Abdala et al., 2002 - Coleção PUCRS

Abdala et al., 2002 - Coleção PUCRS

(Parte 1 de 4)

Fernando Abdala** * *

Maria Claudia Malabarba* Ana Maria Ribeiro * * *

Patricia Alano Perez*

Annie Hsiou * Jeter J. Bertoletti*

0 Museu de CiCncias e Tecnologia da Pontificia Universi- dade Cat6lica do Rio Grande do Sul (MCTPUCRS) foi idea- lizado pel0 Dr. Jeter Bertoletti e fundado oficialmente em 4 de julho de 1967. Ja nesta Cpoca, o Estado do Rio Grande do Sul demonstrava ser um lugar de grande relevkcia paleontol6gica, tendo em vista as pesquisas iniciais do paleont6logo brithico Arthur Smith Woodward (1907) e, posteriormente, o grande sucesso das coletas e pesquisas sobre a fauna TriAssica desenvolvidas pel0 alemSio Fkiedrich von Huene ( 1942, Huene & Stahlecker, 193 1 ). Este fato de- terrninou que, desde praticamente a fundacSio do museu, J. Bertoletti demonstrasse a grande importiincia da formaeiio de urn acervo paleontol6gico atravbs da criac$%o do Labora- t6rio de Paleontologia. A cole@to paleontol6gica, contava ini-

* Museu de Cikncias e Tecnologia. PUCRS.

** Bernard Price Inet., University Witwatererand. Africa do Sul. *** Museu de Cikncias Naturais. FZB-RS.

Dlvul. Mus. Cl&nc. Tecno10.-UBEAIPUCRS. Porto Alegre, no 7, p. 1-208, ago. 2002 cialmente com um espago de 30 metros quadrados (Fig. 1) no prCdio 10, onde entiio funcionava o Museu de Ciencias, com a participas50 do Dr. Miguel Bombim. Nesta gpoca, ap6s vkrios entendimentos, Jeter J. Bertoleffl e MArio Cos- ta Barberena [DPElUFRGS), concluem um convCnio entre MCPUCRS e DPE-IG-UFRGS. Com base neste convCnio, e atravks do Programa de investiga~iio das colegbes Permo- Tribsicas, estas duas instituig6es visavam incentivar a co- leta e pesquisa de vertebrados e floras fosseis. Este conve- nio propiciaria resultados altamente signficativos para o desenvolvirnento e divulgagiio da paleontologia no Estado.

Em 1 1 de novembro de 1994 s3o inaugurados os labo- rat6rios e administra~50 no novo prCdio do Museu de CiCn- cias, ja com o nome de Museu de CiCncias e Tecnologia (MCT). Nas novas instalagdes, o Laboratorio de Paleon- tologia passa a ocupar uma Area de 300 metros quadra- dos, com salas para pesquisas, para prepara~iio de fosseis (Fig. 2) e para equipamentos microsc6picos. No segundo subsolo do mesmo prCdio se encontra o espaso fisico onde est.6 depositado o acervo paleontol6gico do MCT (FIg. 3).

Na formag50 deste grande legado paleontol6gico. J. Ber- toleffl teve inicialrnente a cooperag30 e awolio de uma equi- pe encarregada da coleta de fosseis. Nesse aspecto, mere- cem um destaque muito particular trCs pessoas que contri- buiram grandemente com a descoberta e coleta da quase totalidade dos tetrapodes fosseis hoje depositados na cole- ~iio cientifica do Laboratbrio de Paleontologia: os Padres

Abrah5o e Daniel Cargnin e o tCcnico Valdor OchagAvia da Costa (* 1936-t 1991; Fig. 1). AtravCs de expedig6es Zi regiiio central do estado, os irmiios Abrahgo e Daniel Cargnin (Fig. 4) coletaram inheros fosseis principalmente na re- giiio de Santa Maria. Assim, no catiilogo do acervo paleon- tologic~ A. Cargnin conta corn certa de 260 lotes coletados para a institui~iio, alCm dos 405 coletados junto com

D. Cargnin. A contribuigiio deles, entretanto, niio se limitou ao Tribsico, ja que tambCm realizaram um amplo trabalho de coleta em localidades quaternikias. AlCm de contribuir

Divul. Mus. Ctlnc. Tecno10.-UBEMUCRS. Porto Alegre, no 7, p. 1-208, ago. 2002 para o acervo paleontoldgico do MCTPUCRS, os irmios Cargnin foram igualmente importantes nas coletas para ins- titui~6es como a URFGS, o Museu Vicente Palloti na cidade de Santa Maria e, particularmente Daniel Cargnin, na cole- ta e criagiio do Museu Guido Borgomanero da cidade de

Mata (RS). Valdor Ochaghvia da Costa, foi tecnico dos labo- ratorios de paleontologia no MCT e na UFRGS e, alCm de preparar fdsseis, participava assiduamente das coletas. Sua habilidade nas tecnicas laboratoriais, lhe valeu um papel de destaque na prepara~iio e restaura~io dos fdsseis no Estado.

