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Prof. Jefferson Dias 2010

1 MACROTENDÊNCIAS DO AMBIENTE INTERNACIONAL04
2 A EMPRESA DO SÉCULO XXI13
3 INSTRUMENTOS ESTRATÉGICOS20
4 EMPREENDEDORISMO31
5 O EMPREENDEDOR4
6 ABERTURA DO PRÓPRIO NEGÓCIO51
7 PLANO DE NEGÓCIOS65

Os consumidores vêm assumindo um papel cada vez mais importante e ativo na sociedade. As organizações que crescem são as que mais os valorizam. Mas nem sempre foi assim. Algumas décadas atrás o mundo não contava com a disponibilidade tecnológica, a facilidade logística e a diversificação de produtos que existe hoje. O cliente, portanto, consumia aquilo que estava disponível, mesmo que não o satisfizesse. Com o surgimento de novos modelos e de produtos substitutos aos que existiam, o consumidor foi colocado em uma posição de destaque: é ele que decide pela manutenção ou não de determinado produto, marca, ou até mesmo de uma empresa no mercado. Nos Estados Unidos, gerações de consumidores passaram a definir os produtos mais cobiçados em determinadas épocas. Na década de 70, por exemplo, o forno de micro-ondas foi o item de consumo mais desejado, na década de 80 o vídeo-cassete, na década de 90 os computadores e a internet, e na década atual os celulares com toda a convergência tecnológica que se puder agregar. A globalização, por sua vez, passou a disponibilizar essa gama de produtos para os quatro cantos do mundo e, com isso, passou lentamente a impor padrões que passaram a moldar os desejos do consumidor. Empresas de tecnologia de ponta vendem hoje não o que o cliente deseja, mas o que ele vai desejar. Nesta nova ordem mercadológica mundial, o produto não vende mais a si mesmo. Os serviços deixaram de ser agregados e passaram a ser parte integrante do pacote que vai proporcionar a venda. Neste novo cenário, nunca criatividade e inovação – duas das mais importantes qualidades empreendedoras – foram tão exigidas das empresas e dos profissionais.

No século XXI, o mundo já não tem a mesma divisão e o mesmo desenho social, político e econômico que tinha 50 anos atrás. Esta nova ordem mundial – inclusive alavancada pela maior crise financeira do mundo moderno – tende a mudar profundamente as relações entre os chamados países desenvolvidos, países emergentes e aqueles que estão trabalhando para participar deste processo de integração econômica mundial que, tudo indica, não tem mais volta. A única certeza estável, não há dúvida, é a mudança, e nós devemos nos preparar ao máximo para esta realidade.

Neste módulo vamos tratar destes assuntos, sua influência na relação entre empresas, entre profissionais, entre empresas e profissionais, a importância de desenvolvermos as habilidades e adquirirmos uma postura empreendedora, e a conseqüência disso tudo na forma como o mundo deverá fazer negócio nos próximos anos.

Professor Jefferson Dias

1 MACROTENDÊNCIAS DO AMBIENTE INTERNACIONAL

O ambiente de negócios internacional é um tema de estudo que atrai empresários, profissionais, investidores e pesquisadores em todo o mundo. Como veremos não foi sempre assim, esta é uma faceta da globalização, época que vivemos na atualidade, onde a disponibilidade de informação, através de abundantes e rapidíssimos meios de comunicação encurtam as distâncias e fazem o mundo parecer caber em uma tela de computador. Para entendermos porque não foi sempre assim, se faz necessário realizarmos uma rápida revisão da evolução histórica das atividades econômicas e suas consequências para o mercado. Estas mudanças provocaram reflexos diretos na força de trabalho que teve que ir se adaptando às novas realidades. Já nos dias atuais, determinados fatos históricos e o advento da tecnologia como meio de viabilização da comunicação de massa, contribuíram para a mudança de hábitos de consumo que influenciaram a indústria do varejo. A estabilização sócio-políticoeconômica no final do século X, a evolução das telecomunicações, e o aumento de produtividade trazido pela evolução do computador, constituíram-se nos precursores da intensificação do comércio mundial. O aprofundamento no relacionamento comercial internacional e o entrelaçamento dos mercados financeiros criou o que chamamos de globalização, realidade que ainda é muito discutida, rechaçada por uns, idolatrada por outros, mas é a realidade na qual o Brasil se insere.

