Botulismo - orientações para pacientes e familiares

Botulismo - orientações para pacientes e familiares

(Parte 1 de 4)

ANO 2002

GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO Geraldo Alckmin

SECRETÁRIO DE ESTADO DA SAÚDE José da Silva Guedes

COORDENADOR DOS INSTITUTOS DE PESQUISA - CIP José da Rocha Carvalheiro

José Cássio de Moraes

DIVISÃO DE DOENÇAS DE TRANSMISSÃO HÍDRICA E ALIMENTAR Maria Bernadete de Paula Eduardo - Coordenação geral Maria Lúcia Rocha de Mello - Revisão final Elizabeth Marie Katsuya Joceley Casemiro Campos Nídia Bassit Pimenta Beatriz Yuko Kitagawa - estagiária FUNDAP

COLABORADORA: Letícia Maria de Campos - Assessoria de Comunicações/SES-SP

Livreto disponível no site http://www.cve.saude.sp.gov.br, em Doenças Transmitidas por Alimentos.

- 2002 -

Sumário

Apresentação O que é o botulismo? 1 Que tipo de germe é o Clostridium botulinum? 2 O botulismo é comum? 2 Quais são os sintomas do botulismo? 5 Como o botulismo é diagnosticado? 6 Qual é o tratamento para o botulismo? 7 Quais são as complicações do botulismo? 8 Chegando ao hospital 9 Como se sentem os pacientes e seus familiares14 Quando há problemas com o atendimento ao paciente16 Como melhorar a situação dos pacientes durante a hospitalização16 Melhorando a cada dia17 Quando o paciente volta para casa18 Os parentes e amigos24 O botulismo pode ser evitado?27 O que fazem as vigilâncias epidemiológica e sanitária?3 Mais algumas palavras de apoio34 Bibliografia de referência e para saber mais sobre a doença e sua prevenção 36 Glossário 40

Apresentação

Este livreto, em sua primeira versão, foi elaborado no ano de 1998, após a ocorrência do segundo caso de botulismo no estado de São Paulo causado por conserva industrializada de palmito. A partir da necessidade de atender às solicitações e dúvidas de familiares de pacientes e inspirados em um manual desenvolvido pela Universidade de Illinois em Chicago, Estados Unidos, consideramos de suma importância sua publicação para uma divulgação mais ampla destas orientações.

É uma espécie de manual com informações resumidas sobre o botulismo e suas conseqüências e tem como base o Manual de Botulismo - Orientações para Profissionais de Saúde, editado por este Centro de Vigilância Epidemiológica.

Sua finalidade principal é orientar pacientes e familiares e contribuir para melhorar, o mais rápido possível, a qualidade de vida daqueles que foram vitimados por essa doença. Contudo, por apresentar o botulismo, pelo lado do paciente, com certeza pode ajudar também os profissionais de saúde a tornar mais adequados os cuidados que devem dar a esses pacientes.

Por descrever a doença incluindo os sentimentos de suas vítimas e as terríveis conseqüências em suas vidas e de suas famílias é, sem dúvida, de grande valor para os fabricantes e manipuladores de alimentos para que nunca se esqueçam que preparar alimentos é uma tarefa de grande responsabilidade, que exige alguns conhecimentos básicos, respeito rigoroso aos padrões de higiene e que qualquer erro ou negligência pode significar a perda de vidas ou graves danos.

Buscando divulgar as orientações básicas sobre a doença e sua prevenção, e contribuir para a educação sanitária de todos, este livreto pode ajudar também a população em geral a ter não somente os cuidados necessários para preparar seus próprios alimentos, mas a saber defender sua saúde e evitar os alimentos contaminados. Esperamos que ele seja útil para todos.

Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar

Centro de Vigilância Epidemiológica "Prof. Alexandre Vranjac"

O que é o botulismo?

O botulismo é uma doença paralítica, bastante grave, causada por uma toxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum (C. botulinum). O nome botulismo vem da palavra latina "botulus" que significa salsicha. Essa doença foi descrita pela primeira vez na Alemanha, no século XVIII, quando ocorriam grandes surtos provocados pela ingestão de salsichas feitas em casa.

Os três tipos principais de botulismo são: por alimentos, infantil e por ferimentos. O botulismo de origem alimentar é causado pela ingestão de alimentos que contém a toxina (veneno) do botulismo. O botulismo por ferimento é causado pela toxina produzida dentro de uma ferida infectada com o C. botulinum. E o botulismo infantil é causado pela ingestão de esporos da bactéria que crescem no intestino da criança e produzem a toxina. Todas as formas de botulismo podem ser fatais e por isso são consideradas emergências médicas. O botulismo provocado por alimentos tem sido considerado o mais preocupante porque muitas pessoas podem ter ingerido do mesmo alimento contaminado. Considera-se o botulismo uma intoxicação alimentar. É por esse motivo que, em geral, o médico responsável pelo cuidado desses pacientes é o infectologista ou o clínico, embora as conseqüências do botulismo sejam mais parecidas com as de envenenamento, afetando o sistema nervoso e exigindo também os cuidados de neurologistas.

