leite A importância das aulas práticas para alunos jovens e adultos

leite A importância das aulas práticas para alunos jovens e adultos

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A importância das aulas práticas para alunos jovens e adultos: uma abordagem investigativa sobre a percepção dos alunos do PROEF I.

Adriana Cristina Souza LEITE – Faculdade de Educação – UFMG dridricris2@yahoo.com.br

Pollyana Alves Borges SILVA – Centro Pedagógico – UFMG pollybio@yahoo.com.br Ana Cristina Ribeiro VAZ – Centro Pedagógico – UFMG

RESUMO: Este trabalho analisa a importância das aulas práticas no ensino de Ciências

Naturais para os alunos de duas turmas, com perfis diferentes, do Segundo Segmento do Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos da Universidade Federal de Minas

Gerais (PROEF I). O trabalho analisa o conceito de aulas práticas para esses alunos, a aceitação e as impressões pessoais dos mesmos em relação a estas aulas na disciplina de

Ciências Naturais. Os resultados demonstram que os alunos jovens e adultos gostam desse tipo de aula e se sentem motivados quando a mesma é proposta, principalmente quando elas ocorrem no laboratório e, desse modo, o desenvolvimento dessas aulas

adultos

pode ser uma importante ferramenta no ensino de ciências para os alunos jovens e

O Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos Segundo Segmento –

PROEF I é um programa de educação de jovens e adultos – EJA – referente à 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries do ensino regular, do qual a primeira autora é monitora-professora há um ano. Esse projeto “funciona há 18 anos durante a noite na Escola Fundamental do

Centro Pedagógico – CP – e é ligado ao Núcleo de Educação de Jovens e Adultos da Faculdade de Educação – NEJA – da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG”

(SILVA et al., 2004). O PROEF I tem como objetivo concluir a formação de funcionários da UFMG e/ou membros da comunidade externa em três anos. No PROEF I, um monitor- professor orienta a construção do conhecimento em cada uma das cinco áreas: Ciências Naturais, Geografia, Português, História e Matemática. Os monitores-professores, alunos de diferentes cursos de graduação da UFMG, são coordenados por docentes da própria universidade. Para formar uma equipe de trabalho por turma, esses universitários se reúnem com o coordenador de turma para discutir temas referentes às turmas para as quais lecionam. Existem também as reuniões gerais onde se reúne toda a equipe do PROEF I, além dos representantes das turmas, e as reuniões de formação.

Nestas, os monitores-professores, através da leitura de textos que fundamentam a EJA e de discussões, fazem reflexões sobre sua prática pedagógica. O resultado dessas discussões e reflexões é aplicado em sala de aula (SILVA et al., 2004).

Os monitores-professores de Ciências Naturais se reúnem semanalmente para discutir e refletir a respeito do ensino dessa área no PROEF I. O coordenador orienta essa discussão fornecendo embasamento teórico e compartilhando com seus monitoresprofessores suas próprias experiências, fazendo dessa reunião um momento de crescimento e aprendizado para todos.

A EJA se diferencia do ensino regular principalmente pelo seu público. OLIVEIRA (1999) afirma que o aluno de EJA possui diferenças na aquisição do conhecimento principalmente por estar inserido no mundo do trabalho e das relações entre as pessoas de modo diferente da criança e do adolescente.

“O adulto (...) traz consigo uma história mais longa de experiências, conhecimentos acumulados e reflexões sobre o mundo externo, sobre si e sobre as outras pessoas. Com relação à inserção em situações de aprendizagem, essas peculiaridades da etapa da vida em que se encontra o adulto fazem com que ele traga consigo diferentes habilidades e dificuldades (em comparação com a criança) e, provavelmente, maior capacidade de reflexão sobre o conhecimento e seus próprios processos de aprendizagem” (OLIVEIRA, 1999).

O ensino de Ciências Naturais no PROEF I procura considerar essas peculiaridades relacionando os fenômenos da biologia, física e química entre si e com o cotidiano dos seus alunos. As reflexões e discussões em sala de aula são propostas a fim de que esses alunos desenvolvam uma visão crítica a respeito de seu próprio corpo, de suas relações com o meio em que vivem e das transformações que acontecem nos diversos campos de sua vida (SILVA et. al., 2004). Além disso, os monitores- professores inserem os conhecimentos científicos em sala de aula de modo que seus alunos vejam e reflitam sobre os mesmos. Esses procedimentos estão conforme os

parâmetros curriculares nacionais para jovens e adultos que

...“preconizam a integração entre a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e a vida cidadã, de modo que cada componente curricular contribua com uma melhor orientação para o trabalho e com a ampliação dos significados das experiências de vida dos alunos. Eles devem ter acesso aos conhecimentos que poderão promover e ampliar suas interpretações sobre aspectos individuais e coletivos que condicionam a saúde e a reprodução humanas, sobre as transformações dos ecossistemas no planeta como um todo – e particularmente no lugar onde vivem. Questões como essas pautam a formulação desta proposta para o currículo de Ciências Naturais” (MEC/SEF, 2002).

