítica da filosofia de Hegel (1843); A sagrada família (1845); A ideologia alemã (1845-46); 18 Brunários de Luís Bonaparte ( 1852); O Capital, 3 vols. (1887-95), com a colaboração de Engels; etc. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

CONSIDERAÇÕES SOBRE A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER1[1]

Weber ( 1993, pág. 124 ) afirma que a Ciência Social que ele pretende exercitar é uma “Ciência da Realidade”, voltada para a compreensão da significação cultural atual dos fenômenos e para o entendimento de sua origem histórica.

Essa não é uma afirmação trivial. O termo “Ciência da Realidade”, tal como utilizado por Weber, aponta, na verdade, para um concepção específica do objeto e do método das Ciências Sociais.

Esse artigo pretende discutir, justamente, essa especificidade. O que significa esse compromisso enfático com o estudo da realidade? Que objetos são definidos como pertinentes e quais são excluídos do âmbito dessas ciências?

O artigo está dividido em três partes. Numa primeira, são discutidos alguns pontos mais gerais do modelo epistemológico weberiano e, especificamente, suas considerações sobre a possibilidade de um conhecimento objetivo nas chamadas Ciências da Cultura.

Numa segunda parte, discuti-se propriamenhte o projeto weberiano para as Ciências Sociais. Como são definidos o objeto e o método dessas ciências?

Servindo-se das reflexões realizadas nas duas primeiras partes, discute-se, na parte final, certos limites do paradigma weberiano, associados, justamente à sua definição da Ciência Social como Ciência da Realidade.

 A EPISTEMOLOGIA WEBERIANA: A epistemologia weberiana pode ser compreendida como resultando da articulação de duas premissas com uma afirmação aparentemente antitética. As premissas são: 1) o conhecimento só é possível a partir da referência a valores e interesses; 2) valores e interesses não podem ser validados ou hierarquizados segundo critérios objetivos. A afirmação é a seguinte: é possível alcançar um conhecimento objetivo, universalmente válido, científico, no sentido mais forte da palavra.

A questão, então, é entender como é possível para Weber, partindo das duas premissas indicadas, chegar a essa última afirmação. Talvez a melhor estratégia seja considerar, inicialmente, as próprias premissas.

O que está sendo chamado aqui de premissas da epistemologia weberiana, são, na verdade, as duas perspectivas básicas que definem a concepção de Weber no que se refere à relação entre conhecimento, realidade e valores. Seguindo uma orientação claramente neokantiana, Weber assume, de forma radical e com todas as implicações daí decorrentes, o postulado da existência de uma separação clara entre os planos do conhecimento e da realidade, cuja transposição é sempre parcial, provisória e, sobretudo, mediada por uma série de categorias e construções conceituais definidas conforme os valores e interesses de quem busca o conhecimento.

A realidade é entendida como algo infinito, que pode ser apreendido a partir de inúmeros ângulos, mas jamais na sua totalidade ou essência. A conhecimento seria sempre fruto de um recorte particular, da seleção de um conjunto específico de problemas e de fenômenos. Essa seleção ou recorte particular seria, necessariamente, feita a partir das referências pessoais dos sujeitos cognoscentes. Weber nega, assim, a possibilidade de um conhecimento absoluto, livre de quaisquer pressupostos, capaz de definir de modo completamente neutro qual a verdade absoluta das coisas. Não existiria, segundo ele, um ponto privilegiado a partir do qual o investigador pudesse atingir uma visão isenta e global da realidade. Ao contrário, todo e qualquer conhecimento estaria referido a valores e interesses subjetivos2[2]. Seriam a partir dessas referências que os sujeitos atribuiriam relevância e selecionariam, dentro da realidade infinita, os problemas e objetos que, do seu ponto de vista, mereceriam ser investigados.

