Caderno temático da criança

Caderno temático da criança

(Parte 1 de 8)

Criança

Coordenação da Gestão Descentralizada (COGest):Fábio Mesquita Coordenação Geral dos Cadernos Temáticos:Ana Cecília Silveira Lins Sucupira

Elaboração do Caderno Temático da Criança:

Ana Maria Bara Bresolin – Responsável pela Área Temática de Saúde da Criança Ana Cecília S.L.Sucupira – Gerência de Desenvolvimento de Projetos COGest

SÃO PAULO - SP OUTUBRO – 2003

Revisão Final

Sandra Maria Callioli Zuccolotto Eunice Emiko Kishinami de O. Pedro

Colaboradores

Ana Cristina Bretas

Anette Katsuno

Anna Maria Chiesa

Cátia Martinez

Célia Cristina Pereira Bortoletto

Lídia Tobias Silveira

Márcia Mulin Firmina Da Silva Maria Celeste Soares Ribeiro

Maria Laura Deorsola Nogueira Pinto

Rosilda Mendes

Tanira Gomes De T. Barros Tanya Eloise Lafratta

Editoração Preliminar Maria Cristina Brito Reis Milton Salas Augusto

Capa

OLHOdeBOI comunicações

Editoração, Fotolito, Impressão e Acabamento

Editoração Gráfica

Marli Santos de Jesus Vanessa Merizzi

Apresentação

ASecretaria Municipal de Saúde de São Paulo (SMS) tem como finalidade garantir no Município de São Paulo a proteção,a promoção e a recuperação da saúde da população paulistana,dentro das normas,prin- cípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde - SUS.Desde agosto de 2003,o município passou a ser o gestor único do SUS no âmbito do território da Cidade de São Paulo que tem 10 milhões e 500 mil habitantes.

Para cumprir sua finalidade a SMS vem,desde 2001,reorganizando os serviços de saúde em todos os seus níveis de atenção,com ênfase na atenção básica no primeiro momento.

O instrumento que ora lançamos - o Caderno Temático de Saúde da Criança - foi concebido para contribuir com essa proposta institucional e foi construído na Cogest - Coordenadoria do Desenvolvimento da Gestão Descentralizada pela Área de Saúde da Criança.Este caderno contém as diretrizes políticas da Área Temática de Saúde da Criança e seu caráter é técnico,não normativo.

Destina–se aos profissionais da Rede Básica de Atenção à Saúde e pode ser utilizado como subsídio para a construção de protocolos locais ou regionais.

A elaboração deste Caderno contou com a participação dos técnicos da SMS,profissionais da rede de serviços de saúde da prefeitura e professores de universidades.Isso explica,de certa forma,a heteregenoidade no formato dos textos,uma vez que se optou por preservar o original dos colaboradores.É intenção da SMS disponibilizar este Caderno na Internet e atualizá-lo periodicamente.

Temos a certeza de que esse material técnico fortalecerá o processo de consolidação do SUS e produzirá impactos positivos nos indicadores de saúde da cidade de São Paulo.

Gonzalo Vecina Neto

Apresentação5
Introdução1
Diagnóstico da situação da criança13
Objetivo geral17
Agenda de compromissos para o ciclo de vida da criança17
Metas prioritárias18
Diretrizes políticas18
Diretrizes técnicas19

Índice

Princípios do atendimento à criança23
O registro do seguimento da criança24
Os fundamentos para o seguimento da criança de baixo risco29
Os fundamentos para o seguimento da criança de alto risco3
A consulta do recém- nascido37
Alimentação da criança normal43
Aleitamento materno43
Alimentação no primeiro ano de vida47
Interação pais-bebê51
Avaliação do estado nutricional53
Avaliação do crescimento57
Avaliação do desenvolvimento61
Imunização65
Atenção à saúde da criança com deficiência – 0 a 2 anos71
Os fundamentos da atenção integral à saúde do pré-escolar e escolar79
O desenvolvimento da criança de 2 a 10 anos81
Avaliação do desenvolvimento da criança de 2 a 10 anos83
A criança com dificuldades escolares85
A inclusão da criança com necessidades especiais91
A prevenção do uso, abuso e dependência de drogas em crianças95
O cuidado com a visão103
A conquista de um sorriso bonito109
Principais problemas de saúde bucal110
A criança com queixa de atraso de desenvolvimento123
A criança com queixa de baixa estatura127
AIDS na criança131
Afecções Respiratórias137
Afecções de Vias Aéreas Superiores137
Otite Média Aguda141
Faringoamigdalites146
Resfriado Comum148
Rinossinusite150
Rinossinusite alérgica151
Laringites152
Afecções de Vias Aéreas Inferiores155
Pneumonias agudas155
A criança com chiado no peito163
Asma171
Anemia189
Desnutrição195
Doença diarréica197
Diarréia Aguda198
Diarréia Persistente203
Diarréia Crônica204
Dores recorrentes205
Dores Recorrentes em Membros206
Cefaléia208
Dor Abdominal Recorrente209
Infecção urinária211
Parasitoses intestinais217
Aspectos Clínicos217
Tratamento das Helmintíases221
Tratamento das Protozooses226
Problemas cirúrgicos231
Problemas dermatológicos235
Transtornos psíquicos241
Assistência farmacêutica245
A criança vítima de maus tratos251
O trabalho infantil261
Os acidentes na infância265
O ensino da saúde como aprendizado para cidadania e a construção da escola saudável277
O ambiente e a saúde da criança279
BIBLIOGRAFIA283

