Cultura do Feijao

Cultura do Feijao

(Parte 1 de 3)

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

DEPARTAMENTO DE FITOTECNIA

DISCIPLINA: GRANDES CULTURAS II

ESTÁGIO A DOCÊNCIA

CULTURA DO FEIJÃO COMUM (Phaseolus vulgaris L.)

PROF.: Francisco José. A. F. Távora

ALUNA: Belísia Lúcia Moreira T. Diniz

FORTALEZA - CE

JULHO - 2006.

1. ORIGEM

O gênero Phaseolus originou-se nas Américas e compreende aproximadamente 55 espécies, das quais apenas cinco é cultivado: o feijoeiro comum (Phaseolus vulgaris); o feijão de lima (P. lunatus); o P. polyanthus; o feijão Ayocote (P. coccineus) e o feijão tepari (P. acutifolius).

Existem diversas hipóteses para explicar a origem e domesticação do feijoeiro. Tipos selvagens, similares a variedades criolas simpátricas, encontrados no México e a existência de tipos domesticados, datados de cerca de 7.000 a.C., na Mesoamérica, suportam a hipótese de que o feijoeiro teria sido domesticado na Mesoamérica e disseminado, posteriormente, na América do Sul. Por outro lado, achados arqueológicos mais antigos, cerca de 10.000 a.C., de feijões domesticados na América do Sul (sítio de Guitarrero, no Peru) são indícios de que o feijoeiro teria sido domesticado na América do Sul e transportado para a América do Norte.

Dados mais recentes, com base em padrões eletroforéticos de faseolina, sugerem a existência de três centros primários de diversidade genética, tanto para espécies silvestres como cultivadas: o mesoamericano, que se estende desde o sudeste dos Estados Unidos até o Panamá, tendo como zonas principais o México e a Guatemala; o sul dos Andes, que abrange desde o norte do Peru até as províncias do noroeste da Argentina; e o norte dos Andes, que abrange desde a Colômbia e Venezuela até o norte do Peru. Além destes três centros americanos primários, podem ser identificados vários outros centros secundários em algumas regiões da Europa, Ásia e África, onde foram introduzidos genótipos americanos.

2. IMPORTÂNCIA DA CULTURA

O feijão tem extrema importância econômica e social no Brasil. De acordo com os valores divulgados pela Companhia de Abastecimento (Conab), na safra 2005-06, o feijão representou o quinto granífero mais produzido, ficando atrás apenas da soja, do milho, do arroz e do trigo.

A cultura do feijoeiro (Phaseolus vulgaris L.) tem grande importância na alimentação humana, em vista de suas características protéicas e energéticas. Em nosso país, esta leguminosa tem importância social e econômica, por ser responsável pelo suprimento de grande parte das necessidades alimentares da população de baixo poder aquisitivo, que ainda tem apresentado taxas de crescimento relativamente altas e também pelo contingente de pequenos produtores que se dedicam à cultura.

Os grãos representam uma importante fonte protéica na dieta humana dos países em desenvolvimento das regiões tropicais e subtropicais. De toda a produção mundial 47% provem das Américas e cerca de 10% do leste e sul da África.

Propriedades Nutricionais:

  • Proteína ® 22 e 26%;

  • Carboidratos ® 62 e 67%;

  • Cinzas ® 3,8 e 4,5%;

  • Lipídios ® 1 e 2%;

  • Fibras ® 3,8 e 5,7%

  • Vitaminas ® tiamina, riboflavina, niacina, ácido ascórbico.

  • Minerais ® K (1%), P (0,4%), Fe, Cu, Zn;

  • Valor calórico:341 cal 100g-¹;

3. PRINCIPAIS PRODUTORES

A produção mundial de feijão vem crescendo progressivamente desde os anos 60. Nessa década, os produtores repassavam o produto diretamente para consumidores da própria região, cooperativas, comerciantes primários e governo. Nessa época existiam apenas duas safras (das águas e da seca), e maior parte do feijão era cultivado em consórcio.

No início da década de 80 alcançou cerca de 15 milhões de toneladas e desde o seu final passou a oscilar em torno de 16 milhões de toneladas.