A primeira premissa do modelo epistemológico weberiano é, portanto, a do caráter inexorável da referência do conhecimento a valores e interesses. Não existiriam problemas ou objetos que seriam intrinsicamente relevantes para o conhecimento humano. De uma forma ou de outra, o sujeito cognoscente sempre partiria de um conjunto específico de referências e pressupostos culturalmente definidos. É uma questão secundária, o fato de que se trate de um sistema ético, de um conjunto de postulados metafísicos, de um modelo teórico ou de um conjunto de crenças e interesses religiosos ou econômicos. Em todos esses casos, a situação seria, basicamente, a mesma. Tratar-se-ia de conjuntos de perspectivas ou referenciais subjetivos que orientariam os investigadores nas atividades do conhecimento.

A segunda premissa fundamental seria a de que essas referências não poderiam jamais ser validadas e nem mesmo hierarquizadas segundo critérios que pudessem ser chamados de objetivos. A adesão a determinados valores ou a uma visão de mundo específica seria, em última instância, uma questão de fé ( Weber, 1993 ). Não existiriam parâmetros objetivos a partir dos quais se pudesse decidir sobre o melhor valor ou a visão de mundo mais verdadeira. A adesão a qualquer desses pontos de vista seria sempre dependente de uma convicção pessoal, subjetiva. Todos os valores, as visões de mundo, os sistemas metafísicos, as normas e princípios éticos que conduzem os homens em seus assuntos práticos e que são referências do conhecimento seriam incomensuráveis e teriam, em princípio, que ser tomados como equivalentes.

A associação entre essas duas premissas, ou seja, o reconhecimento de que as referências valorativas são inevitáveis e de que não é possível selecioná-las segundo critérios objetivos, poderia ter conduzido Weber a uma postura cética e relativista. Partindo dessas premissas, a conclusão aparentemente mais lógica seria a que afirmasse que não é possível um conhecimento objetivamente válido da realidade, sobretudo, no que se refere aos fenômenos culturais. A conclusão de Weber, no entanto, é exatamente a contrária. A objetividade do conhecimento é possível, inclusive, nas Ciências da Cultura.

É importante lembrar que dentro do contexto intelectual alemão do final do século passado, no qual Weber se inseria, existiam pelo menos duas respostas disponíveis à questão da validação do conhecimento das Ciências da Cultura. Ambas, no entanto, foram rejeitadas por Weber. Dilthey, em linhas gerais, acreditava que o conhecimento dos fenômenos culturais se fundamentava na estratégia da compreensão introspectiva, método pretensamente capaz de resgatar o mundo tal como subjetivamente vivido pelos indivíduos. A possibilidade desse resgate estaria, em princípio, garantida pela identidade humana e histórica que une, nas Ciências da Cultura, o sujeito e o objeto. Como sujeito humano o observador poderia compreender de modo relativamente fácil outros universos humanos. Weber rejeita a solução de Dilthey, fundamentalmente, argumentando que o acesso a esse universo subjetivo não é nem direto, nem completo e nem imparcial. Tratar-se-ia, além disso, de um método de difícil controle intersubjetivo, que como tal não poderia ser posto como garantia de objetividade.

A outra solução para o problema da validade do conhecimento presente no contexto intelectual de Weber era sustentada principalmente por Rickert e Windelband. Para estes, existiriam certos valores universais e necessários, supostamente compartilhados pela humanidade e pelo cientista, que orientariam, de modo unívoco, o trabalho de seleção dos problemas e objetos nas Ciências da Cultura. A observação desses valores universais seria a garantia da relevância e pertinência do conhecimento produzido. Como observa Saint-Pierre a relação com os valores seria, particularmente para Rickert, não “apenas um princípio de seleção do material de estudo, mas, e principalmente, constituía o fundamento da validade do conhecimento histórico-social” ( 1994, pág. 24 ). Weber rechaça esse alternativa acentuando, sobretudo, o fato de que os valores não são universais, mas, ao contrário, múltiplos e contraditórios. Não existiria um sistema de valores privilegiado, fundado numa base transcendental, com relação ao qual as Ciências da Cultura pudessem se orientar, mas, apenas, o eterno confronto histórico entre diversos valores inconciliáveis.

