Doenças relacionadas ao Trabalho parte 2

Doenças relacionadas ao Trabalho parte 2

(Parte 1 de 18)

291CAPÍTULO 14

O paciente pode apresentar sinais de insuficiência respiratória, aguda ou crônica e outros sinais causados pela afecção primária, como o aumento do diâmetro ântero-posterior do tórax na DPOC.

O diagnóstico é baseado em evidências clínicas e eletrocardiográficas e pode ser confirmado por exames de imagem e da função pulmonar.

O ECG pode sugerir a presença de hipertrofia de ventrículo direito. As alterações mais freqüentes são desvio do eixo do QRS para a direita, razão da amplitude R/S em V1 > 1, razão da amplitude R/S em V6 < 1, aumento da amplitude da onda P em DII, DIII e a VF e o padrão S1Q3 ou S1S2S3.

A radiografia de tórax pode ser normal ou mostrar dilatação da artéria pulmonar, além das alterações provocadas pela doença de base, como DPOC e pneumoconioses. Podem, também, ser utilizados outros exames, como a ecocardiografia, a cintilografia, a ventriculografia e a ressonância magnética.

4 TRATAMENTO E OUTRAS CONDUTAS

•A oxigenoterapia diminui a mortalidade e melhora a qualidade de vida de pacientes com cor pulmonale e hipoxemia. Deve ser considerada nos pacientes com PaO2 < 5 m/Hg e policitemia ou evidência clínica (exame físico e ECG) de hipertensão pulmonar e cor pulmonale.

•O uso de digital no cor pulmonale é controverso. Está indicado somente naqueles pacientes com insuficiência de ventrículo esquerdo coexistente e pode beneficiar o paciente agudamente descompensado.

•A teofilina é utilizada devido ao seu efeito broncodilatador, mas parece ter outros efeitos benéficos, diminuindo a dispnéia em pacientes com doença obstrutiva não-reversível de vias aéreas.

•Os agonistas beta-adrenérgicos, além do efeito broncodilatador, provocam vasodilatação pulmonar e efeito inotrópico positivo no miocárdio, constituindo uma grande arma terapêutica. Porém, esses efeitos não se mantêm durante o uso prolongado, acima de seis meses.

•Os vasodilatadores têm sido avaliados em pacientes com DPOC e cor pulmonale, mas os resultados não são conclusivos. Deve-se considerar essa opção terapêutica apenas nos pacientes em que a terapia convencional e a oxigenoterapia falharam e mesmo assim seus efeitos sobre a hemodinâmica e a oxigenação devem ser cuidadosamente monitorizados, usualmente requerendo monitorização invasiva.

•A eficácia de flebotomia em pacientes com policitemia é controversa, mas parece exercer efeito benéfico a curto prazo. Está indicada para os pacientes masculinos com hemoglobina superior a 20 g% e hematócrito superior a 60% e nas mulheres com hemoglobina acima de 18 g% e hematócrito superior a 5%. O uso apropriado da oxigenoterapia tem diminuído o número de pacientes que apresentam policitemia grave. Deve ser indicada como terapia associada em pacientes com descompensação aguda do cor pulmonale e nos raros casos de pacientes que, apesar da oxigenoterapia, permanecem com nível de hematócrito muito elevado. A oxigenoterapia pode ser realizada em casa, com várias aplicações ao dia, ou antecedendo o exercício habitual da vida diária.

A interrupção da exposição à poeira de sílica, tão logo seja feito o diagnóstico da doença, é essencial e pode influenciar positivamente na progressão da insuficiência respiratória. Os portadores de silicose pulmonar devem ser submetidos à pesquisa repetida de microbacterioses, particularmente se houver agravamento súbito da dispnéia. Também estão indicados a cessação do tabagismo, quando presente; o tratamento precoce e adequado de qualquer infecção bacteriana e oxigenoterapia, para aliviar as complicações do cor pulmonale, melhorando a função pulmonar e prolongando a vida. O exercício físico bem orientado pode melhorar a utilização do oxigênio pelo sistema mitocondrial e aliviar a insuficiência respiratória.

