Dana Zohar - Ser Quantico

Dana Zohar - Ser Quantico

(Parte 1 de 9)

Danah Zohar (em colaboração com I. N. Marshall)

Uma visão revolucionária da natureza humana E da consciência, baseada na nova física

Tradução de Maria Antônia van Acker

Editora Best Seller Copyriht 1990

Nota da Autora

Neste livro utilizei amplamente as idéias de meu marido, dr. I. N. Marshall — tanto as que me foram transmitidas em longas discussões mutuamente criativas como as que ele publicou ou está prestes a publicar em revistas científicas e acadêmicas. A demonstração formal e o rigor matemático destas, embora comumente inacessíveis ao leitor leigo, emprestam maior peso à tese central do livro e são mencionados nas notas de rodapé e nas notas finais sempre que forem relevantes. Faço menção especial a seu trabalho: Consciousness and Bose-Einstein Condensates [A Consciência e os Condensados de Bose-Einstein].

Sumário

Introdução 1. Uma Física da Vida Diária 2. O que Há de Novo na Nova Física 3. A Consciência e o Gato 4. Serão os Elétrons Conscientes? 5. Consciência e Cérebro: Dois Modelos Clássicos 6. Um Modelo Mecânico-Quântico da Consciência 7. Mente e Corpo 8. A Pessoa que Eu Sou: Identidade Quântica

9. Os Relacionamentos que Eu Sou: Intimidade Quântica

10. A Sobrevivência do Ser: Imortalidade Quântica

1. Ultrapassando o Narcisismo: Os Fundamentos de uma Nova Psicologia Quântica

12. A Liberdade do Ser: Responsabilidade Quântica 13. O Ser Criativo: Nós como Co-autores do Mundo 14. Nós e o Mundo Material: A Estética Quântica 15. O Vácuo Quântico e o Deus Interior 16. A Cosmovisão Quântica Notas

Introdução

Este livro teve um estranho início. Há três anos, uma equipe de televisão veio me entrevistar a respeito de um outro livro que eu havia escrito sobre precognição e física moderna.1 Desculpando-me, expliquei-lhes que me era difícil falar sobre um assunto tão abstrato naquele momento, pois estava esperando um bebê. Quando o produtor me perguntou sobre o que poderia falar, respondi num impulso: "Sobre a maternidade".

Para minha grande surpresa e também deles, seguiu-se uma longa conversa sobre a maternidade e a física moderna. Vi-me descrevendo minha psique de mulher grávida, o nascimento de meu primeiro filho e a sensação de mim mesma como mãe em relação ao mundo freqüentemente fantástico das partículas subatômicas descritas pela física quântica. O estranho quadro da realidade pintado pela teoria quântica parecia oferecer, no mínimo, imagens muito ricas com as quais ilustrar o igualmente estranho estado de gravidez e os primeiros tempos de maternidade. Para minha maior surpresa ainda, essa conversa se transformou na base de um programa de televisão sobre física quântica e, pouco depois, em parte de um livro.2 Reacendeu, também, alguma coisa em mim.

Descobri a teoria quântica aos 16 anos. Estou certa de que aquele contato precoce influenciou tanto minha vida como minha maneira de ver as implicações do que é geralmente chamado "nova física". No final da adolescência, tantas coisas se tornam incertas que somos empurrados com tremenda urgência a encontrar respostas para as "grandes questões" da vida: quem sou, por que estou aqui, qual é meu lugar no plano das coisas, por que o mundo é do jeito que é, o que significa um dia ter de morrer? Enquanto as respostas um tanto estereotipadas de meus pais e o metodismo simples de meus avós não conseguiam me oferecer uma luz, a nova física pareceu me trazer uma visão poética.

