Rizoma Anarquitextura

Rizoma Anarquitextura

(Parte 1 de 8)

Amigos Leitores,

Agora está acionada a máquina de conceitos do Rizoma. Demos a partida com o formato demo no primeiro semestre deste ano, mas só agora, depois de calibradas e recauchutadas no programa do site, que estamos começando a acelerar.

Cheios de combustível e energia incendiária, voltamos à ativa agora, com toda a disposição para avançar na direção do futuro.

É sua primeira vez no site? Estranhou o formato? Não se preocupe, o Rizoma é mesmo diferente, diferente até pra quem já conhecia as versões anteriores. Passamos um longo período de mutação e gestação até chegar nesta versão, que, como tudo neste site, está em permanente transformação. Essa é nossa visão de "work in progress".

Mas vamos esclarecer um pouco as coisas. Por trás de tantos nomes "estranhos" que formam as seções/rizomas do site, está nossa assumida intenção de fazer uma re-engenharia conceitual.

Mas de que se trata uma "re-engenharia conceitual" ? Trata-se sobretudo de reformular conceitos, dar nova luz a palavras que de tão usadas acabam por perder muito de seu sentido original. Dizer "Esquizofonia" em vez de "Música" não é uma simples intenção poética. A poesia não está de maneira alguma excluída, mas o objetivo aqui é muito mais engendrar novos ângulos sobre as coisas tratadas do que se reduzir a uma definição meramente didática. Daí igualmente a variedade caleidoscópica dos textos tratando de um mesmo assunto nas seções/rizomas. Não se reduzir a uma só visão, virar os ângulos de observação, descobrir novas percepções. Fazer pensar.

Novas percepções para um novo tempo? Talvez. Talvez mais ainda novas visões sobre coisas antigas, o que seja. Não vamos esconder aqui um certo

Vai saberComo diziam os situacionistas: "As futuras revoluções deverão

anseio, meio utópico até, de mudar as coisas, as regras do jogo. Impossível? inventar elas mesmas suas próprias linguagens".

Pois é, e já que falamos de jogo, é assim que propomos que você navegue pelo site. Veja as coisas como uma brincadeira, pequenos pontos para você interligar à medida que lê os textos, pois as conexões estão aí para serem feitas. Nós jogamos os dados e pontos nodais, mas é você quem põe a máquina conceitual para funcionar e interligar tudo. Vá em frente! Dê a partida no seu cérebro, pise no acelerador do mouse e boa diversão!

Ricardo Rosas e Marcus Salgado, editores do Rizoma. 28/08/2002

Índice (AN)ARQUITETURA O RETORNO DA COLUNA DURITO - Osfavelados 2001-2002

PÁGINA - 6

A ARQUITETURA SEGUNDO TATI: NATUREZA VERSUS ARTIFÍCIO - Jorge Gorostiza PÁGINA - 8

A CASA DA FLOR (1) - Fernando Freitas Fuão PÁGINA - 14

A CIDADE DO HOMEM NU (1) - Flávio de Carvalho PÁGINA - 19

A POLÍTICA DA ARQUITETURA ISRAELENSE - Nick Rockel PÁGINA - 24

AS CIDADES BRASILEIRAS E O PENSAMENTO NEOLIBERAL - (SUBMISSÃO AO PENSAMENTO ÚNICO: ÚNICA ALTERNATIVA PARA AS CIDADES?) - Reginaldo Luiz Cardoso PÁGINA - 26

ABRIGO/MANIFESTO PARA MORADORES DE RUA - Adriano Carnevale Domingues PÁGINA - 37

ABRIGO/MANIFESTO PARA MORADORES DE RUA - Adriano Carnevale Domingues PÁGINA - 40

ARQUITETURA E PARTICIPAÇÃO (1) - Maurice Lagueux PÁGINA - 41

ARQUITETURA E REALIDADE VIRTUAL - Emanuel Dimas de Melo Pimenta PÁGINA - 4

ARQUITETURA GONZO/ O MEDIA TEDIA TANK NO POSTO DE CONTROLE DE "NEBUCADNEZZAR", NAVE DE ZION (THE MATRIX) 01/02 DELEUZEGUATTARILANDIA03(SEGUNDA ÉPOCA) José Pérez de Lama (Osfavelados)(1)

PÁGINA - 47

A PREMISSA DA ARQUITETURA RECOMBINANTE: 1 Benjamin H. Bratton* PÁGINA - 50

O COTIDIANO SELVAGEM A Arquitetura na Internationalle Situationniste (1) Rita de Cássia L.Velloso

