Apostila de Micologia

Apostila de Micologia

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APOSTILA

CURSO DE MICOLOGIA MÉDICA

1.- Introdução

Identificação dos fungos

Generalidades

Os fungos são organismos eucarióticos, desprovidos de clorofila e de celulose, uni ou pluricelulares sem a capacidade de formar tecido, imóveis na sua maioria. Cada célula pode gerar, por si só, um novo organismo da mesma espécie. São considerados os principais biodegradradores de matéria orgânica de nosso planeta.

As células fúngicas apresentam morfologia variável, mostrando grande diferença em tamanho, estrutura e atividade metabólica, formando diferentes tipos de colônias quando cultivados em meios apropriados, estruturas de frutificação complexas e/ou elaborados mecanismos de propagação e dispersão.

REINO EUMYCOTA

(De Hoog et al 2000)

Divisões

Chytridiomycota

Zygomycota

Ascomycota

Basidiomycota

REINO PROTOZOA: Rhinosporidium seeberi

REINO CHROMISTA: Pythium insidiosum

Os fungos são organismos distintos das bactérias em tamanho, estrutura celular e composição química. Os fungos são eucariontes isto é possuem núcleos envolvidos por membrana própria, heterotróficos, com nutrição de absorção, uni ou pluricelulares, com parede formada de polissacarídeo incluindo glucanas, mananas, quitina bem como glicoproteínas, sem celulose. A composição desses compostos é variável e depende da posição sistemática dos fungos, ergosterol é o principal componente da membrana fúngica.

A célula fúngica é constituída pelos componentes encontrados em outros organismos eucarióticos.

As organelas citoplasmáticas e inclusões são: mitocôndrias, vacúolos, vesículas, retículo endoplasmático, microtúbulos, ribossomos e cristais de glicogênio. Os típicos aparelhos de Golgi irão estar sempre presentes. Quase todos os fungos são aeróbios e todos necessitam matéria elaborada para sua alimentação (heterotróficos).

Os fungos não ingerem seu alimento, mas possuem nutrição de absorção e parasitam seres vivos ou atacando matéria morta como sapróbios, parasitas, simbiontes ou patógenos.

Os fungos se desenvolvem em meios de cultivos especiais, formam colônias que são classificadas em dois tipos principais, leveduriformes e filamentosas, que se diferenciam pela macromorfologia e micromorfologia.

As colônias de leveduras são, em geral, de consistência cremosa de cor branca a creme, brilhantes ou opacas podendo apresentar às vezes coloração escura ou alaranjada.

As leveduras produzem células simples, arredondadas, ovais ou alongadas que se reproduzem quase sempre por brotamento, geralmente na posição polar chamadas de blastoconídio. Algumas leveduras podem produzir, brotos simultaneamente em vários pontos.

Os brotamentos ou células filhas são liberados da célula mãe, formando células independentes ou continuar unidos formando células alongadas chamadas de pseudohifas que se diferenciam das hifas verdadeiras por apresentarem constrição nos septos. Além dos blastoconídios as leveduras podem apresentar artroconídios, pseudohifas e clamidoconídios típicos.

As colônias de fungos filamentosos podem ser granulares, cotonosas, aveludadas, pulverulentas, membranosas. O seu talo consiste de hifas que podem ser contínuas ou interrompidas em intervalos irregulares por septos (septada) que dividem as hifas em células.

Um conjunto de hifas forma o micélio que pode ser vegetativo ou reprodutivo. O micélio vegetativo penetra no meio de cultivo, para absorver substâncias nutritivas para o fungo. O micélio vegetativo é o que fica na parte superior do meio e produz as estruturas de reprodução típicas para cada grupo de fungos.

Os fungos sexuados se reproduzem por esporos que podem ser formados internamente (ascoporas) ou externamente (basidiosporas).

Os fungos sexuados também se reproduzem assexuadamente.

Na reprodução assexuada, as estruturas de reprodução tomam nomes variados de acordo com o grupo a que pertencem os fungos.

Conídios são estruturas assexuadas de reprodução encontradas entre os fungos filamentosos. Podem apresentar tamanhos, formação, cores e septos diferentes (macroconídios, microconídios, ameroconídios, didimoconídios, fragmoconídios, dictioconídios, etc.). As hifas que sustentam os conídios são denominadas de conidióforos e as células que dão origem aos conídios conidiogênicas.

Os conídios podem ser claros ou hialinos – hialoconídios ou pigmentados e escuros - feoconídios.

Entre os fungos de hifas não septadas, as hifas aéreas produzem esporos assexuados (esporangiosporos) dentro de estruturas chamadas esporângios. As hifas que sustentam os esporângios são conhecidas como esporangióforos.

Columela é uma invaginação estéril do esporangióforo na área fértil do esporângio.

2.- Coleta de Material Biológico

A coleta de material biológico é a primeira etapa no processo de identificação dos fungos. Quando realizada incorretamente, dificulta a observação, isolamento e identificação do agente causal da doença.