A emocionante equivalência entre matéria e energia, o fluxo sugerido pela dualidade onda—partícula, o nascimento e morte repentinos das partículas que eu observava nos rastros de vapor de minha câmara de Wilson caseira e a exasperante indeterminação da realidade sugerida pelo princípio da incerteza de Hei-senberg, tudo isso funcionou como uma poção, excitando minha imaginação e, confesso, dando-me a sensação um tanto mística de que o Universo estava "vivo". Meu domínio da matemática da teoria quântica na época não era suficiente para me fornecer uma explicação detalhada da natureza fundamental das coisas, mas encontrei então os rudimentos de uma fé em que "tudo aquilo significava alguma coisa".

Infelizmente, este foi o máximo a que minha paixão pôde me levar durante vinte anos. Apesar, ou talvez por causa do curso de física, fui sendo conduzida por outros interesses, àquilo que chamamos "cuidar da vida."

Para a maior parte das pessoas, o mundo da física parece um mundo à parte. Suas complexas fórmulas matemáticas, seus resultados experimentais aparentemente insondáveis parecem não ter nenhuma relação com o mundo das experiências do senso comum, nenhuma relação com nossas percepções e emoções, muito menos com os problemas pessoais e sociais que ocupam tão grande parte de nossas vidas. No entanto, a física, como toda ciência, começou no âmbito da experiência da vida diária. Começou com espanto e com perguntas de como e por que as coisas funcionam da forma como funcionam, com aquelas perguntas que todos nós fazemos sobre o mundo e nosso lugar dentro dele. E as respostas a essas perguntas afetam a todos igualmente, sejamos cientistas ou não.

Pessoalmente, estou de novo muito preocupada com essas questões — por exemplo, quando converso com meu marido (psiquiatra e psicoterapeuta) sobre seu trabalho, sobre a estrutura do cérebro e as vicissitudes da consciência humana, ou quando ouço o que o finado Krishnamurti disse sobre a inter-relação das coisas, proclamando "eu sou o mundo".

Desde aquela primeira conversa com o pessoal da televisão, cada vez mais me flagro usando meus conhecimentos de física quântica. Sua descrição da realidade no nível subatômico e as atividades verdadeiramente muito estranhas dos elétrons me proporcionaram um novo entendimento de certos problemas filosóficos comuns: a identidade pessoal (quanto de mim é realmente "eu"; quanto pesa este "eu"), o problema mente—corpo (o quanto minha mente consciente ou "alma" está relacionada com meu corpo material ou a outra matéria), o problema do livre-arbítrio versus determinismo e o problema do significado. A física quântica também me ofereceu compreensão sobre minha vida diária: dar à luz, pensar na morte, sentimentos de empatia ou mesmo telepatia com os outros, a maneira como o mundo material (por exemplo, cidadezinhas muito feias) se impõe sobre a consciência etc.

Por vezes a teoria quântica parece servir como uma metáfora útil, que ajuda a colocar essas reflexões num foco novo e mais preciso; outras vezes parece prometer ao menos uma explicação parcial de como realmente funciona a consciência e, portanto, a vida do dia-a-dia. Este livro começou originalmente como um exercício de metáfora, mas, ao se desenvolver, a metáfora cedeu cada vez mais lugar às evidências ou, ao menos, ao que se pode considerar uma especulação muito bem fundamentada a respeito da verdadeira física da psicologia humana e suas implicações morais e espirituais.

Ao escrever o livro, constatei com pesar o fato de que cada capítulo poderia — e em muitos aspectos deveria — ser uma obra completa. Contudo, como a idéia básica de nos vermos como pessoas quânticas já é em si tão radicalmente nova, achei melhor oferecer num primeiro passo uma visão geral bem ampla. Assim, espero, o leitor poderá apreciar seu significado de grande alcance. Talvez outros desenvolvam com maior detalhe seus muitos temas.

