Basquete - periodização de um macrociclo para ganhos de força

Basquete - periodização de um macrociclo para ganhos de força

(Parte 1 de 3)

Abril de 2009 w.planetabasket.pt

Universidade Técnica de Lisboa Faculdade de Motricidade Humana

Planeamento do Treino Desportivo

Periodização de um Macrociclo para o Desenvolvimento da Força - Basquetebol

(A nível Sénior)

Ricardo Robalo

Abril de 2009 w.planetabasket.pt

DESENVOLVIMENTO DA FORÇA Índice

1. Introdução … 3 a. Caracterização Fisiológica da Modalidade – Basquetebol … 3 b. Conceitos Básicos de Periodização … 4 i. Modelo Linear de Periodização … 5 i. Modelo Não-Linear de Periodização … 5

2. Periodização do Treino da Força … 6 a. Periodização Aplicada ao Desenvolvimento da Força … 6 i. Periodização da Força pelo Modelo Linear … 8 i. Periodização da Força pelo Modelo Não-Linear … 9

3. Periodização do Treino da Força no Basquetebol … 9 a. Tendências do Treino nos Jogos Desportivos Colectivos … 9 i. Incorporação da Periodização nos Jogos Desportivos Colectivos … 10 i. Treino na Fase Competitiva … 10 i. Efeitos da Periodização Linear no Rendimento na Fase Competitiva … 1 iv. Interacção do Treino da Força com a Carga Aeróbia … 1

4. Periodização Mista … 12 a. Aplicação ao Basquetebol … 13 b. Modelo Linear em Fases Não Competitivas … 13 c. Modelo Não-Linear em Fases Competitivas … 14

5. Caso Prático – Universidade do Texas 2000/2001 … 14

6. Conclusão … 15 a. Modelo Proposto … 15

7. Referências Bibliográficas … 17

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Introdução

Neste artigo irá ser feita, inicialmente, uma caracterização das especificidades fisiológicas inerentes ao basquetebol. De seguida irão ser dados conceitos de básicos de periodização assim como uma explicação do que são modelos lineares e não-lineares. Depois ira-se explicar a aplicação da periodização ao desenvolvimento da força fazendo referência aos modelos lineares e não-lineares no caso específico da força. Mais à frente vai-se desenvolver o tema da periodização nos jogos desportivos colectivos e suas vicissitudes, mais especificamente o impacto e principais preocupações a ter na periodização da força no basquetebol. Seguirá então uma apresentação de suporte teórico que sustente a hipótese de periodização mista no desenvolvimento da força no basquetebol, sendo também apresentado um caso prático onde irão ser divulgadas as principais conclusões. Finalmente como conclusão irá ser proposto um modelo de periodização misto para o desenvolvimento da força no basquetebol.

Caracterização Fisiológica da Modalidade - Basquetebol

O basquetebol segundo Bompa (2003) tem como sistema energético dominante o sistema aeróbioláctico. O autor caracteriza os sistemas energéticos na modalidade em termos percentuais da seguinte maneira:

• Sistema Aláctico: 20 %

• Sistema Lático: 40 %

• Sistema Aeróbio: 20 % É claro que a distribuição percentual dos sistemas energéticos feita por Bompa (2003) é algo subjectiva e arrisca-se a ter variações interindividuais muito grandes. Como principais características ergogénicas do basquetebol o autor salienta as seguintes: alto dispêndio energético com uma média de 40 saltos, com curtos períodos de recuperação; altas acelerações e desaceleração e outras variações de corrida (de 5 a 7km por jogo), seguidas por uma média de 280 mudanças rápidas de direcção. Quanto à intensidade Bompa (2003) afirma que os batimentos cardíacos durante um jogo situam-se numa média de 167 batimentos por minuto (bpm) e situam-se acima dos 180 bpm 25 % do tempo.

Os factores limitantes da performance segundo Bompa (2003) são a potência de aceleração e desaceleração, potência de salto, agilidade, coordenação e domínio de bola, velocidade de reacção e tempo do movimento.

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Como objectivos do treino o autor afirma que o desenvolvimento dos três sistemas de energia deve ser feito através de tarefas específicas do jogo. Bompa (2003) afirma que a componente aeróbia confere a capacidade aos atletas que lhes permite treinar e jogar eficientemente durante toda a partida, permitindo também uma boa recuperação pós actividade. O desenvolvimento da velocidade máxima segundo Bompa (2003), realizada com boa técnica é um factor de rendimento. Este último conceito carece, provavelmente, de uma boa explicação, já que a velocidade máxima no jogo de basquetebol é impossível de atingir já que o campo só tem aproximadamente 25 metros e a fase de aceleração até à velocidade máxima necessita de uma maior distância. O autor neste caso deve estar a fazer referência à capacidade de aceleração aliada à velocidade de execução das técnicas específicas da modalidade.

No caso específico da força o desenvolvimento da força máxima é importante, como base de aperfeiçoamento da potência, da aceleração, da desaceleração, das mudanças rápidas de direcção e do trabalho rápido e altamente coordenado de pés. O desenvolvimento da força de resistência assume um papel preponderante, especificamente na capacidade de realizar repetidamente acções de potência durante todo o jogo.

