Poder e subjectivação segundo foucault e deleuze

Poder e subjectivação segundo foucault e deleuze

(Parte 1 de 6)

Contemporânea

Abril de 2009 Orientador: Prof. Doutor Adélio Melo

Esta dissertação de mestrado pretende analisar o pensamento de

Foucault e Deleuze, e as suas práticas genealógicas na análise das relações de poder, dos micro-poderes e dos pontos ou forças de resistência. Através destes dois filósofos são analisadas as sociedades disciplinares e as sociedades de controlo e os processos de subjectivação do sujeito através das diversas práticas dos poderes e dos saberes, e das múltiplas tecnologias e estratégias de dominação.

Nas modernas sociedades de controlo os processos de subjectivação emergem dos dispositivos disciplinares e de controlo, e do biopoder. As práticas genealógicas, a crítica e a resistência têm por função desenredar as linhas dos dispositivos para inventar ou criar modos de existência e linhas de subjectivação. Analisar-se-á a possibilidade de linhas de fuga nas actuais sociedades de controlo partindo do princípio que tal processo de individuação terá de ter na base – sendo este o fio condutor – a genealogia, a crítica e a resistência para superar a linha de forças dos dispositivos.

Palavras-chave: genealogia, poderes, micro-poderes, sociedade disciplinar,

sociedade de controlo, subjectivação, resistência, crítica, ética.

Summary

This master’s dissertation examines the theories of Foucault and Deleuze and their genealogical practices in the analysis of power, micro-power relations and of the points or resisting alliances.

Through these two philosophers, the disciplined societies and the control societies will be analyzed as well as the process of individualization through the diverse practices of power and knowledge, multiple technology and domination strategies.

In modern control societies, the processes of individualization appear in the disciplined mechanisms of control and bio-power. The genealogical practices, the critique and the resistance have the purpose of unraveling the device lines so as to invent or create modes of existence and individualization lines.

The possibility of tangents in recent control societies will be analyzed from the maxim that this individualization process must have as its basis – this being the stream of thought - genealogy, the critique and the resistance to overcome the force lines of the mechanisms.

Capítulo I - Poderes e Micro-poderes …………………………………6 1. As práticas e as análises genealógicas ou críticas 2. Poderes e a microfísica do poder 3. Biopoder e Biopolíticas

Capítulo I - As Sociedades Disciplinares…………………………36

1. As disciplinas: corpo – alma 2. As disciplinas e o poder disciplinar 3. O panóptico e o panoptismo actual

Capítulo I - As Sociedades de Controlo…………………………5

1. As sociedades de controlo 2. O controlo e a resistência

Capítulo IV - Linhas de subjectivação e a actual sociedade de controlo..65

1. Racionalismo e crítica: a repetição do acontecimento e a actualidade de hoje 2. O plano de imanência e a tarefa ética: liberdade… 3. Dispositivos, linhas de subjectivação e a relação a si 4. Subjectivação e resistência nas actuais sociedades de controlo

Esta dissertação tem como ponto de partida o pensamento de

Foucault e Deleuze, dentro do âmbito de uma analítica das relações entre poder e saber, nas sociedades disciplinares e de controlo. Tenta-se compreender como as relações de poder conduzem Foucault da genealogia à ontologia do presente e à problematização. E sobretudo procura-se entender em que medida a genealogia foucaultiana e os conceitos deleuzianos ainda podem servir de análise, hoje, para compreender as actuais sociedades de controlo.

O fio condutor que perpassa por todos os capítulos é que a crítica genealógica, a autonomia crítica do pensamento, e os pontos ou forças de resistência se cruzam entre si e estão interligadas às próprias relações de poder, quer para delas se distanciar quer para produzirem mais relações de poder. E é a própria crítica, pensamento e resistência que permitem espaço à própria acção e reprodução do poder. E, igualmente, são elas que conduzem o indivíduo à ética permitindo-lhe desse modo uma acção própria que o faça “suportar” o poder. E, finalmente têm ainda um outro propósito mais vasto que é o de permitirem ao indivíduo uma linha de fuga para construir um «Si-Próprio» que escape à relação poder-saber. Mas quanto a este último propósito Deleuze adverte que não é certo que seja possível, pelo menos na maior parte dos dispositivos. Contudo, visto que a dimensão do «Si-Próprio» é algo sempre inacabado que o indivíduo maneja através das práticas genealógicas, da autonomia crítica e da força da resistência, fica talvez, a exigência do apelo das forças da existência para o indivíduo utilizá-las como se fossem orientações de si próprio com vista a fazer da sua vida uma obra de arte.