Que tipo de germe é o Clostridium botulinum?

Clostridium botulinum é o nome dado a um grupo de bactérias comumente encontradas na superfície de vegetais como cebolas, batatas, pimentões, alcachofras, aspargos, verduras de folhas, em frutas e também em peixes e carnes, e em geral, não causam nenhum mal. Em forma de esporos, sobrevivem em estado dormente, até serem expostas a condições que permitam a produção da toxina a saber: falta de oxigênio, temperatura, certos nutrientes e baixo nível de acidez. Existem sete tipos de toxinas; as que freqüentemente causam o botulismo nos seres humanos são do tipo A, B e E.

O botulismo é comum?

Pode-se dizer que o botulismo é uma doença não muito comum, mas que ocorre em todos os países do mundo, principalmente, naqueles com grande consumo de alimentos preparados como conservas. Em geral, o número de pessoas afetadas pelo botulismo veiculado por alimentos é relativamente pequeno e o surto fica restrito às pessoas que consumiram o mesmo alimento. Porém, a doença é muito grave e com alta mortalidade se não tratada a tempo e adequadamente.

A maioria dos surtos de botulismo por alimentos tem sido causada por conservas caseiras ou comerciais que foram processadas ou manipuladas inadequadamente, contendo a toxina que foi formada a partir de esporos presentes em seus ingredientes.

No Brasil, só muito recentemente o botulismo foi incluído como uma doença de notificação obrigatória e por causa disso não há ainda dados suficientes que possam mostrar a sua real ocorrência. Um estudo realizado pelo CVE com os registros de mortalidade mostra que ocorreram 65 óbitos no Brasil, nos anos de 1979 a 1998, o que quer dizer que tivemos pelo menos três casos de botulismo por ano.

Em 1958, ocorreu um surto em Porto Alegre, Rio Grande do

Sul, o primeiro surto de botulismo devidamente comprovado e documentado no Brasil, com nove pessoas afetadas e sete óbitos, e o alimento consumido foi uma conserva caseira de peixes. A toxina encontrada no alimento era do tipo A. Em 1986, um outro surto foi registrado, no Triângulo Mineiro, com sete pessoas afetadas e um óbito, devido a ingestão de conserva caseira de carne suína. Também foi encontrada toxina do tipo A no sangue dos pacientes. Em 1997, foi notificado ao serviço de vigilância, um surto em Goiânia, por ingestão de uma conserva de pequi, sendo que as quatro pessoas doentes foram a óbito.

No estado de São Paulo foram notificados ao Centro de

Vigilância Epidemiológica (CVE) cinco casos de botulismo, nos anos de 1990 a 2001. Uma pessoa em 1990, residente no município de São Paulo, adquiriu o botulismo quando consumiu uma conserva caseira de picles e ovos de codorna, com toxina do tipo A. No ano de 1997, em Santos, ocorreu mais um caso de botulismo, tendo sido encontrada a toxina tipo A na amostra testada do alimento ingerido, uma conserva industrializada de palmito, e no sangue da paciente. Em 1998 e 1999, nos municípios de São Paulo e Mogi das Cruzes, mais duas pessoas tiveram botulismo, devido ao consumo de conservas industrializadas de palmito; ambas as marcas eram de origem boliviana. No ano de 2001, o CVE registrou mais um caso, de provável transmissão alimentar; não tendo sido possível saber exatamente qual alimento causou a doença. Felizmente, nenhum desses pacientes foi a óbito; contudo, a internação deles foi bastante prolongada, e alguns deles levaram mais de três anos para recuperar a saúde e voltar às atividades normais de trabalho.

Os alimentos mais incriminados em surtos ou em casos isolados têm sido as conservas em lata de peixes e carnes e embutidos (lingüiças, salsichas, patês), geralmente, feitos em casa, bem como, as de vegetais, caseiras ou industrializadas, com problemas de higiene em seu preparo, e que não foram submetidas a uma temperatura que elimine os esporos ou não foram preparadas de modo a impedir o desenvolvimento da toxina.

É preciso muito cuidado também com o mel. Por conter, algumas vezes, esporos do C. botulinum, geralmente, carregados pelas próprias abelhas, o mel não deve ser dado às crianças menores de 1 ano. Nesta idade, a criança não desenvolveu completamente sua flora intestinal e o esporo em seu intestino pode desenvolver a toxina e causar o botulismo infantil que muitas vezes se confunde com a síndrome da morte súbita do recém-nascido. Nos adultos e crianças maiores de 1 ano o esporo é inofensivo, a não ser que estejam tomando antibióticos por longo tempo ou sejam pessoas com baixa imunidade.

Quais são os sintomas do botulismo?

A toxina do botulismo afeta o sistema nervoso, em geral de forma simétrica (de ambos os lados). A maior preocupação é com a paralisia muscular descendente, que causa fraqueza e pode afetar as estruturas envolvidas com a respiração, levando a dificuldades respiratórias, falência respiratória e parada cardíaca. É por isso que testes respiratórios freqüentes são necessários para monitorar a evolução da doença.

