Desenvolvimento da blogosfera no Brasil

Desenvolvimento da blogosfera no Brasil

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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Vitória, ES – 13 a 15 de maio de 2010

Marcos e diferenças: comparando o desenvolvimento da blogosfera nos Estados Unidos e no Brasil 1

Guilherme FELITTI2 Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, SP

RESUMO A popularização dos blogs do seu surgimento em 1996 até os dias de hoje, atraindo perfis de usuários além dos entusiastas e profissionais de tecnologia, nos apresenta novos tipos de aplicações da plataforma que extrapolam as definições iniciais de filtros de links ou diários pessoais na internet. Este artigo desfiará o histórico da blogosfera nos Estados Unidos, intercalado com detalhes do desenvolvimento do fenômeno no Brasil, mostrando como a adoção brasileira é consequência direta do movimento norteamericano. A comparação será dividida em três categorias: Pioneiros, Ferramentas e Visibilidade.

PALAVRAS-CHAVE: blog; blog no Brasil; blogosfera; história da internet.

Introdução Antes de começarmos a detalhar o desenvolvimento da blogosfera no Brasil, traçando comparações com o fenômeno nos Estados Unidos e indicando semelhanças e disparidades, precisamos rever como se deu o desenvolvimento das primeiras comunidades digitais no país. Para tanto, precisaremos rememorar como a internet começou no Brasil.

A primeira conexão de internet no Brasil foi realizada em setembro de 1988, quando o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), ligado ao Centro Nacional de Pesquisas (CNPq), conectou-se ao sistema de mensagens Bitnet (sigla para Because is Time to Network - “já que é tempo para se conectar”, em tradução livre do inglês), operado pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Um ano antes, uma reunião na Universidade de São Paulo, envolvendo outros centros de pesquisa espalhados pelo Brasil, discutiu a implementação de uma rede nacional para troca de informações acadêmicas.

Nos anos seguintes, a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), criada em setembro de 1989, seria responsável não apenas pela parte técnica, coordenando a instalação da estrutura necessária e distribuindo pontos de acesso a universidades, mas também pela evangelização de centros de pesquisa e pesquisadores sobre os benefícios da internet,

1Trabalho apresentado no GP Conteúdos Digitais e Convergências Tecnológicas (DT5 - Multimídia) no XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste. 2 Mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP. Email: gfelitti@gmail.com.

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XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Vitória, ES – 13 a 15 de maio de 2010 como esclarece Vieira (2003, p.9). Em 1992, a rede montada pelo órgão já interconectava institutos em Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

O aumento na procura (principalmente longe das universidades) se alinhou à política de privatização do então nascente governo Fernando Henrique Cardoso para que a Embratel perdesse o monopólio no acesso comercial à internet. Parte da Telebrás, a Embratel já dava os primeiros passos no acesso comercial à internet antes mesmo da posse de Cardoso – em 20 de dezembro de 1994, o provedor lançou o Serviço Internet Comercial em caráter experimental até abril do ano seguinte.

A quebra no monopólio estatal nas telecomunicações brasileiras, aprovado em 15 de agosto de 1995, permitiu o florescimento de um mercado rico de provedores de internet. A Embratel continuava a operar a infraestrutura para as conexões, mas seus clientes agora seriam os provedores de acesso. A variedade de planos disponíveis a qualquer usuário, aliado ao novo posicionamento da RNP para prover infraestrutura fora do ambiente acadêmico, deu o empurrão inicial necessário para a internet comercial no Brasil.

Sem qualquer surpresa, a primeira comunidade virtual estabelecida no Brasil nasceu dentro da academia - em 21 de agosto 1990, o engenheiro Demi Getschko e o químico Francisco Antonio Doria criaram um grupo dentro da Bitnet para discutir ópera em inglês, chamado Opera-L.

No consequente desenvolvimento da internet comercial registrado nos anos seguintes no Brasil, destacam-se dois tipos de comunidades digitais adotadas pelos brasileiros: os BBS (Bulletin Board System, ou “sistema de quadro de avisos”, em tradução livre para o português), que têm como pioneiro e principal exemplo o engenheiro Aleksandar Mandic, cujo MANDIC BBS atingiu 70 mil usuários no ápice em 1998; e as salas de chat, bastante populares entre os portais, como o UOL, o BOL (inaugurados em abril de 1996 e com operações congregadas em setembro do mesmo ano), o ZAZ (nascido em dezembro de 1996 da parceria entre o grupo de mídia RBS e a empresa de softwares NutecNet) e o iG (lançado em janeiro de 2000 por iniciativa dos fundos GP Investimentos e Banco Opportunity).