A questão do saber e do poder está directamente ligada com a constituição do sujeito, que remete para a subjectivação uma vez que segundo Foucault são os múltiplos e diferentes dispositivos, constituídos por práticas discursivas e extradiscursivas, instalados em rede nas sociedades, que produzem através de determinados processos, a modelagem ou constituição dos sujeitos, e das suas subjectividades ancoradas às estratégias de dominação na trama da história.

Esta Dissertação está dividida em quatro capítulos, cada um deles dedicado ao estudo de uma problemática que se actualiza continuamente no presente.

O primeiro capítulo começa com a análise que Foucault faz da genealogia, e para isso é estudado um texto seu intitulado “Nietzsche, a Genealogia e a História” no qual Foucault pretende fazer uma análise genealógica das relações poder-saber. A genealogia nietzschiana opõe a história dos historiadores à “história efectiva” que faz surgir o acontecimento. Este traz o “novo” para a actualidade gerando, assim, uma ontologia crítica do presente. E deste modo a sua pesquisa torna-se numa “problematização” que retoma as questões singulares com um pensamento crítico. As relações de poder, enquanto poderes e micropoderes, têm efeitos múltiplos sobre a liberdade dos sujeitos e provocam processos de subjectivação e produzem subjectividades. Por entre estas linhas de força dos diversos dispositivos do poder emergem focos ou forças de resistência que estão entrecruzadas no interior do próprio poder e que são elas próprias forças de poder capazes de transformar o poder. Por fim, o biopoder através das biopolíticas controla e administra as populações e as manifestações globais da vida biológica. Como exemplo, é exposto o problema do racismo nas actuais sociedades de controlo.

No capítulo dois, é analisada a sociedade disciplinar baseada nas técnicas de coercção com o objectivo de tornar os corpos dóceis e úteis para servirem o aparelho de produção. As disciplinas e os procedimentos disciplinares estiveram na base desta sujeição. É posta em funcionamento toda uma “anátoma-política”. O modelo Panóptico é um dispositivo que visa a gestão disciplinar e o controlo dos indivíduos. Hoje, numerosas instituições ainda possuem uma arquitectura física panóptica ou tecnologicamente pró-panótica; o esquema panóptico funciona ainda como mecanismo disciplinar e de controlo.

No capítulo terceiro, são analisadas as sociedades de controlo sobretudo através dos conceitos de Deleuze. O controlo é feito na sociedade através da normalização, modelando a existência de cada indivíduo e os processos de subjectivação.

forças estabelecidas e aos saberes constituídos

Finalmente, o quarto capítulo foca os processos de subjectivação que objectivam os sujeitos e que também podem gerar processos de individuação como o «Si-Próprio» enquanto linha de fuga que escapa às Nas modernas sociedades de controlo, que modos de subjectivação ou de existência, podemos inventar perante a expansão dos dispositivos de controlo, do biopoder e das biopolíticas? Haverá possibilidades de linhas de fuga, de novas linhas de subjectivação? Ou será que as actuais sociedades de controlo não permitem linhas de fuga? Ou será que permitem, mas para de imediato absorve-las para o interior da relação de forças dos dispositivos de poder? E que linhas de força de resistência podem os indivíduos criar perante a expansão dos novos controlos tecnológicos e sociais?

Capítulo I - PODERES E MICRO-PODERES

1. As práticas e as análises genealógicas ou críticas

É a partir da publicação da Arqueologia do Saber (1969) que Foucault começa a interessar-se pelo poder na sua relação com o saber, aparecendo explicitamente essas relações de saber-poder no seu livro Vigiar e Punir (1975) que ele considera a primeira

“referência livresca” 1 para a mudança no rumo da sua investigação da arqueologia para a genealogia. (tirar livresca).

Entretanto, entre a publicação dos dois livros atrás mencionados Foucault publica um texto intitulado “Nietzsche, a Genealogia, a História”2 (1971) onde ele se confronta com alguns livros de Nietzsche que colocam em questão a diferença entre a história dos historiadores e a genealogia. Sobretudo o que Foucault procura em Nietzsche é um desafio para pensar o impensável. “Qual o máximo de intensidade filosófica e quais são os efeitos filosóficos actuais que podem ser tirados desses textos? Eis o que era para mim o desafio de Nietzsche.” 3 A tarefa de Foucault é perscrutar a actualidade, é dizer não só o que somos hoje mas também apontar a fractura ou ruptura por onde aparece aquilo que hoje existe e que poderia não existir ou não ser o que hoje é.