Em contraposição a essas duas alternativas, Weber busca uma solução para o problema da objetividade do conhecimento que, como observa Saint-Pierre, se situa no plano metodológico. O conhecimento objetivo é possível desde que os sujeitos cognoscentes se comprometam a observar certas regras próprias à atividade científica. A objetividade não seria alcançada pela extirpação de toda e qualquer referência a valores e pela busca de um olhar imparcial, como talvez sonhassem os positivistas. Weber se mantém fiel a sua primeira premissa. Também não seria obtida por meio da hierarquização das várias referências e da escolha, entre essas, daquela mais verdadeira - talvez, algum sistema teórico ou metafísico ou, ainda, um conjunto de valores superiores, como queria Rickert - a partir do qual se pudesse proceder a uma abordagem unívoca da realidade. Weber, também, não abandona a sua segunda premissa; não é possível selecionar segundo critérios cientificamente válidos qual a referência melhor ou mais verdadeira.

A objetividade do conhecimento é possível, no entanto, desde que, em primeiro lugar, sejam claramente separadas as esferas do conhecimento empírico e da ação prática, particularmente, a de natureza política ou religiosa. Weber se dedica exaustivamente ( Por ex.: 1982 e 1993 ) ao estabelecimento de uma delimitação clara entre essas duas esferas. Os objetivos que a ciência deve se colocar e que ela é capaz de alcançar são radicalmente distintos dos que cabem, por exemplo, à política. Embora se sirva da relação com valores para selecionar seus objetos e ângulos de investigação, a ciência não deve, como tal, fazer julgamentos de valor. Ela deve se restringir a fazer julgamentos científicos sobre a realidade tal como esta é empíricamente, não sobre como ela supostamene deveria ser. Até mesmo porque a ciência não é capaz de fazer julgamentos objetivos sobre valores, sobre como as coisas devem ser. Esses julgamentos são necessariamente subjetivos.

O primeiro passo para se garantir a objetividade do conhecimento científico é, portanto, separar claramente julgamentos de valor e julgamentos de fato e excluir os primeiros do âmbito da ciência. Essa, de certa forma, é uma atitude que depende de uma decisão individual dos pesquisadores, mas que, para Weber ( 1993 ), poderia ser incentivada e cobrada pelas associações e revistas científicas. É importante observar que a objetividade do conhecimento é possível, na perspectiva weberiana, na medida exata em que os cientistas estejam deliberadamente dispostos a se comprometer com a busca dessa objetividade. Esse compromisso tem como eixo principal a renúncia aos julgamentos de valor, mas é algo mais amplo. Weber espera, na verdade, que o cientista esteja disposto a se curvar frente ao imperativo das proposições empíricas, factuais, que não se apegue às suas referências teóricas e filosóficas de modo dogmático, que esteja aberto ao diálogo e à crítica e que saiba correr o risco constante da refutação empírica de suas idéias.

Uma maneira interessante de se interpretar a concepção weberiana do conhecimento científico é recorrendo à separação entre Contexto da Descoberta e Contexto da validação3[3]. Weber sabe que o interesse pelo conhecimento e a seleção do problema, do objeto e do ângulo específico das investigações são definidos necessariamente através de uma relação com valores subjetivos – essa é, justamente, uma de suas premissas. Essa relação com valores não alcançaria, no entanto, o plano da verificação empírica das hipóteses. Uma vez proposto, o conhecimento poderia e deveria ser julgado, objetivamente, do ponto de vista de sua lógica interna e validade empírica. A relação com os valores dominaria apenas o Contexto da Descoberta. O Contexto da Validação deveria ser consciente e deliberadamente liberto das influências subjetivas4[4]. Neste contexto deveria imperar o espírito crítico e antidogmático. Os resultados do conhecimento, para serem considerados cientificamente válidos, teriam que se submeter ao controle intersubjetivo e ser universalmente aceitos.

Weber nos fala, portanto, particularmente, no caso das Ciências da Cultura, de duas dimensões claras do trabalho científico. Uma primeira dimensão, em que nenhuma forma de controle é possível. As referências subjetivas que orientam o conhecimento são múltiplas, inconciliáveis e não são passíveis de nenhum tipo de julgamento ou hierarquização segundo critérios objetivos. Partindo de referências variadas, os sujeitos selecionariam problemas e objetos e construiriam conceitos e hipóteses. Uma vez formuladas as hipóteses, passaria-se para a segunda dimensão, na qual imperaria o controle intersubjetivo, tendo na validação empírica seu critério fundamental.