Pioneiros

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Segundo Rosenberg (2009, p.27), o blog nasceu em janeiro de 1996, quando o então estudante norte-americano Justin Hall aceitou o desafio de amigos e resolveu publicar com frequência diária novos conteúdos (links e informações pessoais, majoritariamente) dispostos de maneira cronológica reversa em seu Justin's Links from the Underground3.O primeiro post de Hall dava indícios da frequência com a qual a ferramenta seria usada: “pensamentos diários, uma noção útil […], parece uma boa ideia para mim, acho que terei algo novo no topo do w.links.net todo dia.” (HALL, 1996).4 A questão, no entanto, é polêmica, já que o próprio Justin admite que seu blog foi inspirado por outro site de atualizações constantes em ordem reversa, o Ranjit's HTTP playground,5 em que o engenheiro de som Ranjit Bhatnagar registrava informações diárias como suas refeições.

Por mais que Hall seja descrito como fundador do blog pessoal pelo New York

Times ou Dave Winer, criador de um blog para o 24 Hours of Democracy Project em fevereiro de 1996, se apresente como o responsável “que detonou a revolução dos blogs”6, não foi nenhum deles o responsável por cunhar o termo “blog”. Em dezembro de 1997, o termo que denominaria a ferramenta apareceria pela primeira vez no seu formato original. Jorn Barger criou o termo “weblog” como junção das palavras web e log (ou registro) para o seu Robot Wisdom, algo que denominava o conjunto de links publicados pelo programador ao encontrar conteúdos interessantes ao navegar.

Quase dois anos depois, “weblog” foi abreviado e se tornou o “blog” usado hoje.

A abreviação veio pelas mãos de Peter Merholz, que, brincando com o termo, acabou transformando “weblog” em “we blog”, algo como “nós blogamos”, em tradução livre para o português. “Eu decidi pronunciar a palavra 'weblog' como 'wee-blog', ou 'blog', para abreviar”, afirmava Merholz em seu blog em outubro de 1999.7 O termo foi usado, pela primeira vez no Peterme.com e, consequentemente, na blogosfera de maneira geral.

Dois anos após Justin Hall publicar o primeiro post no seu Links from the

Underground, a gaúcha Viviane Vaz de Menezes, então com 17 anos, estreou uma versão digital do seu diário, chamado de Delights to Cheer, “entre a última semana de janeiro [e a] primeira semana de fevereiro de 1998”. O primeiro post, de tom altamente

5 http://www.moonmilk.com/previous/playground.html

6 http://www.webword.com/interviews/barger.html 7 http://web.archive.org/web/19991013021124/http://peterme.com/index.html.

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XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Vitória, ES – 13 a 15 de maio de 2010 confessional, seguiu à risca a maneira como outros blogiros, que ainda não se designavam assim, publicavam seus textos: editando as páginas que seriam postas online diretamente no HTML. Em entrevista ao autor, Viviane rememora a parte técnica do processo, que exigia trabalhosa dedicação para que o post estivesse pronto para ser publicado.

Na época haviam muitos 'journals', diários mesmo, online, estrangeiros. Eu já tinha um desses desde início de 1997. As atualizações eram quase diárias, longos textos, praticamente uma vez por dia, atualização manual mesmo, criar páginas HTML, adicionar links pro dia anterior e seguinte e tal. Havia uma comunidade grande lá fora. Quando surgiu o sistema de weblogs, as pessoas passaram a fazer tudo de forma automática e muitas vezes por dia e havia uma moça de Seattle que me inspirou muito, Zannah. (MENEZES, 2009)

O problema é que Viviane pode ser considerada a primeira blogira brasileira, mas não pode assumir o posto de responsável pelo primeiro blog em português - até o ano seguinte, todos seus posts no Delights to Cheer eram em inglês. Em março, no entanto, o Brasil ganhou seu primeiro blog escrito em português. O responsável foi Renato Pedroso Junior, que assumiu a persona online de Nemo Nox (“ninguém” e “noite” em latim, respectivamente), e, em 31 de março daquele ano, iniciou seu Diário da Megalópole citando trechos de músicas de Frank Sinatra e Caetano Veloso para comentar sua mudança de Santos, onde nasceu, para São Paulo.

Nascido como “um espaço mais descompromissado para contar as minhas descobertas na cidade”,8 o Diário enfrentava a mesma rotina trabalhosa que Viviane e outros blogiros pioneiros tinham na hora da publicação dos posts com formatação de páginas em HTML, e durou oito meses.9 Atualmente, tanto Viviane quanto Renato mantêm blogs atualizados com frequência, embora nenhum deles mantenha ativo aqueles onde começaram a escrever. Viviane é responsável pelo nakanaide.net, enquanto Renato mantém o Por um Punhado de Pixels, ganhador do prêmio de melhor blog do planeta em 2004 pelo júri popular do The Best Of the Blogs (BOBs), concurso promovido pelo conglomerado de mídia alemão Deutsche Welle. Vale observar como todos os pioneiros citados aqui têm relações com o mercado

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Vitória, ES – 13 a 15 de maio de 2010 de tecnologia, reiterando o processo histórico de apropriação da ferramenta blog por entusiastas antes da sua popularização entre usuários sem conhecimentos técnicos. Justin trabalha na desenvolvedora de games GameLayers; Winner já foi editor da revista Wired e é o criador do padrão de sindicalização de conteúdo RSS 2.0; Jorn Barger pesquisou inteligência artificial na Universidade de Northwestern e é usuário voraz de canais da Usenet; Peter Merholz fundou a Adaptive Path, empresa especializada em interfaces de programação; Viviane se transformou em webdesigner; e Renato, até agosto de 2009, ocupava o cargo de diretor de experiência interativa da Case Foundation, nos Estados Unidos.

