(Parte 1 de 5)

Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

Ministro da Educação Tarso Genro

Secretário Executivo Fernando Haddad

Secretária de Educação Especial Claudia Pereira Dutra

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO Secretaria de Educação Especial

Caminhos para a Prática Pedagógica

Heloísa Maria Moreira Lima Salles

Enilde Faulstich

Orlene Lúcia Carvalho Ana Adelina Lopo Ramos

Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos

Salles[et al.] . _ Brasília : MEC, SEESP, 2004.
2 v. : il(Programa Nacional de Apoio à Educação

Ensino de língua portuguesa para surdos : caminhos para a prática pedagógica / Heloísa Maria Moreira Lima dos Surdos)

1. Educação especial. 2. Educação dos surdos. 3. Ensino da língua portuguesa. I. Salles, Heloísa Maria Moreira Lima. IL Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. I. Série.

CDU 376.3

Autoras Heloísa Maria Moreira Lima Salles

Doutora em Lingüística Professora da Universidade de Brasília Coordenadora do Projeto

Enilde Faulstich

Doutora em Filologia e Língua Portuguesa Professora da Universidade de Brasília

Orlem Lúcia Carvalho

Doutora em Lingüística Professora da Universidade de Brasília

Ana Adelina Lopo Ramos

Mestre em Lingüística Professora da Universidade de Brasília

Consultores Surdos de LIBRAS Gláucia Rosa de Souza

Professora de Língua Brasileira de Sinais - FENE1S

Isaías Leão Machado Felix Professor de Língua Brasileira de Sinais - APADA

Assistentes de Pesquisa Adriana Chan Viana

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Lingüística - UnB Técnica Educacional - Ministério das Relações Exteriores

Sandra Patrícia de Faria do Nascimento

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Lingüística - UnB Professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal

Rosana Cipriano lacinto da Silva

Especialista Lato Sensu em Língua Portuguesa Professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal Professora da CESUBRA - Faculdade Objetivo

Ilustrador Isaías Leão Machado Felix

Esta publicação faz parte do Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos, que tem como objetivo apoiar e incentivar a qualificação profissional de professores que com eles atuam.

Pela primeira vez, os professores terão acesso a materiais que tratam do ensino da Língua Portuguesa a usuários de LIBRAS.

Trata-se de um trabalho inédito, muito bem fundamentado e com possibilidades de viabilizar oficinas, laboratórios de produção de material por parte dos professores, relacionando, de fato, teoria e prática.

Estamos certos de que a formação adequada de professores contribuirá para a melhoria do atendimento e do respeito à diferença lingüística e sociocultural dos alunos surdos de nosso país.

Secretaria de Educação Especial

Este livro é o resultado da articulação de diversos esforços. É parte integrante do Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos, que pode ser considerado um avanço na luta pelo desenvolvimento acadêmico da pessoa surda e pela valorização de sua condição multicultural. É uma tentativa de reunir informações colhidas em diversas fontes, que generosamente se desvendaram para nós, sob a forma de trocas de experiências, discussões, leituras, experimentos, em que se destacam os consultores surdos do projeto, conscientes de seu papel social na promoção da cultura surda, e as professoras/ pesquisadoras ouvintes, que prestaram consultoria na questão educacional do surdo, em diferentes etapas do projeto. É enfim uma contribuição de pessoas que há pouco tempo voltaram o olhar para os surdos, em face de um chamado profissional, que logo se transformou em entusiasmo e desejo de conhecer mais e participar das discussões e ações em benefício da comunidade surda, na tarefa de construir uma sociedade multicultural e fraterna.

Concebido como material instrucional para a capacitação de professores de língua portuguesa da Educação Básica no atendimento às pessoas com surdez, o livro Ensino de Língua Portuguesa para Surdos: Caminhos para a Prática Pedagógica parte do pressuposto de que a modalidade vísuo-espacial é o canal perceptual adequado à aquisição e utilização da linguagem pelas pessoas surdas, tendo implicações cruciais para seu desenvolvimento cognitivo, sua afirmação social e realização pessoal, do que decorre ainda o entendimento de que, na adoção do bilingüismo, a língua portuguesa é segunda língua para o surdo.

Nossa proposta de reflexão é formulada em duas partes: a primeira compreende três unidades e aborda a situação lingüística e cultural do surdo, considerando a aquisição da linguagem em uma perspecti- va biológica e psicossocial, situando o ensino de português como segunda língua para os surdos no âmbito de políticas de idioma e da legislação vigente da educação nacional; e propondo a aplicação dessas concepções na definição de abordagens, métodos e técnicas a serem adotados no ensino de português (escrito) para surdos, em face das necessidades colocadas pelas características de sua produção escrita.