Do ponto de vista deste artigo, o que é mais importante sublinhar é o compromisso de Weber com a busca da objetividade nas Ciências Sociais. Toda sua reflexão epistemológica está voltada para a construção de uma estratégia capaz de conciliar a referência a valores múltiplos e contraditórios com a conquista da objetividade. Sua afirmação de que a Ciência Social que ele pretende praticar é uma ciência da realidade só pode ser entendida à luz desse compromisso.

 A CONCEPÇÃO DE SOCIOLOGIA DE MAX WEBER

As características do paradigma sociológico weberiano só se definem à luz da visão de mundo mais ampla de Weber, dentro da qual se articulam uma concepção específica sobre o que é a realidade sócio-histórica e uma reflexão profunda sobre a natureza do empreendimento científico.

Talvez o ponto central da perspectiva weberiana seja o reconhecimento de que a realidade humana não possui um sentido intrínseco e unívoco, dado de modo natural e definitivo, independentemente das ações humanas concretas. Weber pressupõe que a realidade é infinita e sem qualquer sentido cognoscível imanente. Seriam os sujeitos humanos que estabeleceriam recortes na realidade e se posicionariam diante deles conferindo-lhes sentido.

Weber assume essa perspectiva de modo radical. Orientado por ela, procura excluir das Ciências Sociais qualquer proposição que busque definir de modo geral e substantivo qual a lógica da história, qual a dimensão estrutural determinante da sociedade ou qual o sentido último subjacente às ações individuais. Todas essas definições suporiam a existência de uma realidade atemporal, naturalmente dada, subjacente e determinante dos fenômenos empíricos. Weber não apenas não acredita na existência desses determinantes ahistóricos do comportamento humano, como defende que não seria possível defini-los de um modo objetivo, verificável segundo as regras da ciência.

Os únicos objetos legítimos das Ciências Sociais seriam, então, em si mesmas, as ações sociais. O agente individual seria o único portador real de sentido. A única coisa que realmente existiria seriam sujeitos humanos agindo de uma forma e com um sentido específico e produzindo, de modo intencional ou não, uma série de conseqüências. Cada fenômeno cultural só poderia ser compreendido na sua significação e ter sua origem explicada a partir da referência a agentes sociais que ao organizarem significativamente suas ações contribuiriam, de forma mais ou menos intencional, para determinar essa significação e essa origem.

Como observa Jaspers ( 1977 ), o “eixo” que orienta o trabalho aparentemente disperso de Weber é, então, seu compromisso com o estudo de “homens reais”, agindo em condições sociais e diante de processos históricos definidos. Quando Weber afirma enfaticamente que a Ciência Social que ele pretende praticar é uma “Ciência da realidade” o que ele esta querendo acentuar é, em grande medida, esse compromisso com a análise de realidades empíricas concretas, tornadas significativas por agentes historicamente situados. Não existiria um mundo cognoscível acima, abaixo ou além do mundo das ações significativas e das conexões entre ações. Todas as categorias conceituais, incluindo as de natureza coletiva, como Estado, nação ou família, teriam que ser formuladas de um modo que explicitasse sua relação com as ações sociais concretas. Nenhum fenômeno seria definido por sua essência ou substância fixa. Seriam os agentes concretos, historicamente localizados, agindo segundo os valores mais diversificados e contraditórios, que construiriam, de modo mais ou menos consciente, tudo o que seria culturalmente significativo.

O compromisso enfático de Weber com a interpretação de fenômenos concretos, historicamente localizados, não permite, no entanto, que esse seja confundido com um simples colecionador de fatos históricos ( Jaspers, 1977, pág. 126). Esse, certamente, não é seu perfil. O interesse de Weber não se restringe ao acúmulo de dados ou mesmo a uma descrição detalhada de singularidades histórico-sociais. Weber está interessado em compreender causalmente a realidade empírica, em analisar a importância relativa de cada elemento presente numa situação para a definição do curso subsequente dos acontecimentos. Esse tipo de trabalho não pode basear-se, apenas, no conhecimento, por mais amplo que seja, das características da situação que se deseja compreender. A imputação causal só pode ser bem sucedida quando feita a partir do conhecimento de regularidades empíricas. Somente a partir do conhecimento do que é o comportamento provável em cada tipo de situação é que é possível ao cientista analisar o caso concreto e definir as causas prováveis.

