Casos Clínicos em Psiquiatria

Casos Clínicos em Psiquiatria

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UMAPUBLICAÇÃO DO Departamento de Psiquiatria e Neurologia da Faculdade de Medicina - UFMG e da Residência de Psiquiatria do Hospital das Clínicas - UFMG

Editor Geral Maurício Viotti Daker

Diretor Executivo Geraldo Brasileiro Filho

Comissão Editorial Alfred Kraus•Antônio Márcio Ribeiro Teixeira•Betty Liseta de Castro Pires•Carlos Roberto Hojaij•Carol Sonenreich•Cassio Machado de Campos Bottino•Cleto Brasileiro Pontes •Erikson Felipe Furtado•Irismar Reis de Oliveira•Delcir Antônio da Costa•Eduardo Antônio de Queiroz•Eduardo Iacoponi•Fábio Lopes Rocha • Flávio Kapczinski•Francisco Baptista Assumpção Jr.• Francisco Lotufo Neto•Hélio Durães de Alkmin •Helio Elkis•Henrique Schützer Del Nero •Jarbas Moacir Portela•Jerson Laks•John Christian Gillin •Jorge Paprocki•José Alberto Del Porto•José Raimundo da Silva Lippi•Luis Guilherme Streb•Michael Schmidt- Degenhard•Marco Antônio Marcolin•Maria Elizabeth Uchôa Demichelli•Mário Rodrigues Louzã Neto• Miguel Chalub•Miguel Roberto Jorge•Osvaldo Pereira de Almeida•Othon Coelho Bastos Filho •Paulo Dalgalarrondo•Paulo Mattos•Pedro Antônio Schmidt do Prado Lima•Pedro Gabriel Delgado•Ricardo Alberto Moreno•Roberto Piedade•Ronaldo Simões Coelho•Sérgio Paulo Rigonatti•Saulo Castel •Sylvio de Magalhães Velloso•Talvane Martins de Moraes• Tatiana Tcherbakowsky Nunes de Mourão

Editora Cooperativa Editora e de Cultura Médica Ltda (Coopmed)

Capa, projeto gráfico, composição eletrônica e produção Folium Comunicação Ltda

Periodicidade: semestral Tiragem: 5.0 exemplares

Assinatura e Publicidade Coopmed0800 315936

Correspondência e artigos Coopmed Casos Clínicos em Psiquiatria Av. Alfredo Balena, 190 30130-100 - Belo Horizonte - MG - Brasil Fone: (31) 3273 1955 Fax: (31) 3226 7955

E-mail: ccp@medicina.ufmg.br Home page: http://www.medicina.ufmg.br/ccp

Capa: Montagem de auto-retrato de Vincent van Gogh com retrato de seu psiquatra Dr. Gachet.

Casos Clínicos em Psiquiatria Sumário

Editorial1
Quinze delírios2

Auto-relato Artigos Originais

terapéuticas10

Síndrome de Kleine-Levin: consideraciones diagnósticas y Pilar Sierra San Miguel, Lorenzo Livianos Aldana, Luis Rojo Moreno

Discinesia tardia com predomínio de distonia13

Guilherme Assumpção Dias

Ataxia prolongada associada à intoxicação por lítio18

Yara Azevedo, Cíntia de Azevedo Marques, Eduardo Iacoponi

perphenazine, and paroxetine: case report and literature review21

Cortical atrophy during treatment with lithium in therapeutic levels, Luiz Renato Gazzola

Sales29

Caso Literário Machado de Assis

Patografia de Vincent van Gogh32

Patografia Andrés Heerlein

Freud e o uso de cocaína: história e verdade42

Caso Histórico José Antônio Zago

Heinroth e a melancolia: descrição, ordenação e conceito48

Descrição Clássica/Homenagem Michael Schmidt-Degenhard

Seguimento53
Index CCP54
Normas de Publicação5

Casos Clin Psiquiatria 2000; 2(1):1-5

Publicar uma revista de Casos Clínicos em Psiquiatriaé uma iniciativa inspirada. Achamos que devemos nos empenhar para seu êxito. O estudo do caso constituiu sempre a base, o ponto de partida e o campo de desenvolvimento da atividade médica: conhecimento dos fatos, formulação da nosologia, elaboração das teorias, etiologias, desenvolvimento dos tratamentos, ensino profissional. Na Introdução à Psiquiatria Clínica(1990) Kraepelin explica sua intenção: oferece sob forma de aulas escritas as apresentações de casos clínicos realizados com seus alunos. O caso observado, descrito, sendo selecionados os aspectos significativos para conceber um quadro clínico, um diagnóstico. É na medida em que analisa os casos que Kraepelin formula e classifica as doenças. Podemos seguir, com a leitura destas aulas, o nascimento das entidades psiquiátricas, conforme Kraepelin.