Conceitos Básicos de Periodização

A periodização tem como objectivo organizar a carga de treino tendo em conta a sua intensidade, volume, densidade e complexidade de forma a optimizar o rendimento do atleta para a competição específica da sua modalidade. Pode-se dizer que o rendimento depende da forma desportiva sendo esta o desempenho competitivo que um atleta consegue realizar num determinado momento da sua carreira ou do seu processo de preparação. Esta é constituída pelo estado de treino e pelo estado de preparação. O primeiro reflecte a adaptação biológica geral do organismo, enquanto o segundo diz respeito à capacidade que esse mesmo organismo tem de manifestar as suas possibilidades máximas no decorrer de uma competição (Platonov, 1991).

A periodização típica envolve três níveis fundamentais: a macro-estrutura, a meso-estrutura e a micro-estrutura. Nesta última considera-se o microciclo, de duração semanal típica, podendo ter de maneira geral de 3 a 10 sessões. Na meso-estrutura surge o mesociclo, estrutura intermédia que agrupa vários microciclos, orientando o processo de treino de acordo com os objectivos definidos, sistematizando a alteração das componentes da carga e dos conteúdos dos exercícios de treino, podendo durar de duas a seis semanas.

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Por último, o macrociclo, que constitui um todo integrando as competições em que o atleta deverá participar e o período de preparação necessário para que essa intervenção seja bem sucedida, pode corresponder a uma época inteira no caso de uma periodização simples, mas pode também ser apenas uma de duas metades da época (periodização dupla) ou apenas uma parcela da época (periodização múltipla).

Modelo Linear de Periodização

As estruturas de periodização no modelo linear são organizadas por estádios sucessivos de um processo que se pretende unitário e integrado. Cada um deles se caracteriza por uma aplicação selectiva de conteúdos determinados, assente em meios e métodos de treino que garantam um efeito controlado e orientado para a evolução gradual do desempenho competitivo, ou seja da forma desportiva.

Daqui se poderá concluir que as leis da periodização do treino são sobretudo, leis de regulação da evolução da forma desportiva perante objectivos e marcas temporais bem precisos.

Modelo Não-Linear de Periodização

Segundo Wathen (sd) os modelos não-lineares são caracterizados por uma distribuição não constante das cargas ao longo tempo. Estes modelos, segundo Buford (2007) podem ter variações de dia para dia ou de semana para semana das cargas de treino aplicadas, não procurando fazer uma evolução constante dos estímulos, mas sim fazer com que haja alguma variabilidade ao longo do tempo. Este modelo facilita o treino de mais que uma manifestação de uma qualidade física ao mesmo tempo pois, com a variação das cargas ao longo do microciclo ou mesociclo, o objectivo de cada sessão poderá variar. Esta possibilidade contraria as propostas de modelos lineares já que, ao invés de apoiar a sua teoria na continuidade e progressão das cargas de forma constante, apoia a sua teoria no efeito cumulativo das cargas ao longo tempo, preconizando que a médio longo prazo os efeitos são semelhantes aos observados nos modelos lineares, tendo a vantagem de ser mais adaptável a formatos competitivos mais prolongados. Esta maior adaptabilidade advém de uma maior facilidade em controlar a carga de treino evitando assim a fadiga tanto física como mental.

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DESENVOLVIMENTO DA FORÇA Periodização do Treino da Força

Periodização Aplicada ao Desenvolvimento da Força

Muitos especialistas adaptaram os vários modelos de periodização existentes ao desenvolvimento da força a longo prazo, tendo como objectivo aumentar a performance de ano para ano focando-se na manifestação mais característica da força presente na modalidade que o atleta pratica.

Existem duas razões pelas quais se usa a periodização no desenvolvimento da força específica do desporto do atleta: 1) coordenar estrategicamente a regeneração usando períodos de descompressão dissipando a fadiga acumulada reduzindo assim o risco de “Overtraining” e potenciando a supercompensação. (Banister & Calvert, 1981; Fry, Morton, & Keast, 1992 citado por Cole, 1998); 2) Variar o estímulo de treino ao longo do tempo, pois através da periodização os ganhos, em termos de força, serão maiores e ocorrerão mais rápido do que se o treino da força for feito à intensidade constante concomitante ao treino convencional (Kukushkin, 1983; Poliquin, 1997; Sleamaker, 1989 citado por Cole, 1998).