0 acervo paleontoldgico ia crescendo mediante perio- dicas coletas de fdsseis, especialmente, em sedimentos Triassicos. Durante as dCcadas de 70 e 80, o Dr. M&io Cos- ta Barberena estava encarregado, como pesquisador convi- dado, do estudo dos materiais que ingressavam ao acervo. Sua atua~io foi relevante no descobrimento de materiais de interesse que resultaram em numerosas teses de mestrado e doutorado. Na segunda metade da dCcada de 80 duas pesquisadoras, Dras. Martha Richter e Maria Claudia Ma- labarba, s5o contratadas para formar a equipe, como pa- leoictidlogas, passando a coletar e desenvolver pesquisas sobre peixes fosseis. Arnbas pesquisadoras aumentaram notavelmente o acervo do MCT, especialmente (mas n5o so- mente) com peixes fdsseis, atraves de coletas em diferentes partes do Brasil (Mafra, Tocantins, Santana do Cariri,

TaubatC, etc.) e at6 na AntArtida. Atualmente, o laboratorio conta com dois pesquisadores, Drs. M. C. Malabarba e Fernando Abdala, desenvolvendo pesquisas, trabalhos de coleta e curadoria.

Como ja foi mencionado acima, o Rio Grande do Sul 6 especialmente importante no regstro fossilifero dos perio- dos Permiano e Triassico. Sedimentos permo-triassicos es- tio expostos na forma de urna extensa faixa central no Esta- do, desde Porto Alegre at6 o oeste do estado, passando por localidades muito conhecidas na literatura paleontologica brasileira, como Candelhia e Santa Maria. 0s sedimentos

Divul. Mus. CiCnc. Tecnolo.-UBEAIPUCRS. Porto Alegre, no 7, p. 1-208, ago. 2002 continentais, que documentam a vida dos tetrapodes du- rante essa epoca, foram assuntos de numerosos estudos desenvolvidos inicialmente por pesquisadores estrangeiros.

0 mais destacado deles foi Friederich von Huene (* 1875- t 1969, Fig. 5) da Universidade de Tiibingen na Alemanha, que desenvolveu pesquisas e trabalhos de campo no Rio Grande do Sul em 1928. Estes trabalhos sairam publica- dos em um extenso volume (Huene, 1935- 1942). que foi tra- duzido ao portuguCs mais recentemente (Huene, 1990). Pos- teriorrnente, este trabalho foi continuado pelos professores

brasileiros Dr. Llewellyn Ivor Price (* 1905-1 1980; Price, 1947) e Dr. M5rio Costa Barberena. A partir da dkcada de 70, um ativo grupo de pesquisadores da Universi- dade Federal do Rio Grande do Sul, liderados pel0 Dr. Barberena, continuou com a tarefa de investigar o Permiano-

Triassico. 0 mencionado grupo apresentou numerosos achados pdeontol6gicos e interpretaq6es sob a bioestra- tigrafia da Formasgo Santa Maria a partir do conhecimento de seus afloramentos e fosseis (Azevedo, 1984; Araujo & Gonzaga, 1980; Barberena, 1977; 1978, 1981, 1982; Bar- berena et d., 1985a, 1985b, 1991; Lavina, 1983; Scherer et al., 1995, Schultz, 1995; Schultz et al., 1994, entre ou- tros).

Nos ultimos anos, as equipes cientificas do Laboratbrio de Paleontolo@a do MCTPUCRS e da Fundas50 Zoobothica do Rio Grande do Sul (MCNFZBRS) iniciaram traba- lhos de prospec~go peri6dicos dos afloramentos Permo- Triassicos do Estado, dando lugar a numerosas descober- tas ja publicadas e outras que ainda est50 ern process0 de estudo e divulgaqgo (Abdala et al., 2001, 2002; Abdala & Ribeiro, 2000; Bonaparte et al., 1999,200 1 ; Ferigolo, 1999; Ferigolo et al.,1999; Langer et al., 1999; Langer, 2000; Malabarba & Perez, 200 1 ).