Evolução Histórica das Atividades Econômicas

Antes da criação da moeda, os homens comercializavam se utilizando de trocas diretas, conhecidas como escambo. Algumas mercadorias passaram a ser mais procuradas do que outras, por sua enorme utilização e também por ser aceita por todos. O sal é um exemplo deste período. Essas mercadorias assumiram a função de moeda. Devido à oscilação de seu valor e com o passar dos tempos, as mercadorias se tornaram inconvenientes para se realizar transações comerciais por não serem fracionáveis e por serem facilmente perecíveis. Dessa forma também não permitia o acúmulo de riqueza.

Surge a moeda por volta de 330 a.C. e as pessoas passam a utilizá-la como meio de troca. Deste período até a idade média (final do século XIV) as atividades econômicas se resumiam a extração (mineral, vegetal e animal), a caça e a pesca, ou seja, tudo era fornecido pela natureza, praticamente sem intervenção do homem. O conceito de produção dá seus primeiros passos com a Era Agrícola que se inicia por volta do século XV. Neste período, o homem aprende a plantar e a colher, ou seja, a produzir parte de sua alimentação. Uma vez saciadas as necessidades da própria família, ele passa a considerar a possibilidade de vender parte da sua produção, e assim, passar a guardar algum dinheiro. É o nascimento do conceito de poupança.

Com o surgimento da moeda (que tomou várias formas antes de se constituir no que conhecemos hoje), a humanidade iniciou uma lenta evolução desde atividades puramente extrativistas (tanto mineral e vegetal como animal, através da caça e da pesca) até incorporar o conceito de produção, que dá seus primeiros passos com a Era Agrícola. Segundo Soares (2007), “a noção moderna de dinheiro está associada à idéia da generalização de um único meio de pagamento (ou seja, apenas algumas ou mesmo um bem específico é aceito como intermediário na troca de bens ou pagamento por eles), mas não necessariamente com a fixação de unidades monetárias.” Para a pesquisadora o dinheiro representava um degrau acima nas relações de troca, “deixando essas de se caracterizarem por escambo (troca de bens diretamente por outros bens), para serem marcadas pela presença do meio de pagamento – dinheiro − que pode ser representado por mercadorias específicas para bens específicos (pluralidade de meios de pagamentos) ou de um meio de pagamento único (em geral o metal cunhado/moeda ou uma mercadoria padrão). Para ela, a “idéia de moeda diz respeito, mais especificamente à materialização do conceito de dinheiro, via um signo de valor. Tal signo de valor pode ser representado numa peça de metal (forma surgida na Lídia, no século VII a.C., posteriormente desenvolvida e difundida pelos gregos) ou em qualquer outra coisa. O papelmoeda é um formato mais recente, data do século IX, na China, e foi introduzido na Europa a partir do século XVII. No início a emissão deveria corresponder exatamente à quantidade de metal depositado no banco, funcionando como algo que imprimia um direito sobre o depósito”.

Darcy Ribeiro (1998) sugere que o processo civilizatório da humanidade aconteceu há 10.0 atrás, sobre os povos da Mesopotâmia e do Egito, no que ficou conhecido como a Revolução Agrícola. Este processo de revolução tecnológica “desdobrou-se em dois processos civilizatórios, com os quais surgiram a agricultura e o pastoreio, configurando modos de vida tão diferenciados de todos os anteriores”. A Era Agrícola se estende até o final do século XVIII, quando a descoberta das máquinas como meio de produção, aliadas a formas de geração de energia (como o vapor, a eletricidade, e já no século X, o motor com combustão interna) fazem nascer a Revolução Industrial.