8 CADERNO TEMÁTICO DA CRIANÇA

Caderno Temático da Criança

SÃO PAULO - SP OUTUBRO – 2003

Introdução

Historicamente,o perfil de morbimortalidade no Brasil tem definido o grupo materno-infantil como prioritário para as ações de saúde.As altas taxas de mortalidade infantil e a alta prevalência de doenças infecto-contagiosas exigiram ações especificamente dirigidas para a criança de 0 a 5 anos.

O aumento da cobertura vacinal,a melhoria das condições de saneamento básico e de nutrição,o advento da terapia de reidratação oral foram decisivos para a redução das doenças infecciosas e do coeficiente de mortalidade infantil.

Desenvolver ações que garantam a sobrevivência das crianças foi o objetivo maior das últimas décadas.Atualmente,não basta sobreviver,é preciso dar condições para a criança viver com qualidade.Ou seja, permitir que a criança possa desenvolver o seu potencial e usufruir os bens que a sociedade produz.

Em relação à mortalidade infantil,o componente neonatal passou a ser predominante,exigindo maior investimento na assistência à gestante e ao parto e na incorporação de tecnologia nos berçários e unidades de terapia intensiva neonatal.Ao lado das doenças respiratórias que constituem a grande demanda aos serviços de saúde,começam a se tornar importantes os cuidados com a saúde ocular,bucal e auditiva e as queixas referentes ao comportamento e às formas de relacionamento familiar.Surge assim uma nova morbidade determinada pelo modo como a criança vivencia seu processo de socialização nos bairros,na creche,na escola e nos demais espaços coletivos.A violência urbana já faz vítimas também entre as crianças.Os acidentes,atropelamentos e mesmo homicídios são os novos problemas de saúde que exigem ações bem diferentes daquelas tradicionalmente desenvolvidas nos programas de atenção à criança.

O profissional médico torna-se impotente para dar respostas a essas demandas,que exigem novos olhares,novos saberes.Ou seja,é fundamental a participação de outros profissionais na construção de uma visão interdisciplinar.

Ressalta-se,que a estratégia da saúde da família,atuando em uma população adscrita,permite à equipe de saúde maior aproximação das realidades da criança,da família e da comunidade,possibilitando desenvolver ações mais adequadas às necessidades da criança.Mas,mesmo onde não há equipe de saúde da família completa,a presença dos Agentes Comunitários de Saúde faz a diferença no atendimento.

Uma nova forma de abordar o processo saúde/doença é entender os problemas/necessidades de saúde na sua especificidade de acordo com o ciclo de vida.O ciclo de vida da criança compreende um ser que vivencia os diferentes riscos de adoecer e morrer,conforme o momento do seu processo de crescimento e desenvolvimento e a sua inserção social.Assim,suas necessidades de saúde são decorrentes da condição de ser criança em uma determinada sociedade e dos problemas relacionados à sua vivência nos diferentes territórios.

A criança de um modo geral é mais suscetível aos agravos nos primeiros anos de vida.Na medida em que a criança cresce diminui a vulnerabilidade biológica de tal forma que na idade escolar pode-se esperar uma verdadeira "calmaria biológica".Entretanto,as situações de risco determinadas pelas condições de vida modificam essa tendência evolutiva da redução de incidência dos agravos.Isso implica a necessidade de uma mudança de olhar da unidade,atualmente centrada na criança de 0 a 2 anos para voltar-se mais para o pré-escolar e escolar.

O desafio de abordar nesse caderno o ciclo de vida da criança aponta para a necessidade de priorizar os problemas/necessidades de saúde e as situações de risco mais importantes,entendendo-as no contexto de vida de cada um e identificando as potencialidades de saúde da comunidade onde vive essa criança.

Diagnóstico da Situação da Criança

Segundo os dados do IBGE/SEADE,em 2000,a população de zero a 10 anos de idade representou 18,8% do total de 10.405.867 habitantes da cidade de São Paulo.Sua distribuição em faixas etárias consta do Quadro 1.