O botulismo transmitido por alimentos nem sempre é de fácil diagnóstico. Os sinais e sintomas podem aparecer a qualquer momento, de duas horas a 10 dias após a ingestão de alimentos contaminados, e em média de 12 a 36 horas, dependendo da quantidade da toxina ingerida. A gravidade do quadro pode variar dependendo da quantidade de toxina ingerida, do tipo de botulismo e da sensibilidade do paciente.

Há pacientes que começaram com dor de cabeça e visão turva e dupla o que pode ser inicialmente confundido com ressaca. Alguns queixam-se de diarréia, náuseas, vômitos e dores abdominais que podem ser o início da doença, mas se parecem com uma gastroenterite qualquer. Porém, seus sintomas clássicos são: visão dupla (diplopia), visão turva, pálpebras caídas (ptose), fala arrastada, dificuldade em engolir, boca seca e fraqueza muscular (de pescoço, braços e pernas), podendo evoluir para dificuldades respiratórias e óbito por parada respiratória e cardíaca. No botulismo por ferimento os sintomas são os mesmos do botulismo por alimentos, mas em geral os pacientes sofreram algum tipo de acidente com ferimentos. Há casos também de pacientes usuários de drogas ilícitas injetáveis que contraem o botulismo pela picada da agulha. Os bebês com botulismo (botulismo infantil) ficam muito sonolentos, com prisão de ventre, têm dificuldade de aceitar a alimentação, o choro torna-se fraco e ficam também com fraqueza muscular.

Os pacientes de botulismo do estado de São Paulo relataram que a doença começou primeiramente com náuseas, diarréia, boca seca, turvamento da visão e visão dupla, pálpebra caída e depois fraqueza geral chegando à paralisia total e dificuldades respiratórias.

Como o botulismo é diagnosticado?

O botulismo é diagnosticado através dos sinais e sintomas, pela história alimentar ou de outras situações, pelos exames físicos e testes laboratoriais para detecção da toxina no sangue ou fezes do paciente, e nos alimentos suspeitos quando o botulismo é de origem alimentar.

Algumas vezes, o botulismo pode ser confundido com outras condições, tais como gripes, reações alérgicas, síndrome de Guillain- Barré, quedas, miastenia gravis, paralisias por picada de carrapato, envenenamento por agentes químicos, ressaca e outras doenças com sintomas parecidos. Por isso, outros exames poderão ser necessários para descartar essas doenças, como a tomografia craniana, exame do líquido espinal (líquor), testes da condução nervosa (eletroneuromiografia - ENMG), hemogramas, além de vários outros necessários para monitorar a situação geral do paciente.

Qual é o tratamento para o botulismo?

Pacientes com botulismo grave precisarão ser internados na

Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e poderão ser colocados em aparelhos respiradores (ventiladores) por semanas, devido aos problemas respiratórios. Vão precisar de cuidados médicos e de enfermagem meticulosos e apropriados para uma doença paralítica de longa duração.

Se o diagnóstico for feito precocemente, tanto o botulismo por alimentos quanto o por ferimentos pode ser tratado com a antitoxina botulínica que é um produto usado para bloquear a ação da toxina que está circulando no sangue do paciente. Em geral, é a antitoxina trivalente A, B e E que é prescrita. Acredita-se que seja mais efetiva se administrada antes que a toxina se ligue completamente às junções neuromusculares para que evite a progressão da doença, isto é, nos primeiros dias da doença. Deve ser administrada de forma lenta e sob supervisão, em geral precedida por teste cutâneo. Algumas pessoas podem apresentar efeitos colaterais após o uso. Não se recomenda a aplicação em crianças, pois a antitoxina é desenvolvida a partir de soro de cavalos, podendo provocar mais tarde sérias reações alérgicas.

No botulismo por alimentos os médicos tentarão, através da indução de vômitos e uso de enemas, retirar o alimento contaminado ingerido. No botulismo por ferimento uma boa medida será remover a bactéria da ferida, impedindo assim a produção da toxina. Em alguns casos poderá ser necessário o uso de antibióticos para controlar algumas infecções que surgem. Em todas as formas de botulismo o principal tratamento será o bom suporte hospitalar.

Parentes de pacientes de botulismo, que ingeriram do mesmo alimento, mas sem sintomas, costumam perguntar se não devem também tomar a antitoxina. O que se recomenda é que os pacientes sejam examinados e acompanhados rigorosamente pelos médicos do hospital, colhendo-se alguns exames se necessário. Não se recomenda a aplicação da antitoxina como profilaxia em assintomáticos devido a seus efeitos colaterais.

Quais são as complicações do botulismo?

A pior complicação do botulismo é falência respiratória que vai exigir que o paciente seja colocado em máquinas capazes de respirar por eles. Pneumonias, lesões oculares e outras infecções poderão ocorrer. Porém, hoje em dia, com um bom suporte hospitalar essas complicações serão seguramente superadas pelo paciente. Um intenso cuidado médico e de enfermagem poderá ser necessário por muitos meses. Após a alta, muitos pacientes poderão precisar de fisioterapia e outros tratamentos para se recuperarem completamente.

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