5 PREVENÇÃO

A prevenção do cor pulmonale crônico relacionado ao trabalho consiste na vigilância dos ambientes e condições de trabalho de modo a evitar a exposição à poeira de sílica, prevenindo a ocorrência da silicose.

Ver procedimentos para a vigilância da saúde de trabalhadores expostos à sílica no protocolo Silicose (15.3.1), no capítulo 15.

292CAPÍTULO 14 6 BIBLIOGRAFIA E LEITURAS COMPLEMENTARES SUGERIDAS

ANDREOLI, T. E. et al. Cecil: medicina interna básica. 4.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1997. INTERNATIONAL LABOUR OFFICE (ILO). Encyclopaedia of occupational health and safety. 4 ed. Geneva: ILO, 1998.

LEVY, B. S.; WEGMAN, D. H. Occupational health: recognizing and preventing work-related disease and injury. 4 ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2000.

MORGAN, W. K. C.; SEATON, A. Occupational lung disease. 2 ed. Philadelphia: W. B. Saunders, 1984. SCHWARTZ, M. L.; KING, T. E. Interstitial lung disease. Toronto: B. C. Decker, 1988.

14.3.5PLACAS EPICÁRDICAS OU PERICÁRDICASCID-10 I34.8

1 DEFINIÇÃO DA DOENÇA – DESCRIÇÃO

O espessamento da pleura é uma reação a distintos estímulos, com produção de líquido, ou não, e inflamação progressiva, podendo resultar em fibrose simples e isolada ou no desenvolvimento de enormes placas, hialinas ou calcificadas. Os grandes espessamentos pleurais, de um modo geral, são conseqüência de processos tuberculosos, hemotórax de maiores proporções e empiemas.

Do ponto de vista ocupacional, a principal causa de placas epicárdicas e/ou pericárdicas é o asbesto ou amianto. Uma série de outras causas pode induzir ao espessamento das pleuras pela deposição local de fibrina: pneumonia, embolia pulmonar, manuseio da cavidade pleural, radioterapia, derrames de etiologias variadas, etc.

A chamada asbestose pleural promove o aparecimento de placas ou o espessamento localizado, simples ou generalizado, uni ou bilateral, seguindo o contorno costal, que pode calcificar. Nas partes mais baixas do tórax, justadiafragmáticas, costuma-se observar melhor as calcificações e, em determinadas ocasiões, as incidências radiológicas convencionais não são suficientes para evidenciar a imagem, tornando-se necessário recorrer a posições oblíquas.

2 EPIDEMIOLOGIA – FATORES DE RISCO DE NATUREZA OCUPACIONAL CONHECIDOS

Entre os minerais fibrosos, o asbesto ou amianto é o de maior risco para a saúde. Os trabalhos na extração e beneficiamento de amianto, em fábricas de artigos que o utilizam, tais como tecidos a prova de fogo e materiais de fibrocimento, particularmente na construção civil, constituem situações de exposição consideradas potencialmente importantes.

Em trabalhadores expostos a poeiras de asbesto ou amianto, a presença de placas epicárdicas ou pericárdicas deverá ser enquadrada como doença relacionada ao trabalho, do Grupo I da Classificação de Schilling, em que o trabalho é considerado como causa necessária.

3 QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO

As placas epicárdicas e/ou pericárdicas relacionadas ao asbesto são, geralmente, assintomáticas, exceto nos quadros de asbestose pulmonar, câncer pulmonar ou mesotelioma maligno de pleura, quando estiverem superpostos. Os seguintes exames complementares podem ser úteis: •radiografia de tórax – pode mostrar congestão pulmonar, coração de tamanho normal a moderadamente aumentado e as placas, quando há calcificação (utilizar o padrão da OIT); •tomografia computadorizada e ressonância magnética – são os exames mais adequados para visualização do espessamento pericárdico; •eletrocardiograma e ecocardiograma.

Não há características bioquímicas de líquido pleural, nem de biópsia, que permitam a caracterização específica do quadro.

293CAPÍTULO 14 4 TRATAMENTO E OUTRAS CONDUTAS

Não existe tratamento específico, mas remoção da exposição à poeira pode modificar a progressão da doença e da insuficiência respiratória. A pericardiotomia pode aliviar, reverter e salvar o encarceramento cardíaco, assim como a pleurectomia é aplicável nas síndromes pleuro-restritivas pulmonares.

