Doença de alzheimer

Doença de alzheimer

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Informativo do CRIM - Março de 2004 Pág. 1

"Trabalhando pela construção de uma política de uso racional dos medicamentos." Ano VI – Número 12 –Março de 2004

A demência intelectual é o problema mais temido em geriatria e um dos casos mais comuns é a doença de Alzheimer, seguida pela doença de Pick e pela arteriosclerose cerebral.

A doença, ou mal de Alzheimer como também é conhecida, tem uma prevalência de 5% acima dos 65 anos e de 20% acima dos 80 anos, e atualmente aflige cerca de 15 milhões de pessoas no mundo todo.

A doença manifesta transtornos afetivos e distúrbios de personalidade que vão se instalando lentamente e normalmente causando um isolamento social que contribui para a evolução da patologia.

A atenção farmacêutica neste caso, é de suma importância, pois vai além do tratamento farmacológico, sendo necessária também à orientação, e se possível o encaminhamento a grupos de apoio.

Nos colocamos à disposição para esclarecimentos sobre os tópicos aqui abordados, bem como a respeito de qualquer outra dúvida sobre medicamentos.

Profa. Márcia Maria Barros dos Passos SUB-COORDENADOR:

Dra. Náira Villas Boas V. de Oliveira

COLABORADORES: Profa. Rita de Cássia A. Barros

REDATORES: Tiago Rodrigues Correia Pinto

Paula A. Vahia de Abreu

ENDEREÇOS: http://www.farmacia.ufrj.br/extensao/crim.htm e-mail: crim@pharma.ufrj.br Telefone: (21) 2562-6619 FAX: (21) 2260-7381 UFRJ - Ilha do Fundão - Edifício do CCS, Bloco L - Farmácia Universitária

Alois Alzheimer

A doença foi descrita originalmente pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer em 1907, ao efetuar uma autópsia de uma paciente de 5 anos morta devido a um caso de demência, onde observou uma série de anormalidades que o levaram a caracterizar esta doença.

A doença de Alzheimer está associada à diminuição geral de tecido cerebral comprometendo seriamente as áreas corticais de associação. Dois aspectos microscópicos são característicos da doença:

Placas Amilóides: também conhecidas como placas neuríticas, são lesões compostas por degeneração neuronal, reação celular glial e depósitos extracelulares de amorfos de proteína bamilóide.

Emaranhados neurofibrilares: são filamentos de uma forma fosforilada de uma proteína associada a microtúbulos (Tau).

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O aparecimento precoce de depósitos amilóides é indicativo do desenvolvimento da doença, porém os sintomas podem levar anos para se manifestar.

Atualmente, a alteração do processamento da proteína amilóide a partir de seu precursor (APP) é reconhecida como característica essencial na patogenia da doença de Alzheimer.

Como podemos ver na figura 1, a proteína precursora amilóide e consideravelmente maior do que a proteína amilóide Ab. Ela é clivada por três proteases, as secretases a, b e g, sendo as duas últimas responsáveis pela formação da proteína amilóide Ab. As áreas em cinza na figura representam os locais mais susceptíveis de ocorrer mutações amiloidogênicas, presentes em alguns casos da doença, pois estão mais próximos dos locais de clivagem.

Proteína b-amilóide

A proteína b-amilóide pode ter de 40 a 42 radicais, sendo a proporção entre Ab 40 e Ab 42 alterada quando ocorre Alzheimer. A indução de mutações em animais transgênicos induz a formação de placas e a ocorrência de neurodegeneração

Além disso mutações envolvendo o gene da apolipoproteína ApoE4 também predispõem a

Alzheimer, pois a expressão de proteínas ApoE4 facilita a agregação das proteínas b-amilóides.

Outra proteína envolvida neste processo é a tau, componente dos emaranhados neurofibrilares. Quando ocorre a doença ela se encontra anormalmente fosforilada formando depósitos intracelulares com a forma de filamentos helicoidais pareados.

O início da doença é discreto, com esquecimentos, confusão com datas, dificuldade para saber dia, mês, ano. É muito característica a dificuldade em memorizar fatos recentes. Evolui progressivamente com o aparecimento de dificuldade para realizar pequenas tarefas domésticas, como realizar compras, cozinhar, etc. A pessoa passa a ter dificuldade na fala e não consegue manter raciocínio lógico. Há diminuição na concentração e na atenção. Ocorre o afastamento social. A desorientação no tempo e no espaço tende a piorar progressivamente. Há perda da capacidade de fazer cálculos, da leitura e da escrita. O humor se torna variável, com momentos de raiva, choro, depressão e agressividade. Evolui para dificuldade em se alimentar, e também em fazer a higiene pessoal.

