Farmacologia da dependência e abuso de drogas

Farmacologia da dependência e abuso de drogas

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Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas

Robert M. Swift e David C. Lewis

Introdução Caso Definições Mecanismos de Tolerância, Dependência e Adicção

Mecanismos de Tolerância Mecanismos de Dependência Física Mecanismos de Dependência Psicológica Mecanismos de Adicção

Variáveis que Afetam o Desenvolvimento da Adicção Subtipos de Usuários de Álcool e Drogas

Drogas de Abuso

Medicamentos Prescritos com Freqüência

Opióides Benzodiazepínicos e Barbitúricos

Drogas Relacionadas a Tratamentos

Heroína Álcool Nicotina Cocaína e Anfetamina

Drogas de Abuso que Afetam Receptores Não-Terapêuticos Complicações Clínicas do Abuso e Dependência de Drogas

Tratamentos da Adicção

Desintoxicação Técnicas de Auto-Ajuda e Ajuda Mútua em Doze Passos Tratamento Farmacológico da Dependência

Conclusão e Perspectivas Futuras Leituras Sugeridas

Este capítulo analisa os agentes farmacológicos associados ao uso indevido, abuso e dependência de drogas. Embora seja importante conhecer a neurofarmacologia desses agentes para compreender os efeitos sobre o comportamento e os riscos da adicção, a farmacologia não é absolutamente o único determinante da experiência ou do comportamento relativo às drogas. Características da personalidade, como o comportamento de risco, podem contribuir para o abuso de drogas. A idade em que a droga é usada pela primeira vez, a experiência anterior com drogas, os efeitos previstos da experiência, o estado nutricional e fatores sociais também podem influenciar o risco de abuso e dependência.

Também há alguma superposição entre problemas com álcool e drogas e doença psiquiátrica. O álcool é muito usado como automedicação para alívio da ansiedade (i. é, como ansiolítico), e as anfetaminas podem ser usadas como automedicação no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. No entanto, muitas vezes é difícil determinar se essas doenças são causas ou efeitos do uso de drogas, porque as ações das próprias drogas, bem como a abstinência e a dependência, podem revelar uma doença psiquiátrica em um indivíduo antes compensado.

As variáveis ambientais têm forte influência no desenvolvimento da adicção. Por exemplo, as atitudes da sociedade relativas ao uso de drogas costumam influenciar a probabilidade de seu uso pela primeira vez. A disponibilidade e o custo da droga também podem ser afetados pela situação legal e por impostos. A existência de alternativas, que não incluam drogas, pode ter grande influência na probabilidade de uso e adicção.

Embora este capítulo não contenha uma descrição exaustiva dos mecanismos de ação de todas as drogas de abuso, as drogas representativas selecionadas são apresentadas mecanisticamente, e no Quadro 17.1 são resumidos os mecanismos das outras drogas importantes. Por fim, são analisadas as estratégias terapêuticas – farmacológicas e psicossociais – usadas no tratamento da dependência de drogas.

n Caso

J.B., um homem de 25 anos com história de uso pesado de heroína, é levado ao pronto-socorro de um hospital na periferia de Phoenix com quadro progressivo de náusea, vômito, diarréia, dor muscular e ansiedade há 8 horas. O Sr. B explica que está tentando “deixar o vício” e que “usou” a droga pela última vez há cerca de 24 horas. Ele mostra necessidade irresistível de consumir heroína, está muito agitado e desconfortável. O exame físico mostra temperatura de 39,5°C, pupilas aumentadas, pressão arterial de 170/95 mmHg e freqüência cardíaca de 108 batimentos por minuto. Apresenta irritabilidade e grande sensibilidade ao toque; as respostas a estímulos dolorosos, como a espetada de um alfinete, são desproporcionais à intensidade do estímulo. O Sr. B é medicado com 20 mg de metado-

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Embora o Sr. B considere úteis as sessões dos NA, comparece esporadicamente. Durante as semanas subseqüentes ele apresenta alterações cíclicas do peso, períodos alternados de insônia e ansiedade, e “fissura” por heroína, apesar dos exames de urina negativos para opióides. Dois meses depois, tem uma recaída e volta a usar heroína.

n 1. Qual a causa dos sinais e sintomas físicos do Sr. B (isto é, náusea, vômito, febre, aumento das pupilas e hipertensão) quando procurou o pronto-socorro? n 2. Por que a abstinência de heroína foi tratada com outro opióide (metadona)? n 3. Por que o Sr. B notou que, com o tempo, o efeito da heroína tornou-se menos intenso do que no início? n 4. Por que o Sr. B apresentou “fissura” pela heroína após cessarem os sintomas fisiológicos? n 5. Como os programas do tipo Narcóticos Anônimos podem ajudar no tratamento da dependência? E por que esses programas nem sempre têm êxito?

QUADRO 17.1 Principais Drogas de Abuso

Opióides Morfina

Heroína Codeína Oxicodona

-opióide (agonista)Euforia, seguida por sedação, depressão respiratória

Usados terapeuticamente como analgésicos (com exceção da heroína)

Benzodiazepínicos Triazolam

Lorazepam Diazepam

GABAA (modulador)Sedação, depressão respiratóriaUsados terapeuticamente como ansiolíticos, sedativos

Barbitúricos FenobarbitalPentobarbital

GABAA (modulador)Sedação, depressão respiratóriaUsados terapeuticamente como ansiolíticos e sedativos; há maior risco de superdosagem do que com os benzodiazepínicos

ÁlcoolEtanolGABAA (modulador), antagonista NMDAIntoxicação, sedação, perda de memória Legal em muitos países

NicotinaTabacoNicotínico da ACh (agonista)Alerta, relaxamento muscular Legal em muitos países

Psicoestimulantes CocaínaAnfetamina Dopamina, adrenérgico, serotonina (inibidor da recaptação)

Euforia, alerta, hipertensão, paranóiaAs anfetaminas também invertem o transportador da recaptação e liberam o neurotransmissor das vesículas sinápticas para o citossol

Cafeína Café Adenosina (antagonista) Alerta, tremorGeralmente legal, a adicção é rara

CanabinóidesMaconhaCB1, CB2 (agonista)Alterações do humor, fome, instabilidade

Fenciclidina (PCP)Não aplicávelNMDA (antagonista)Alucinações, comportamento hostil

FeniletilaminasMDMA (Ecstasy), MDASerotonina, dopamina, adrenérgico

(inibidores da recaptação, múltiplas ações)

Euforia, alerta, hipertensão, alucinaçõesEstruturalmente relacionadas às anfetaminas, efeitos semelhantes aos dos agentes psicodélicos

Agentes psicodélicos LSD DMT

Psilocibina 5-HT2 (agonista parcial) Alucinações

Inalantes Tolueno

Nitrato de amila Óxido nitroso

Desconhecido Tontura, intoxicação

MDMA, metilenodioximetanfetamina; MDA, metilenodioxianfetamina; LSD, dietilamida do ácido lisérgico; DMT, dimetiltriptamina; NMDA, N-metil-D- aspartato.

262 | Capítulo Dezessete

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