Para identificar as alterações, lançar hipóteses etiológicas, tentativas de entender, explicar, a apresentação do caso clínico é procedimento clássico e, devido a sua importância, publicar em livros e revistas os casos também era procedimento clássico. Indagações, pesquisas de laboratório, hipóteses foram sugeridas e debatidas em torno do caso clínico. Sem falar do seu uso para exemplificar, classificar, argumentar a favor de teorias, de propostas terapêuticas. Nomes de certos casos tornaramse emblemáticos: Ellen West, Suzan Urban. O caso Elliot (retomado por Damasio em 1994, para ilustrar suas teses) aparece em vários estudos neurológicos, neurocirúrgicos. O ensino da medicina interna usou muitas vezes a publicação de casos em revistas e mesmo em tratados de muitos tomos.

Como exemplo, argumento, o caso clínico continua instrumento precioso. Muitas revistas lhe dedicam seções especiais. Na psiquiatria o espaço que lhe é dedicado é evidentemente pequeno. Não se trata aqui de uma "pesquisa", mas examinando alguns números de revistas psiquiátricas recentes, é óbvio: nos cinco primeiros números do ano 2000, o British Journal of Psychiatrynão inclui nenhum artigo dedicado a "caso clínico". Nem o número de abril de 2000 dos Archives of General Psychiatry. O American Journal of Psychiatry, em cada um dos números 7 e 8 deste ano, inclui um artigo de "clinical case conference", um relacionado com terapia cognitivo-comportamental, outro observando características de duas irmãs gêmeas.

Avaliosa revista Arquivos de Neuropsiquiatria(SP) dedica às apresentações de caso uma seção de proporções pouco comuns: no número de junho de 2000, 60 do total de 200 páginas, e no número de setembro 70 entre o total de 200 páginas. Trata-se de casos neurológicos.

Nas revistas psiquiátricas predominam (ou são exclusivos) artigos dedicados à epidemiologia e pesquisas básicas, com amplo uso de estatísticas, quantificação. Não podemos afirmar que isto represente o interesse dos estudiosos, mas é claro que as revistas exigem tal orientação, e para os autores publicar se tornou quase uma questão de sobrevivência na carreira.

Aquantificação, considerada critério de cientificidade, parece pouco aplicável no "caso particular", embora o "caso único" seja recomendado como abordagem alternativa (Hersen M, p. 73-105) entre os métodos de Pesquisa em Psiquiatria (LKG Hsu, Research in Psychiatry, New York: Plenum Medical Book Company, 1992).

Os módulos, o isolamento de elementos mínimos, (moléculas, neurotransmissores, receptores) são parte importante das pesquisas atuais. Claro que a apresentação do caso leva a um nível complexo de estudo, pouco compatível com a abstratização estatística que os elementos ou as funções isoladas constituem. O relacionamento com os outros, as condutas da pessoa, objetos da psiquiatria, não podem ser limitadas a registros quantitativos. Para pesquisá-los precisamos de conceitos e métodos que não são os praticados na maioria dos estudos publicados.

Não consideramos que uma revista de casos clínicos pretenda corrigir as omissões de outras publicações. Mas com certeza, ela nos evoca a "complementaridade", da qual as ciências humanas e as da natureza tanto falam.

Carol Sonenreich Diretor do Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica do Hospital do Servidor Público Estadual - São Paulo

Publishing a magazine for Clinical Cases in Pschiatryis an inspired enterprise. We think that we should strive for its success. The case study is the basis, starting point and the development field of medical work: knowledge of facts, formulation of nosology, theory elaboration, etiology, treatment development and technical teaching. In his Introdução à Psiquiatria Clínica(1990) Kraepelin tells us his intention: offer the presentation of clinical cases carried on with his students as written lessons. The cases are observed, described and the main aspects are selected to form a clinical nosological picture, a diagnosis. While Kraepelin analyzes the cases, he formulates and classifies the diseases. The reading of those lessons has allowed us to follow the birth of psychiatric entities as Kraepelin.

