Ferrovia e Memoria

Ferrovia e Memoria

(Parte 1 de 5)

SETEMBRO DE 2005

SETEMBRO DE 2005

Mário Barreira: “A gente tem que ter atrás aquela prática, que podia até quebrar o velocímetro que a gente era capaz de dar conta até de trem de passageiro. A gente regulava o horário pelo jeito de trabalhar”. José Ruas Filho: “Se o maquinista não for bom, ele não dá conta do serviço”. Mário Barreira: “O maquinista precisa ser muito cabeça boa para trabalhar direitinho, para poupar o serviço do foguista”. (Mário Barreira, 86 anos, antigo maquinista da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, 1999). (José Ruas Filho, 85 anos, antigo maquinista da Companhia Mogyana de Estradas de Ferro, 1999).

Ausência “Por muito tempo achei que ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos [meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.” (Carlos Drummond de Andrade, 1984).

Agradecimentos

De forma especial, agradeço à Professora Heloísa Helena Teixeira de Souza

Martins pelas oportunidades oferecidas na graduação e pós, por seus ensinamentos, pelas orientações e confiança depositadas no meu trabalho desde o início. Suas sugestões ao longo da redação foram fundamentais.

A idéia de estudar o mundo ferroviário nasceu do convívio com meu avô Arthur

Paratelli, no período do colegial, quando sentava com ele à mesa do café da tarde e ouvia suas histórias. Em memória, demonstro minha gratidão por toda vivência e caráter transmitido. Agradeço a minha avó Antonia Furlanetto Paratelli, por quem tenho especial apreço, por suas receitas caipiras e abraço apertado.

À minha mãe e ao meu pai, que são filhos de ferroviários, pela segurança que possibilitou meus estudos na graduação e conclusão desta dissertação.

Aos meus irmãos Marcelo e Fábio, por ajudarem no período de conclusão do texto; à minha irmã Sandra e ao sobrinho Diogo, pelo incentivo. Ao meu tio Crineu Irineu, ferroviário da Noroeste, e à prima Betinha, que me ajudaram com material de pesquisa. As minhas tias Neusa e Conceição, que muitas vezes deram suporte aos meus estudos.

À Professora Maria Helena Oliva Augusto e ao Professor Paulo Roberto Ribeiro

Fontes pelas leituras interessadas e pelos aconselhamentos no exame de qualificação, fundamentais para o desdobramento das pesquisas de campo e do texto.

Ao Professor José de Souza Martins, por ceder material de pesquisa e pelas inesquecíveis aulas nas salas e ruas.

Agradeço à Ângela e Irani pela simpatia e esclarecimentos em todos os momentos da pós-graduação.

Ao Dr. Irineu Carlos, filho do líder Irineu de Oliveira Prado, pela cortesia, esclarecimentos e pelos documentos reproduzidos e enviados.

Ao presidente do sindicato dos ferroviários da Zona Paulista, Waldemar Raffa, ao

Ariovaldo, Cássio e, especialmente, ao Ciro Barros, pelas oportunidades nas assembléias, pelo acesso ao arquivo e à memória da instituição. Ao Odair Valente do Sindicato dos Ferroviários da Zona Mogyana pela indicação de textos, de nomes de antigos trabalhadores e por ceder material de pesquisa. Alguns ferroviários dessas duas entidades dão verdadeiras aulas de sindicalismo ao empenharem-se nas incessantes lutas num contexto de adversidade e de derrocada do sistema ferroviário do interior paulista.

Agradeço ao Oswaldo Gotardi e ao João Gomes Pardal, pela abertura do Centro e

Sociedade Beneficente dos Ferroviários da ex-Paulista e a todos os ferroviários que me concederam entrevistas na sede: Nicola Venturini, Luis Alberto, Arlindo de Camargo, Olívio Tomé, Florival Fiúza Nobre e Alcides Ferreira. Agradeço aos ferroviários que me concederam entrevista em suas respectivas casas: Antonio Torino, Walter Brümel, Atilde Mantovani, Geraldo de Brito, Januário Gangiani, André Mascarin, Mario Barreira, José Ruas Filho, Ernesto José Thans, Milton Dias Fonseca, Ruy Gouvêa, Leonildo Franco de Godoy, Waldemar de Carvalho, Laerte Rigoleto, José Geraldo Mattoso, Joaquim Rabelo, Wanderley Chiarelli, Odilon Barretto, Alcyr Pignati, Benedicto Felice, Antônio Mafra Oliveira, Dirceu de Campos Ferreira e Manoel Rodrigues Seixas. Agradeço a todos de forma especial pela atenção e por terem me deixado entrar nas memórias de suas vidas.

Ao fotografo Gilberto De Biase, por ceder as imagens de Campinas da década de 1950, e ao seu filho Roberto, por digitalizá-las. Em cada visita que fiz ao fotógrafo foi possível experimentar diferentes tempos e lugares, foi possível conhecer as ruas de Campinas como nunca, foi possível visitar bailes, peças de teatros, corridas de cavalo, jogos de futebol e imagens da história política da cidade. Gilberto De Biase tem guardada a memória de Campinas e o seu acervo requer atenção especial. Campinas tem uma dívida com o fotógrafo.