Muitos me ajudaram na elaboração deste livro. Gostaria de agradecer de forma especial aos membros do Grupo de Física e Filosofia de Oxford pelas horas de discussão altamente esclarecedora e à Sociedade Oxford de Psicoterapia pela assombrosa relevância de seu programa de palestras sobre os temas que eu estava procurando desenvolver. Tom Kenyon, do Oxford Daily Information, me ajudou a superar meus traumas com o processador de texto, e minha agente, Dinah Wiener, me apoiou o tempo todo com sua fé e seu estímulo. Ela deu início ao livro muito antes que uma de nós avaliasse seu escopo.

Já fiz menção (insuficiente) à contribuição intelectual de meu marido. Mas, além desta, foram sua paciência, seu constante bom humor e horas incontáveis como "babá criativa" que, por fim, tornaram possível a realização deste livro.

Devo também mais gratidão do que se pode expressar à cidade e à Universidade de Oxford — por Port Meadow e seus pubs, pelo pitoresco da igreja de São Barnabé nos domingos de manhã, pelos inúmeros prédios bonitos que levantam o moral a cada esquina, pelas bibliotecas, salas de conferência e de aula abertas a todos que precisam, e pelos numerosos professores sempre à disposição para conversas e sugestões. A física quântica nos mostra que não podemos nos separar de nosso ambiente e não creio que teria escrito este livro se vivesse em qualquer outro lugar.

1 Uma Física da Vida Diária

Várias descrições de excelente qualidade a respeito da física quântica foram publicadas para leigos nos últimos anos. Este livro não pretende ser mais uma delas. Em vez de se referir à física quântica em si, ele é mais um livro sobre como o conhecimento da nova física poderá iluminar nossa compreensão da vida diária, ajudar-nos a entender melhor nosso relacionamento com nós mesmos, com os outros e com o mundo como um todo.

Mais especificamente, é uma obra cujo tema central é o modo de se sobrepujar essa forma particular de alienação que infestou a vida deste século. Tal sentido de alienação vem da sensação de que nós, seres humanos, somos de certa forma estrangeiros no Universo, meros subprodutos acidentais de forças evolucionárias cegas, e sem nenhum papel especial a desempenhar no esquema das coisas; sem nenhuma relação significativa com as inexoráveis forças que impulsionam o mundo maior da matéria bruta e insensível. Para desenvolver este tema, estarei examinando bem de perto o relacionamento entre matéria e consciência dentro da teoria quântica, assim como propondo uma nova teoria mecânico-quântica da consciência que promete nos trazer de volta a uma associação com o universo.

As raízes desta alienação estão fundo em nossa cultura, chegando, no mínimo, até a filosofia de Platão e sua distinção entre o âmbito das idéias e o mundo da experiência dos sentidos, e passando pelo cristianismo, que denegriu o corpo em favor da alma.

No entanto, de comum acordo, as influências mais poderosas sobre nossa cultura moderna derivam da revolução filosófica e científica do século 17, do cultivo da dúvida cartesiana e do nascimento da física newtoniana ou clássica. Ambas mudaram radicalmente o modo como vemos a nós mesmos e nossa relação com o mundo. A filosofia cartesiana arrancou os seres humanos do contexto religioso, social e familiar e lançou-os de ponta-cabeça no que este livro chama de "cultura centrada no eu", uma cultura dominada pelo egocentrismo, por uma ênfase exagerada do "eu" e do "meu". A visão de Newton arrancou-nos da própria substância do Universo.

A física clássica transmutou o cosmo vivo dos gregos e da Idade Média, um cosmo cheio de sentido e inteligência e movido pelo amor de Deus em benefício do homem, numa máquina morta e previsível.

A revolução de Copérnico havia deslocado a Terra, e portanto os seres humanos, do centro das coisas; porém as três leis do movimento de Newton e seu modelo mecânico do sistema solar forneceram a planta para um projeto completamente despido de vida. As coisas se moviam porque obedeciam a leis fixas e determinadas. Um silêncio glacial invadiu os céus antes pululantes de vida. Os seres humanos e suas lutas, toda a consciência e a própria vida tornaram-se irrelevantes ao funcionamento da vasta máquina universal.