0s vertebrados fosseis estgo amplamente representados no acervo do MCTPUCRS, havendo sido catalogados at6 o momento 2800 especimens. Alem desses, nurnerosos mate- riais, produtos de coletas mais recentes, est5o sendo prepa-

Divul. Mus. Ci&nc. Tecno10.-UBENPUCRS, Porto Alegre, no 7, p.1-208, ago. 2002 rados e catalogados visando futuras pesquisas. Basicamen- te, o acervo de vertebrados f6sseis estA composto por faunas de peixes de diversas idades (inclusive trihicas), estuda- das pelas Dras. M. Richter (Duffin et al., 1996; Richter, 1991 ; Richter et al., 1999) e M. C. Malabarba ( 1988, 1996 1998a.

b; Malabarba & Garcia, 1990); por faunas de rCpteis e si- napsidos tri&ssicos que resultararn em numerosos estudos, desenvolvidos no Centro de InvestigaC50 do Gondwana (CIGO) da Universidade Federal de Rio Grande do Sul (Barberena, 198 1 ; Mattar, 1 987; Teixeira, 1 982; Zacarias,

1982; Azevedo et al., 1990; Araujo, 198 1 ; Dornelles, 1999. entre muitos outros); e finalrnente, pela fauna quaternhia de mamiferos e tartarugas, estudadas por Toledo (1986, 1998). Oliveira ( 1992; 1995; 1996) e Maciel et al. (1 997).

A partir de 1993 procedeu-se a um ordenamento inte- gral do acervo paleontol6gico do MCTIPUCRS, incluindo a total informatiza~ao, organiza~iio e acondicionamento. 0 catgogo dos vertebrados fosseis aqui apresentado, 6. o re- sultado parcial deste ordenamento, visto que tambCm foi promovida a organizaqiio dos outros grupos f6sseis presen- tes no acervo: invertebrados e plantas. Neste cathlogo C fornecido dados referentes a cada grupo f6ssi1, materiais preservados e tambCm as associac$es representativas de cada doramento (no caso de repteis). S5o ilustrados os ma- teriais mais importantes do acervo, como exemplares-tipo e aqueles notiiveis pela sua preservaq5o. Igualrnente, s5o apre- sentadas informaq6es sobre os lugares fisicos da coleq5o (armhios e gavetas) onde cada grupo estii localizado. Espe- ramos que o mesmo seja util, n5o somente para o acesso de pesquisadores a cole$io do MCTIPUCRS, mas tarnbCm como fonte de dados sobre a representatividade da paleofauna nos diferentes afloramentos amostrados.

0 acervo paleontol6gico do MCT, conta atualmente corn urn total de 2800 espCcimens de vertebrados f6sseis catalo- gados, oriundos de diferentes camadas sedimentares brasi-

Divul. Mus. Ci6nc. Tecno10.-UBEAfPUCRS, Porto Alegre, no 7, p. 1-208, ago. 2002 leiras. Apesar da maior parte deste material ser procedente de afloramentos na regiao sul do Brasil, sedimentos das regides sudeste e nordeste tarnbem estAo representados

(Fig. 6). Deste ntimero, 1095 corresponde a peixes, 7 st50 anfi%ios, 946 s5o repteis, 606 sAo mamiferos fosseis, alCm de cerca de 128 copr6litos de peixes e rCpteis (Fig. 7). Como cada urn destes grandes grupos apresentam caracteristicas prbprias quanto B idade e procedCncia, eles sera0 aborda- dos separadarnente a seguir.

Peixes

A colec30 paleontol6gica inclui um total de 1095 espe- cimens de peixes fosseis. A maior parte do material (738 espCcimes) C procedente de trCs diferentes Formacdes: For- maq5o Rio do Sul, Permiano da Bacia do Parana; Formaq60

Santana, Cretaceo da Bacia do Araripe e Forma~so Tre- membd, Oligoceno-Mioceno da Bacia de Taubat6. Desta- cam-se ainda, pela quantidade de materiais, as Formasdes Teresina e Chui, Permiano e Quaternhi0 do Rio Grande do Sul, respectivamente. 0 restante do material C constituido de restos de peixes f6sseis provenientes de formacdes varia- das ou ent5o de procedsncia duvidosa. A composic50 da coleq5o de peixes fosseis conforme as formaqdes de proce- dCncia esta representada na figura 8. Dentro de outras for- magdes na flgura 8 estiio incluidas formacdes de diferentes bacias e idades, tais como: Candeias, Gramame, Coqueiro Seco, Irati, Muribeca, Morro do Chaves, Pastos Bons e Pe- dra de Fogo. 0s materiais referentes a peixes fosseis encontram-se acondicionados nos armiuios 9, 10 e 1 do acervo paleon- tol6gico. As caracteristicas dos materiais fossilizados, va- riarn conforme a FormacAo abordada:

- FormaMo Rio do Sul: folhelhos aflorantes nos arre- dores da regiiio de Mafra (SC), contendo espCcimes fos- seis completos de paleoniscideos (actinopterigeos pri- mitivos), preservados como impressdes (a maior par- te) ou escamas desarticuladas e enter6piros (intestino

Divul. Mus. Ci&nc. Tecno10.-UBEAIPUCRS. Porto Alegre, no 7, p. 1-208, ago. 2002 f6ssil). Encontram-se, ainda, escamas desarticuladas de celacantideos.

