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Diagnóstico Sobre a Cadeia Produtiva de Carvão Vegetal e Lenha do Estado de São Paulo

Sindicato do Comércio Varejista de Carvão Vegetal e Lenha do Estado de São Paulo - SINCAL

Federação e Centro do Comércio do Estado de São Paulo - FCESP Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo – SEBRAE-SP

São Paulo, Setembro de 2000

Na cadeia produtiva de carvão vegetal ainda existem muitas incertezas e questões mal resolvidas que dão margem à hesitação ou mesmo perplexidade, face às dificuldades para explica-las e soluciona-las. É uma excelente oportunidade de trabalho para quem aprecia bons desafios. J. O. Brito, 2000.

O Estado de São Paulo possui 16 % do seu território coberto por florestas nativas e florestas plantadas com pinus e eucalipto, ocupando cerca de 900 mil hectares. As florestas plantadas permitem a colheita anual de 20 milhões de metros cúbicos estéreos de madeira, onde são gerados 50 mil empregos e mais de US$ 200 milhões de faturamento anual, posicionando a madeira como o 7o. produto, em valor, da agricultura paulista (Fundo Florestar, 2000).

Cerca de 14 milhões de metros cúbicos estéreos são anualmente destinados às industrias de celulose e papel e de chapas, oriundas sobretudo de eucalipto, resultando na geração de 35 mil empregos diretos. Pelo exposto, o volume anual total de madeira plantada e destinada a outros fins, corresponderia a 6 milhões de metros cúbicos estéreos, incluindo o volume destinado à lenha e à produção de carvão vegetal.

Sabe-se que os segmentos de celulose e papel e de chapas de madeira são constituídos por empresas de grande porte, devidamente estruturadas, com forte presença de conceitos organizacionais, empresariais e tecnológicos. Além disso, tais segmentos têm sido alvo de importantes e freqüentes apoios institucionais. Comparativamente, o setor de lenha e de carvão vegetal apresenta uma situação completamente oposta. Isso se reflete pela dificuldade de se obter informações e dados detalhados e precisos sobre esta cadeia produtiva, o que explicaria, inclusive, a ausência de definições políticas e/ou estratégias para o setor.

Diante de tais circunstâncias, o SINCAL, Sindicato do Comércio Varejista de Carvão

Vegetal e Lenha do Estado de São Paulo, no seu papel de traduzir as demandas e anseios dos componentes do setor, tomou a iniciativa de realizar gestões junto aos órgãos competentes, na busca de apoio para a elaboração de um diagnóstico sobre a cadeia produtiva de lenha e carvão vegetal. Tal diagnóstico se constitui num forte elemento para a proposição de ações visando, não somente a melhoria do setor, mas a garantia da sobrevivência das empresas a ele vinculadas.

Foi graças a isso que, com a participação da CCESP, Centro do Comércio do Estado de São

Paulo, e o apoio do SEBRAE-SP, Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo, foi instituído o Programa de Qualificação e Certificação da Industrialização de Carvão Vegetal no Estado de São Paulo. O presente relatório refere-se à este Programa, e traz os resultados de um diagnóstico realizado para identificação cadastral das empresas e avaliação do perfil do setor.

O estudo foi conduzido no período de novembro de 1999 a julho de 2000, com dados e informações coletadas diretamente no campo, abrangendo praticamente todo o Estado de São Paulo. A formatação inicial e a condução dos primeiros meses do diagnóstico foram coordenadas por equipe própria do SINCAL. Posteriormente, esta coordenação foi transferida à ao Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais, IPEF, junto à Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, ESALQ/USP, que reorganizou a proposta de estudo e deu continuidade aos trabalhos, ocupando-se da orientação na obtenção e tratamento de dados e informações e a confecção do relatório final.

2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS DO DIAGNÓSTICO 2.1. Cadastro das empresas

Cadastrar o maior número possível de empresas vinculadas à cadeia produtiva, compreendendo: tipo de empresa; razão social; CNPJ; registro no IBAMA; referências de endereços e contatos; zona de localização (rural ou urbana); nome do proprietário; data de início das atividades, etc.