APP Ab

Figura 1: Estrutura da APP

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Estudos recentes evidenciam uma redução nas enzimas que sintetizam neurotransmissores, como a colina-acetiltranferase, com a diminuição dos níveis dessas moléculas no neocórtex, hipocampo e núcleo caudado, além de alterações de função noradrenérgica e serotoninérgica. A localização do gene defeituoso no cromossomo 21 elucida ainda mais a importância da influência genética no aparecimento da doença.

Devido a isso são utilizadas drogas com ação sobre o metabolismo de neurotransmissores, principalmente a acetilcolina, visando uma melhoria nas funções cognitivas, como por exemplo, os inibidores da acetilcolinesterase (donepezil, rivastigmina, tacrina, galantamina) que são medicamentos que inibem a ação desta enzima aumentando os níveis de acetilcolina nas fendas sinápticas, com eficácia comprovada mas limitada, e com grande número de efeitos colaterais.

Estrutura do donepezil

A vitamina E (alfa-tocoferol) e a siligilina também tem sido usados no tratamento da doença de Alzheimer, ambos tendo ação antioxidante, produzindo um desaceleramento do processo de envelhecimento celular, retardando o desenvolvimento da doença. A Gingko biloba, derivada de conhecida erva, está sendo indicada como promover melhora das funções cognitivas.

Infelizmente várias terapias já foram propostas porém se mostraram ineficazes quando realizados estudos controlados.

O objetivo da terapia de reabilitação de é restaurar as funções diminuídas ou perdidas, com a finalidade de promover um nível máximo de independência, bem-estar e qualidade de vida. A experiência tem mostrado que pacientes bem cuidados que receberam a terapia de reabilitação não só apresentam melhores condições de vida e convivência, a partir do momento em que começam a apresentar melhoria de suas funções cognitivas.

Existem basicamente 4 tipos de terapia para pacientes com doença de Alzheimer, que são:

terapia de orientação da realidade (para cognição, intelecto e memória), terapia física (para locomoção e atividades do dia-a-dia), psicoterapia e terapia ambiental.

Também é importante que seja respeitada a identidade social do paciente levando em consideração hábitos anteriores, sem alterá-los, como por exemplo: falar pelo telefone, praticar esportes, passatempos ou hobbies, entre outros. Algumas recomendações que podem ser seguidas: a) cada paciente é diferente e os cuidados devem atender as suas necessidades específicas. b) é imprescindível ter um médico disponível ao qual se possa recorrer para qualquer dúvida orientação ou emergência. c) quando ocorrerem situações críticas a chave é a organização e o bom-senso.

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Informativo do CRIM - Março de 2004 Pág. 4 d) não existem regras gerais para tratar os pacientes, o que foi positivo para uns pode não ser para outros.

e) a experiência e a vivência pessoal determinarão a melhor forma de se atuar. f) a melhor arma para enfrentar esta doença é possuir as informações adequadas, juntamente com a solidariedade humana.

Os pacientes de Alzheimer tornam-se, com a evolução da doença, indivíduos muito dependentes, devido não só a perda das funções cognitivas mas também pelo fato de que em sua grande maioria são pacientes já de idade avançada.

Devido a isso a presença da família e de amigos se faz extremamente necessária, não apenas do ponto de vista dos cuidados necessários com o paciente, como também para evitar o afastamento social que normalmente acompanha este mal. Estar entre rostos familiares pode ajudar e muito o paciente de Alzheimer.

Com os avanços da farmacogenômica e da terapia gênica, os conhecimentos sobre os mecanismos das doenças e o porquê de o curso clínico de algumas delas poder ser tão variável, têm aumentado muito. No futuro, testes populacionais pré-sintomáticos para doenças de instalação tardia, como a doença de Alzheimer, podem generalizar-se e trazer benefícios importantes. A genotipagem pode se tornar parte das investigações de rotina para ajudar os clínicos a escolher o tratamento mais adequado a cada paciente.

Dessa forma, com a identificação dos genes responsáveis pela manifestação da doença seria possível determinar as drogas mais eficientes em casa caso, bem como identificar pacientes não responsivos a determinadas drogas, melhorando a qualidade do diagnóstico e do tratamento.

O diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento dos pacientes portadores desta patologia deverão ocorrer nos Centros de Referência em Assistência à Saúde do Idoso, definidos pelas Portarias GM/MS no 702 e SAS/MS no 249, ambas de 12 de abril de 2002.

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