O seu objectivo desloca-se para uma genealogia das relações de poder-saber que se opõe à maneira tradicional de fazer história, a chamada história dos historiadores. A filosofia de Nietzsche foi um dos eixos sobre o qual Foucault operou a sua passagem da arqueologia para a genealogia e pode-se encontrar neste texto pistas para o surgimento do emergir da sua pesquisa dos micro-poderes e das micro-relações, que se fará de modo explícito no seu livro Vigiar e Punir. É também a partir das práticas genealógicas – “genealogia significa que encaminho a análise a partir de uma questão actual” 4 – que ele define o acontecimento enquanto irrupção de uma singularidade histórica que conduzirá à actualidade e necessariamente à ontologia crítica do presente com as consequentes acções de resistência por parte do sujeito enquanto faz uso da sua razão. Igualmente, é por esta via genealógica que ele liga a história do pensamento a todos os seus livros pois ele mesmo afirma que aquilo que procura fazer é a “a história das relações que o pensamento mantém com a verdade; a história do pensamento, uma vez que ela é pensamento sobre a verdade.” 5 É também esta pesquisa genealógica que permite a Foucault problematizar as suas questões. Ele mesmo afirma: “A noção que

1 Foucault, Michel, Microfísica do Poder (1979), trad. de Roberto Machado, São Paulo, Edições

Graal, 2007, p. 237 Nota: nesta como nas restantes notas de rodapé em que for citado um livro em edição brasileira o português do Brasil é adaptado ou transcrito para o português de Portugal. 2 Foucault, Michel, Ditos e Escritos, v. I (1994), trad. de Elisa Monteiro, 2ª ed., Rio de Janeiro, Editora

Forense Universitária, 2005, p. 260 3 Idem, p. 322 4 Foucault, Michel, Ditos e Escritos, v. V (1994), trad. de Elisa Monteiro, 2ª ed., Rio de Janeiro, Editora

unifica os estudos que realizei…é a da problematização.” 6 Segundo Foucault problematização “não quer dizer representação de um objecto preexistente, nem tão pouco a criação pelo discurso de um objecto que não existe. É o conjunto das práticas discursivas ou não discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e do falso e o constitui como objecto para o pensamento (seja sob a forma da reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política, etc.).” 7

É através deste conceito de pensamento que Foucault desenvolve o tema da actualidade e pode pensar um acontecimento singular que já aconteceu na história mas que ainda nos atravessa. O pensamento nem é um conjunto de representações nem é um campo de atitudes. O pensamento não é o que dá sentido a uma conduta. O pensamento “é, sobretudo, aquilo que permite tomar uma distância em relação a essa maneira de fazer ou de reagir, e tomá-la como objecto de pensamento e interrogá-la sobre o seu sentido, suas condições e seus fins.” 8 É deste modo que a questão acerca da singularidade histórica, “Was ist Aufklärung?”, surge como problematização e actualidade, pois o pensamento é “o movimento pelo qual dele nos separamos, constituímo-lo como objecto e pensamo-lo como problema.”9 É assim que a problematização das Luzes é colocada hoje, como um acontecimento que ainda nos atravessa, porque este tipo de pesquisa traz até nós a época em que esta questão foi colocada enquanto problematização que não varia cronologicamente e que continua a interpelar o pensamento do homem. Assim a problematização actual de um determinado acontecimento pode acrescentar uma nova solução às diferentes soluções que já decorreram também de uma outra problematização específica numa dada época. Este trabalho do pensamento é uma análise crítica que vai debruçar-se sobre as soluções já apresentadas para o problema e qualquer outra solução que propusesse iria apenas modificar alguns princípios sobre os quais assentavam as soluções já apresentadas. É deste modo que é pensada na actualidade o acontecimento “Was ist Aufklärung” que foi o momento histórico “em que a razão pode aparecer em sua forma “adulta” e “sem tutela”… esse momento em que a razão conquista autonomia.” 10 A filosofia deve interrogar-se sobre este momento histórico, sobre o que é e o que significa o predomínio da razão “no mundo moderno, através dessas três grandes formas: do pensamento científico, do aparato técnico e da organização política” 1 , escreve Foucault citando Kant.