Ribeiro (1998) afirma que o reeordenamento da sociedade no período da Revolução

Industrial, no século XVIII, é comparável apenas com as transformações ocorridas na Revolução Agrária, pois tal como antes, seu impacto levou a uma remodelação interna em cada sociedade “alterando sua estratificação social e, com ela, as estruturas de poder e redefinido profundamente as visão do mundo e seus corpos de valores”.

Este período dá início a um intenso movimento de mão-de-obra do campo para a cidade, em função da oferta mais abundante de postos de trabalho nas fábricas. A produção de bens de consumo industrializados ocupa a maior parte desta mão-de-obra. Até o final do século XIX, o trabalho industrial respondia por mais de 40% da mão-de-obra empregada, como mostra a figura 1. Ao longo do século X, especialmente a partir dos anos 1960, com a crescente automação dos processos fabris, assim como da demanda por atividades de escritório, observa-se uma migração significativa da mão-de-obra ocupada em atividades industriais para atividades de escritório, conforme detalharemos a seguir.

Fonte: Laudon & Laudon (2004) Gráfico 1 – Composição da força de trabalho 1900-1999

O gráfico 1 demonstra nitidamente a queda acentuada do percentual de trabalhadores rurais (linha azul clara) até o ano de 1970, quando se estabiliza em cerca de 3%. Já a mão-deobra ligada à indústria (linha amarela) prossegue em lenta ascendência (seu crescimento foi bem expressivo no século anterior) também até o ano de 1970, quando inicia um período de queda intensa de 10 anos, e depois outro período ainda de queda, mas bem mais lenta, até o final do século quando fecha por volta de 23%. O ano de 1970 marca o início de outro momento de mudança profunda no perfil da mão-de-obra. Este período é marcado pela intensificação da automatização nas indústrias, o que provoca um significativo aumento de produção. Dentro desta nova realidade, a mão-de-obra inicia novo período de intenso movimento, mas desta vez do setor industrial para os escritórios e para o setor de serviços. Mais uma vez surgiram novos postos de trabalho com funções também desconhecidas, e mais uma vez eles tiveram que ser treinados para as novas atividades.

A automatização das indústrias acontece em ritmo acelerado dado o significativo aumento de produtividade. Quase que simultaneamente acontece a chamada revolução dos processos. Menos impactante que a automatização, ela nasce como reconhecimento da importância que uma gestão profissional e científica tem nos resultados e no clima organizacional da empresa, e é materializada através dos programas de gestão pela qualidade. O final dos anos 80 é marcado pela chegada dos computadores pessoais ao mercado. Iniciavase a era da informatização que fez chegar ao indivíduo uma capacidade produtiva que até então só era conseguida por aqueles que atuavam nos centros de processamento de dados (CPDs). Mais uma vez inicia-se nova fase de atualização dos conhecimentos dos trabalhadores que passariam, então, a executar as antigas tarefas com mais perfeição, organização e rapidez, com o uso dos micro-computadores.

Com a evolução tecnológica, vamos observando que os ciclos evolutivos vão se tornando cada vez mais curtos. Isso é normal pois, com maior disponibilidade de recursos, maior capacidade de pesquisa e de criação, novas descobertas aparecem cada vez mais rapidamente. Assim, já na década de 90, a ampla evolução das telecomunicações e da informática contribuem para a disseminação do uso da internet, lançando as bases para a emergência da sociedade da informação (Drucker, 1993), assim chamada pelo fato de haverem caído por terra praticamente todas as barreiras para obtenção de dados e informações que, até então, estavam disponíveis apenas para uma pequena parcela da sociedade.

Com o aumento da capacidade de processamento dos computadores, suja miniaturização, a ampliação do uso de ambientes gráficos interativos, a convergência entre serviços de voz, texto, imagem e som, e o próprio amadurecimento dos usuários, chegamos a era atual que alguns autores chamam de era do conhecimento. A era em que vivemos hoje é assim chamada pelo fato da preocupação não ser mais com a disponibilidade de informação, mas sim com a filtragem e transformação de dados abundantes e disponíveis em conhecimento útil para o ser humano.