O número de nascidos vivos foi de 207.462 e a proporção de RN de baixo peso (<2500g) 8,9%,ou seja,o dobro da proporção esperada em comparação com os países nos quais a assistência à gestação,ao parto e ao RN é adequada.

Em relação à morbidade,Monteiro e cols,em estudo realizado em 1994-95,em crianças menores de cinco anos de idade,residentes em São Paulo,encontrou uma prevalência de doença respiratória (DR) de 49,6%, sendo que 36,8% das crianças tinham doença respiratória alta e 12,8% doença respiratória baixa.Uma das explicações para esta alta prevalência de DR é a deterioração da qualidade do ar em São Paulo.Sua ocorrência é maior dos 6 aos 24 meses de idade,com tendência de aumento nos meses de outono e inverno.O autor encontrou uma relação inversa entre o nível socioeconômico e a ocorrência apenas das DR inferiores.Quanto às parasitoses intestinais,10,7% das crianças de São Paulo albergam cistos ou ovos de pelo menos uma espécie de parasita intestinal.O protozoário Giardia lamblia e os helmintos Ascaris lumbricoidese Trichuris trichiurasão os mais freqüentemente encontrados.

A doença diarréica vem perdendo sua importância epidemiológica,tendo havido uma redução expressiva na prevalência da diarréia na década de 90 em relação aos anos 80,e na incidência anual de hospitalização por diarréia,de 2,21 para 0,79 internações por 100 crianças/ano.A melhoria do poder aquisitivo das famílias,o aumento na freqüência da amamentação e a maior cobertura da rede pública de abastecimento de água justificam o declínio na ocorrência da doença diarréica.

Entre as doenças nutricionais,a mais importante atualmente é a anemia por carência de ferro,cuja prevalência é 46,9%,nas crianças menores de 5 anos de idade,sendo em torno de 70% dos 6 aos 12 meses e 65% dos 12 aos 24 meses.

Outro indicador de saúde importante no planejamento do atendimento é a análise das principais causas de morte,nos diferentes grupos etários.Na tabela 1 constam os números de óbitos por idade,em São Paulo,no ano 2000.

QUADRO 1. Distribuição Etária da População de 0 a 10 anos do Município de São Paulo

Idade (anos)Número% 0 a 3 687.3666,60 4 a 6515.0374,95 7 a 10745.6507,17

Fonte: IBGE/SEADE, 2000

14 CADERNO TEMÁTICO DA CRIANÇA TABELA 1- Número de óbitos por faixa etária, Município de São Paulo, 2000

Fonte: PROAIM – 2000

O Coeficiente de Mortalidade Infantil,no Município de São Paulo,em 2000,foi de 15,8 por mil nascidos vivos,com diferença entre os distritos,sendo pior nos Distritos de Saúde de São Miguel (19,3/1000), Jardim São Luiz (19,2/1000) e Jardim Angela (18,9/1000).Vale ressaltar que 2/3 dos óbitos das crianças de menores de 1 ano ocorreram no período neonatal (até 27 dias de vida). As três principais causas de morte,por faixa etária no ano 2000,foram as seguintes:

O a 6 dias

1.Afecções do período perinatal • Desconforto respiratório

• Afecções respiratórias

• Outras afecções perinatais 2 Malformações congênitas e anomalias cromossômicas 3.Doenças respiratórias (pneumonia)

7 a 27 dias

1.Afecções do período perinatal • Septicemia

• Desconforto respiratório

• Outras afecções perinatais 2.Malformações congênitas e anomalias cromossômicas 3.Doenças respiratórias (pneumonia)

28 dias a 1 meses

1.Doenças do aparelho respiratório

• Pneumonia 2.Doenças infecciosas e parasitárias • Diarréia

• Septicemia 3.Malformações congênitas e anomalias cromossômicas

1 a 4 anos

1.Doenças do aparelho respiratório

• Pneumonia 2.Causas externas • Acidentes de transporte

• Afogamento 3.Doenças infecciosas e parasitárias • Infecção meningocócica

• Diarréia e gastroenterite

5 a 9 anos

1.Causas externas • Acidentes de transporte

• Agressões 2. Neoplasias 3.Doenças infecciosas e parasitárias • Doenças pelo HIV

• Infecção meningocócica

Considerando que a morbimortalidade tem características homogêneas nos diferentes grupos etários,é possível dividir o Ciclo de Vida da Criança nas seguintes faixas etárias:

De 1 mês a 2 anos- lactente
Dos 2 aos 6 anos- pré-escolar
Dos 6 aos 10 anos- escolar

Do nascimento até 1 mês de vida - recém-nascido 15INTRODUÇÃO

Objetivo Geral

Oobjetivo geral do Caderno Temático da Criança é fornecer subsídios para compreender a situação da criança na sociedade e desenvolver ações de vigilância do processo de crescimento e desenvolvimento, para reduzir a morbimortalidade e promover condições de vida mais saudáveis que permitam à criança a realização plena de suas potencialidades.

