Apostila de Modernismo até arte comteporanea brasileira

Apostila de Modernismo até arte comteporanea brasileira

(Parte 1 de 8)

33

Modernismo - 1ª fase 1922-1930

Modernismo - 2ª fase 1930-1945

Modernismo - 3ª fase

1945-1960

Literatura contemporânea 1960 até os dias de hoje

Valorização do cotidiano;Liberdade de forma e conteúdo;

Destruição do passado;

Paródia;

Fluxo da consciência.

Neo-realista;Era de Getúlio Vargas;Romance regionalista e urbano;Consciência de nosso subdesenvolvimento.

Filosófica;Mística;Universal.

Grande desenvolvimento do conto, do romance, da crônica;Recriação da linguagem;Carnavalização;Regionalismo universalista, mágico.

PROSA

João Guimarães Rosa Clarice Lispector Lygia Fagundes Telles

Objetivo artístico: pôr a sociedade a par das vanguardas européias.Objetivo político: resgatar a dignidade e mostrar a realidade nacional.

PROSA

POESIA

Graciliano RamosÉrico VeríssimoRaquel de Queiroz Jorge AmadoJosé Américo de Almeida José Lins do RegoDyonélio Machado Cyro Martins

POESIA

Adélia Prado

Carlos Nejar Chico Buarque de Holanda Caetano Veloso

Ferreira Gullar

João Cabral de Melo Neto

A poesia concreta

Décio Pignatari

Haroldo de Campos

Augusto de Campos

Semana da Arte Moderna;

Movimentos Pós-semana da 22:Pau-Brasil, Verde-Amarelismo, Desvairista, Antropofágico.

Oswald de Andrade

Mário de Andrade Manuel Bandeira

Menotti Del PicchiaRaul BoppCassiano Ricardo

Guilherme de Almeida

Ronald de CarvalhoAlcântara Machado

Juó Bananère

PROSA

Luis Antônio de Assis Brasil Moacyr Scliar

Josué Guimarães

Lya Luft

Caio Fernando Abreu

Luís Fernando Veríssimo José C. Pozenato

Lygia Fagundes Telles

Osman Lins

Ivan Ângelo

Autran Dourado

Rubem Fonseca

Ignácio Loyola Brandão

Fernando Sabino

Rubem Braga

Luís Fernando Veríssimo

Millôr Fernandes

Carlos Heitor Cony

Dalton Trevisan

Antônio Callado

Fernando Gabeira

João Ubaldo Rieiro

POESIA

Modernismo em Portugal

Cecília Meireles

Mário Quintana Vinicius de Moraes Carlos Drummond de Andrade

Murilo Mendes

Jorge de Lima

Ferreira de Castro

Alves Redol

Fernando Namora

Vergílio Ferreira

José Saramargo

TEATRO

Oswald de Andrade

Nelson Rodrigues Ariano Suassuna Plínio MarcosOduvaldo Viana Filho

Augusto Boal

Chico Buarque de Holanda

Dias Gomes

Gianfrancesco Guarnieri

Joracy Camargo

Jorge Andrade

Millôr Fernandes

Paulo Pontes

Hípica

Saltos records

Cavalos da Penha

Correm jóqueis de Higienópolis

Os magnatas

As meninas

E a orquestra toca

Chá

Na sala de cocktails

(Oswald de Andrade)

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime

Ser completo como uma máquina!

Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!

Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,

Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento

A todos os perfumes de óleos e calores e carvões

Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

(Álvaro Campos – Fernando Pessoa)

  1. Aponte alguns aspectos característicos do movimento futurista.

  2. Que tipo de relação se estabelece entre o enunciador e a máquina?

  1. Esclareça a sobreposição de imagens utilizada pelo poeta. (Cubismo)

Fragmento "Fundação e manifesto do futurismo", 1908, publicado em 1909.

"Então, com o vulto coberto pela boa lama das fábricas - empaste de escórias metálicas, de suores inúteis, de fuliges celestes -, contundidos e enfaixados os braços, mas impávidos, ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra:

1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.

3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.

4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.

5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita.

6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem.

8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade onipresente.

9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias pelas quais se morre e o desprezo da mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o vôo deslizante dos aeroplanos, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.

É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.