As Gerações de Consumidores

O mercado de consumo passou por importantes mudanças ao longo do século X, que se estendem até os dias de hoje. As empresas se preocupam em oferecer a seus clientes um atendimento mais individualizado, e por isto se esforçam em desenvolver novas bases de segmentação para aumentar a eficácia das suas ações de marketing. Uma das bases de segmentação utilizadas é a que identifica grupos que passaram pelos mesmos eventos históricos no período entre a adolescência e a idade adulta. A geração nascida após a segunda Guerra Mundial é chamada de baby boomers, que em português quer dizer explosão de bebês.

Nesta época, a sensação de prosperidade, especialmente nos Estados Unidos, vencedores da guerra, estimulou os casais a terem filhos.

Em termos de mercado, este período foi marcado por um grande aumento no consumo de fraldas descartáveis, chupetas, mamadeiras, cereal matinal, enfim, todo tipo de consumível utilizado com crianças.

Da mesma forma como a geração baby boomers influenciou o mercado nos anos 1950 e 60 enquanto eram crianças, continuaram a influenciá-lo nas décadas seguintes. Na década de 70 foi a vez do forno microondas, na década de 80 o videocassete (inclusive desbancando a opção da época que se chamava Betamax), e nos anos 1990, o computador e a internet.

De forma análoga, a geração nascida nos anos 1970-80 ficou conhecida como geração

X, e dos anos 90 para frente, geração XY. O quadro 1 sintetiza as gerações que vem ditando as regras de consumo no mercado mundial.

Geração Faixa Etária Baby Boomers 41-60 anos Geração X 21-40 anos Geração XY 0-20 anos

Quadro 1 – Gerações de consumidores

A geração Baby Boomers, para que se tenha uma idéia, apesar de representar 30% da população americana, representa o equivalente a 50% do PIB (produto interno bruto – dado de 2000) americano. Quanto mais velho, maior poder de compra o indivíduo tem. Segundo o autor Paul Zane Pilzer em seu livro “O Próximo Trilhão”, a tendência para esta década é que os Baby Boomers impulsionem a indústria do bem-estar (além de bens de luxo, vitaminas, academias de ginástica, esportes, casas de saúde e metodologias atividades para o cérebro) em 500%. Esta indústria, que representava US$200 Bilhões no ano 2000, chegaria a US$1 Trilhão em 2010.

assim, atender o mercado com exatamente aquilo que ele desejaou desejará.

De maneira análoga, a geração X tende a consumir bens de consumo duráveis (inclusive começar a pagar o financiamento de uma casa), e a geração XY bens de consumo semi-duráveis, a freqüentar escolas e universidades, bares e boates. Cada uma dessas gerações vai impulsionar, de forma diferente, determinados setores da economia. Informações detalhadas e dados estatísticos sobre estas faixas etárias e seus hábitos de consumo, estão, hoje, disponíveis em estudos que tratam do comportamento do consumidor, por exemplo, e em pesquisas de mercado que podem ser compradas. Como esse é o caso das indústrias, elas têm condições de realizar planejamentos estratégicos com um índice bastante alto de acerto e,

A Globalização e as Mudanças nas Formas de Concorrência

A globalização é um fenômeno mundial que busca a integração não apenas econômica, mas também social, cultural e política das nações que se relacionam através do comércio internacional. A evolução e o barateamento dos meios de transportes e das telecomunicações são duas alavancas importantes para este movimento, visto que permitem que compradores e vendedores possam se conhecer através do ambiente virtual da internet, fazer negócio e operacionalizar sua entrega. Embora a globalização seja considerada mundial, ainda existem vários países que não conseguiram se integrar ao processo. Sua origem se deu em função da dinâmica do capitalismo que está sempre buscando ampliar sua capacidade produtiva e que, para dar vazão ao seu superávit de produção, necessita sempre de novos parceiros comerciais. O grupo dos países mais desenvolvidos acabou, portanto, por saturar o comércio em suas próprias fronteiras e, assim, passou a necessitar desta “aldeia global” como forma de manter a espiral de crescimento.