A segunda parte consiste de oficinas temáticas de projetos educacionais voltados para o ensino de língua portuguesa para surdos, em que se exemplificam algumas etapas dessa elaboração, em particular a revisão teórica do tema, a coleta de materiais ilustrativos dos temas examinados (situações reais de fala, imagens, desenhos e outros) e a aplicação de fundamentos teóricos e metodológicos, na formulação de atividades didático-pedagógicas e no desenvolvimento de tecnologias educacionais. Partindo da simulação de situações de ensino-aprendizagem orientadas para alunos com nível intermediário de português, os projetos abordam questões de gramática e de leitura e produção de textos.

Não se trata, portanto, de um curso de língua portuguesa para surdos com conteúdo e progressão fixos. Assumindo-se que os projetos educacionais devem estar voltados para o desenvolvimento de competências e habilidades no educando, entendemos as sugestões e propostas formuladas neste livro como temas para reflexão, a serem adaptadas, recriadas e mesmo descartadas, em face das especificidades de cada situação de ensino-aprendizagem, das exigências de contextualização e da abordagem interdisciplinar do conhecimento, requisitos para a aprendizagem significativa.

Nosso desejo é que essa reflexão se amplie, abrindo caminhos para o intercâmbio de idéias, contribuindo para sensibilizar a sociedade em relação às necessidades educacionais do surdo, o que supõe respeitar sua situação (multi)cultural, promover o estudo científico de sua problemática, propor projetos e ações educacionais, desenvol- ver tecnologias que venham atender suas necessidades especiais, em uma perspectiva de divulgação do conhecimento e disponibilização democrática dos resultados alcançados.

Animadas por esses sentimentos idealistas, tão presentes na atitude dos educadores, apresentamos nossa contribuição, singela, se consideramos que se inscreve em um cenário de esforços de pessoas que acumulam vasta experiência no assunto e que tivemos a oportunidade e a alegria de conhecer, mas também sincera, no desejo de participar, aprender, contribuir para a promoção da pessoa humana, no exercício de nossa função social de professoras universitárias, responsáveis pela formação e capacitação dos educadores que vão integrar as comunidades acadêmicas de nosso país.

Heloísa Maria Moreira Lima Salles Coordenadora do Projeto

Brasília, 17 de outubro de 2002.

Sistema de Transcrição de LIBRAS17
Unidade I19
Portuguesa para Surdos19
O Mundo da lusofonia20
1. Origem e história da língua portuguesa20
2. O Brasil no mundo da lusofonia23
Língua e identidade: um contexto de política lingüística25
1. Situação do tema25
2. C onsiderações gerais26
3. Linguagens: espaços de atos concretos27
4. Um projeto em desenvolvimento32
5. C onsiderações finais34
Cultura Surda e cidadania brasileira36
1. As diferenças humanas36
2. A questão multicultural surda38
3. Cultura Surda e identidade40
4. Comportamento e tecnologia surda4
5. Cultura Surda na educação de surdos46
6. Contribuições da sociedade à educação dos surdos49
7. Considerações finais52

SÚMARIO Política de Idioma e Ensino da Língua

1. Aspectos históricos da educação dos surdos54

Educação dos surdos: aspectos históricos e institucionais . 54 2. Aspectos institucionais da educação dos surdos................. 58

A Linguagem Humana: Aspectos Biológicos e Psicossociais64
Linguagem e cognição6
1. Origem da linguagem humana6
2. A aquisição da linguagem68
2.1 Evidências para a hipótese da mente modular71
3. Aquisição de segunda língua73
3.1 Aquisição de língua oral-auditiva por surdos7
Linguagem e sociedade79
1. A diversidade lingüística79
Características das línguas de sinais83
1. Línguas de sinais e a modalidade vísuo-espacial83
2. Universais lingüísticos e as línguas de sinais85
Unidade I95
Aplicações da Teoria Lingüística ao Ensino de Línguas95
direção à comunicação96
1. Introdução96
2. Definição dos termos96
3. Relação entre abordagens e métodos98
4. Abordagens de base estruturalista e funcionalista9
4.1. Abordagem estruturalista9
4.2. Abordagem funcionalista100
4.3. O ensino audiolingual e o comunicativo101
5. Abordagem interacionista103
5.1. Principais vertentes teóricas104

Unidade I ........................................................................................ 64 Da abordagem audiolingual à interacionista: em 5.1.1. A Hipótese da Interação........................................ 104