A solidariedade entre Sociologia e História, de que nos fala Aron ( 1990, pág. 482 ), estaria baseada nessa dependência mútua entre o conhecimento do geral e do particular nas Ciências Sociais. A sociologia estaria voltada para a formulação das “regras gerais dos acontecimentos”. A história interessaria-se pela “análise e imputação causal de ações, formações e personalidades individuais culturalmente importantes” ( Weber, 1991, pág. 12). Uma, no entanto, dependeria imensamente da outra. A compreensão dos eventos historicamente circunscritos só poderia ser feita por meio do conhecimento das regularidades sociologicamente definidas e essas só poderiam ser sustentadas através da demonstração de sua validade em situações historicamente definidas.

É fundamental perceber que o projeto weberiano para as Ciências Sociais – aí incluídas a Sociologia e a História - supõe muito mais do que a simples coleta e descrição de dados definidos em sua singularidade empírica. Sem dúvida, na medida mesmo em que se afasta das definições fixas dos fenômenos sociais, Weber se aproxima das manifestações sociais concretas, marcadas por um contexto histórico e cultural singular. Essa aproximação, no entanto, é mediada por todo um instrumental analítico que transforma os fenômenos concretos em objetos científicos. Os fenômenos empíricos são recortados conceitualmente. Seus elementos e conexões internas são comparados com formas típicas construídas artificialmente pelo observador. São avaliadas as várias causas possíveis que explicariam sua configuração atual e atribuído um peso relativo a cada uma delas.

Uma das preocupações de Weber foi, justamente, com a formulação de certos instrumentos metodológicos que permitissem que o cientista investigasse os fenômenos particulares sem se perder na infinidade disforme dos seus aspectos concretos. O principal desses instrumentos é o tipo ideal. Os tipos ideais cumpririam duas funções principais: selecionar explicitamente a dimensão do objeto que será analisada e apresentar essa dimensão de uma forma pura, despida de suas nuanças concretas. Nas palavras de Weber, a construção de tipos permitiria operar uma espécie de abstração que converteria a realidade em “objeto categorialmente construído” ( 1993-b, pág. 203 ). Os tipos seriam elaborados “mediante acentuação mental de determinados elementos da realidade”( 1993, pág.137 ) considerados, do ponto de vista do investigador, relevantes para a pesquisa. O cientista social criaria definições exageradas, unilaterais, das dimensões da realidade que pretendesse conhecer. Essas definições poderiam então ser utilizadas, num segundo momento, para uma espécie de comparação com o mundo real. Elas auxiliariam no trabalho de compreensão e de imputação causal realizado pela Sociologia e pela História. Cada aspecto concreto da realidade empírica poderia ser compreendido em função da sua maior ou menor distância em relação à definição típico ideal.

O tipo ideal mais importante da Sociologia weberiana é o de ação racional com referencia a fins5[5]. Este tipo de ação se caracterizaria pelo fato do ator escolher de modo ponderado seus fins, considerando as conseqüências previsíveis, e por adequar do modo que lhe parece mais eficaz, dadas as condições, os meios aos fins. Seria um tipo de ação social no qual o sujeito agiria desapegado de vínculos afetivos ou tradicionais. O que prevaleceria seria a análise objetiva da eficiência e da eficácia, dos custos e benefícios de cada alternativa. A ação racional com referência a valores possuiria, basicamente, as mesmas características. A diferença é que os fins da ação, neste caso, seriam perseguidos de modo absoluto, independentemente das conseqüências previsíveis que possam estar associadas a eles. A idéia de Weber é de que a ação racional, nas suas duas modalidades, seria a forma mais previsível, compreensível, de comportamento humano. Quando desapegados de suas tradições e afetos, os homens agiriam diante das situações de modo muito regular. Suas ponderações sobre os custos e benefícios de cada alternativa de ação são feitas segundo regras que seriam mais ou menos universais de raciocínio. Suas decisões, ou seja, os cursos efetivos da ação seriam, portanto, muito regulares.