O professor e pesquisador Peter Drucker, ampliou este conceito e chegou a conclusões que são baseadas na crença de que a globalização não é apenas um processo econômico. Na realidade, mais do que isso, ela pode ser considerada um fenômeno psicológico, definido pela aceitação generalizada dos valores dos países ocidentais desenvolvidos como modelos desejáveis em todo o planeta, com tudo que esses valores possam ter de bom e de mal. Ele exemplifica seu ponto de vista com a observação de que 90% dos chineses consideram o automóvel uma necessidade, embora a maioria absoluta deles dificilmente terá dinheiro para comprar um carro (Intermanagers, 2001).

O fato é que a globalização passou a mudar significativamente a face do mercado internacional. Americanos, Europeus e Japoneses, os maiores exportadores do mundo na época, intensificaram seu relacionamento comercial com os quatro cantos do globo com o objetivo de manter seu crescimento. Essa aproximação com os demais países trouxe consigo oportunidades de investimento que iriam desde o financiamento da plantação de alimentos e álcool combustível (o Japão trabalha com estas frentes de investimento no Brasil), até vínculos mais profundos como a aquisição de terras, implantação de sistemas produtivos em parceria com players locais, e ainda fusões e aquisições de empresas da região.

Se por um lado estes países “avançavam” por sobre qualquer região do mundo onde se pudesse fazer negócio, por outro eles se protegiam do ataque dos concorrentes. Além do protecionismo que americanos e europeus se utilizam para evitar que produtos estrangeiros entrem em seus países com preços competitivos, as certificações de qualidade da série ISO 9000 (as mais utilizadas no comércio internacional) passaram por reformulações em 1994 e 2000, e estes países – por serem altamente industrializados e estarem a frente do restante do mundo na padronização de seus sistemas produtivos – as adotaram quase que imediatamente em função do requisito de que os países que quisessem vender para estas regiões deveriam se enquadrar nos novos padrões que, naturalmente, haviam sido elevados para níveis ainda mais rígidos. As certificações de qualidade não apenas tem um alto custo para serem implantadas, como em países como o Brasil demanda-se tempo para formar os consultores especializados que irão representar instituições certificadoras e, assim, certificar as empresas locais.

Fruto da chamada globalização, e exemplo tácito da necessidade de dar vazão para uma produção sempre crescente, é a formação dos blocos econômicos. Muitas barreiras antes existentes foram caindo e derrubando as barreiras que representaram as fronteiras no passado. A formação de blocos econômicos como o Nafta, Mercado Comum Europeu e o Mercosul mostra a grande necessidade da união de países em busca de um melhor desenvolvimento e manutenção de suas economias na espiral do crescimento. Na união entre países desenvolvidos e em desenvolvimento procura-se equilibrar a realidade de menores custos do país em desenvolvimento com a disponibilidade de tecnologia e recursos financeiros do país desenvolvido. Sua união supõe uma sinergia que permite a ambos dar andamento a seus projetos de crescimento econômico.

Frente a este cenário, não é difícil concluir que a globalização, a princípio, foi um grande negócio para os países mais desenvolvidos – os fornecedores – e um negócio não tão interessante para os demais – os consumidores. Entretanto, não fosse por ela, pessoas em todo o mundo não teriam tido acesso a novos produtos e serviços, intensivos em tecnologia, como, por exemplo, medicamentos, equipamentos de informática, química fina, entre outros. Com o passar do tempo parcerias foram se intensificando, os países interessados em participar deste movimento foram vagarosamente se enquadrando nos padrões internacionais, sendo que quatro deles, por seu porte, tamanho do mercado consumidor interno e capacidade de crescimento (leia-se investimentos em infra-estrutura) se destacaram e passaram a compor o que hoje chamamos de BRIC. As iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China compõem a sigla destes que são os países com maiores possibilidades de crescimento nestas duas primeiras décadas do século XXI.