Teoria Sociocultural106
5.2. O ensino sob a ótica interativa107
6. O diálogo e o texto nas três abordagens108
6.1. O tratamento estruturalista108
6.2. O tratamento comunicativo1
6.3. O tratamento interacionista112
7. A situação de aprendizagem dos surdos1 14
8. Considerações finais117
Um olhar sobre o texto do surdo118
1. I ntrodução118
2. Aspectos da aquisição de português por ouvintes119
3. Em que consiste a tarefa de adquirir uma segunda língua123
de produzir um texto escrito em português124
4. Considerações finais132

5.1.2. A Teoria Sociocultural...................................... 105 5.1.3. Pequeno contraste entre a Hipótese da Interação e a 3.1 Soluções propostas pelo surdo ante a tarefa Referências bibliográficas.................................................... 134

(adaptado de Felipe et al., 2001)

1) Os sinais da LIBRAS, para efeito de simplificação, serão representados por itens lexicais da Língua Portuguesa (LP) em letras maiúsculas. Exemplos: CASA, ESTUDAR, CRIANÇA.

2) Um sinal, que é traduzido por duas ou mais palavras em língua portuguesa, será representado pelas palavras correspondentes separadas por hífen. Exemplos: CORTAR-COM-FACA 'cortar', QUERER-NÃO 'não querer', MEIO-DIA 'meio-dia', AINDA-NÃO 'ainda não'.

única coisa, serão separados pelo símbolo

3) Um sinal composto, formado por dois ou mais sinais, que será representado por duas ou mais palavras, mas com a idéia de uma Exemplo: CAVALO LISTRA 'zebra'.

4) A datilogia (alfabeto manual), que é usada para expressar nome de pessoas, de localidades e outras palavras que não possuem um sinal, será representada pela palavra separada, letra por letra, por hífen. Exemplos: JO-Ã-O, A-N-E-S-T-E-S-I-A.

5) O sinal soletrado, ou seja, uma palavra da língua portuguesa que, por empréstimo, passou a pertencer à LIBRAS por ser expressa pelo alfabeto manual com uma incorporação de movimento próprio desta língua, será representado pela soletração ou parte da soletração do sinal em itálico. Exemplos: R-S 'reais', N-U-N-C-A, 'nunca'.

6) Na LIBRAS não há desinências para gênero (masculino e feminino) e número. O sinal, representado por palavra da língua portuguesa

que possui essas marcas, será terminado com o símbolo @ para reforçar a idéia de ausência e não haver confusão. Exemplos: AMiG@ 'amiga ou amigo', FRI@ 'fria ou frio', MU1T@ 'muita ou muito', TOD@

'toda ou todo', EL@ 'ela ou ele', ME@ 'minha ou meu'.

7) Para simplificação, serão utilizados, para a representação de frases nas formas exclamativas e interrogativas, os sinais de pontuação utilizados na escrita das línguas orais-auditivas, ou seja: !, ?, ?!

Unidade I

Politica de Idioma e Ensino da Língua Portuguesa para Surdos

O mundo da lusofonia

A língua é minha pátria E eu não tenho pátria Eu tenho mátria e quero frátria

Flor do Lácio, sambódromo Lusa Américo, Latim em pó

O que quer o que pode essa língua? (Língua, Caetano Veloso)

1. Origem e história da língua portuguesa

A origem da língua portuguesa, juntamente com línguas como o espanhol, o catalão, o francês, o italiano, o romeno, encontra-se na transformação, através dos séculos, do latim, o que explica que sejam todas referidas como línguas românicas ou neo-latinas, constituindo uma única família lingüística. Recuando-se no tempo, cabe então indagar quanto à origem do latim e às condições históricas de seu surgimento.1 O latim originou-se na região do Lácio, onde, em 711 a.C, fundou-se Roma, e pertence ao tronco lingüístico originário do indo-europeu, uma língua falada pelos árias ou arianos, que teria surgido nas regiões da Europa central.

As migrações desse povo, que deixou seu território em diferentes tribos entre os séculos XV e X a. C, levaram à ocupação de novas regiões da Europa e parte da Ásia, e à disseminação de sua língua.

Estudos realizados no começo do século XIX pelo filólogo alemão As considerações históricas do presente capítulo estão sintetizadas a partir da obra de Hauy (1989).

Franz Bopp demonstraram, pelo método da gramática comparada, que quase todas as línguas atualmente faladas na Europa e na Ásia provêm do indo-europeu, o que atesta em contrapartida, por meio de diversos fatos fonéticos, morfológicos e sintáticos, a própria existência do indo-europeu.