Ferramentas O envolvimento dos pioneiros com tecnologia não é aleatório: a apropriação da ferramenta por um público mais amplo foi a grande responsável para que se registrasse a ascensão de diferentes conteúdos que tirassem da plataforma a imagem restritiva de filtro de links e, posteriormente, diário pessoal.

Serviços como o Blogger automatizavam suficientemente processos de publicação para que a atividade não se restringisse apenas aos que dominavam linguagens de programação, como o HTML. Os primeiros dias da blogosfera foram possíveis pela publicação de novas páginas para cada post, formatadas direto do HTML para que links fossem integrados, interfaces fossem editadas e efeitos básicos incluídos.

O primeiro serviço que apresentou algumas das ferramentas que seriam tomadas como padrão em plataformas de blogs foi a Open Diary, lançada em outubro de 1998 pelo desenvolvedor Bruce Ableson. Inovações incluiriam a organização retroativa de novos conteúdos, a capacidade de leitores poderem publicar comentários sobre o texto postado e uma lista chamada Favoritesi onde as atualizações mais recentes de amigos do blogiros eram mostradas ordenadas cronologicamente.

Em janeiro de 1999, a Pyra Labs lança no mercado o serviço online para blogs

Blogger,, com ferramentas que facilitavam a definição da lista de contatos, também chamada de blogroll, o link permanente para cada uma das postagens, a capacidade de alterar o visual do blog e o acesso ao HTML das páginas. O Blogger seria comprado quatro anos depois pelo Google, que o transformaria na sua plataforma oficial de blogs e o integraria a outros de seus produtos, como a plataforma de publicidade AdSense e o serviço online de fotos Picasa.

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A popularização do Blogger ajudou também a fazer com que o termo “blog” fosse melhor aceito e mais usado. E-mails trocados10 por Barger, responsável por cunhar o termo “weblog” e Meg Hourihan, cocriadora do Blogger, apontam que foi ideia do outro cocriador, Evan Williams, substituir todas as menções à mídia de “weblog” para “blog” dentro do serviço, dos botões de formatações às explicações básicas.

Nos quatro anos seguintes, vimos uma série de outras opções surgindo no mercado de softwares para blogs, como LiveJournal (outubro de 1999),1 Xanga (novembro de 2000), Movable Type (fevereiro de 2001),12 e b2 (junho de 2001).13. Em maio de 2003, a Automattic divulga a primeira versão do WordPress, plataforma de blog aberta feita a partir do código-fonte da plataforma b2/cafelog.

A abertura do WordPress permitia que a ferramenta fosse adaptada de maneira mais simples para diferentes usos, seja pela capacidade de alterar os arquivos oferecidos pela Automattic como pela integração de plug-ins. No caminho contrário ao trilhado pelos blogiros na década de 1990, esta abertura permitiu que muitos webmasters transformassem uma ferramenta originalmente concebida para gerenciar posts em um sistema de publicação de conteúdo (conhecida também tecnicamente como CMS) usada em sites ou portais.

No Brasil, vemos um caminho diferente, centrado principalmente na atuação dos portais. Não que faltassem ferramentas independentes para blogs: o problema era sustentá-las financeiramente a partir de um certo ponto de adoção. Exemplo disso é o Desembucha, criado em maio de 2001. Primeiro serviço de blogs criado genuinamente no país, o Desembucha saiu do ar cinco meses depois pelo excesso de procura dos brasileiros em contraste com a falta de investimento necessário para que o serviço despontasse.

Segundo seu cofundador, Gustavo Coelho, o Desembucha nasceu pela vontade de criar blogs sem que a exigência de reprodução de publicidade pelo Blogger o agradasse. Explorando a infraestrutura do buscador focado em turismo Te encontro pelo mundo, Coelho investiu apenas o registro de domínio, o plano de hospedagem padrão e seu tempo livre para criar a ferramenta.

10 http://listserv.linguistlist.org/cgi-bin/wa?A2=ind0804C&L=ADS-L&P=R16795&I=-3
13 http://cafelog.com/index.php?m=200106

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A idéia original não era criar uma ferramenta para ser usada em âmbito nacional. Embora a divulgação “boca-a-boca” tenha sido importante no início, acredito que o boom dos acessos ocorreu quando algumas publicações começaram a falar de blogs (ou “diários virtuais”, como gostavam de chamar na época), e citaram o desembucha.com. (COELHO, 2009).

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