Dos países do BRIC, o Brasil é considerado o país mais estável para se investir, tanto que recebeu o grau de investimento pelas agências de nota de crédito Standard & Poors em 30/04/2008 e pela Fitch Ratings em 30/05/2008. Esta condição coloca o país em situação considerada privilegiada para o recebimento de investimentos externos. Já Rússia e China, por sua vez, não vivem situações tão confortáveis. A Rússia, além de ser um país comunista, tem um mercado menor e fortemente dependente da indústria de petróleo e gás. A China, apesar do seu dinamismo econômico, é uma sociedade politicamente controlada com mão de ferro. Portanto, em ambos os países, não há democracia. A comunidade internacional entende que a falta de transparência e o uso da mão de ferro para administrar a força de trabalho destes países demonstram que eles ainda têm muito a crescer em termos de maturidade sóciopolítica. A Índia, por outro lado, tem problemas estruturais (inclusive por conta de questões religiosas) que impõem barreiras que dificultam o relacionamento comercial com o país, embora tenham uma grande quantidade de profissionais na área de informática, de baixo custo, que a coloca entre os maiores fornecedores deste tipo de serviço no mundo. O Brasil, por sua vez, embora com problemas bastante sérios em termos de legislação trabalhista e tributária (o que o coloca na posição de número 125 no ranking dos países onde é mais difícil fazer negócios, de acordo com o relatório Doing Business 2009, divulgado pelo Banco Mundial1 em 2008) tem, a seu favor, o fato de ter suas questões sociais, políticas e econômicas (principalmente as econômicas) estabilizadas. Esse fato é visto pela comunidade das nações como sendo um redutor significativo do risco de se comercializar e investir no país, o que vem sendo provado pelo fluxo líquido de dólares em nossa economia que continua positivo. Mesmo no auge da crise financeira internacional, com toda a crise de liquidez que assolou os quatro cantos do planeta, as empresas estrangeiras que investem na economia real do Brasil continuam mantendo seus investimentos, o que tem provocado este fluxo líquido positivo de dólares em nossa economia.

Toda esta movimentação nos trouxe a realidade que vivemos hoje, onde as empresas de todos os países que se adaptaram ao processo da globalização passaram a buscar o comércio internacional, também extrapolando suas fronteiras e passando a atuar em pé de igualdade com aqueles que a iniciaram. O acesso à tecnologia de ponta, a adequação aos procedimentos de padronização internacional e a disponibilidade de fontes de financiamento reduziram drasticamente as diferenças que existiam nos níveis de qualidade dos produtos e, consequentemente, provocaram um alinhamento dos custos de produção. Com custos diretos similares, a diferença na competitividade dos preços entre os países ficou por conta dos custos indiretos (principalmente custo de mão-de-obra, de transporte e despesas alfandegárias) e do câmbio. Nesta nova realidade, as empresas passaram a buscar parcerias em diversas partes do mundo, objetivando usufruir de menores custos e maior especialização que uma região do mundo tivesse sobre outra. A China, por exemplo, passou a dominar o comércio de produtos de consumo semi-duráveis em função da grande disponibilidade de mão-de-obra a custo muito baixo e sem necessidade de treinamento. O Brasil, com tantas riquezas naturais, se tornou um grande fornecedor de commodities (mercadorias que são comercializadas em todo

1 BBC Brasil. Brasil é 125º. em ranking de ambiente de negócios. Artigo eletrônico disponível em: http://luishipolito.wordpress.com/2008/09/10/brasil-e-125%C2%BA-em-ranking-de-ambiente-de-negocios/. Acesso em 17/10/2008.

o mundo cujo preço é definido em bolsa) agrícolas e minerais. A Índia, por falar inglês e também ter uma mão-de-obra de baixo custo, passou a exportas serviços de call center para os países de língua inglesa e, conforme comentado anteriormente, serviços na área de desenvolvimento de sistemas informatizados.

