DEMONSTRATIVO DO FLUXO DE CAIXA e DRE

DEMONSTRATIVO DO FLUXO DE CAIXA e DRE

(Parte 1 de 6)

Contabilidade Gerencial Prof. Roberto Gil Uchoa

DEMONSTRATIVO DO FLUXO DE CAIXA – DFC

Precedentes

Não basta apresentar lucro. O lucro é conseqüência de receitas e despesas que são contabilizadas seguindo princípios estabelecidos de realização e competência do exercício. Além disso, tecnicidades, como a exigência do registro de uma receita de vendas, mesmo que a prazo, deixa a pendência do recebimento efetivo do cliente. Nesse ínterim, a própria receita contabilizada é fato gerador para a cobrança de tributos (PIS, COFINS, ICMS, IPI etc.) e seu efetivo pagamento, além de, não raras as vezes, o pagamento do custo integral, antes do recebimento da receita.

Percebe-se, então, que a existência do lucro não constata de início a sua efetividade. É necessário que se receba o produto desse lucro para se ter a exata noção do ganho efetivo que se obteve.

Da mesma forma, quando se tem um empréstimo em aberto para pagamento em anos futuros, deve-se registrar a despesa com os juros antes mesmo da sua efetiva quitação. O que falar, então? da depreciação. Essa conta estranha, de cunho em prudência, que registra estatisticamente uma perda que não é efetiva, apenas estimada, em que nada se paga por ela, mas que ajuda a reduzir o imposto de renda devido de algumas empresas.

Como medir esse lucro se, por exemplo, o cliente não vier a pagar pela duplicata emitida na venda? Ou se a depreciação não se configurar em gasto, quer de manutenção, quer de reposição?

Por outro lado, imagine uma operação em que a empresa recebe antecipadamente pela entrega futura de um determinado produto que ainda vai ser fabricado. Contabilmente, esse recebimento não pode ser registrado como receita até que o bem seja entregue.

Então, o lucro é uma forma contábil de se perceber as receitas e despesas. Efetivas, como de fato são, aos olhos da ciência contábil. Porém, seu impacto financeiro pode já ter ocorrido ou ainda ser constatado em conta corrente bancária. Assim, uma outra forma de se analisar economicamente uma empresa é entender como ela vem gerindo seu caixa. É o caixa que dá os primeiros sinais do sucesso ou fracasso de um negócio.

O Objetivo do DFC

O Demonstrativo do Fluxo de Caixa tem por objetivo analisar a variação do saldo da conta de Caixa e Bancos durante um certo período, buscando listar as origens (entradas de dinheiro) e aplicações (saídas de dinheiro) da empresa. Logo, temos:

C&B = O – A

onde: C&B é a variação entre os saldos inicial e final de Caixa e Bancos;

O representa as origens de dinheiro (entradas);

A são todas as aplicações de dinheiro (saídas).

Origens de recursos são todas as operações de entrada de caixa, tais como, recebimento pelas vendas, aumento de capital social em espécie, recebimento pela venda de imobilizado, captação de empréstimos e resgate de aplicações financeiras. Por seu turno, as aplicações são qualquer tipo de pagamento: pelas compras de estoque junto a fornecedores, pela compra de um imobilizado, de gastos operacionais, pela amortização de empréstimos ou por quitação de dividendos propostos.

Como levantar o DFC

Normalmente, somos tomados como observadores externos à organização, portanto, com sérias limitações aos dados financeiros dessa empresa. Quando muito, dispomos apenas dos demonstrativos financeiros elementares – Balanço Patrimonial e Demonstração do Resultado.

Se para a análise econômica de um negócio devemos avaliar seu fluxo de caixa, então devemos tentar levantar seu Demonstrativo do Fluxo de Caixa com base tão-somente nesses elementos.

Todas as contas patrimoniais são movimentadas por um princípio básico: seu saldo ao final de um período (SF) é igual ao seu saldo no início do período (SI), mais todos os fatos que fazem seu saldo aumentar (E+) e menos aqueles eventos que fazem seu saldo diminuir (D-). Nesse sentido, podemos postular a seguinte fórmula:

SF = SI + E+ – D-

Com efeito, o saldo final de estoques (Ef) será sempre igual ao seu saldo inicial (Ei) mais as compras (C), que fazem seu saldo subir, menos as baixas para custos das mercadorias vendidas (CMV), que fazem seu saldo cair. Logo:

Ef = Ei + C – CMV

Se estendermos esse raciocínio para todas as contas patrimoniais, isto é, àquelas do Balanço, lentamente obteremos valores que se refletem no saldo de Caixa e Bancos. Por fim, se listarmos organizadamente as expressões de entradas (origem) e saídas (aplicações) de recursos financeiros, obteremos o DFC.