Há muito tempo a Itália vem sendo um mercado de belchiores. Queremos libertá-la dos incontáveis museus que a cobrem de cemitérios inumeráveis.

Museus: cemitérios!... Idênticos, realmente, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos onde se repousa sempre ao lado de seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos dos matadouros dos pintores e escultores que se trucidam ferozmente a golpes de cores e linhas ao longo de suas paredes!

Que os visitemos em peregrinação uma vez por ano, como se visita o cemitério no dos dos mortos, tudo bem. Que uma vez por ano se desponta uma coroa de flores diante da Gioconda, vá lá. Mas não admitimos passear diariamente pelos museus nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa mórbida inquietude. Por que devemos nos envenenar? Por que devemos apodrecer?

E que se pode ver num velho quadro senão a fatigante contorção do artista que se empenhou em infringir as insuperáveis barreiras erguidas contra o desejo de exprimir inteiramente o seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivalente a verter a nossa sensibilidade numa urna funerária, em vez de projetá-la para longe, em violentos arremessos de criação e de ação.

Quereis, pois, desperdiçar todas as vossas melhores forças nessa eterna e inútil admiração do passado, da qual saís fatalmente exaustos, diminuídos e espezinhados?

Em verdade eu vos digo que a frequentação cotidiana dos museus, das bibliotecas e das academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registros de lances truncados!...) é, para os artistas, tão ruinosa quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens embriagados por seu os prisioneiros, vá lá: o admirável passado é talvez um bálsamo para tantos os seus males, já que para eles o futuro está barrado... Mas nós não queremos saber dele, do passado, nós, jovens e fortes futuristas!

Bem-vindos, pois, os alegres incendiários com seus dedos carbonizados! Ei-los!... Aqui!... Ponham fogo nas estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais para inundar os museus!... Oh, a alegria de ver flutuar à deriva, rasgadas e descoradas sobre as águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: resta-nos assim, pelo menos um decênio mais jovens e válidos que nós jogarão no cesto de papéis, como manuscritos inúteis. - Pois é isso que queremos!

Nossos sucessores virão de longe contra nós, de toda parte, dançando à cadência alada dos seus primeiros cantos, estendendo os dedos aduncos de predadores e farejando caninamente, às portas das academias, o bom cheiro das nossas mentes em putrefação, já prometidas às catacumbas das bibliotecas.

Mas nós não estaremos lá... Por fim eles nos encontrarão - uma noite de inverno - em campo aberto, sob um triste galpão tamborilado por monótona chuva, e nos verão agachados junto aos nossos aeroplanos trepidantes, aquecendo as mãos ao fogo mesquinho proporcionado pelos nossos livros de hoje flamejando sob o vôo das nossas imagens.

Eles se amotinarão à nossa volta, ofegantes de angústia e despeito, e todos, exasperados pela nossa soberba, inestancável audácia, se precipitarão para matar-nos, impelidos por um ódio tanto mais mais implacável quanto seus corações estiverem ébrios de amor e admiração por nós.

A forte e sã Injustiça explodirá radiosa em seus olhos - A arte, de fato, não pode ser senão violência, crueldade e injustiça.

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: no entanto, temos já esbanjado tesouros, mil tesouros de força, de amor, de audácia, de astúcia e de vontade rude, precipitadamente, delirantemente, sem calcular, sem jamais hesitar, sem jamais repousar, até perder o fôlego... Olhai para nós! Ainda não estamos exaustos! Nossos corações não sentem nenhuma fadiga, porque estão nutridos de fogo, de ódio e de velocidade!... Estais admirados? É lógico, pois não vos recordais sequer de ter vivido! Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas!

Vós nos opondes objeções?... Basta! Basta! Já as conhecemos... Já entendemos!... Nossa bela e mendaz inteligência nos afirma que somos o resultado e o prolongamento dos nossos ancestrais. - Talvez!... Seja!... Mas que importa? Não queremos entender!... Ai de quem nos repetir essas palavras infames!...

Cabeça erguida!...

Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas."

