ABORDAGEM CLINICA DO IDOSO. versao para a disciplina GERIATRIA (1)

ABORDAGEM CLINICA DO IDOSO. versao para a disciplina GERIATRIA (1)

(Parte 1 de 7)

João Macêdo Coelho Filho

Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará - UFC Coordenador do Centro de Atenção ao Idoso do Hospital Universitário Walter Cantídio da UFC

O cuidado do Idoso como uma Prioridade

Por muito tempo, o envelhecimento da população e o cuidado do idoso foram entendidos como temas de interesse de países desenvolvidos. Com o aumento da população geriátrica em todo o mundo, a atenção ao idoso vem sendo percebida cada vez mais como uma prioridade também para os países em desenvolvimento, como o Brasil. A rigor, desde a década de 60, a maioria, em termos absolutos, dos idosos do mundo já residia nesses países, o que deverá se acentuar nas próximas décadas.

Uma característica marcante do aumento do número de idosos nos países em desenvolvimento diz respeito à rapidez com que vem ocorrendo. De acordo com a OMS, a consolidação do envelhecimento de uma população ocorre quando sua proporção de pessoas idosas duplica de 7% para 14%. Este fenômeno ocorreu em países europeus durante o período de mais de um século, enquanto que no Brasil ocorrerá em menos de 40 anos.

Embora o aumento do número de idosos no Brasil seja mais intenso nas regiões Sul e Sudeste, regiões menos desenvolvidas deparam-se também com processo rápido de envelhecimento de suas populações. A proporção atual de idosos no Brasil e no Ceara é de aproximadamente 10%. Projeções indicam que atingirá 15% no ano 2020.

O aumento rápido e substancial do número de idosos impõe, portanto, a necessidade urgente de desenvolvimento de programas e serviços no Brasil voltados ao atendimento das necessidades específicas das pessoas idosas. Intenciona-se, assim, assegurar que as pessoas tenham vida ativa e livre de incapacidade na idade madura. Neste sentido, as práticas de atenção à saúde do idoso exercem um papel fundamental e devem ser assumidas como prioridade para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Conceitos Fundamentais Envelhecimento

Envelhecimento é um processo de declínio progressivo da capacidade adaptativa e compensatória frente a eventos estressores. Pode também ser entendido, em outras palavras, como processo de limitação progressiva da capacidade homeostática

(homeoestenose). Ainda que o envelhecimento seja um continuum, presente na vida humana desde o nascimento, ou mesmo, desde a vida intra-uterina, seus efeitos fazem-se notar a partir da idade dos trinta anos e ganham maior visibilidade na idade avançada.

Este conceito de envelhecimento como continuum é importante para lembrar que se trata de um processo construído ao longo da vida. Assim, envelhecimento não é algo que diz respeito apenas aos velhos, mas aos indivíduos em todas as faixas etárias. Os efeitos do envelhecimento na idade avançada, portanto, são em grande parte resultantes das condições de vida em idades precedentes, e não um atributo específico da velhice. A velhice costuma receber a culpa por eventos adversos comuns nesta etapa da vida, mas a rigor estes são decorrentes em grande parte do tipo de vida levado pelo individuo. Assim, a velhice é apenas o ponto no tempo onde muitos problemas, adquiridos ao longo da vida, podem eclodir em toda sua plenitude. Portanto, a velhice per se não é causa de doenças, nem se constitui uma doença.

A intensidade dos efeitos do envelhecimento decorre do equilíbrio entre eventos estressores (agressores) ou eventos protetores (adaptativos ou compensatórios). Quanto maior o potencial adaptativo/compensatório de um indivíduo frente a um evento estressor, menor a intensidade dos efeitos do envelhecimento. Isto se aplica tanto ao plano clínico, biológico, quanto social.

Exemplificando, um medicamento anti-hipertensivo prescrito em dose habitual para um idoso (indivíduo em uma faixa etária em que se torna mais evidente o efeito do envelhecimento), pode ter um efeito hipotensivo muito além do esperado em conseqüência da debilidade de mecanismos compensatórios, como o aumento da freqüência cardíaca (por disfunção de nó sinusal, por exemplo). Outro exemplo, agora no campo social. A aposentadoria funciona para muitos como evento estressor, e pessoas que não desenvolvem mecanismos adaptativos nesta fase da vida (engajarse em novos projetos, por exemplo) podem sofrer sérias conseqüências, como declínio físico e mental.

Medida fundamental para fazermos frente ao envelhecimento seria a intensificação das respostas adaptativas do indivíduo e da sociedade. A potencialização da força muscular proximal dos membros inferiores é um bom exemplo de reforço da capacidade adaptativa do idoso. Na mesma direção, estaria o desenvolvimento de programas sociais para o idoso.

