Celebração do Dia dos Mortos no México

Celebração do Dia dos Mortos no México

CELEBRAÇÃO DO DIA DOS MORTOS NO MÉXICO

Elaynne Kate Luz de Moura*

RESUMO
O presente artigo analisa a celebração anual do dia dos mortos no México e propõe uma investigação sobre a origem de uma peculiar característica dentro desta cultura: o gosto por festejar a morte. Partindo de uma apresentação conceitual sobre a festa, seus elementos centrais e simbologia, e adentrando posteriormente à temática dualista praticada pelos antigos mexicanos; o estudo chegará à conclusão de que longe de ser uma veneração pura e simples aos mortos ou a morte, o que o mexicano festeja em essência, é o orgulho ante sua identidade cultural, o valor e a memória dos seus antepassados, cuidadosamente ensinados e repassados ao longo das gerações.

Palavras-chave: Cultura mexicana. Dia dos mortos. Festa.

RESUMEN
El presente trabajo analiza la celebración anual del día de los muertos en México y propone una investigación sobre el origen de un rasgo diferenciado practicado en esta cultura: el regocijo por celebrar la muerte. Partiendo de una presentación conceptual sobre la fiesta, sus elementos centrales y simbología, siguiendo el análisis del culto dualista manifiesto por los antiguos mexicanos; el estudio convergirá a la conclusión que esta celebración, no se trata de una veneración desorientada, sino representa en si, el contentamiento que expresa el mexicano ante su identidad cultural, su anhelo de perpetuar a lo largo de las generaciones, las memorias y tradiciones de sus antepasados.

Palabras clave: Cultura mexicana. Día de los muertos. Fiesta.

A cada ano o ritual se repete. Crianças, jovens e adultos mexicanos, reunidos em família, saem de suas casas e vão literalmente ao encontro de seus mortos. É a celebração do dia dos mortos no México, uma festa que identifica traços marcantes da cultura deste povo, revelando um peculiar sentimento: o gosto por festejar a morte. Mas, de onde vem esta motivação? Por que uma data que para muitos remete à tristeza ou mesmo ao sofrimento, ganha este sentido de comemoração na cultura mexicana? Será que não existe medo ou receio ante a morte?
A resposta para estes e outros questionamentos corresponde objeto de análise do presente estudo, o qual pretende investigar a origem do culto festivo aos mortos no México, bem como sua motivação nos dias atuais.

Como parte do sentir mexicano ante a morte escreveu o poeta Octavio Paz:

Para el habitante de Nueva Iorque, París o Londres, la muerte es palabra que jamás se pronuncia porque quema los labios. El mexicano, en cambio, la frecuenta, la burla, la acaricia, duerme con ella, la festeja, es uno de sus juguetes favoritos y su amor más permanente. (PAZ, 1950, p. 21)

Sendo assim, a celebração do dia dos mortos, faz parte do calendário anual mexicano e desde 2003 foi declarada pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Acontece nos dias 01 e 02 do mês de novembro e representa uma das festas mais tradicionais do país.

La Fiesta de Muertos en México fue declarada PATRIMONIO INTANGIBLE DE LA HUMANIDAD POR LA UNESCO EN EL AÑO 2003. La huesuda nos acompaña todos los días y nosotros la festejamos burlándonos de ella dedicándole las famosas “calaveras”, chistes, refranes, poemas, etc. (http://vive.guadalajara.gob.mx/diademuertos/)

No período que antecede esta comemoração já se torna evidente o clima festivo por todas as partes. O comércio se aquece, a alegria é evidenciada nos mercados, que por sua vez oferecem uma variedade de produtos e utensílios da festa mortuária. Papel picado, flores, variados condimentos e bebidas são cuidadosamente adquiridos com o intuito de recepcionar da melhor forma os tão esperados visitantes.

Reza a crença, que nesta época os mortos regressam às suas casas para visitar seus familiares, desfrutar sua companhia e serem alimentados. Sendo assim, os mexicanos aproveitam este tempo não só para honrar seus falecidos, como também para festejar o momento com muita música, alegria, comidas, bebidas e não raro, muitos excessos. Toda essa visitação e festejo é praticado basicamente por meio de dois ritos centrais (vigília e oferendas), que se constituem a expressão máxima de honra as mortos.