A terra é uma paisagem imensa que Deus nos deu. Temos que olhar para ela de tal forma que chegue até nós sem deformação. Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida. Os fatos acreditados, imaginados, anotados não são o suficiente; pelo contrário, a imagem do mundo tem de ser espelhada puramente e não falsificada. Mas isso está apenas dentro de nós mesmos. (Kasimir Edschmid) (Expressionismo)

A criação artística, evidentemente, não é delírio. Mas é, igualmente, uma alteração, uma deformação, uma transformação da realidade, segundo as leis particulares da arte. A arte, por mais fantástica que seja, não dispõe de nenhum outro material além daquele que lhe fornecem o mundo de três dimensões e o mundo mais estreito da sociedade de classes. Mesmo quando o artista cria o céu ou cria o inferno, ele simplesmente transforma a experiência de sua própria vida em fantasmagorias, até inclusive a conta não-paga do aluguel. (Trotski, 1969, p. 153-4) (Expressionismo)

Pegue um jornal

Pegue uma tesoura

Escolha um artigo do jornal na dimensão que você quer dar ao seu poema

Recorte o artigo

Depois recorte alguns palavras do artigo e as ponha numa pequena bolsa

Sacuda-a suavemente

Tire em seguida cada palavra uma após outra

Copie honestamente na ordem em que saíram da bolsa

E o poema estará pronto e parecido com você

E você será um poeta de original, fascinante sensibilidade,

ainda que a plebe não o compreenda.

a canção de um dadaísta

que tinha dadá no coração

cansava demasiado seu motor

que tinha dadá no coração

o ascensor levava um rei

pesado frágil e autônomo

cortou seu grande braço direito

o enviou ao papa em roma

(Tristan Tzara)

(Dadaísmo)

PRIMEIRO MANIFESTO DADÁ

(Hugo Ball)

Dadá é uma nova tendência da arte. Percebe-se que o é porque, sendo até agora desconhecido, amanhã toda a Zurique vai falar dele. Dadá vem do dicionário. É bestialmente simples. Em francês quer dizer "cavalo de pau" . Em alemão: "Não me chateies, faz favor, adeus, até à próxima!" Em romeno: "Certamente, claro, tem toda a razão, assim é. Sim, senhor, realmente. Já tratamos disso." E assim por diante.

Uma palavra internacional. Apenas uma palavra e uma palavra como movimento. É simplesmente bestial. Ao fazer dela uma tendência da arte, é claro que vamos arranjar complicações. Psicologia Dadá, literatura Dadá, burguesia Dadá e vós, excelentíssimo poeta, que sempre poetastes com palavras, mas nunca a palavra propriamente dita. Guerra mundial Dadá que nunca mais acaba, revolução Dadá que nunca mais começa. Dadá, vós, amigos e Também poetas, queridíssimos Evangelistas. Dadá Tzara, Dadá Huelsenbeck, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá, Dadá Hue, Dadá Tza.

Como conquistar a eterna bemaventurança? Dizendo Dadá. Como ser célebre? Dizendo Dadá. Com nobre gesto e maneiras finas. Até à loucura, até perder a consciência. Como desfazer-nos de tudo o que é enguia e dia-a-dia, de tudo o que é simpático e linfático, de tudo o que é moralizado, animalizado, enfeitado? Dizendo Dadá. Dadá é a alma-do-mundo, Dadá é o Coiso, Dadá é o melhor sabão-de-leite-de-lírio do mundo. Dadá Senhor Rubiner, Dadá Senhor Korrodi, Dadá Senhor Anastasius Lilienstein.

Quer dizer, em alemão: a hospitalidade da Suíça é incomparável, e em estética tudo depende da norma.Leio versos que não pretendem menos que isto: dispensar a linguagem. Dadá Johann Fuchsgang Goethe. Dadá Stendhal.

Dadá Buda, Dalai Lama, Dadá m'Dadá, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá. Tudo depende da ligação e de esta ser um pouco interrompida. Não quero nenhuma palavra que tenha sido descoberta por outrem. Todas as palavras foram descobertas pelos outros. Quero a minha própria asneira, e vogais e consoantes também que lhe correspondam. Se uma vibração mede sete centímetros, quero palavras que meçam precisamente sete centímetros. As palavras do senhor Silva só medem dois centímetros e meio.

Assim podemos ver perfeitamente como surge a linguagem articulada. Pura e simplesmente deixo cair os sons. Surgem palavras, ombros de palavras; pernas, braços, mãos de palavras. Au, oi, u. Não devemos deixar surgir muitas palavras.