Ao longo da História, temos retirado da teoria física corrente da época nossa concepção a respeito de nós mesmos e de nosso lugar no Universo. Assim, ao longo destes trezentos anos, físicos e não-físicos têm encontrado na coloração fria da visão newtoniana suas filosofias pessoais, seu sentido de identidade própria e suas noções de como se relacionam com o mundo e com as outras pessoas.

As imutáveis leis da História descritas por Marx, a luta desesperada pela sobrevivência de Darwin e as tempestuosas forças da sombria psique de Freud devem, em alguma medida, sua inspiração à teoria física de Newton. Todas, e mais a arquitetura de Le Corbusier e o completo arsenal da parafernália tecnológica que toca todos os aspectos de nossa vida diária, permearam tão profundamente nossas consciências, que todos e cada um de nós nos enxergamos refletidos no espelho da física newtoniana. Estamos mergulhados no que Bertrand Russell chamou de "desespero inarredável" ao qual ela deu origem.

"O mundo que a ciência nos apresenta para que acreditemos", escreveu Russell na virada do século, "nos diz":

Que o homem é produto de causas que não tinham nenhuma previsão do fim ao qual chegariam; que sua origem, seu crescimento, suas esperanças e temores, seus amores e crenças não passam do resultado do posicionamento acidental de átomos; que nenhum heroísmo, nenhum grau de pensamento ou de sentimento pode preservar a vida individual após a morte; que toda a labuta dos séculos, toda a devoção, toda a inspiração, todo o intenso brilho do gênio humano estão destinados à extinção na vasta morte do sistema solar; e que todo o templo da conquista humana deverá inevitavelmente ser soterrado sob os escombros de um Universo em ruínas...1

"Como", pergunta-se Russell, "pode o homem, num mundo tão alienígena e desumano, manter suas aspirações imaculadas?" Em larga escala, não conseguimos.

A maioria dos relatos escritos sobre nosso século e a experiência de muitas pessoas que viveram ao longo dele mostram um quadro de considerável dissolução. De todos os lados — moral, espiritual e estético — nossa cultura parece estar sob tensão. Muitos dos "valores antigos" e crenças geralmente aceitas deixaram de ser inquestionáveis e nos vemos alicerçados apenas em nós mesmos. A grande massa das pessoas foi compulsoriamente obrigada a viver na era do herói existencial — audaciosamente indiferente ao Deus morto, tornando-se criador de seus próprios valores e guardião de sua própria consciência. Esta é a experiência do modernismo, e seu preço, tanto em termos pessoais como em termos de desenraizamento cultural, foi alto.

Em nosso relacionamento com nós mesmos e com os outros, a influência newtoniana vai muito fundo. Se não passamos de um subproduto acidental da criação e um joguete na mão de forças maiores totalmente fora de nosso controle, como podemos ter alguma responsabilidade significativa por nós mesmos ou pelos outros?

Como, dotados de existência temporária e de propósitos fúteis e jogados de um lado para outro pela dinâmica do id ou pela sub-corrente genética ou ainda pela luta de classes e pela História, como realmente podemos ser responsabilizados por qualquer coisa? Grande parte da moderna sociologia, da pedagogia e toda a psicologia da pessoa derivam desta linha de pensamento, assim como nossa violência característica do século

20, uma reação natural diante de tamanha impotência.

Foi igualmente afetada nossa atitude em relação à natureza e ao mundo material.

Se nossa mente, nosso ser consciente, é totalmente diferente de nosso ser material, como argumentou Descartes, e se a consciência não tem nenhum papel a desempenhar no Universo, como sugere a física de Newton, que relacionamento podemos ter com a natureza ou com a matéria? Somos alienígenas num mundo alienígena, situados à parte dele e em oposição a ele, nosso meio ambiente material. Portanto, lançamo-nos à conquista da natureza para sobrepujá-la e utilizá-la para nossos próprios fins sem olhar as conseqüências disso.

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