Según la creencia, los primeros días del mes de noviembre, tienen permiso de volver las almas a la tierra, algunos sin su consentimiento: los muertos regresan a compartir sus recuerdos, gustos y momentos gratos con los vivos que les servimos como anfitriones, arreglando un altar de Muertos que será su hogar, con vestido de papel picado en colores morado, rosa, blanco, envuelto en luz de las velas, con las viandas que le gustaban al difunto, música, flores, pan de muerto, calaveritas de azúcar, ceniza, agua, etc. (http://vive.guadalajara.gob.mx/diademuertos/)

VIGÍLIA OU VELAÇÃO NOS CEMITÉRIOS

Manda a tradição que na véspera dos dias 01 e 02, as famílias se reúnam em vigília nos cemitérios e ali revivam as memórias de seus entes falecidos, até sua chegada. O primeiro dia é dedicado aos mortos pequenos ou “angelitos”, sendo comum a presença de crianças, que mesmo em tenra idade já manifestam o desejo de honrar seus mortos. No segundo dia, os adultos mantêm a vigília e depois retornam à suas casas, para ali confraternizar-se com os visitantes.

A ornamentação é sempre detalhada e colorida, com a utilização de muitas flores e velas, adornando as tumbas. Em algumas regiões do país, existe o costume de se levar comida ao cemitério como oferenda ao morto. Esse momento de muita emoção e alegria é acompanhado de músicas e cantos.

Abaixo, figura de um cemitério mexicano em noite de vigília:

Disponível em: <http://www.diademuertos.com/FotosVelacionNoche.html>. Acesso em: 20 abr. 2008.

OFERENDAS OU ALTAR DOS MORTOS

Acredita-se que um dos motivos pelo qual o morto regressa, é para ser alimentado. Desta forma, o ente vivo procura agradar-lhe confeccionando um altar de oferendas, com as comidas e bebidas que seu falecido mais gostava em vida.

Las personas que mueren no se van definitivamente, su alma sigue presente, principalmente en los días de muertos, en que regresan a sus casas para "saborear" los platillos que sus parientes les han preparado. Los fieles difuntos arriban a su cita anual con familiares y amigos, para ser honrados después de haber recorrido el camino que una vez se los llevó. (http://www.yucatan.com.mx/especiales/muertos/hanal.asp)

O altar é preparado conforme as condições econômicas de cada família que, mesmo não sendo abastada, tem a preocupação de selecionar os melhores produtos, e oferecer os melhores aromas ao seu falecido.

É comum além das comidas e bebidas, a utilização de fotografias, velas, muitas flores de “tzempaxuchitl” ou flor de morto como é chamada, água, círios, etc., além de outros pratos característicos da culinária fúnebre. Exemplo são as “calaveritas de azúcar”, “pan de muerto”, “ataúdes de chocolate”; doces e pães de açúcar ou chocolate, sempre em forma de caveira, crânios, osso ou caixões, muito comercializados na época.

Algunos objetos decorativos como: las flores de "Tzempaxuchitl", calaveritas de azúcar y el Pan de Muerto; son parte de la tradición antigua.También el copal y el incienso de olor penetrante que invaden el aire le dan un olor más místico, más pagano o misterioso haciéndonos creer que realmente los muertos pueden venir. Ya en la noche, las velas, los cirios o las veladoras son encendidas en espera del ser querido que vendrá a visitarnos. (http://www.acabtu.com.mx/diademuertos/altar.html)

É importante ressaltar que cada elemento do altar tem uma simbologia, a qual é perfeitamente compreendida pelo morto. A sintonia é tamanha, que no estado de Oaxaca, sudeste do México, onde a concentração indígena é uma das maiores do país, acredita-se que, neste período os mortos encarnam em certos bichos, os quais pousam ou sobrevoam sobre os altares alimentando-se do aroma, sendo proibida, portanto sua matança. Abaixo, figura de um altar de oferendas:

Disponível em: <http://www.pijijiapan.net/index.php?blog=2&s=nuestras+tradiciones >. Acesso em: 20 abr. 2008.