Agenda de Compromissos Para o Ciclo de Vida da Criança

Uma forma diferente de trabalhar os problemas/necessidades de saúde da comunidade introduz um novo conceito que é o da responsabilidade social,o qual se expressa na agenda de compromissos que devem ser assumidos com os indivíduos,em cada ciclo de vida.

Nessa perspectiva,é preciso construir os compromissos relacionados à gestão e atenção à saúde nos distritos e nas unidades de saúde.A responsabilidade social aqui referida exige a construção de uma agenda de compromissos que dê conta tanto dos processos próprios do ciclo de vida da criança tais como o crescimento e o desenvolvimento,quanto dos problemas e agravos decorrentes do modo como os indivíduos de diferentes condições sociais vivenciam esse ciclo.

Apresentam-se em seguida os compromissos firmados pelo Conselho Municipal de Saúde para o Ciclo de Vida da Criança.

- Garantir atenção integral à criança - Melhorar a qualidade da assistência ao nascimento e ao período neonatal precoce

- Assegurar atenção diferenciada para o bebê de risco nos serviços de saúde

- Implantar ações voltadas para o desenvolvimento infantil

- Reduzir a incidência de cegueira por causas evitáveis

- Realizar Teste de Acuidade Visual em 70% das crianças de 4 e 7 anos de idade

- Implantar a Triagem Auditiva nas maternidades da rede municipal

- Garantir atenção integral às crianças portadoras de deficiências e de transtornos globais do desenvolvimento

- Garantir o apoio terapêutico para a inclusão da criança portadora de deficiências e de transtornos globais do desenvolvimento nas unidades escolares - Garantir o acesso às órteses,próteses e ajudas técnicas

- Aumentar em 15% o percentual de indivíduos livres de cárie aos 5 anos de idade – (situação atual = 63,5% da população dessa idade)

- Reduzir para valores próximos a 1,0 o índice de dentes atacados por cárie (CPO-D) aos 12 anos de idade (situação atual = CPO-D = 2,06 na população dessa idade)

18 CADERNO TEMÁTICO DA CRIANÇA

- Aumentar a concentração de procedimentos odontológicos coletivos na faixa etária de 0 a 14 anos de idade para 0,6 procedimentos/crianças/ano - Garantir atenção integral à criança vítima de violência

- Desenvolver projetos de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis (DST/AIDS) nas escolas da Secretaria Municipal de Educação (SME)

- Desenvolver projetos de prevenção do uso abusivo de drogas nas escolas da SME e nos serviços da

Secretaria de Ação Social (SAS) - Desenvolver projetos integrados com a SME de educação para a saúde

- Reduzir as internações infantis

- Reduzir a incidência de acidentes infantis

- Reduzir a incidência do trabalho infantil

Metas Prioritárias

1.Reduzir a mortalidade neonatal 2.Reduzir a morbimortalidade por doenças respiratórias 3.Garantir acompanhamento a todas as crianças de risco

Diretrizes Políticas

Projeto Nascer Bem

ASecretaria Municipal de Saúde considera o atendimento à gestante,ao parto,ao recém-nascido e à criança menor de dois anos como prioridade.Esse atendimento,que envolve ações dirigidas à saúde da mulher e da criança,constitui um dos Projetos Prioritários da SMS tendo recebido o nome de Nascer Bem – Gravidez saudável,Parto Seguro.

O atendimento à criança deve ser hierarquizado e regionalizado abrangendo todos os níveis de complexidade

A atenção primária na área da criança tem condições de resolver em torno de 80% a 85% dos problemas/necessidades de saúde da criança.

A unidade básica de saúde (UBS) deve ter,portanto,caráter resolutivo.Para isso é preciso assegurar a capacidade operacional da UBS,garantindo a existência de todos os equipamentos necessários aos procedimentos que devem ser ali realizados,recursos humanos capacitados em um processo de educação continuada e recursos laboratoriais que facilitem a abordagem dos problemas.

É importante a hierarquização dos serviços de saúde de acordo com o nível de densidade tecnológica de cada um,expressa principalmente em equipamentos,garantindo,também,a regionalização,de modo a permitir o acesso fácil a todos os níveis de atenção à saúde.

Uma condição necessária para a qualidade da atenção é a integração entre todos os serviços de saúde,para garantir a referência e contra-referência entre os serviços de saúde e a continuidade do atendimento nos demais níveis de atenção à saúde.A referência deve incluir desde consultas com especialistas até a internação para procedimentos de alta complexidade.Cabe à unidade básica de saúde acompanhar toda a trajetória dos pacientes sob sua responsabilidade.

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