It’s a classical procedure the understanding trials and explanations of clinical cases, to identify their alterations and to start etiological hypothesis. Due to its importance, publishing books and magazines with cases was also a classical procedure. Questions, laboratorial researches, hypothesis were suggested and argued based upon clinical cases, besides its uses to exemplify, classify and argument in favor of theory and of therapeutical proposals. The names of some cases become emblematic: Ellen West, Susan Urban. The Elliot’s case (as described by Damasio in 1994 to enrich his thesis) appears in many neurological and neurosurgery studies. The internal medicine took advantage of published cases in magazines and even in tome books many times.

As an exemplification, as an argument the clinical case is still a precious instrument. Many magazines have special section dedicated to them. In psychiatry the space dedicated to them is evidently small. This is not a "research" but if we observe few recent editions of psychiatric magazines, we will find that in the year 2000 the first five editions of British Journal of Psychiatryhave no clinical case. It happens even in the April 2000 edition of Archives of General Psychiatry. The 7th and 8th editions of the American Journal of Psychiatryof this year include one clinical case conference related with cognitive behavioral therapy and another showing the characteristics of twin sisters.

The very important magazine Arquivos de Neuropsiquiatria

(SP) dedicates an unusual large section to the presentation of cases: in the June edition, 60 out of a total of 200 pages, and in the September edition, 70 out of a total of 200 pages. They are neurological cases.

In psychiatric magazines, articles about epidemiology and basic research predominate (or are exclusive), creating a wide use of statistical and quantifications methods. We cannot affirm that this represents the interest of the scholars but it is clear that magazines have such orientation, and for the authors, publishing is almost a survival problem in their career.

The quantification as a scientific standard is not applicable in the "particular case” although the "single case" is recommended as alternative approach among methods from research in Psychiatry (LKG Hsu, Research in Psychiatry, New York, Plenum Medical Book Company, 1992)

The modules, the isolation of minimum elements (molecules, neurotransmitters, receptors) are important part of nowadays research. It is known that the explanation of the case leads to a complex level of study that is not compatible with the abstractive statistical data formed by elements or the single functions. The relationship, the behavior of people, subject of psychiatry cannot be limited as quantitative records. To research them, we need to have concepts and methods that are not used in the majority of the published studies.

We do not assume that a magazine for clinical cases will fulfill all the omissions of other publications. But certainly we can call the idea of "complementary", which is now widely spread by social and natural sciences.

Carol Sonenreich Director of the Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica do Hospital do Servidor Público Estadual - São Paulo

Editorial

Luiz Ferri Barros

Na verdade não sou um bom contador de delírios. Isto porque segue-se às minhas crises maníacas uma amnésia a respeito das crises que vivi.

Apenas com muita concentração e muito esforço de memória, fui capaz de reunir aqui lampejos de lembranças para relatar alguns momentos esparsos das grandes fantasias delirantes e alucinatórias que já vivi.

Antes de relatá-los, no entanto, acho importante dizer como o delírio se estabelece. Ele não chega sem avisos.

As crises são precedidas por uma grande inquietação. Ocorre intensa agitação motora e insônia durante dois ou três dias. Não sei onde ficar, nenhuma posição me acomoda.

Depois, vem aos poucos de início e em seguida velozmente, tomando conta de tudo, uma incontrolável euforia. A euforia é uma sensação de bem estar, de poder, de plenitude. De força perante o mundo. A euforia faz com que no meio de toda a desgraça e sofrimento que é a loucura, ainda assim o mundo se apresente com inigualável grandiosidade e beleza.

Com a euforia, o pensamento dispara e fica fora de controle.

É quando se perde o nexo e idéias disparatadas começam a nos ocorrer. Mantém-se concentração absoluta num assunto ou dispersão total de pensamentos com a mente correndo solta entre os mais variados contextos. Ocorre o que Schreber muito bem definiu como “coação a pensar”. “A essência da coação a pensar consiste no fato de que o homem é forçado a pensar ininterruptamente”e em grande velocidade.

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