As aulas práticas podem ajudar no desenvolvimento de conceitos científicos, além de permitir que os estudantes aprendam como abordar objetivamente o seu mundo e como desenvolver soluções para problemas complexos (LUNETTA, 1991). Além disso, as aulas práticas servem de estratégia e podem auxiliar o professor a retomar um assunto já abordado, construindo com seus alunos uma nova visão sobre um mesmo tema. Quando compreende um conteúdo trabalhado em sala de aula, o aluno amplia sua reflexão sobre os fenômenos que acontecem à sua volta e isso pode gerar, conseqüentemente, discussões durante as aulas fazendo com que os alunos, além de exporem suas idéias, aprendam a respeitar as opiniões de seus colegas de sala.

HODSON (1998) afirma que as atividades práticas também podem ser feitas através de trabalhos de campo, computadores e estudos em museus. No PROEF I a própria sala de aula se torna um ambiente de prática, através do deslocamento de materiais para a mesma. Isso faz, muitas vezes, com que o monitor-professor considere dispensável o uso do laboratório.

No entanto, as aulas práticas no ambiente de laboratório podem despertar curiosidade e, conseqüentemente, o interesse do aluno, visto que a estrutura do mesmo pode facilitar, entre outros fatores, a observação de fenômenos estudados em aulas teóricas. O uso deste ambiente também é positivo quando as experiências em laboratório estão situadas em um contexto histórico-tecnológico, relacionadas com o aprendizado do conteúdo de forma que o conhecimento empírico seja testado e argumentado, para enfim acontecer a construção de idéias. Além disso, nessas aulas, os alunos têm a oportunidade de interagir com as montagens de instrumentos específicos que normalmente eles não têm contato em um ambiente com um caráter mais informal do que o ambiente da sala de aula (BORGES, 2002).

O CP conta com dois laboratórios de aulas práticas, sendo que apenas um deles é utilizado durante as aulas de Ciências Naturais. Este laboratório possui bancadas, modelos didáticos, animais fixados, microscópios e materiais para microscopia, lupas, reagentes, vidrarias, além de cartazes explicativos fixados na parede. O fácil acesso a esses materiais maximiza o trabalho durante a elaboração das aulas práticas nesse ambiente.

Os trabalhos publicados sobre aulas práticas realizadas em laboratórios didáticos (BORGES, 2002; LUNETTA, 1991, 1998; HODSON, 1996, 1998) abordam essas aulas no contexto da educação regular, voltados principalmente para os alunos do ensino médio. Entretanto, não encontramos trabalhos referentes à importância desse tipo de aula para a EJA. Considerando que os alunos jovens e adultos são diferentes de crianças e adolescentes, e que não existem pesquisas sobre a utilização de aulas práticas com este segmento educativo, nosso trabalho tem como objetivo refletir sobre o conceito e a importância das aulas práticas no aprendizado de duas turmas, com diferentes perfis, do

PROEF I e investigar como é a aceitação e quais são as impressões pessoais dos alunos em relação a estas aulas na disciplina de Ciências Naturais.

Essa pesquisa foi feita com alunos do PROEF I de duas turmas diferentes. O primeiro passo foi a análise de cada turma, feita em duas etapas: a partir do perfil da turma elaborado pelo monitor de pedagogia, foi realizada uma discussão entre os monitores-professores de todas as áreas, responsáveis por essas turmas. O perfil rediscutido foi então registrado no caderno de turma e serviu como base para uma nova reflexão neste trabalho, como descrito a seguir. A primeira turma (A1) está no segundo ano do processo de aprendizado. Três alunos são provenientes do PROEF I e o restante ficou sem freqüentar a escola, em média, de 15 a 37 anos. A maioria dos alunos é composta por funcionários, terceirizados ou não, da UFMG. Sua faixa etária varia entre 28 e 65 anos, sendo que a maioria tem entre 30 e 50 anos. A maioria dos alunos tem um pouco de dificuldade na compreensão de conceitos científicos trabalhados na turma. Além disso, eles já tiveram algumas aulas práticas no laboratório sendo que três destas aulas foram ministradas pela primeira autora deste artigo. Em todas elas os alunos participaram ativamente, manuseando os

materiais e instrumentos, sob a orientação dos monitores-professores

A segunda turma (B) está no primeiro ano do processo de aprendizado. A faixa etária dos alunos vai de 2 até 45 anos de idade, sendo que a maioria tem entre 30 e 40 anos. Apenas um aluno é funcionário terceirizado da UFMG. O tempo que ficaram sem freqüentar a escola varia de 2 a 30 anos, sendo que a maioria está nesta condição por 10 a 20 anos. Esses alunos participaram de apenas uma aula prática no laboratório com a primeira autora deste artigo.

Após essa nova análise, foi elaborado um questionário que tinha como objetivos: 1) Analisar o conceito de aulas práticas para os alunos.

PROEF I. 3) Analisar de qual tipo de aula prática os alunos se lembram no PROEF I.

4) Avaliar quais são as impressões causadas nos alunos pelas aulas práticas realizadas em laboratório.