PÁGINA - 65

ARQUITETURA TÁTICA – Uma breve convocatória para uma prática arquitetônica furtiva, horizontal e inclusiva Gustavo Crembil e Pablo Capitanelli PÁGINA - 73

O CIBERESPAÇO E A ARQUITETURA - UMA OBSERVAÇÃO DA FILOSOFIA ARQUITETÔNICA DIGITAL - Jorge Alonso Rodríguez

PÁGINA - 75

DE OUTROS ESPAÇOS - Michel Foucault PÁGINA - 78

E AGORA JOSÉ? - Rodrigo Ciríaco* PÁGINA - 85

PSICHOGEOGRAPHIA BRASILIS – Uma entrevista com a Associação Psicogeográfica de Bauru - Ricardo Rosas

PÁGINA - 8

CORNEL WEST: ARQUITETURA DA EXCLUSÃO - Clodoaldo Teixeira (Editor da Revista Pronto!) PÁGINA - 91

ESTÉTICA DAS FAVELAS (1) - Paola Berenstein Jacques

PÁGINA - 9

Olatz ArrietaPÁGINA - 107
Ricardo GalloPÁGINA - 109

GRUPO FAZ VISISTAS A PRÉDIOS ABANDONADOS DO CENTRO GAUDÍ BAIANO - Karla Monteiro e Gabriella Araújo no@no.com.br

PÁGINA - 1

REBELIÃO (ARQUI)TECNOLÓGICA Helmholtz Watson – f-dpart@hyperreal.org

PÁGINA - 113

A METRÓPOLE COMO MÉDIUM-DE-REFLEXÃO - Willi Bolle PÁGINA - 115

LOTES VAGOS: AÇÃO COLETIVA DE OCUPAÇÃO URBANA EXPERIMENTAL - Louise Ganz* PÁGINA - 128

MORADORES DE RUA - paredes imaginárias, corpo criativo André Teruya Eichemberg PÁGINA - 132

NEM ARQUITETO NEM PEDREIRO Estudantes de arquitetura constroem em barro e palha com acampados do MST - Dayana Andrade e Veridina Ribeira * PÁGINA - 136

NOMADISMO E DESTERRITORIALIZAÇÃO URBANOS: NOVA YORK Fábio Duarte fduarte@usp.br

O MUNDO MUTANTE DOS ARCHIGRAM Pedro Jordão pedrojordao@hotmail.com PÁGINA – 141

O USO POLÍTICO DO ESPAÇO: AS ESTRATÉGIAS ESPACIAIS INSCRITAS NOS CONFLITOS SOCIAIS DA AMÉRICA LATINA (1) Coletivo LEMTO – UFF - Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades (2) PÁGINA – 145

PLANETA PRÓXIMO – Anônimo PÁGINA – 152

Manoel Del Rio - MSTC(dezembro, 2000) PÁGINA – 157

RÉQUIEM PARA AS TWIN TOWERS - Jean Baudrillard PÁGINA – 160

CAMINHADA NO PARQUE? LEVE O PARQUE COM VOCÊ Jennifer Taplin PÁGINA – 164

RUÍNAS – A fotografia como fragmento da arquitetura (1) Fernando Freitas Fuão PÁGINA – 166

PROGRAMA ELEMENTAR DA AGÊNCIA DE URBANISMO UNITÁRIO Attila Kotanyi & Raoul Vaneigem PÁGINA – 172

UTOPIA NO CANTEIRO - José Lima PÁGINA – 175

VAGABUNDOS - Leonel Moura PÁGINA – 179

CÃO BRAVO - DESPINDO O ESPAÇO EM DOGVILLE (1) - Fábio Allon dos Santos

(AN)ARQUITETURA O RETORNO DA COLUNA DURITO Osfavelados 2001-2002

Os tempos mudaram e, como disseram autores como Rem Koolhaas, Edward Soja e Néstor García Canclini, entre outros, necessitamos de novas palavras para novas realidades, e novas ferramentas para operar dentro delas. Aqui estão algumas propostas para novos conceitos relacionados à arquitetura e ao urbanismo (Do vídeo: Propuestas para un debate sobre el urbanismo anarquista. El retorno de la Columna Durito, 2001).

O termo anarquitetura foi proposto por Gordon Matta-Clark nos anos 60.