Idoso

Definir precisamente o que é ser idoso não é tarefa muito fácil. O critério mais utilizado baseia-se exclusivamente na dimensão cronológica. Assim, seria idoso todo indivíduo com idade de 60 anos ou mais, nos países em desenvolvimento, ou 65 anos ou mais, nos países desenvolvidos. Embora bastante objetivo, este critério é meramente operacional e não guarda qualquer relação com a biologia e epidemiologia da idade avançada. O efeito do tempo não é exatamente o mesmo para todas as pessoas, dependendo da complexa interação da cronologia com uma série de outros fatores, incluindo genética, ambiente, hábitos e estilos de vida. Nesta perspectiva, um indivíduo com 5 anos de idade pode se apresentar em uma situação

um outro de 70 anos

muito mais próxima da condição de fragilidade que caracteriza muitos idosos do que

Ainda que a população geriátrica seja extremamente heterogênea, pode-se afirmar que os traços que mais conferem especificidade a uma pessoa idosa são: maior ocorrência de incapacidade e morbidade, incluindo a de natureza mental; maior vulnerabilidade a intercorrências clínicas e efeitos de agentes agressores, que podem ser tanto de natureza biológica (um medicamento, uma intervenção cirúrgica etc.), quanto social, como aposentadoria ou perda de um ente querido. Ademais, o manejo de problemas clínicos no idoso tem como característica o fato de ser particularmente modulado por aspectos sociais, culturais e ético-filosóficos.

Capacidade Funcional: o foco do cuidado geriátrico

Um elemento fundamental para a definição de saúde no idoso é a sua capacidade funcional, muito mais do que o número de doenças que apresenta. Capacidade funcional diz respeito à habilidade de o idoso exercer as atividades da vida diária. Esse exercício implica condições físicas e cognitivas.

As atividades da vida diária contemplam aquelas necessárias para nossa sobrevivência ou auto-cuidado (referidas como Atividades Básicas da Vida Diária - AVDs), e aquelas que dizem respeito à convivência e interação com a comunidade (referidas como Atividades Instrumentais da Vida Diária - AIVDs). As AVDs incluem: alimentar-se; vestir-se; tomar banho; locomover-se; conter urina e fezes. Por sua vez, as AIVDs incluem: usar o telefone; fazer compras; viajar; preparar as refeições; gerenciar as finanças e tomar medicamentos.

Para melhor entendimento desse princípio, tomemos o seguinte exemplo. Uma senhora idosa que tem somente osteoartrose dos joelhos, mas que a impede de deslocar-se e conseqüentemente de sair sozinha de casa, tornando-se dependente, está em condições de saúde bem mais desfavorável do que uma outra com diabetes, hipertensão, hipotireoidismo, e dislipidemia, mas compensados e sem nenhum comprometimento na realização das AVDs.

As AVDs e AIVDs podem ser avaliadas mediante o uso da Escala de Katz e Lawton, respectivamente.

1. BANHO

Não recebe ajuda ou somente recebe ajuda para uma parte do corpo. 1. Sim 0. Não

2. VESTIR-SE

0Não
3

Pega as roupas e se veste sem qualquer ajuda, exceto para amarrar os sapatos 1. Sim Vai ao banheiro, usa o banheiro, veste-se e retorna sem qualquer ajuda (pode usar andador

HIGIENE PESSOAL ou bengala ou segurar em barras).

0Não

1. Sim

TRANSFERÊNCIA Consegue deitar na cama, sentar na cadeira e levantar-se sem ajuda (pode usar andador

0Não

ou bengala) 1. Sim

5. CONTINÊNCIA

Controla completamente urina e fezes 1. Sim 0. Não

6. ALIMENTAÇÃO

0Não

Come sem ajuda (exceto para cortar carne ou passar manteiga no pão) 1. Sim Adaptado de: Katz S, Downs TD, Cash HR et al. Gerontologist 1970; 10: 20-30.

Itens Opções 1) 2)

1. Telefone - Capaz de ver os números, discar, receber e fazer ligações sem ajuda.

- Capaz de responder o telefone, mas necessita de um telefone especial ou de ajuda para encontrar os números ou para discar. - Completamente incapaz no uso do telefone.

2. Viagens - Capaz de dirigir seu próprio carro ou viajar sozinho de ônibus ou táxi. - Capaz de viajar exclusivamente acompanhado.

- Completamente incapaz de viajar.

3. Compras - Capaz de fazer compras, se fornecido transporte.

- Capaz de fazer compras, exclusivamente acompanhado.

- Completamente incapaz de fazer compras.

4. Preparo de refeições - Capaz de planejar e cozinhar refeições completas.

- Capaz de preparar pequenas refeições, mas incapaz de cozinhar refeições completas sozinho. - Completamente incapaz de preparar qualquer refeição.

5. Trabalho Doméstico - Capaz de realizar trabalho doméstico pesado (como esfregar o chão).

- Capaz de realizar trabalho doméstico leve, mas necessita de ajuda nas tarefas pesadas.

- Completamente incapaz de realizar qualquer trabalho doméstico.

6. Medicações - Capaz de tomar os remédios na dose certa e na hora certa.

- Capaz de tomar os remédios, mas necessita de lembretes ou de alguém que os prepare. - Completamente incapaz de tomar remédio sozinho.

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