Cerca de 65% da produção mundial provem de apenas seis países (Brasil, Índia, México, Mianmar, Estados Unidos e China). O Brasil é o maior produtor mundial de feijão, responsável por 16,5% da produção mundial, seguido pela Índia e México, responsáveis, respectivamente, por 16,4% e 9% da produção.

Em 2005, Minas Gerais (559.570 t) suplantou ligeiramente o Paraná (557.019 t), até então o maior produtor nacional de feijão. O produto é cultivado em todos os estados, sendo que cinco deles (MG, PR, BA, GO e SP) foram responsáveis por cerca de 69% da safra total.

A produção nacional de feijão em 2005 totalizou 3.021.495 t, um incremento de 1,8% frente ao ano anterior, conseqüência do aumento no rendimento médio, de 745 kg ha-1 em 2004 para 806 kg ha-1 em 2005, uma vez que a área colhida de 3.748.407 ha, foi inferior à do ano anterior (3.978.660 ha).

O excedente exportado é muito pequeno, pois, os principais consumidores também são os principais produtores da cultura, sendo o volume transacionado entre países muito pequenos, girando em torno de 5% (Spers & Nassar, 2004).

De acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, as importações de feijão foram de: 78 mil toneladas (safra 1999-00), 129 mil toneladas (safra 2000-01), 82 mil toneladas (safra 2001-02), 103 mil toneladas (safra 2002-03) e 100 mil toneladas (safra 2003-04), enquanto que as exportações foram de 2 mil toneladas em cada uma das referidas safras, exceto na safra 2003-04, que foi de 3 mil toneladas.

É possível explorar a cultura em três épocas distintas, divididas em três safras consecutivas: Primeira safra ou “safra das águas”, Segunda safra ou “safra da seca” e Terceira safra ou “safra de inverno”.

A safra das águas, cujo plantio é realizado entre os meses de agosto e novembro e a colheita entre novembro e abril, está concentrada nas regiões Sul e Sudeste e no Estado da Bahia, na região de Irecê. É a maior das três safras, em produção e rendimento.

A safra da seca é normalmente plantada entre janeiro e março e colhida entre abril e julho. Essa safra abrange os estados das regiões Sudeste e Sul, com concentração na Região Nordeste que, em anos normais, contribui com mais de 50% da produção. Segundo a Embrapa Arroz e Feijão, a safra da seca, tanto no sistema solteiro quanto consorciado, representa a maior área de cultivo na produção nacional de feijão, cerca de 48% da área plantada. No entanto, apresenta a menor produtividade quando comparada às outras safras.

Na safra de inverno, cultiva-se o feijão irrigado. A plantação ocorre entre abril e julho e a colheita entre agosto e outubro. A decisão de plantio influenciada pelo comportamento dos preços na comercialização do feijão colhido na safra da seca.

Atualmente, as duas primeiras safras são responsáveis por cerca de 80% da produção nacional, que provém de 3,5 milhões ha de lavouras de pequenos e médios produtores que utilizam na sua maioria, mão-de-obra familiar com baixo nível tecnológico, o que reflete como conseqüência uma produtividade média de 752 kg ha-1, considerada baixa.

A safra de inverno, de aproximadamente 800 mil ha, garante os 20% restantes da produção e tem como origem lavouras com alto nível tecnológico, onde a irrigação é essencial para alcançar produtividades médias de 1.546 kg ha-1. A cultura de feijão, na safra de inverno, vem aumentando e existem previsões de que a produção dessa safra vai se equilibrar e superar as outras duas.

4.CLASSIFICAÇÃO BOTÂNICA

Do ponto de vista taxonômico o feijão comum é o verdadeiro protótipo do gênero Phaseolus, classificado por Linneo em 1753.

Reino: Vegetal

Ramo: Embryophytae syphonogamae

Sub-ramo: Angiospermae

Classe: Dicotyldoneae

Ordem: Rosales

Família: Fabaceae

Subfamília: Faboideae (Papilioideae)

Tribo: Phaseoleae

Gênero: Phaseolus

Espécie: Phaseolus vulgares L.