2.2. Perfil do setor

Traçar o perfil dos produtores e distribuidores, compreendendo informações sobre: matériaprima; tecnologia e infra-estrutura utilizada; mão-de-obra; aspectos quantitativos e qualitativos da produção e comercialização; aspectos ambientais; potencial de crescimento e de evolução da atividade, disposição pela adesão à uma proposta de desenvolvimento estratégico para o setor; sobretudo vinculado a um processo de certificação; conhecimentos sobre o SEBRAE, SINCAL, etc.

3. METODOLOGIA

A base do estudo foi a proposta encaminhada pela CCESP/SINCAL ao SEBRAE-SP, intitulada “Programa de Qualificação e Certificação da Industrialização e Comercialização de Carvão Vegetal e Lenha no Estado de São Paulo”, que previa a realização de um “Diagnóstico Sobre o Segmento de Carvão Vegetal e Lenha das Principais Regiões Produtoras do Estado de São Paulo.”

O principal alvo do estudo foi o carvão vegetal e, inicialmente, se lançou mão dos cadastros de produtores e comerciantes oferecidas pelo CCESP/SINCAL (cadastros próprios e cadastro IBAMA). Devido à forte desatualização destes, optou-se em seguida pelo uso de referências obtidas por meio de contatos locais da equipe de campo junto a produtores, comerciantes e entidades afins em cada região do estado.

A busca e a coleta de informações sobre lenha foram processadas de forma complementar e na esteira do diagnóstico sobre o carvão vegetal. Nesse caso, a amostragem foi conduzida no universo e nos limites atribuídos ao estudo sobre o carvão vegetal.

A categorização das empresas foi realizada tendo como referência as seguintes identificações:

(A) Produtor de carvão vegetal: participante da cadeia que comercializa o carvão vegetal produzido por sua própria empresa.

(B) Distribuidor de carvão vegetal: participante da cadeia que se ocupa unicamente da comercialização do carvão vegetal de terceiros, não mantendo nenhuma atividade vinculada à sua produção.

5 (C) Distribuidor de lenha: participante da cadeia que, possuindo ou não área florestal própria, tem sua atividade vinculada à comercialização de lenha.

(X) Empresa inativa ou não encontrada.

Para efeito da confecção das listas cadastrais das empresas considerou-se a existência de empresas cujo posicionamento poderia ser enquadrado em mais de uma dessas categorias.

Para registro de dados e informações do diagnóstico foi adotada a divisão do Estado de São

Paulo em regiões agrícolas, conforme proposta da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral - CATI, Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (Figura 01).

Figura 01 – Mapa do Estado de São Paulo com as regiões abrangidas pelo diagnóstico

O diagnóstico contou com uma equipe de campo composta de 15 técnicos de nível superior, que realizou consultas diretamente junto às empresas da cadeia produtiva, mediante a aplicação de formulários específicos.

Um dos desafios do estudo foi a não existência de modelos de diagnóstico anteriormente testados, que pudessem ser usados como referência, e que fornecessem indicações mínimas, por exemplo, sobre a receptividade junto às empresas e a eficácia da coleta das informações. Desse modo, houve a necessidade de ajustes nos procedimentos e nos formulários, principalmente na fase

6 inicial dos trabalhos, sem que houvesse, no entanto, perda de consistência e uniformidade das informações e dados coletados.

Face ao pioneirismo do estudo, procurou-se realizar uma abordagem dos tópicos, de forma bem ampla, com a preocupação de que os formulários fossem aplicados no menor tempo possível e de modo a evitar subjetivismos de interpretações. Priorizou-se também a captação de dados e informações que pudessem ser traduzidos para a forma numérica.

A aplicação da maior parte dos formulários foi realizada no período de março à junho de 2000. Os resultados foram entregues mensalmente pelos técnicos de campo, em reuniões com a participação de toda a equipe do projeto, visando a discussão e a contabilização das experiências e o contínuo aperfeiçoamento do processo.