5 PREVENÇÃO

A gravidade da doença e a ausência de terapêutica específica reforçam a importância das ações de prevenção da exposição. Nesse sentido, cresce em nível mundial o movimento pelo banimento do uso do asbesto. No Brasil já são proibidas a extração e a utilização dos anfibólios, pretendendo-se que a interdição seja estendida à forma crisotila.

Os procedimentos de vigilância da saúde de trabalhadores expostos ao asbesto estão descritos no protocolo Mesoteliomas (7.6.9), no capítulo 7.

6 BIBLIOGRAFIA E LEITURAS COMPLEMENTARES SUGERIDAS

(Ver, também, Asbestose (J61.-); Mesotelioma da Pleura; do Peritôneo e/ou do Pericárdio (J45.-). ALGRANTI, E. As doenças ligadas à exposição ao asbesto. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v.14, n.5, p. 15-16, 1986. _. Riscos à saúde causados pelo asbesto e o controle médico. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 16, n. 63, p. 10-1, 1988.

ALGRANTI, E.; DE CAPITANI, E. M.; BAGATIN, E. Sistema respiratório. In: MENDES, R. (Ed.). Patologia do trabalho. Rio de Janeiro: Atheneu, 1995, p. 89-137.

DE CAPITANI, E. M. Alterações pulmonares e pleurais causadas pela exposição ao asbesto. Jornal de Pneumologia, v. 20, n. 4, p. 207-218, 1994. Número especial.

HEITZMAN, E. R. The mediastinum, radiologic correlations with anatomy and pathology. St. Louis: C.V. Mosby, 1977. INTERNATIONAL LABOUR OFFICE (ILO). Encyclopaedia of occupational health and safety. 4 ed. Geneva: ILO, 1998.

LEVY, B. S.; WEGMAN, D. H. Occupational health: recognizing and preventing work-related disease and injury. 4 ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2000.

LIGHE, R. H. Pleural diseases. 3 ed. Baltimore: Williams & Wilkins, 1995. ROUSSOS, C.; MACKLEM, P. T. The thorax: parts A and B. New York: Marcel Dekker, 1985. SAHN, S. A. The pleura. Am. Rev. Respir. Dis., n. 8, p. 138-184, 1988.

14.3.6PARADA CARDÍACACID-10 I46.-

1 DEFINIÇÃO DA DOENÇA – DESCRIÇÃO

Parada cardíaca ou parada cardiorrespiratória (PCR) é o evento final de uma série de quadros clínicos que resultam em lesão cerebral irreversível e morte, caso não sejam tomadas medidas rápidas e adequadas para restabelecer a ventilação e a circulação (ressuscitação cardiopulmonar). Considerando que o retorno do paciente para o nível de função neurológica pré-parada é o objetivo mais importante, tem sido proposto o termo ressuscitação cardiopulmonarcerebral (RCPC) para as manobras de reanimação.

2 EPIDEMIOLOGIA – FATORES DE RISCO DE NATUREZA OCUPACIONAL CONHECIDOS

A ocorrência e a distribuição da PCR estão ligadas à incidência/prevalência da patologia de base responsável pelo quadro. Várias causas, cardíacas e não-cardíacas, podem terminar em PCR, entre elas a obstrução de vias aéreas, depressão respiratória por medicamentos e substâncias tóxicas, pneumopatias, convulsões, embolia pulmonar, aspiração pulmonar, infarto agudo do miocárdio, arritmias cardíacas, tamponamento cardíaco, choques, distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-básicos, hipoglicemia, síndromes neurológicas e eletrocussão.

Os acidentes elétricos, a intoxicação grave por substâncias tóxicas, como, por exemplo, solventes, monóxido de carbono e outros agentes potencialmente causadores de arritmias cardíacas podem cursar com PCR (ver, também, o protocolo Arritmias cardíacas relacionadas ao trabalho - 14.3.7).

294CAPÍTULO 14 3 QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO

(Parte 1 de 18)

Comentários