Um verso é a oportunidade de dispensarmos palavras e linguagem. Essa maldita linguagem à qual se cola a porcaria como à mão do traficante que as moedas gastaram. A palavra, quero-a quando acaba e quando começa.Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? E porque é que raio há-de chamar-se seja o que for? Havemos de pendurar a boca nisso? A palavra, a palavra, a dor precisamente aí, a palavra, meus senhores, é uma questão pública de suprema importância.

Zurique, 14 de Julho de 1916

As realidades

(fábula)

      Era uma vez uma realidade

      com suas ovelhas de lã real

      a filha do rei passou por ali

      E as ovelhas baliam que linda que está

      a re a re a realidade.

      Na noite era uma vez

      uma realidade que sofria de insônia

      Então chegava a madrinha fada

      e realmente levava-a pela mão

      a re a re a realidade.

      era uma vez a REALIDADE.

      No trono havia uma vez

      um velho rei que se aborrecia

      e pela noite perdia o seu manto

      e por rainha puseram-lhe ao lado

      a re a re a realidade.

      CAUDA: dade dade a reali

      dade dade a realidade

      A real a real

      idade idade dá a reali

      ali

      a re a realidade

(Surrealismo)

Poeminha surrealista

Gostaria, querida,

De ser inesperado

Como uma madrugada amanhecendo

À noite

E engraçado, também,

Como um pato num trem.

(Millôr Fernandes)

Botafogo

Desfilam algas sereias peixes e galeras

E legiões de homens desde a pré-história

Diante do Pão de Açúcar impassível.

Um aeroplano bica a pedra amorosamente

A filha do português debruçou-se à janela

Os anúncios luminosos lêem seu busto

A enseada encerrou-se num arranha-céu.

(Murilo Mendes)

  1. Destaque as características surrealistas dos textos do Millôr Fernandes e Murilo Mendes.

  2. Ilustre os poemas.

Manifesto do Surrealismo

(André Breton - 1924)

Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! ) . Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. Se conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir.

Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.

Procure ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver, incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o amor, ele muito dificilmente o conseguirá. É que ele doravante pertence, de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a suas idéias. De tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte, eventos perdidos. Que digo, ele fará sua avaliação em relação a um desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros, em suas conseqüências. Ele não descobrirá aí, sob pretexto algum, sua salvação.

Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.

Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar ( como se fosse possível enganar-se mais ainda ). Onde começa ela a ficar nociva, e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar não é, antes, a contingência do bem?

Fica a loucura. “a loucura que é encarcerada”, como já se disse bem. Essa ou a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes atos, sua liberdade ( o que se vê de sua liberdade ) não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas de sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginação e apreciam seu delírio o bastante para suportar que só para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são fonte de gozo nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí sua parte, e eu sei que passaria muitas noites a amansar essa mão bonita nas últimas páginas do livro. A Inteligência de Taine, se dedica a singulares malefícios. As confidências dos loucos, passaria minha vida a provocá-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura cresceu, e durou.

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.

O processo da atitude realista deve ser instruído, após o processo da atitude materialista. Esta, aliás, mais poética que a precedente, implica da parte do homem um orgulho sem dúvida monstruoso, mas não uma nova e mais completa deposição. Convém nela ver, antes de tudo, uma feliz reação contra algumas tendências derrisórias do espiritualismo. Enfim, ela não é incompatível com uma certa elevação de pensamento.

     

O pastor pianista

Soltaram os pianos na planície desenta

Onde as sombras dos pássaros vêm beber.

Eu sou o pastor pianista,

Vejo ao longe com alegria meus pianos

Recortarem os vultos monumentais

Contra a lua.

Acompanhado pelas rosas migradoras

Apascento os pianos: gritam

E transmitem o antigo clamor do homem

Que reclamando a contemplação,

Sonha e provoca a harmonia,

Trabalha mesmo à força,

E pelo vento nas folhagens,

Pelos planetas, pelo andar das mulheres,

Pelo amor e seus contrastes,

Comunica-se com os deuses.

(Murilo Mendes)

  1. O poema apresenta uma cena com elementos estranhos ao real, que remetem ao universo dos sonhos. Que cena é essa?

  2. O título do poema apresenta mais de um significado possível. Qual seria o significado mais convencional da expresão pastor pianista?