1/ Urbanismo Anarquista (baseado em Sam Blower): Prática de urbanistas anarquistas. O urbanismo anarquista se põe a serviço daquelas pessoas e comunidades que não são regularmente levadas em conta no processo de decisão relacionado à construção das cidades e da arquitetura que estas mesmas pessoas e comunidades terão de habitar. Frequentemente, o urbanismo anarquista é gerido pela auto-construção. Em outras situações, ele consiste na apropriação/transformação de espaços produzidos por outros agentes e com outras finalidades, como especulação econômica, dominação ou o espetáculo.

2/ Urbanismo insurrecional: O urbanismo que desenvolve princípios opostos ou inversos ao urbanismo hegemônico e homogeneizante praticado pelos urbanistas do neo-liberalismo como Disney, Koolhaas, ou a cidade de Los Angeles, que poderia também ser definido conforme Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo (o que ele denominou como urbanismo da separação).

3/ Arquitetura zapatista (proposta para uma definição para o século XXI): A transformação dos espaços, permanente ou efêmera, que favoreça ou promova a emancipação individual ou comunal de seus habitantes; incluídas aquelas transformações espaciais que favoreçam o aparecimento de revoluções - hoje preferencialmente revoluções que se oponham à globalização capitalista e se inspirem no pensamento anarquista.

2ª definição (deturnando Raoul Vaneigem): Arquitetura zapatista é a construção de situações que tenham o potencial de produzir momentos radicais de poesia que mudem a vida e transformem o mundo. A criatividade, igualmente repartida por todos os indivíduos só se expressa direta e espontaneamente no calor de alguns momentos privilegiados. Não seria justo situar estes estados pré-revolucionários, que irradiam poesia que muda a vida e transforma o mundo, sob o signo desta graça moderna, a arquitetura zapatista? Um gesto, uma atitude, uma palavra por vezes, demonstra a presença inegável da possiblidade aberta à poesia, ou seja, à construção total da vida cotidiana, à inversão total da perspectiva, à revolução. A arquitetura zapatista se propõe, em resumo, a uma condensação, uma comunicação direta do essencial.

4/ Hackitetura: De hacking e arquitetura: O uso, de uma forma imprevista e subversiva de espaços, elementos e sistemas urbanos e/ou arquitetônicos. O termo foi influenciado por um outro novo conceito: hacktivismo, que descreve o mix de net art, ciência da computação e ativismo durante os últimos anos do século X.

úmidas, divisões, revestimentos, mobiliário, manutenção,A arquitetura

5/ Arquitetura ciborgue: A prática arquitetônica que aplica as idéias sobre identidade ciborgue propostas por Donna Haraway. Estaria composta por sistemas e elementos compatíveis integrados em uma organização de rede e componentes, semelhante à dos componentes, semelhante à dos computadores. Os componentes ciborgues são sucetíveis de ser desenhados, produzidos, instalados e substituídos autônomamente: estrutura, energia, instalações, sistemas de informação, fachadas, zonas ciborgue substitui o arquiteto no topo da pirâmide de produção por um conjunto de equipes organizadas em rede (ver Pérez de Lama/2001).

6/ Arquitetura gonzo (segundo Pablo de Soto): A prática arquitetônica resultante da aplicação dos princípios do jornalismo gonzo à arquitetura. Em sua forma seminal é uma mistura de situacionismo e cyberpunk (Ver Pérez de Lama/2002).

Sam Blower / 199/ Mini manual of the anarchic urbanist /Sci-arc public

Bibliografia access press / Los Angeles

Guy Debord / 1996 [ed. orig. 196...] / La Sociedad del Espectáculo / Pretextos / Valencia

Donna Haraway / 1991 / A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century, in: Simians, Cyborgs, and Women. The reinvention of nature / Routledge / New York

Pérez de Lama/ 2002/ Arquitectura Gonzo / http://home.earthlink.net/~osfavela2002/dglandia_2002/dglandia02_03.html

Pasajes/ Madrid

Pérez de Lama / 1999 / La anarquitectura de los Merry Pranksters / en:

Pérez de Lama / 2001 / El arquitecto cyborg / en: Boletín FIDAS núm. 29 / Sevilla

Raoul Vaneigem / 199[ed. orig. 1968] / Tratado del saber vivir para uso de

las nuevas generaciones / Anagrama / Barcelona

Tradução de Ricardo Rosas Fonte : Osfavelados (home.earthlink.net/%7Eosfavela2002/).

A ARQUITETURA SEGUNDO TATI: NATUREZA VERSUS ARTIFÍCIO Jorge Gorostiza

“São de plástico. Nunca murcham”, diz um convidado a Mme. Arpel em Meu Tio, enquanto lhe dá um ramo de flores. “Na verdade tem um cheiro forte de borracha”, responde ela.