Nessa nova ordem mundial, a concorrência deixou de acontecer entre empresas e passou a ocorrer entre cadeias de suprimentos. Segundo Hong (2006) a relação entre as empresas deve evoluir para um tipo de relação simbiótica, onde todo o processo é desenvolvido em cadeia. Cada agente depende do perfeito funcionamento do outro, já que um erro não afeta mais apenas a empresa, mas sim toda a cadeia. O compromisso de uma relação com estas características não pode mais ser de curto prazo. Muitos recursos são despendidos no sentido de estabelecer a parceria e investidos na própria infra-estrutura de trabalho. O mundo globalizado, portanto, leva as empresas a unirem forças para reduzir custos e aumentar sua competitividade no mercado. Hong dá o exemplo da Fiat automotiva: “instalada na cidade de Betim, (a Fiat) conseguiu atrair para os arredores de sua fábrica vários de seus fornecedores. Com isso, reduziu os custos de transporte, o nível de estoque de matéria-prima e componentes, além de agilizar a entrega de material. Em troca, ofereceu a seus fornecedores contratos de longo prazo e exclusividades de fornecimento das peças”.

O Futuro do Ambiente Internacional

Agora que entendemos como evoluiu e o que vem acontecendo na economia mundial, vamos, então, trabalhar com alguns possíveis cenários para o ambiente de negócios internacional. Como não há condições de trabalharmos com todo o conjunto de variáveis que efetivamente compõem a economia mundial, vamos delimitar nossa análise a três situações: o envelhecimento da população, a nova ordem econômica que está se instalando em função da atual crise financeira, e o meio ambiente.

O Envelhecimento da População

As previsões dizem que o Brasil terá 260 milhões de pessoas em 2050 (Exame, 2004).

A fatia dos brasileiros acima de 65 anos deve saltar de 5% para quase 20%. A tendência natural, conforme indicam as estatísticas, é a redução gradativa no ritmo de crescimento da população. Hoje o Brasil tem um crescimento populacional de 1,4% ao ano. Era o dobro nos anos 1970. Estas projeções, embora sejam para o nosso país, não diferem muito dos demais países da américa latina. Americanos, europeus e japoneses já contam com um percentual maior de idosos. Em função de uma maior estabilidade política e econômica, e de um sistema de saúde mais bem organizado, eles conseguiram atingir uma expectativa de vida mais elevada. A certeza com relação a este quadro é que todos os países terão que rever seus sistemas de previdência social para que acomodem um maior número de aposentados. Isso significa aposentadorias mais tardias, pessoas trabalhando mais tempo, maior necessidade de empregos. Em termos de mercado, este quadro tende a ampliar os investimentos em negócios relacionados à terceira idade (conforme afirma Pilzer, 2002) como academias de ginástica, ambientes de diversão apropriados, casas de saúde, remédios, vitaminas e metodologias para cuidados com o cérebro.

A Nova Ordem Econômica Mundial

Como as regiões mais afetadas pela crise financeira foram os Estados Unidos e a Europa, seus sistemas financeiros terão que passar (ou retomar) por alterações que os tornem mais seguros e, ao final, mais conservadores no tratamento do crédito. A crise comprova que o neoliberalismo – como teoria econômica vigente – tem falhas que precisarão ser revistas e adaptadas a realidade econômica que vive o mundo capitalista. Ficou comprovado que o mercado não consegue, por si só, acomodar desequilíbrios do porte e da profundidade dos ocorridos na crise financeira de 2008/2009. É fundamental uma vigilância constante do poder público como regulador e supervisor da atividade privada. É importante observar que estes desequilíbrios foram provocados, inicialmente, por uma liberalização excessiva e, por que não dizer, irresponsável, dos órgãos fiscalizadores do sistema financeiro. Se as instituições tivessem sendo fiscalizadas de forma mais conservadora, certamente a crise poderia ter sido evitada muito antes da sua explosão. A participação do estado nesta crise foi fundamental para a retomada da confiança no sistema financeiro internacional, e é justamente isto que deve provocar mudanças profundas nas regras que vinham sendo adotadas com a exigência de procedimentos mais rígidos de prestação de contas e mais transparência por parte das empresas.

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