Como parte secundária desta festa, menciona-se ainda o vocabulário mortuário utilizado pelos participantes, o uso de refrãos populares em programas de rádios, dedicados a pessoas públicas e particulares sempre em tom burlesco, ironizando a morte, bem como o costume de presentear-se entre si com elementos da culinária ou artesanato fúnebre, sendo estes, momentos de muita algazarra e animação. Mas, será que sempre foi assim? Ou seja, é possível identificar esse tipo de culto nas raízes mexicanas? Qual é realmente a origem festiva do culto aos mortos no México?

O SENTIDO DA MORTE PARA OS ANTIGOS MEXICANOS

Por antigos mexicanos se designam as civilizações indígenas que povoaram a região do “Valle de México” onde hoje se localiza o México atual, antes do domínio pela Espanha, sendo os astecas os últimos a se estabelecer e os que promoveram um dos mais notáveis cultos à morte que se tem registro na história do país.

Os astecas foram um dos povos mais civilizados e poderosos da América pré-colombiana. Ocuparam como se autodenominaram os habitantes do Vale do México, vieram para essa região, depois de uma longa e lenta migração. [...] os últimos a chegar ao refinado mundo do planalto mexicano [...] sedentarizaram-se e mesclaram-se com os toltecas e a partir da aliança feita entre as cidades de Texcoco e Tlacopan, surgiu o "Império Asteca" [...] (http://www.historiadomundo.com.br/asteca/historia-asteca/)

Segundo Carlos Pellicer (1897-1977), poeta e antropólogo mexicano, muito antes da chegada dos espanhóis, já havia no México antigo um dia dedicado à morte:

El pueblo mexicano tiene dos obsesiones: el gusto por la muerte y el amor a las flores. Antes de que nosotros "habláramos castilla" hubo un día del mes consagrado a la muerte; había extraña guerra que llamaron florida y en sangre los altares chorreaban buena suerte.(http://www.todohistoria.com/informes/aztecascultomuerte.htm)

No ensaio intitulado “Todos santos, día de muertos”, Paz (1950) afirma que os astecas acreditavam na vida como um prolongamento da morte e vice-versa, sendo elas, estados de um processo cósmico, que se repetia insaciavelmente na natureza.

Observavam os ciclos naturais e concluíam que após as chuvas vinham as secas, sendo que neste primeiro momento tudo florescia, enquanto que no outro tudo morria, para depois voltar a florescer novamente. Desta observação surgiu a crença de que este movimento contínuo explicava a existência das noites e dias, da vida e morte.

A existência para os astecas era prevista como um ciclo entre os dois mundos acessíveis. O ciclo era: nascer, viver, morrer e renascer (ou reencarnar). Acreditavam os astecas que, assim como o Sol (que passava pelo Mictlan na noite) e o milho (que renascia na primavera após um período de morte), os humanos seguiriam o mesmo destino. (http://www.doismiledoze.com/a-religiao-dos-astecas/)

Assim sendo, na cosmovisão asteca a dualidade era um princípio fundamental. Como tudo girava ao redor da dicotomia: morte x vida, entendeu-se que a responsabilidade em manter um equilíbrio entre os homens e o universo, estava em suas mãos, explicando-se neste contexto, a necessidade de realização dos sacrifícios humanos.

Para los antiguos aztecas lo esencial era asegurar la continuidad de la creación; el sacrificio no entrañaba la salvación ultraterrena, sino la salud cósmica; el mundo, y no el individuo, vivía gracias a la sangre y a la muerte de los hombres […] El sacrificio poseía un doble objeto: por una parte, el hombre accedía al proceso creador (pagando a los dioses, simultáneamente, la deuda contraída por la especie); por la otra, alimentaba la vida cósmica y la social, que se nutría de la primera. (PAZ, 1950, p. 54)

A solenidade dos sacrifícios acontecia no décimo mês do calendário asteca, com a confecção de abundantes oferendas em memória dos mortos em guerra, bem como dos valentes que haviam sido imolados para manutenção do cosmos. Durante o sacrifício, um grupo de jovens com muitos adornos e jóias, dançava ao redor do altar, sendo este rito uma forma de celebrar a morte e dar as boas-vindas à vida.