5. MORFOLOGIA

  • Raiz: o sistema radicular do feijoeiro é formado por uma raiz principal, ou primária, da qual se desenvolvem, lateralmente, as raízes secundárias e terciárias. Ademais, os pêlos absorventes estão sempre presentes nas proximidades das regiões de crescimento. Em geral, a raiz primária possui maior diâmetro do que as demais, especialmente na fase jovem da planta.

O sistema radicular é bastante superficial 20 – 40 cm do solo. Esta pequena profundidade das raízes torna-o bastante sensível à deficiência hídrica, e torna a planta com baixa eficiência em absorver nutrientes, exigindo por isso solos férteis ou boas adubações, de modo que os nutrientes estejam próximos das raízes, em quantidades suficientes e no momento adequando.

  • Caule: é herbáceo (haste), constituído por eixo principal, formado por uma sucessão de nós e entre-nós. O primeiro nó constitui os cotilédones, o segundo corresponde à inserção das folhas primárias e o terceiro, das folhas trifolioladas; a porção entre as raízes e os cotilédones é o hipocótilo e entre os cotilédones e as folhas primárias, o epicótilo.

  • Folhas: são simples e opostas nas folhas primárias; e compostas, constituídas de três folíolos (trifolioladas), com disposição alterna, características das folhas definitivas. Quanto à disposição dos folíolos, um é central ou terminal, simétrico, e dois são laterais, opostos e assimétricos. A cor e a pilosidade variam de acordo com a cultivar, posição na planta, idade da planta e condições do ambiente.

  • Flores: São agrupadas em inflorescências do tipo rácimo axilar (no hábito de crescimento indeterminado) e rácimo terminal (no hábito determinado). É uma planta autógama, com taxa de cruzamento natural em torno de 2%. Apresentam cálice verde e a corola é composta por cinco pétalas: uma mais externa e maior denominada estandarte; duas laterais menores, estreitas, chamadas asas, e duas inferiores, fusionadas, enroladas em espiral, envolvendo os órgãos reprodutores, denominadas de quilha. O androceu é constituído de nove estames soldados na base e um livre, denominado vexilar. O gineceu possui ovário comprido, é súpero, unicarpelar, pluriovulado; o estilete é encurvado e o estigma é lateral, terminal. Quanto à coloração, as flores podem ser branca, amarelada, rosada ou violeta.

  • Fruto: é um legume, deiscente, constituído de duas valvas unidas por duas suturas, uma dorsal e outra ventral; a forma pode ser reta, arqueada ou recurvada e o ápice, abrupto ou afilado, arqueado ou reto. A cor é característica da cultivar, podendo ser uniforme ou apresentar estrias e variar de acordo com o grau de maturação (imaturo, maduro e completamente seco): de verde, verde com estrias vermelhas ou roxas, vermelho, roxo, amarelo, amarelo com estrias vermelhas ou roxas, até marrom.

  • Semente: exalbuminada, isto é, não possui albume, as reservas nutritivas estão concentradas nos cotilédones. Constituída, externamente, de um tegumento ou testa, hilo (cicatriz do pedúnculo), micrópila e rafe; internamente, de um embrião formado pela plúmula, duas folhas primárias, hipocótilo, dois cotilédones e radícula.

Figura 1. Semente do feijão. 1.Cotilédone; 2.Radícula; 3.Plúmula; 4. Tegumento; 5. Hilo; 6. Micrópila;

Pode ter várias formas: arredondada, elíptica, reniforme ou oblonga, e tamanhos que variam de muito pequenas (<20g/100 sementes) a grandes (>40g/100 sementes) e apresentar ampla variabilidade de cores, variando do preto, bege, roxo, róseo, vermelho, marrom, amarelo, até o branco. O tegumento pode ter uma cor uniforme (cor primária) ou duas (cor primária e secundária), expressa na forma de estrias, manchas ou pontuações; pode ter brilho ou brilho intermediário ou não ter brilho (opaca).