5) Verificar quais são os materiais e equipamentos de laboratório indispensáveis ao aprendizado na opinião dos alunos. 6) Analisar quais conteúdos, discutidos na disciplina de ciências naturais, eles gostariam de estudar através deste tipo de aula. De acordo com esses objetivos, o seguinte questionário foi elaborado e proposto para os alunos:

Questionário de Pesquisa

1) Para você, o que são aulas práticas?

2) Você se lembra de ter tido alguma aula prática? Caso a resposta seja sim, conte um pouco como foi (local, data, etc.).

3) Qual a sua reação quando algum professor seu propõe fazer aulas práticas?

4) Geralmente, os professores costumam realizar aulas práticas no laboratório da escola. O que você acha importante na estrutura do laboratório que facilitaria o seu aprendizado?

5) Quais os conteúdos que, através de uma aula pratica de Ciências, você acredita que aprenderia melhor?

O questionário foi aplicado durante a aula de Ciências Naturais. Antes da sua aplicação, foi explicado para os alunos qual era o objetivo do questionário e que o mesmo não era obrigatório responder, já que não estava vinculado à matéria. Foi explicado a eles, também, que não era necessário que se identificassem, apenas deveriam escrever a qual turma eles pertenciam.

Na turma A, dos 14 alunos matriculados, 13 estavam presentes quando da aplicação do questionário. Na turma B, dos 24 alunos matriculados, 14 estavam presentes. Em ambas as turmas, todos os presentes responderam ao questionário. Serão analisados, inicialmente, os resultados das perguntas 3, 4 e 5, seguidos pelos resultados das questões 1 e 2. Na terceira questão, 9 respostas na turma A e 13 respostas na turma B foram positivas, o que permite inferir que há uma grande aceitação por parte dos alunos em relação às aulas práticas no laboratório: “A minha reação é de muita alegria por ter a oportunidade de fazer o que estou fazendo na teoria” (Aluno da turma A). “Fico maravilhado, pois estudar uma matéria praticando aqui o tema é muito mais interessante” (Aluno da turma A).

“Eu acho muito bom. Porque ajuda bastante no ensino do aluno” (Aluno da turma B).

“Fiquei com a maior empolgação” (Aluno da turma B). “Ótima, principalmente a aula de ciências é necessário a prática”

(Aluno da turma B).

Esta última resposta mostra que, para esse aluno, Ciências Naturais é uma disciplina na qual a prática não se desvincula da teoria. Isso demonstra o reconhecimento por parte dos alunos na construção do pensamento científico, atestando o caráter investigativo das aulas práticas. Segundo Millar (1998) os “seres humanos possuem uma curiosidade sobre o mundo natural que o conhecimento científico pode satisfazer”. Provavelmente este aluno espera que as aulas práticas satisfaçam mais completamente sua curiosidade sobre os temas abordados.

Um aluno da turma A teve uma resposta neutra. Alguns alunos ficaram curiosos (2 alunos da turma A e 1 aluno da turma B) ou temerosos (1 aluno da turma B) quando foi proposta uma aula no laboratório:

“Na hora eu penso o que será, é alguma coisa chata, mas o meu interesse para ver e tocar aquilo é tão grande que logo me preparo para aquilo eu gosto e participo” (Aluno da turma A). “Ficamos um pouco temerosos, mas acabamos gostando da idéia”

(Aluno da turma B).

Nenhum aluno deu respostas destacando aspectos negativos em relação à aula prática. Apenas uma aluna da turma A relatou que não gostava do laboratório:

“Eu fico feliz gosto das aulas práticas, mas não gosto do laboratório, pois tem muitos bichos representados no vidro” (Aluno da turma A).

Na quarta questão, 1 aluno da turma A e 2 alunos da turma B acham importante ter mais microscópios no laboratório:

“Sim é muito bom ver as células no microscópio e a explicação do professor” (Aluno da turma A).

“Uma das coisas mais importantes que acho é o microscópio” (Aluno da turma B).

Um aluno da turma B considera que o laboratório deveria ter equipamentos mais sofisticados: “Bom só tivemos uma aula no laboratório, acho que pode ter equipamentos mais sofisticados”. Como o CP faz parte de uma universidade que é reconhecida como um pólo de pesquisa, esse aluno pode ter criado a expectativa de que o laboratório da escola fundamental seria semelhante a um laboratório de pesquisa. Dois alunos da turma A acham importante a estrutura interna do laboratório:

“As mesas redondas, bancos mais ou menos confortável”. Oito alunos – quatro da turma A e quatro da turma B – acham importante haver materiais didáticos no laboratório:

“Sim, o importante das aulas em laboratório é que mostra muitos objetos que fazem parte do corpo humano” (Aluno da turma A, referindo-se aos modelos tridimensionais utilizados nas aulas anteriores). “Eu acho que não precisa mudar nada, gosto de ver a conservação dos órgãos, bichos” (Aluno da turma B).

“A informação escrita e os adesivos na parede” (Aluno da turma B). Três alunos da turma A e cinco da turma B consideram que a estrutura geral do laboratório é importante para o seu aprendizado: “No laboratório é bom ter aulas práticas porque lá tem algumas coisas que eu posso utilizar nas aulas e a estrutura é adequada ao ensino que foi passado”

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