O primeiro passo consiste em obter os dados do paciente: nome, idade, RG, procedência, endereço, telefone para contato, entre outros; dados epidemiológicos: profissão, contato com animais, doença associada, estado imunológico, etc; informações clínicas: local anatômico acometido, aspecto da lesão, suspeita clínica, antibioticoterapia prévia, evolução e dados do médico responsável.

O procedimento de coleta varia segundo a região acometida, suspeita clínica e tipo de material biológico. A quantidade de amostra coletada deve ser suficiente para permitir o procedimento de identificação laboratorial do fungo: como exame microscópico direto e cultivos em vários meios, com eventuais repetições desses exames para confirmação dos achados laboratoriais.

Procedimento da coleta

Para efeitos práticos, a coleta de material biológico, depende da localização e do tipo da micose.

  • Amostras de micoses superficiais e cutâneas

Também denominadas dermatomicoses acometem: pele, pêlo, unhas, provocando algumas delas alterações somente de importância estética.

A.- Amostras de pele.

A prévia desinfecção da lesão com algodão embebido em álcool 70% diminui a biota bacteriana, aumentando a sensibilidade do exame micológico.

Raspar a lesão com bisturi, cureta esterilizada ou com lâminas de vidro previamente flambadas. Nas lesões sugestivas de dermatofitose, a coleta deve ser feita nas bordas da lesão, já que este é o sitio ativo da infecção.

Quando o raspado da lesão não pode ser realizado, pode-se optar por métodos tais como o de Porto (só para pitiríase versicolor) que consiste em utilizar uma fita adesiva transparente (Durex) que é pressionada sobre a lesão, removida e fixada sobre uma lâmina ou a utilização de um tapetinho estéril de aproximadamente 4 cm que e pressionado sobre a lesão, embrulhado e transportado ao laboratório (Mariat & Tapia, 1966). As desvantagens são a falta do cultivo ao empregar a técnica de Porto e do exame direto, quando se usa o tapetinho.

B.- Amostras de unha.

A lesão pode-se localizar na região subungueal distal, proximal ou lâmina superficial da unha. A tomada amostra dependerá do tipo de lesão.

Deve-se remover a presença de esmalte antes da coleta. Na onicomicose superficial branca, raspa-se as áreas esbranquiçadas da parte superficial com o auxilio de bisturi estéril. No acometimento sub-ungueal, deve-se raspar profundamente a área infectada desde a porção distal à proximal.

Os primeiros detritos coletados da porção distal deverão ser eliminados já que são ricos em contaminantes. As escamas obtidas da porção profunda da lesão poderão ser usadas para o exame micológico. Quando as unhas são distróficas, pode-se auxiliar a coleta com tesouras limpas e desinfetadas.

C.- Amostras de cabelo e pêlo.

Nos casos de piedras cortam-se com tesoura os cabelos ou pêlos apresentando nódulos fúngicos (observados com auxilio de lupa).

Nas tinhas do couro cabeludo e da barba, as amostras podem incluir escamas da pele e os pêlos ou cabelos alterados. Os cabelos opacos e engrossados são facilmente arrancados, a partir das bordas das placas alopécicas com ajuda de uma pinça limpa e flambada.

Os pêlos, escamas de pele ou de unhas, podem ser colhidos e transportados entre duas lâminas de vidro limpas, secas e flambadas, embrulhadas em papel, ou em placas esterilizadas, sempre com a identificação da amostra.

D.- Amostras oculares.

Material de conjuntiva é colhida da mucosa, desde a porção proximal em direção a borda, com "swab" estéril, embebido em solução salina. O "swab" pode ser colocado num tubo estéril, contendo meio semi-sólido de transporte ou 0,5ml de solução salina.

Material ocular (córnea) colhido só por oftalmologistas, raspando as áreas necróticas, ulceradas e supurativas da lesão com espátula esterilizada. Esta amostra será processada em lâmina (exame microscópico direto) e semeada imediatamente nos meios de cultivo apropriados ou tubo estéril contendo solução salina.

E.- Amostras óticas.

Geralmente o material biológico é obtido a partir do conduto auditivo externo, com “swab” esterilizado umedecido previamente em solução salina.

E.- Mucosas.

i- Mucosa oral.

As amostras devem ser obtidas por raspado da superfície epitelial acometida, empregando espátula ou bisturi rombo esterilizado. Na candidíase oral em que se verificam placas esbranquiçadas, o material pode ser colhido com “swab” estéril, ou alça de platina, colocar em tubo esterilizado contendo solução salina.

ii- Mucosa nasal.

O material nasal pode ser colhido com espátula, bisturi, alça ou ¨swab¨. Nos casos de suspeita de aspergilose, feohifomicose, zigomicose ou rinosporidiose, recomenda-se coleta do material com procedimento cirúrgico, como biópsia, etc.

iii- Mucosa vaginal.

As amostras de fluxo vaginal se tomam sem asseio prévio da paciente, com “swab”, colocar em um tubo com solução salina esterilizada.

iv- Mucosa genital Masculina.

A amostra pode ser colhida com swab da área da glande que apresenta pontos esbranquiçados ou pseudomembranas, ou do prepúcio em onde podem ser encontradas, vesículas.

v- Mucosa perianal.

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