  3. Na última estrofe, o eu lírico deixa de se referir aos pianos e passa a reletir sobre a natureza humana. Quais são, segundo o eu lírico, as ações desempenhadas pelo homem no mundo?

  4. Através de que meios o homem “comunica-se com os deuses.”

Autopsicografia

  1. Qual o jogo de palavras que aparece na 1ª estrofe do poema?

  2. Qual é o tipo de dor apresentada pelo poeta?

  3. Explique a 3ª estrofe.

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.Finge tão completamenteQue chega a fingir que é dorA dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,Na dor lida sentem bem,Não as duas que ele teve,Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de rodaGira, a entreter a razão,Esse comboio de cordaQue se chama coração.

(F. Pessoa)

Eros e Psique

 ...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade. (Do Ritual Do Grau De Mestre Do ÁtrioNa Ordem Templária De Portugal)

Conta a lenda que dormiaUma Princesa encantadaA quem só despertariaUm Infante, que viriaDe além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,Vencer o mal e o bem,Antes que, já libertado,Deixasse o caminho erradoPor o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,Se espera, dormindo espera,Sonha em morte a sua vida,E orna-lhe a fronte esquecida,Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,Sem saber que intuito tem,Rompe o caminho fadado,Ele dela é ignorado,Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o DestinoEla dormindo encantada,Ele buscando-a sem tinoPelo processo divinoQue faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuroTudo pela estrada fora,E falso, ele vem seguro,E vencendo estrada e muro,Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,À cabeça, em maresia,Ergue a mão, e encontra hera,E vê que ele mesmo eraA Princesa que dormia.

(F. Pessoa)

Eros e Psique

1. Qual o sentido do poema?

Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braçosE chama-me teu filho... eu sou um reique voluntariamente abandoneiO meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,Em mão viris e calmas entreguei;E meu cetro e coroa - eu os deixeiNa antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,Minhas esporas de um tinir tão fútil,Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,E regressei à noite antiga e calmaComo a paisagem ao morrer do dia.

(F. Pessoa)

LIBERDADE

Ai que prazernão cumprir um dever.Ter um livro para lere não o fazer!Ler é maçada,estudar é nada.O sol doira sem literatura.O rio corre bem ou mal,sem edição original.E a brisa, essa, de tão naturalmente matinalcomo tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.Estudar é uma coisa em que está indistintaA distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.Esperar por D. Sebastião,Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...Mas o melhor do mundo são as crianças,Flores, música, o luar, e o sol que pecaSó quando, em vez de criar, seca.

E mais do que istoÉ Jesus Cristo,Que não sabia nada de finanças,Nem consta que tivesse biblioteca...

F. Pessoa

O que me dói não éO que há no coraçãoMas essas coisas lindasQue nunca existirão...

São as formas sem formaQue passam sem que a dorAs possa conhecerOu as sonhar o amor.

São como se a tristezaFosse árvore e, uma a uma,Caíssem suas folhasEntre o vestígio e a bruma.

(F. Pessoa)

1.Explique como ocorre essa liberdade para o poeta.

  1. Explique a metáfora de rei, reinado que o poeta faz.

  2. O que o poeta abdica?

1. Qual é a dor sentida pelo poeta?

Tenho tanto sentimentoQue é freqüente persuadir-meDe que sou sentimental,Mas reconheço, ao medir-me,Que tudo isso é pensamento,Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,Uma vida que é vividaE outra vida que é pensada,E a única vida que temosÉ essa que é divididaEntre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeiraE qual errada, ninguémNos saberá explicar;E vivemos de maneiraQue a vida que a gente temÉ a que tem que pensar.

(F. Pessoa)

Isto

Dizem que eu finjo ou minto

Tudo o que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação.

Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda.

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé,

Livre do meu enleio.

Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!

(F. Pessoa)

NAVEGAR É PRECISO

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:    

"Navegar é preciso;  viver não é preciso".  

Quero para mim o espírito [d]esta frase,    transformada a forma para a casar como eu sou:  

Viver não é necessário;  o que é necessário é criar.   Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.   Só quero torná-la grande,    ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.  

Só quero torná-la de toda a humanidade;    ainda que para isso tenha de a perder como minha.   Cada vez mais assim penso.  

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue    o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir   para a evolução da humanidade.  

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.  