Seria, justamente, essa previsibilidade ou compreensividade máxima que faria com que o tipo ideal de ação racional desempenhasse o papel de um recurso metodológico tão central na Sociologia weberiana6[6]. Os fenômenos poderiam, num primeiro momento, ser interpretados como baseados em ações racionais. Essa interpretação seria, num segundo momento, comparada com a realidade concreta. Os comportamentos divergentes seriam compreendidos como desvios, afetivos ou tradicionais, em relação às ações racionais previstas.

Servindo-se de tipos que recriam, de modo acentuado, vários aspectos da realidade empírica e valendo-se do conhecimento de certas regularidades da ação humana - associadas, principalmente, ao seu caráter racional - Weber pode construir, para cada situação social analisada, um quadro das possibilidades objetivas de ação7[7]. Este quadro funciona como um recurso metodológico complementar que permite avaliar a influência de modificações mais ou menos abrangentes dos componentes de uma situação social sobre a escolha por parte do sujeito do seu curso de ação. Torna-se possível simular vários cenários, através da modificação virtual de determinado componente da situação, imaginar, segundo as regras da experiência, como o ator reagiria às modificações, e, assim, avaliar o peso causal que cada componente da situação desempenharia – ou efetivamente desempenhou, no caso histórico - na definição do curso de ação. A avaliação do significado causal de um fato para o curso subsequente dos acontecimentos seria, assim, realizada considerando-se a probabilidade maior ou menor, de acordo com as regras da experiência, de que, na ausência desse fato, o comportamento dos agentes seja modificado. Seria possível simular a ausência do fato e avaliar, com algum grau de segurança, quais as possibilidades objetivas de que isso se traduza numa mudança do comportamento dos agentes e, indiretamente, numa alteração do curso dos acontecimentos.

A reconstrução analítica de elementos da realidade em termos típico ideais e a simulação das possibilidades objetivas envolvidas num acontecimento ou situação – simulação baseada, principalmente, na previsão de como seria o curso dos eventos no caso de ações puramente racionais – seriam os elementos principais que permitiriam a compreensão causal dos fenômenos sociais. O cientista reconstruiria, em termos típicos, dimensões específicas da realidade, avaliaria, segundo as regras da experiência, como os agentes provavelmente agiriam diante dessas dimensões e compararia os cursos de ação concretos com as previsões realizadas. Essa comparação permitiria definir o grau de proximidade entre a construção típica e a realidade concreta.

A compreensão causal, no sentido weberiano, ou seja, a explicação dos fenômenos a partir da interpretação do sentido visado pelas ações dos sujeitos e da análise das implicações, intencionais ou não, dessas ações supõe a utilização dos três recursos metodológicos acima discutidos: os tipos ideais, que permitem isolar artificialmente dimensões da realidade empírica e avaliar a presença dessas, em maior ou menor grau, em diversas configurações concretas; o tipo ideal de ação racional, que forneceria uma espécie de padrão previsível de comportamento a partir do qual se poderia identificar desvios; a noção de possibilidade objetiva, que permite avaliar o peso relativo de várias causas possíveis na determinação de um acontecimento.

A sociologia weberiana não lida com indivíduos socialmente isolados, mas com agentes localizados em situações sociais determinadas, nas quais está aberto um campo definido de possibilidades de ação ( Cohn, 1979 ). A primeira condição que torna possível a compreensão sociológica seria, justamente, o fato dos sujeitos agirem dentro desse universo estreito de possibilidades. Os atores lidam com essas possibilidades de um modo que pode ser compreendido quanto ao sentido – na medida em que adequado aos “hábitos médios de pensar e sentir” (Weber, 1991, pag. 8 ) - e previsível de acordo com regras de probabilidade construídas a partir da experiência histórica.