As etapas contempladas na periodização da força, são algo consensuais no universo científico do treino, embora por vezes as denominações das etapas sejam distintas, aquilo que as compõe tende a não variar muito. Bompa (2003) propõe quatro etapas na periodização do desenvolvimento da força: 1. Etapa de Adaptação Anatómica 2. Etapa de Força Máxima 3. Etapa de Potência 4. Etapa de Manutenção Segue então a explicitação das diferentes etapas: 1. Etapa de Adaptação Anatómica – Consiste num aumento do condicionamento geral e de resistência através do treino de força. Promove uma adaptação dos ligamentos, tendões e tecidos musculares para as fases seguintes do treino (Bompa, 2003). Segundo Stewart (2005) esta fase serve para melhorar a flexibilidade funcional na amplitude característica da modalidade; estabilizar e reforçar os músculos do core para prevenção de lesões e para criar uma boa base para uma eficiência biomecânica; reforçar tendões, ligamentos e estabilização da musculatura responsável pela integridade das articulações; fortalecer os músculos que por sobre uso estão enfraquecidos e provocam desequilíbrios musculares; aumentar a massa muscular nos principais músculos que sofreram mecanismos catabólicos ao longo da época transacta.

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2. Etapa de Força Máxima – A força máxima é, talvez, de entre as diferentes formas de manifestação da força, a expressão que com maior unanimidade entre os diferentes autores, podemos encontrar na literatura. Por força máxima devemos entender o valor mais elevado de força que o sistema neuromuscular é capaz de produzir, independentemente do factor tempo, e contra uma resistência inamovível. Se aceitarmos esta definição de força máxima estaremos a dizer que ela se deve avaliar em termos isométricos, ainda que se possa exprimir também em termos concêntricos ou excêntricos. Esta forma de manifestação da força afirma-se como a base de desenvolvimento para todas as outras manifestações da força. Os métodos da hipertrofia muscular também designados por métodos sub-maximais, têm como objectivo incrementar a força máxima, através do aumento da massa muscular, i.e., hipertrofiando o músculo. Sob esta classificação podemos encontrar diferentes sub-métodos com diversas variantes ao nível do arranjo da dinâmica da carga, mas com uma filosofia base comum: induzir a fadiga, através de um estímulo sub-máximo e de longa duração para que ocorra uma determinada depleção energética e consequentemente se estimulem os fenómenos de resíntese para a prazo se poder observar aumento da área da secção transversal do músculo. 3. Etapa de Potência – A potência (F x V) é basicamente a capacidade de produzir o maior valor de força possível em tempos reduzidos. Pode-se dizer que a potência pode se manifestar de duas formas, pela (1) taxa de produção de força que é a capacidade que o indivíduo tem para acelerar o movimento o mais rapidamente possível desde o zero, é geralmente mais preponderante em movimentos onde a resistência a vencer é elevada; (2) e pela força reactiva, que se manifesta em ciclo alongamento-encurtamento sendo a forma de força mais característica dos desportos colectivos, e representa a capacidade de produzir força contra resistências de baixa intensidade num determinado período de tempo. Esta etapa antecede ou coincide geralmente, com as fases competitivas, pois representa a forma de manifestação da força mais aproximada da realidade observada no desporto. 4. Etapa de Manutenção – Não é mais que uma etapa em que o objectivo é manter os níveis de força nas suas manifestações variadas, principalmente nas que estão mais directamente relacionadas com o rendimento.

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Periodização da Força pelo Modelo Linear

A periodização da força usando o modelo linear é geralmente usada para modalidades onde o “pico” de forma é o principal objectivo, sendo que o calendário competitivo nestas modalidades não é muito denso. Assim sendo esta periodização pressupõe períodos preparatórios alargados, constituídos por variados mesociclos. Nestes modelos o foco está claramente no desenvolvimento da capacidade, para que nos “picos” de forma pretendidos (dificilmente mais de 3 durante a época) o atleta apresente índices elevados de rendimento. Estes modelos surgiram primeiramente com Matveyev, seguidos por Verchoshansky e outros, que apresentaram pontos de vista sobre o desenvolvimento das capacidades seguindo os mesmos princípios mas apoiando-se em metodologias diferentes. Os princípios da continuidade, progressão da carga e ciclicidade são os mais característicos destes modelos, que pressupõe que as cargas devem ser aplicadas de forma contínua e progressiva ao longo do tempo, por ciclos. Só se trabalhando com um objectivo de cada vez, dentro de cada capacidade física específica.

Relativamente à força propriamente dita, independente da sequência e forma de organização das cargas de cada autor, nos modelos lineares Cole (1998) generaliza e faz referência a 4 fases que se prolongam ao longo da época e que geralmente se encadeiam da seguinte maneira: hipertrofia, força, potência, e “peaking”. O período preparatório geral corresponde ao desenvolvimento hipertrófico, o período preparatório específico corresponde ao período que Cole (1998) denomina de força (corresponde ao que parece ser uma aproximação do trabalho entre hipertrofia e taxa de produção de força), no período competitivo temos a potência e o “peaking” mais no final deste período com o intuito de contribuir para o “pico” de forma. Sendo estes modelos direccionados para a criação de “picos” de forma, a manutenção da forma não é a prioridade da periodização linear, embora ao longo dos anos se tenha tentado adaptar este tipo de modelos aos desportos cuja manutenção da forma desportiva assume especial importância (desportos com densidades competitivas elevadas e prolongadas ao longo do tempo).

Periodização da Força pelo Modelo Não Linear

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