(F. Pessoa)

Navegar é preciso

  1. Como o poeta pode tornar a sua vida grande?

  1. Compare este poema com o poema autopsicografia.

  2. Quais as duas vidas apresentadas pelo poeta?

  3. O poeta se deixa levar pela emoção ou pela razão?

  1. O que é escrever para o poeta?

  2. Explique o jogo entre razão e emoção.

Mensagem – Fernando Pessoa - ortônimo

II. Os Castellos

Primeiro/Ulisses

O mytho é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mytho brilhante e mudo –

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos creou.

III. As Quinas

Quina/D. Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

III. Os Tempos

Quinto/Nevoeiro

NEM REI nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer –

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerr.

Ninguém sabe que coisa quere.

Ninguém conhece que alma tem.

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que anciã distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Valete, Frates (Valei, irmãos)

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

I. Os symbolos

Primeiro/D. Sebastião

Espere! Cai no areal e na hora adversa

Que Deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa

Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É o que eu me sonhei que eterno dura,

É Esse que regressarei.

O Guardador de Rebanho

(Alberto Caeiro)

I

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr de sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes

Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo dum outeiro,

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Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,

Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que

se diz

E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me vêem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predileta

Onde se sentem, lendo os meus versos.

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer cousa natural —

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.

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1. “Os pensamentos de Alberto Caeiro não passam de sensações”, isso pode ser comprovado no poema? Que palavras justificam a afirmação?

2. Fala-se de um paganismo de Caeiro. Pela leitura do poema, você diria que Caeiro acredita ou não em Deus? Por quê?

Não tenhas nada nas mãos

Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem

Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos

Nada te cairá.

Que trono te querem dar

Que átropos to não tire?

Que louros que não fanem

Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem

Da estatura da sombra

Que serás quando fores

Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,

Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica

E sê rei de ti próprio.

(Ricardo Reis)

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,

E ao beber nem recorda

Que já bebeu na vida,

Para quem tudo é novo

E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,

Ele sabe que a vida

Passa por ele e tanto

Corta à flor como a ele

De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,

Que o seu sabor orgíaco

Apague o gosto às horas,

Como a uma voz chorando

O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranqüilo,

E apenas desejando

Num desejo mal tido

Que a abominável onda

O não molhe tão cedo.

(Ricardo Reis)

Só esta liberdade nos concedem

Os deuses: submetermo-nos

Ao seu domínio por vontade nossa.

Mais vale assim fazermos

Porque só na ilusão da liberdade

A liberdade existe.

Nem outro jeito os deuses, sobre quem

O eterno fado pesa,

Usam para seu calmo e possuído

Convencimento antigo

De que é divina e livre a sua vida.

Nós, imitando os deuses,

Tão pouco livres como eles no Olímpio,

Como quem pela areia

Ergue castelos para encher os olhos,

Ergamos nossa vida

E os deuses saberão agradecer-nos

O sermos tão como eles.

(Ricardo Reis)

  1. O sábio, segundo Ricardo Reis, é uma pessoa que se contenta com o simples e parece ter pouca memória. Por que o poeta o descreve assim? Que consequências boas podem ocorrer com isso?

  1. O poeta diz que “na ilusão da liberdade a liberdade existe” . Explique.

  2. Explique a comparação entre deuses e seres humanos.

1.Por que o poeta aconselha a não ter nada nas mãos?

2. Qual o sentido de ser rei de si próprio?

O Opiário

1. A decadentista ou do opiário

Álvaro de Campos

É antes do ópio que a minh'alma é doente. Sentir a vida convalesce e estiola E eu vou buscar ao ópio que consola Um Oriente ao oriente do Oriente. Esta vida de bordo há-de matar-me. São dias só de febre na cabeça E, por mais que procure até que adoeça,já não encontro a mola pra adaptar-me. Em paradoxo e incompetência astral Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,Onda onde o pundonor é uma descida E os próprios gozos gânglios do meu mal.

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É por um mecanismo de desastres,Uma engrenagem com volantes falsos, Que passo entre visões de cadafalsos Num jardim onde há flores no ar, sem hastes. Vou cambaleando através do lavor Duma vida-interior de renda e laca. Tenho a impressão de ter em casa a faca Com que foi degolado o Precursor. Ando expiando um crime numa mala, Que um avô meu cometeu por requinte.Tenho os nervos na forca, vinte a vinte, E caí no ópio como numa vala.

(Parte 1 de 8)

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