O trabalho do sociólogo seria, basicamente, o de reconstruir de modo típico os elementos considerados significativos em cada situação. A partir dessa reconstrução o sociólogo poderia compreender as possibilidades de ação abertas para o sujeito ( as conexões de sentido possíveis ) e avaliar, a partir da experiência, quais as mais prováveis. A Sociologia poderia, finalmente, afirmar que diante de situações próximas ao caso típico, os sujeitos provavelmente agiriam de uma determinada forma e de acordo com um sentido que poderia ser compreendido8[8].

Num certo sentido, pode-se dizer que a Sociologia weberiana tem como projeto a reconstrução conceitual do mundo sócio-histórico. Certamente, não se trata de uma reconstrução exata, completa, definitiva ou imparcial. Weber enfatizou suficientemente a separação existente entre conhecimento e realidade. O mundo social - na verdade, fragmentos dele - seria recriado em termos típicos ideais, ou seja, selecionando-se e exagerando-se algumas de suas dimensões. Seriam explicitadas, ainda, as relações regulares observadas entre dimensões da realidade. Como a realidade empírica é definida em termos de agentes com um objetivo, agindo em relação a outros agentes, servindo-se dos meios disponíveis e das condições dadas pela situação, os elementos tipificados seriam, justamente, os objetivos ou motivos, os meios, as condições e as próprias situações. Mesmo as categorias sociológicas mais gerais utilizadas pela Sociologia, como capitalismo, burocracia ou patrimonialismo, seriam definidas em função da probabilidade de que se repitam certas ações típicas, do ponto de vista do seu sentido, que, supostamente, estão envolvidas e, inclusive, são as responsáveis pela existência desses fenômenos macrossociais.

Weber não pretende e não acha possível ir além dessa reconstrução tipificada dos elementos do real e do estabelecimento de certas relações, mais ou menos regulares e compreensíveis, entre esses elementos. Apenas essas seriam tarefas de uma Ciência Social “da realidade”, no sentido weberiano. É a isso que ele chama de “ordenação conceitual da realidade”. Qualquer objetivo além desse seria visto como inadequado a uma ciência empírica e próprio à “metafísica” ou à “filosofia social”.

O que Weber exclui do campo das Ciências Sociais, ou pelo menos relega a uma posição bastante marginal, é todo tipo de teorização que se refira a dimensões, processos ou mecanismos sociais puramente abstratos, que não possam ser traduzidos em termos de conjuntos típicos ou concretos de ações. Não existiria espaço na Sociologia weberiana para o desenvolvimento de conceitos ou sistemas de teorias que tenham como objeto dimensões não diretamente empíricas dos fenômenos sociais. Assim, num plano macrossociológico, Weber, certamente, desestimularia qualquer esforço no sentido de estabelecer um conhecimento geral e abstrato, válido para qualquer configuração histórico-social, sobre a natureza dos sistemas sociais e de seus mecanismos internos de equilíbrio ou mudança. Ao contrário, ele está interessado em compreender como em diferentes situações históricas, passíveis de serem tipificadas, os homens orientaram suas ações de um modo que tornou possível o estabelecimento de relações sociais mais ou menos estáveis. Da mesma forma, no plano microssociológico, Weber, sem dúvida, não apoiaria iniciativas no sentido de estabelecer os mecanismos gerais subjacentes aos processos de interação social. Não lhe interessariam teorias abstratas sobre a universo subjetivo ou sobre os processos inconscientes envolvidos nas interações. Restringiria-se a compreender, no caso real ou em termos típicos, o sentido visado pelos atores e as conseqüências intencionais ou não de suas ações.

O ponto fundamental é o compromisso de Weber com o plano da ação social: tudo o que se encontra num plano analítico subjacente ou transcendente em relação ao da ação seria excluído do campo específico das Ciências Sociais e reservado ao âmbito filosófico. A única dimensão dos fenômenos sociais que Weber reconhece como efetivamente real é a das ações. Qualquer dimensão desses fenômenos que não possa ser traduzida em termos de ações é afastada do campo científico. Definir a ciência social como uma ciência

Neste tema, estaremos abordando as principais teorias da ação social, bem como as principais idéias de Max Weber e do interacionismo Simbólico. Buscaremos também estabelecer uma diferenciação entre estas teorias da ação social e as teorias sistêmicas abordadas anteriormente.XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

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