3. RESULTADOS 3.1. Cadastros das empresas

O diagnóstico permitiu a contabilização de 1831 cadastros, levando-se em conta a categorização das empresas ligadas à cadeia de carvão vegetal e lenha. Tais cadastros são apresentados em relatórios complementares específicos.

3.2. Carvão vegetal

Um total de 781 empresas vinculadas ao carvão vegetal, divididas em 537 de produtores e 244 de distribuidores, permitiu a obtenção de informações mínimas necessárias para a tentativa de caracterização do perfil da cadeia produtiva de carvão vegetal no Estado de São Paulo. As informações básicas obtidas junto à essas empresas são apresentadas nos quadros de 01 a 21.

7 Quadro 01 – Informações básicas obtidas junto às empresas amostradas

* Empresas que dispuseram informações

Quadro 02 – Capacidade máxima instalada junto às empresas amostradas

No. de fornos disponíveis4.453 Capacidade máxima instalada para produção de carvão vegetal (ton/mês)15.393

Quadro 03 – Consumo de matéria-prima para produção de carvão vegetal por tipo de madeira

Produtor Distribuidor Total

No. de empresas*

ValorNo. de empresas*

ValorNo. de empresas* Valor

Carvão disponibilizado -

Faturamento -

Número de

Mão-de-obra -

Procedência da mão-de-obra: - própria

Renda m. obra -

Empresas registradas no

- rural
- urbana5375374528524424467177781781519

Localização das empresas: 262

Tipo de matéria-primaEstéreos/mês Lenha na forma de madeira roliça de florestas de Eucalipto62.265 Lenha na forma de madeira roliça de florestas de Pinus3.414 Lenha na forma de madeira roliça de florestas nativas540 Resíduos da exploração de florestas de Eucalipto4.463 Resíduos da exploração florestas de Pinus450 Resíduos de serraria de Eucalipto1.564 Resíduos de serraria de Pinus9.094 Total 81.820

Quadro 04 – Outras informações sobre matéria-prima

ItemNo. de empresas* Valor

Raio médio de transporte da matéria-prima – km: - matéria-prima própria

- matéria-prima própria/terceiros

- matéria-prima de terceiros

Matéria-prima em função da posse da floresta – estéreo/mês: - matéria-prima própria

- matéria-prima própria/terceiros

- matéria-prima de terceiros

Custo médio de aquisição da matéria-prima (R$/estéreo): - Lenha de eucalipto

- Lenha de pinus

- Lenha de nativas

- Resíduo florestal de eucalipto

- Resíduo de serraria de eucalipto

- Resíduo de serraria de pinus

Proprietários com interesse na ampliação da área florestal própria7758 * Empresas que dispuseram informações

Quadro 05 – Informações sobre fornos de carbonização*

Tipo de fornoNo. de fornosTempo médio decarbonização (dias) No. de fornadas/mês

Total 4.453 - - * Aproximadamente 400 empresas que dispuseram informações

Quadro 06 – Número de citações realizadas pelos distribuidores, quanto à procedência de carvão vegetal importado de outros estados

Estado MunicípiosTotal de citações

MSÁguas Claras, Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Naviraí126 PRSenges, Bitiruna, Jaguaraíva18 MG Curvelo 1 ROColorado do Oeste1 MT Pamanhas 1 SCCaçador, Calmon3 GO Ipameri, Cristalina 2 BATeixeira de Freitas1 Total 152

Quadro 07 – Preços de comercialização e distâncias praticadas para entrega do produto

R$/ton Km

Produto Valormínimo Valormédio Valor máximo Valormínimo Valormédio Valor máximo

Quadro 08 – Destino do produto

(%)Produto Consumo próprio Atacado Varejo Descarte Finos ou moinha13,519,23,763,6 Carvão “bitolado” 6,2 37,3 56,5 -

Quadro 09 – Destino do carvão por tipo de consumidor

ConsumidorNo de Empresas*% Açougue 401 23,7

* Empresas que dispuseram informações ** Bares, padarias, mercearias, quitandas, depósitos, empacotadores, etc.