Fórmulas

Listamos as fórmulas mais usadas na elaboração do DFC:

Para o recebimento das vendas: Para o pagamento de imposto de renda:

CARf = CARi + RV – Recbtº IR aPgf = IR a Pgi + DIR – Pgtº

Para o pagamento de estoques: Para a movimentação de empréstimos:

Ef = Ei + C – CMV EMPf = EMPi + DF + ( Novos – Pgtº)

Depois, movimentamos fornecedores: Destacam-se duas incógnitas:”

Ff = Fi + C – Pgtº N (novos empréstimos) e P (pagamentos)

Para o pagamento de despesas operacionais: A aquisição ou venda de imobilizado:

CAPf = CAPi + DO – Pgtº Imobf = Imobi + Compra – Venda

Para se encontrar o pagamento de dividendos: Para o aumento ou redução de capital:

  • Primeiro, analisa-se os Lucros Acumulados: CSf = CSi + Aumento - Redução

LAf = LAi + LLex + Reservas – Divid Prop

  • Depois, movimenta-se os Dividendos a Pagar:

Divid a Pgf = Divid a Pgi + Divid Prop – Pgtº

Importante

É importante saber que, didaticamente, para fins de exercícios de DFC em classe não serão dados exercícios que envolvam a baixa de imobilizado para venda, nem de redução de capital social (saída de um sócio ou ressarcimento de capital). Além disso:

a) Não se paga depreciação. A despesa de depreciação deve ser igual à variação da conta de depreciação acumulada, uma vez que não vamos ter exercícios de baixa de imobilizado.

b) No DFC, não existem valores negativos. O único valor que pode aparecer com seu valor negativo no DFC é a variação do saldo de Caixa e Bancos.

c) Ao concluir as movimentações de todas as contas, deve-se checar se a variação de caixa e bancos é igual ao total das origens menos o total das aplicações:

C&B = O – A

Por fim, fica aqui uma dica. À medida que se for analisando a movimentação da conta, é importante fazer um “tique” ao lado do nome ou do saldo da conta. Esse procedimento simples preserva o analista de dois erros muito comuns: esquecer-se de pegar uma das contas do BP ou da DRe ou de pegar uma conta mais de uma vez.

Exercício básico

Com base nos demonstrativos financeiros da empresa Flajahera S/A, publicados abaixo, levante o DFC para X2:

Exercícios Intermediário

Com base nos demonstrativos financeiros da empresa Bottavaifalir S/A, publicados abaixo, levante o DFC para X2:

Evidencie os cálculos:

Dados complementares:

  • A cotação das ações da empresa fechou os anos de X1 e X2 em $ 0,95 e $ 0,96, respectivamente;

  • O mercado da empresa teve um aumento de 8% em X2;

  • As vendas da empresa cresceram 12% em X2.

Exercícios Avançado

Com base nos demonstrativos financeiros da empresa Phluadivencê S/A., publicados abaixo, levante o DFC para X2:

Evidencie os cálculos:

Dados complementares:

  • O mercado da empresa teve um aumento de 8% em X2.

Analisando o DFC

Um dos pontos mais importantes no Demonstrativo do Fluxo de Caixa é permitir analisar a gestão do caixa da sociedade, observando os investimentos de capital (aplicações no ativo fixo), visando a expansão ou a renovação dos recursos para o negócio, a política de financiamento (capacidade de gerar recursos para financiar seus investimentos e capital de giro) e a gestão do capital de giro (AC e PC, vis a vis com a capacidade de gerar caixa a partir do seu resultado). Além disso, permite verificar a política de dividendos e de retenção de lucros.

Esses pontos podem ser observados mediante a aplicação de um roteiro de perguntas relativamente simples. Para cada um dos três casos anteriores, tente responder ao seguinte questionário:

  1. Analisando as origens de recursos. Quais as principais captações de recursos financeiros da sociedade em X2? Do total das origens, quanto a sociedade obteve no resultado operacional (recebimento das vendas), junto a sócios (aumento de capital) e de capital financeiro (novos empréstimos)?

  1. Analisando o fluxo de caixa dos acionistas. Qual o total dos investimentos diretos feito pelos acionistas? Desse total, quanto retornou para eles, sob a forma de dividendos? Qual foi o fluxo líquido de caixa dos acionistas? Caso negativo para a empresa (saída > entrada de dinheiro), o que levou a empresa, então, a pedir aumento de capital? Se positivo, qual o provável destino desses recursos? Esse aporte de capital representa um risco maior ou menor para o acionista? Por quê?

  1. Analisando os investimentos de capital (aplicações no ativo fixo). Quanto a sociedade investiu em ativo permanente? Em quê e por que ela fez esse investimento? Isso é um bom ou mau sinal para a empresa? Por quê? De onde vieram os recursos para fazer esses investimentos?

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