6. FENOLOGIA

Fenologia é o estudo dos eventos periódicos da vida vegetal em função da sua reação às condições de ambiente e sua correlação com aspectos morfológicos da planta. Assim, percebe-se que o conceito de fenologia envolve o conhecimento de todas as etapas de crescimento e desenvolvimento da vida vegetal como a germinação, emergência, elaboração do aparato fotossintético, florescimento, aparecimento de estruturas reprodutivas e maturação dos frutos e sementes.

O desenvolvimento do feijoeiro compreende duas grandes fases distintas, denominadas de Fases Vegetativas e Reprodutivas, diferenciadas entre si pela manifestação de diferentes eventos. A fase vegetativa tem seu início compreendido entre a germinação até o aparecimento dos primeiros botões florais. A fase reprodutiva transcorre desde a emissão dos botões florais até o pleno enchimento de vagens e a maturação das sementes. Nessa fase evidencia-se notória sensibilidade à deficiência hídrica e excesso de água.

6.1. Descrição dos Estádios Fenológicos

6.1.1. Estádio Vegetativo:

  • Estádio V0 (Germinação): após a absorção de água pela semente, inicia-se o processo de germinação, caracterizado pelo aparecimento da radícula (geralmente pelo lado do hilo). O feijão possui grande sensibilidade à falta de água após a semeadura. Ainda, o feijoeiro não apresenta satisfatória tolerância à semeadura profunda. Temperaturas inferiores a 12oC reduzem significativamente a taxa e a velocidade de germinação das sementes. Por outro lado, valores de temperatura próximos a 25oC, favorecem consideravelmente o processo referido.

  • Estádio V1 (Emergência): a emergência é caracterizada pela presença dos cotilédones acima da superfície do solo em processo de desdobramento da “alça” do hipocótilo. A seguir, o epicótilo alonga-se e as folhas primárias, que já se encontravam diferenciadas no embrião da semente, expandem-se.

  • Estádio V2 (Desdobramento das folhas primárias): a rapidez do desdobramento, a conformação e o tamanho da folhas primárias são extremamente importantes para o estabelecimento da cultura no campo por representar a sede inicial de conversão de energia. Normalmente, o tamanho potencial das folhas primárias está relacionado com o tamanho das sementes. Salienta-se também que o tamanho e a conformação das folhas primárias podem ser reduzidos e afetados pela maior profundidade de semeadura, pela incidência de pragas e fungos de solo, pela escassez de água, além de ser influenciada pela integridade e vigor das sementes.

  • Estádio V3 (Emissão da primeira folha trifoliada): inicia-se quando a primeira folha trifoliada ou verdadeira encontra-se plenamente desdobrada, o que pode ser caracterizado pela constatação dos folíolos em posição horizontal. Nesse estádio, os cotilédones encontram-se em fase final de exaustão e, freqüentemente, já sofreram o processo de abscisão. Desta forma, a planta passa a depender diretamente dos nutrientes presentes no solo. O período compreendido entre os estádios V1 e V3, conferem à planta de feijão mais tolerância a estresses hídricos e baixas temperaturas, em níveis moderados.

  • Estádio V4 (Emissão da terceira folha trifoliada): neste período, a terceira folha trifoliada está plenamente desdobrada e tem início o processo de ramificação da planta. O tipo de ramificação (principalmente o número e o tamanho dos ramos) depende de inúmeros fatores, tais como genótipo (características da variedade), condições ambientais, sistemas de produção adotados e densidade de semeadura, além de outros.

Tabela 1. Estádios vegetativos do feijoeiro.

Estádios Vegetativos

Início de cada etapa

dias

V0

Germinação

Sementes em condições de germinar

5

V1

Emergência

50% das plântulas c/ cotilédones acima do nível do solo

2-3

V2

Fls 1as

50% das plantas c/ folhas primárias abertas

4

V3

1a folha trifoliolada

50% das plantas c/ 1a folha trifoliolada aberta

5-9

V4

3a folha trifoliolada

50% das plantas c/ a 3a folha trifoliolada aberta

7-15

Fonte: Fernadez & Lopes (1986)

6.1.2. Estádio Reprodutivo:

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