Com a dispersão do povo ariano, verificou-se o fracionamento do indo-europeu em diversos ramos, a saber: o germânico, o itálico, o báltico, o eslavo, o céltico, o albanês, o grego, o indo-irânico, o anatólio, o armênio e o tocariano. O ramo itálico, por sua vez, compreendia o osco, o latim e o umbro. Essas línguas estão distribuídas em regiões que vão da Europa Ocidental até a Índia.

Como se sabe, a difusão do latim se dá no contexto da expansão do Império Romano, que alcança seu apogeu entre os séculos I a. C. e I d. C. A história da língua portuguesa começa, portanto, com a romanização da península ibérica, iniciada em 197 a. C, com a domi-

nação dos povos celtiberos. No século V d. C, o declínio do Império favorece a penetração dos povos germânicos, levando à queda de Roma em 476 d. C. Na península ibérica, a ocupação germânica é suplantada pela invasão árabe, no século VIII.

A formação da língua portuguesa ocorre com a mobilização para a expulsão dos árabes e a influência político-cultural associada à região noroeste da Península, que se tornou um pólo de resistência e irradiação do cristianismo. Refugiados nas montanhas das Astúrias (Montes Cântabros), os exércitos cristãos investiram em direção ao sul, fundando os reinos de Aragão, Leão e Castela. A reconquista da região mais ocidental leva à definição dos limites territoriais e à fundação do reino de Portugal, com a anexação sucessiva de Coimbra, em 1064, Santarém e Lisboa, em 1147, Évora em 1165, Faro, em 1249. A expulsão definitiva dos árabes do resto da Península só ocorre muito depois, em 1492, quando os reis católicos de Castela, Fernando e Isabel, se apoderam do califado de Granada.

A invasão muçulmana e a Reconquista são acontecimentos determinantes na formação das três línguas peninsulares - o galego- português a oeste, o castelhano no centro e o catalão a leste.' (Teyssier, 1984: 5)

A fixação da capital em Lisboa, em 1255, distancia cultural e lingüisticamente a nação portuguesa do eixo de influência de Galiza. Com as grandes navegações, em particular o descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral, em 1500, Portugal estabelece possessões na Ásia, na África e na América, com conseqüências importantes e definitivas para a geopolítica do mundo ocidental e para a difusão da língua portuguesa. No Brasil, acontecimentos como a transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, são decisivos na preservação de valores políticos e culturais portugueses, destacando-se a afirmação da língua portuguesa e sua difusão no amplo território brasileiro.

"O nosso vernáculo comum é uma unidade que, pela diversidade da língua, se contrapõe às (...) línguas indígenas susbsistentes entre

nós, bem como às línguas - em geral européias, mas também asiáticas (japonês, coreano, chinês) - das minorias migratórias. Vê-se, pela história do Brasil e de vários países de origem colonial moderna (isto é, do Renascimento em diante), que esse convívio de línguas pode subsistir por tempo mais ou menos longo, havendo a possibilidade de políticas lingüísticas (...) não coercitivas; por exemplo, quando o ensino se faz nas duas línguas, a da minoria e a da maioria.' (Houaiss, 1985: 12)

Paises em que a língua portuguesa é oficial

(Ilustração adaptada de Correio Braziliense, 2 de agosto de 2002)

1-Angola 2- Brasil 3- Cabo Verde 4- Guiné-Bissau 5- Moçambique 6- Portugal 7- São Tomé e Príncipe 8- Timor Loro Sae

2. O Brasil no mundo da lusofonia

Cinco séculos depois da colonização, nos primeiros anos do 2o milênio, a sociedade brasileira se apresenta como maior nação de falan-

tes de língua portuguesa. No entanto, sua liderança no bloco lusófono deverá afirmar-se pela valorização da língua portuguesa como fator de união e solidariedade na comunidade lusófona, com o respeito à diversidade lingüística e à expressão multicultural dos povos. Para tanto, é necessário promover o letramento e o amplo acesso do cidadão às diferentes instâncias sociais, à produção e ao usufruto dos bens culturais e artísticos, com vistas ao desenvolvimento humano e à realização pessoal. A situação da comunidade surda nesse cenário é particularmente interessante, em termos lingüísticos, pela perspectiva do bilinguismo, e culturais, tanto no plano da cidadania brasileira, com o sentimento de nacionalidade e o respaldo institucional, quanto na condição que identifica seus membros como detentores de uma cultura própria, a cultura surda.

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