A Marilene Castilho Pimentel Pedroso, por realizar os serviços “urgentes” de digitalização de documentos do Arquivo do Estado.

Agradeço a todos os colegas do curso de pós-graduação, em especial ao Rogério,

Marcinha, Daniel, Mariana, Kibe, Fabiana, Muryatam, Michele, Geórgia e Henrique. À historiadora Beatriz Brunsantin, por ter ajudado com dados do DEOPS. Ao Alexandre Rizzo, amigo desde muito tempo atrás. Agradeço à Regina Ikezaki, ao Cláudio Arantes, Marcelo Scalice e ao Cláudio Oliveira pelo convívio na graduação. A Vanessa Vicentin, por seu apoio muito necessário.

À Cris pela companhia, amor e carinho.

A Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo pelo apoio financeiro e, a sua assessoria, pelas críticas, indicações e incentivo.

Sumário

Página Resumo/Abstract 07

Convite ao olhar 09

Introdução Explorando o problema da memória

I- A memória ferroviária 1

I- A Vila e o método de pesquisa 19

I- Sociologia e memória: apontamentos para o estudo da memória narrada 26

Primeira Parte Mogyana, Paulista e os ferroviários do interior

1- As ferrovias paulistas e o seu progresso pretérito 34 a) Os opostos do progresso e do desenvolvimento ferroviário 38 b) A consolidação do desenvolvimento nas cidades do café e das ferrovias 60

2- A formação da categoria ferroviária 74 a) Greve de 1906: “o operário não é uma máquina inconsciente!” 78 b) A Lei dos Ferroviários 92 c) Greve de 1934: fazer a unidade em mangas de camisa, ao lado de Pedro 118

3- As comissões de reivindicações dos ferroviários da Paulista e da Mogyana 148 a) Comissão de reivindicações: “para suavizar nossa situação de penúria” 155 b) Greves de 1948: “vocês são tudo patrão” 170

4- Da encampação à privatização das ferrovias paulistas 185 a) Quando o sindicato derrotou a “empregadora de 400 anos” 190 b) Unificação e privatização: trabalhador ensinando engenheiro 223

Segunda Parte

A memória do tempo do trabalho dos antigos ferroviários da Vila Industrial

5- Experiências de ingresso: “Sempre gostei de locomotiva, mas a gente não sabe o que é.” 246

6- Disciplina da Paulista: “A gente aprendeu muito disciplina, foi bom prá nóis” 274

prática”297

7- Identidade ferroviária: “A gente tem que ter atrás toda aquela Conclusões Finais 332

Bibliografia 344 Anexos 356

Resumo

O tema da dissertação é a memória associada às relações de trabalho, aos modos de vida e à trajetória da categoria dos antigos ferroviários da Vila Industrial de Campinas, recuperada por meio de entrevistas, fontes escritas e iconográficas de arquivos públicos, de sindicatos e de associação de ferroviários. O período delimitado resultou da tentativa de sistematizar fragmentos da história das ferrovias e da categoria no auge e na decadência das companhias Mogyana e Paulista. Na primeira parte da dissertação são apresentadas as limitações econômicas do progresso dos trilhos no Estado de São Paulo e o desenvolvimento urbano da cidade de Campinas; importantes movimentos grevistas ferroviários em diferentes períodos da história política brasileira; e, finalmente, uma breve análise da privatização das ferrovias e a conseqüente crise da categoria ferroviária. Na segunda parte, algumas experiências sociais, de trabalho e dos trabalhadores em ferrovias paulistas são caracterizadas por meio da memória de funcionários aposentados das estradas de ferro campineiras, residentes da Vila Industrial. Os relatos revelam e tornam claras as técnicas do passado, a rotina dentro e fora do trabalho, as mudanças ocorridas no mundo ferroviário ao longo do tempo e a identidade ferroviária.

Abstract

The theme of the dissertation is the memory associated to the work relationships, to the life manners and the trajectory of the old railmen's category of the Industrial Villa of Campinas, recovered by means of interviews, sources writings and iconography of public files, of unions and of railmens association. The defined period resulted of the attempt of systematizing fragments of the history of the railways and of the category in the peak and in the decadence of the companhias Mogyana and Paulista. In the first part of the dissertation are presented the economic limitations of the progress of the railways in the State of São Paulo and the urban development of the city of Campinas; important movements rail strikers in different periods of the Brazilian political history; and, finally, a brief analysis of the privatization of the railways and the consequent crisis of the rail category. In the second part, some work experiences and social of the workers in railways of the São Paulo they are characterized by means of the older employees’ memory of the railways campineiras, residents in the Industrial Villa. The reports reveal and they turn clear the techniques of the past, the routine inside and out of the work, the changes happened in the rail world along the time and the railmen identity.

8 Gilberto De Biasi, 1951.

Convite ao olhar

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