- Formaqao Santana: f6sseis de condricties, actinopte- rigeos e tel6steos prirnitivos, [preservados, principal- mente, como espCcimes completos, ou fragrnentos articulados (criinios e nadadeiras) em concreg6es cal- chias, do interior da reg50 nordeste.

- Formag60 Tremembe: folhelhos pirobetuminosos, pr6ximos a cidade de TremembC (SP), contendo f6s- seis de teleosteos, Characiformes, Siluriformes e Perciformes, preservados como espCcimes completos.

Est50, ainda, bem representadas na coleqiio as forma- ~bes Santa Maria, Chui e Teresina. 0s peixes f6sseis da For- mag50 Santa Maria est5o representados por restos frag- mentados e desarticulados do exoesqueleto (dentes e esca- mas) de paleoniscideos. 0s materiais da Formag50 Chui

(Pleistoceno da Bacia de Pelotas, RS) correspondem, princi- palmente, a dentes e ossos isolados de elasmobr5nquios, bagrideos e scianideos procedentes de sedimentos praiais da costa sul do Rio Grande do Sul. JA a FormaqBo Teresina (Permian0 da Bacia do Parang), estA representada na cole- q&o por amostras de conglomerados constituidos por den- tes, escamas e fragmentos 6sseos isolados de tubar6es e actinopterigeos, coletados proximo a regi5o de S5o Gabriel.

Anfibios e Repteis

0s rCpteis e anfilios somam 953 especimens e s50, qua- se totalmente, provenientes da Formaq5o Santa Maria, Trihsico MCdio-Superior do Rio Grande do Sul. Existem, entretanto, 128 lotes de rCpteis, que s5o procedentes de afloramentos quaterniirios na regi5o de Pantano Grande (vide Mamiferos) .

A maior parte dos lotes de rCpteis esta formada por

Dicinodontes, rincossaurios e cinodontes (Fig. 9). Cerca de 200 especimes tarnbCm coletados nos sedimentos triassicos, ainda est5o por ingressar na coleq5o. As quantidades apro- xirnadas por grupos f6sseis representadas no acervo s5o (o

Diuul. Mus. CiQnc. Tecno10.-UBEAIPUCRS. Porto Alegre. no 7. p.1-208, ago. 2002 primeiro n6mero refere-se ao total de lotes no acervo, en- quanto que o segundo C somente de crhios):

Anfibios: 7; 1 Dicinodontes: 395; 65 Rincossauros: 153; 24 Cinodontes: 93; 19

Arcossauromorfos: 29; 5 Procolofonideos: 2; 1 Coprolitos: 6 Indeterminados: 208.

0s materiais de tetr5podos tri5ssicos estiio distribuidos nos armkios 3 1 ao 34 e nos estantes 1 a 9 (da A ao D). Materiais nofiveis pela preservat$io, na maioria craos de dicinodontes, estiio expostos no estante 14 (Fig. 10).

Dados dos afloramentos de coleta de fosseis permo-trihsicos

No catzilogo do acervo, esl5o referidas 37 localidades de coleta dos f6sseis permo-trihssicos. Uma grande quantida- des de Sangas, se encontram perto da cidade de Candelkia. As mesmas, em conjunto com as sangas descobertas e pes- quisadas por Huene em SZio Pedro do Sul, fornecem a fauna mais antiga da Formaqgo Santa Maria, dominada pelos dicinodontes. No acervo do MCTIPUCRS existem materiais f6sseis coletados nas seguintes sangas em Candelaria: Belrniro, Darci, Erotilde, Porto, Carlos, Pinheiros, Hintz, Pascual, Lopes e Menezes. 0s fosseis do acervo que fazem parte da fauna dominada pelos rincossauros procedem dos arredores da cidade de Santa Maria, como os afloramentos de Vila Kennedy, Sanga Alemoa (Wald -Sanga) e Faixa Nova. Est.50 registrados, tambCm, materiais procedentes de locais de coleta indeterrninados em Santa Cruz do Sul e de um afloramento novo conhecido como Santukio Schoenstat onde a fauna registrada C dominada pela presenGa de cinodontes (Abdala et al., 200 1 ). Restos de pareiassauros e dinocefiilidos catalogados no acervo s5o procedente dos sedimentos permianos expostos

Divul. Mus. Ct&nc. Tecno10.-UBEWUCRS, Porto Alegre. no 7, p. 1-208. ago. 2002 no afloramento conhecido como Posto Queimado, ao norte de SBo Gabriel (RS).

(Parte 1 de 4)

Comentários