Quadro 10 – Dados complementares sobre a mão-de-obra

*Empresas que dispuseram informações

Produtor Distribuidor

AspectoNo. de empresas*

ValorNo. de empresas* Valor

10 Quadro 1 – Condições de moradia da mão-de-obra

* Empresas que dispuseram informações

Quadro 12 – Condições de infra-estrutura e equipamentos

Produtor Distribuidor

AspectoNo. de

Empresas*

Inadequado ou inexistenteNo. de empresas*

Inadequado ou inexistente

Instalação sanitária 510 133 237 27 * Empresas que dispuseram informações

Quadro 13 – Condições do meio ambiente

Produtor Distribuidor

AspectoNo. de

Empresas*

No. de empresas não-conformesNo. de empresas*

No. de empresas não-conformes

Cuidados com Áreas de

Cuidados com recursoshídricos32548227 * Empresas que dispuseram informações

Produtor Distribuidor

AspectoNo. de empresas*

ValorNo. de empresas* Valor

1 Quadro 14 - Principais fornecedores de embalagens para carvão vegetal

Quadro 15 – Tipos de embalagens usadas para o carvão vegetal

Tipo de embalagemNo. de empresas*% de utilização Papel 531 63,9

Total 831 100,0 * Empresas que dispuseram informações

Quadro 16 – Índice de relevância de parâmetros na comercialização do carvão vegetal

* Empresas que dispuseram informações

Fornecedores de embalagensNo. de empresas que utilizam%

Dicopel – São Paulo/SP7422,0 Sacotem – Penápolis/SP5215,5 Campel – Cambé/PR4413,1 Cipapel – Itararé/SP278,0 Pafibra – São Paulo175,1 Vetorpel – Guarulhos/SP175,1 Preferida – Santa do Parnaíba/SP154,5 Sampapel – Guarulhos/SP144,2 Embal.Santo Amaro – Sto. Amaro/SP144,2 PPE Embalagens – São Paulo61,8 Outras 56 16,7 Total 336 100

12 Quadro 17 – Aspectos estratégicos e interesses institucionais

InstituiçõesTotal Empresas*Sim (%)Não (%) Conhece o SINCAL78835,764,3 Conhece o SEBRAE81264,036,0 Acredita na Certificação77970,329,7

Participaria de cooperativa75871,128,9 Acredita na Organização do

Total 770 63,4 36,6 * Empresas que dispuseram informações

Quadro 18 - As dez principais regiões vinculadas ao carvão vegetal no E. S. Paulo

Quadro 19 – Capacidade ociosa de produção de carvão vegetal das empresas amostradas

Item ton/mês Capacidade instalada 15.586 Produção atual9.030 Capacidade ociosa 6.556

Quadro 20 – Capacidade de absorção de mão-de-obra pela capacidade ociosa de produção de carvão vegetal das empresas amostradas

Quadro 21 – Suposições de demanda envolvendo a madeira de eucalipto para produção de carvão vegetal

* Com base numa capacidade mensal indicada na Tabela 03 ** 1 ton de carvão vegetal = 9,06 estéreos de madeira de eucalipto

*** 1 hectare de floresta de eucalipto = 175 estéreos de madeira, cortada aos 5 anos

ItemNo. de pessoas Mão-de-obra potencial 3.728 Mão-de-obra atual 2.187

Mão-de-obra poten cialmente absorvível 1.541

Capacidade ociosa de produção de carvão – ton/ano*78.672 Volume necessário de madeira – estéreos/ano**712.768 Área anual de floresta submetida à colheita – ha***4.073 Área florestal necessária para auto-sutentação20.365

14 3.2.1. Distribuição das empresas e responsabilidade pela alocação da produção

Há predomínio de empresas que trabalham diretamente com a produção do carvão vegetal, sendo que grande parte delas está colocando seus produtos diretamente nos pontos de varejo, dispensando a ação de intermediários. Diante do quadro, as ações estratégias na cadeia produtiva devem ser priorizadas junto aos produtores de carvão vegetal. Não pode ser esquecida, porém, a necessidade de um trabalho de valorização das atividades das empresas distribuidoras, no sentido de se evitar a sua mortalidade.

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