Cada parte da vida estava associada a uma ou mais divindades, e essas deveriam ser “pagas” para que cada uma das fases fosse realizada com sucesso. Os deuses eram “pagos” com oferendas – comida, flores e animais. Mas a maior oferenda a ser oferecida era o próprio sangue, uma vida humana e até a vida de um deus. (http://www.doismiledoze.com/a-religiao-dos-astecas/)

Com a chegada dos conquistadores espanhóis, os sacrifícios que tanto lhes causaram horror, pouco a pouco foram sendo substituídos pela doutrina católica da salvação pessoal. Já não era mais necessário sacrificar-se para manter a vida no cosmos, a salvação não tinha mais uma denotação coletiva, para garantir a salvação bastava somente a fé na figura do redentor Jesus Cristo, cuja vida havia sido entregue, de uma vez por todas, como oferta pelos pecados da humanidade.

A aceitação deste ensinamento gerou desde a civilização pré-colombina até os dias atuais, um forte sincretismo religioso, bastante perceptível na celebração em estudo. Os altares combinam elementos pagãos e elementos católicos, bem como as orações e cantos reforçam a presença das duas religiões.

Embora seja notória essa mescla entre as devoções cristãs católicas e as crenças e costumes pré-hispânicas ainda é possível afirmar que o sentido dualista praticado pelos antigos mexicanos segue em vigência, dando sentido a festa fúnebre.

Ambas actitudes, por más opuestas que nos parezcan, poseen una nota común: la vida, colectiva o individual, está abierta a la perspectiva de una muerte que es, a su modo, una nueva vida. […] Para los cristianos la muerte es un tránsito, un salto mortal entre dos vidas, la temporal y la ultraterrena; para los aztecas, la manera más honda de participar en la continua regeneración de las fuerzas creadoras, siempre en peligro de extinguirse si no se les provee de la sangre, alimento sagrado. En ambos sistemas vida y muerte carecen de autonomía; son las dos caras de una misma realidad. Toda su significación proviene de otros valores, que las rigen. Son referencias a realidades invisibles. (PAZ, 1950, p. 55)

Diante do exposto é possível afirmar que a motivação do culto festivo na celebração mexicana do dia dos mortos, bem como o sentido de alegria recorrente, é a crença na dualidade da vida, praticada por seus antepassados.

O desejo de honrar pelo menos uma vez ao ano a memória dos entes queridos já falecidos, pelo entendimento de que eles regressarão e ainda que não seja possível vê-los, os sentirão em espírito é o que mantém viva a tradição deste povo, aproximando-os de seu passado e reafirmando o valor de sua identidade cultural.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DURÁN, Fray Diego. Historia de los Indios de Nueva España. México: Ed. Nacional, 1951.

GARIBAY, Angel Maria. Historia de la literatura náhuatl. México: Ed. Porrúa, 1953.

LEÓN-PORTILLA, Miguel. La filosofía náhuatl. México: UNAM, 1966.

PAZ, Octavio. El laberinto de la soledad. México: Ediciones Cuadernos Americanos, 1950.

SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1987.

Altar. Disponível em: <http://www.pijijiapan.net/index.php?blog=2&s=nuestras+tradiciones >. Acesso em: 20 abr. 2008.

Altar de muertos. Disponível em: <http://www.yucatan.com.mx/especiales/muertos/hanal.asp/> Acesso em: 20 abr. 2008.

Altar de ofrendas. Disponível em: <http://www.acabtu.com.mx/diademuertos/altar.html/> Acesso em: 20 abr. 2008

Astecas. Disponível em: <http://www.historiadomundo.com.br/asteca/historia-asteca/>. Acesso em: 23 abr. 2008

Aztecas. Disponível em: <http://www.todohistoria.com/informes/aztecascultomuerte.htm/>. Acesso em: 23 abr. 2008

Día de los muertos. Disponível em: <http://vive.guadalajara.gob.mx/diademuertos/>. Acesso em: 19 abr. 2008.

Velación. Disponível em: <http://www.diademuertos.com/FotosVelacionNoche.html/>. Acesso em: 20 abr. 2008.

Religião asteca. Disponível em: <http://www.doismiledoze.com/a-religiao-dos-astecas/>. Acesso em: 25 abr. 2008

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* Especializanda em Língua Espanhola pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI. E-mail: elaynne.luz@gmail.com

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