A problematização é assim “um movimento de análise crítica”. 12

Chegamos assim à ontologia crítica da actualidade trazidos pela análise genealógica. As singularidades históricas prolongam-se assim através do modo genealógico na actualidade. A problematização é um exercício crítico do pensamento cujo o objectivo é de problematizar e não de encontrar soluções definitivas para os problemas.

A genealogia recusa as géneses lineares, ordenadas, lógicas pois “o mundo das coisas ditas e desejadas” 13 conheceu “invasões, lutas, rapinas, disfarces, astúcias”.

6 Idem, p. 242 7 Ibid 8 Idem, p. 232 9 Ibid 10 Foucault, Michel, Ditos e Escritos, v. I (1994), trad. de Elisa Monteiro, 2ª ed., Rio de Janeiro, Editora

Forense Universitária, 2005, p. 314 1 Ibid 12 Foucault, Michel, Ditos e Escritos, v. V (1994), trad. de Elisa Monteiro, 2ª ed., Rio de Janeiro, Editora

Forense Universitária, 2006, p. 233 13 Foucault, Michel, Ditos e Escritos, v. I (1994), trad. de Elisa Monteiro, 2ª ed., Rio de Janeiro, Editora

A genealogia age minuciosamente “meticulosa e pacientemente documentária” 15 . O genealogista percebe que “a neutralidade de sentimento ou a objectividade” 16 não deriva de uma origem primeira que deva guiar todas as boas consciências, mas que afinal não é mais do que “filha da educação e do hábito”, 17 isto é, de uma história, onde “por trás da verdade, sempre recente, avara e comedida, há a proliferação milenar dos erros”. 18

O genealogista deve “deter-se nas meticulosidades e nos acasos dos começos” 19 para assim “saber conhecer os acontecimentos da história, seus abalos, suas surpresas, as vacilantes vitórias, as derrotas mal digeridas que dão conta dos começos”. 20

Parafraseando Fernando Pessoa, o mistério das coisas é as coisas não terem mistério nenhum. Assim como o segredo da essência das coisas, é que elas são sem essência. As coisas não têm um segredo essencial nem uma origem sem data, elas irrompem ao longo da história. A genealogia recusa que a procura da origem das coisas seja a procura da sua essência enquanto lugar da verdade. Esta ideia de que para descobrir a verdade é necessário ir à origem é o erro da verdade. A genealogia opõe-se “ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias”, 21 isto é, opõe-se à pesquisa da origem enquanto metafísica. Ela não se opõe à história nem ao sentido histórico, mas sim à pesquisa da origem. Foucault escreve que o sentido histórico quando deixar de se dominar pelo ponto de vista suprahistórico “escapará da metafísica para se tornar o instrumento privilegiado da genealogia se ele não se apoia em nenhum absoluto.” 2

À história tradicional é necessário opor a história efectiva que recusa qualquer ponto de apoio ou de estabilidade e qualquer apreensão da totalidade. É necessário

“reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser” 23 que se opõe ao movimento contínuo da história dos historiadores que a apreendem na sua totalidade, enquanto a história efectiva aniquila toda a estabilidade em que aquela assenta porque “o saber não é feito para compreender; ele é feito para cortar.” 24

A genealogia ao recusar a pesquisa da origem, detém-se “nas meticulosidades e nos acasos dos começos” 25 e dos episódios de onde emergem relações de micro-poderes que se entrecruzam e se enlaçam de modo rizomático e horizontal no quotidiano pelo meio do qual irrompem micro-relações, fora da totalidade fechada e supra-histórica.

Segundo Nietzsche, a genealogia é definida como uma pesquisa da “proveniência” e da “emergência”. Deste modo ele evita e recusa, a busca da origem ou da essência, e o encontro com a metafísica. A pesquisa da proveniência visa “descobrir todas as marcas, subtis, singulares” e diferentes que se entrecruzam num indivíduo e que formam “uma rede difícil de desembaralhar” 26 e que geralmente é apagada pela visão histórica dos historiadores.

Esta rede é formada por poderes e micro-poderes. Pois na raiz do que conhecemos e do

18 Foucault, Michel, Ditos e Escritos, v. I (1994), trad. de Elisa Monteiro, 2ª ed. Rio de Janeiro, Editora

Forense Universitária, 2005, p. 260 14 Ibid 15 Idem, p. 260 16 Nietzsche, Friedrich, Aurora, trad. Rui Magalhães, Porto, Editora Rés, s/data, p. 73 17 Ibid

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