No stand de As Aventuras de M. Hulot no Tráfego Louco (Traffic), dentro da tecnológica nave do Palácio de Exposições, há algumas árvores de papelão e uma gravação do canto de um pássaro, mostrados em seqüências alternadas com a moradia de campo de Hulot.

A interpretação do mundo que Tati faz está baseada nas contradições entre o natural e o artificial, entre a natureza e o artifício. Optando pelo naturaltradicional frente ao artificial-moderno, ao opô-los continuamente para tentar demonstrar as virtudes de um sobre o outro.

Esta mesma oposição é produzida nas edificações que aparecem em seus filmes. Sem dúvida, quando neles se pensa, a primeira coisa que se recorda é sua sátira da arquitetura moderna como âmbito onde se manifestam comportamentos ridículos. A arquitetura adquire assim importância por que o diretor a converte em indutora de um modo de vida que é objeto de sua crítica, e, para fazer esta crítica, deve mostrar, descrever, os edifícios que seus personagens estão imersos.

Criar um edifício, um objeto arquitetônico, é criar um espaço. As relações entre o Cinema e a Arquitetura devem se centrar fundamentalmente nas que existem entre os espaços cinematográfico e arquitetônico (1).

No cinema há dois modos de mostrar o espaço e ambos estão associados ao movimento. Um é movendo a câmera de forma que o espectador vá percorrendo-o. O outro é mantendo a câmera fixa e fazendo que os personagens se movem dando sensação de profundidade. Tati utiliza este último, mantém a câmera imóvel usando planos gerais, elege o ponto de vista fixo, mais natural, em vez dos movimentos da câmera, talvez mais cinematográficos, mas também mais “artificiais”.

A oposição entre natural-tradicional e artificial-moderno produz dois tipos de edifícios, relacionados com os dois tipos diferentes de vida que coexistem em alguns filmes, nos quais a moderna vai se introduzindo (2) paulatinamente.

Os dois tipos de edifìcios se opõem formalmente, desse modo as edificações da arquitetura tradicional estão construídas com materiais naturais – a madeira no hotel de As Férias do Sr. Hulot ou no escritório de Traffic, a pedra da casa de Hulot em Meu Tio -, têm cores quentes – marrons, ocres...-, há uma desordem compositiva e uma acumulação de elementos, foram construídas por agregação sem uma planificação prévia – como o povoado de Carrossel da Esperança (Jour de Fête). Por todas elas predominam as linhas curvas em relação às retas.

A forma dos edifícios modernos é para Tati oposta à anterior e igual em todo o mundo – em alguns cartazes de Estocolmo, México, Londres, Havaí e EUA de Tempo de Diversão (Playtime) parece o mesmo arranha-céus que numa rua de Paris -. São construídos com materiais duros, artificiais: vidro, concreto, metal...- os de Playtime ou o Palácio de Exposições de Traffic - , têm cores frias – azuis, brancos...- há uma ordem compositiva e os espaços estão nus, vazios, sem elementos, dando lugar a sons agudos e metálicos (3). O resultado formal é o predomínio das linhas geométricas, preferentemente retas, em relação às curvas naturais.

As qualidades de ambos os tipos de edificação são os paradigmas da construção tradicional-irracional, em relação à moderna-racional. Tati sabe eleger aqueles elementos mais significativos e opostos, mais reconhecíveis pelo público, das duas arquiteturas.

Algo que faz não apenas com a forma, mas também com a função, como disse em uma entrevista (4): “A sátira não é feita sobre os lugares, mas sobre sua utilização. As pessoas se crêem ‘esmagadas’ pelos grandes edifícios. Mas se soubessem observar, se dariam conta que a vida ali é igual a qualquer lugar”.

Entre as funções, Tati destaca as circulações – outra vez o movimento -, as trajetórias a que são obrigados os usuários dos edifícios por sua forma, demonstrando que a função e a forma estão intimamente unidas.

O diretor, falando de Playtime, explicava: “Há pessoas presas na arquitetura moderna por que os arquitetos os obrigam a circular de uma maneira determinada, sempre em linha reta”. Para obter esta sensação artificial de movimento mecânico, pediu aos atores que seguissem “linhas retas, nunca circunferências nem semi-circunferências, mas que todo mundo tinha que seguir as linhas da arquitetura moderna”. Porque para o diretor tudo estava construído sempre com “ângulos retos nesses escritórios-labirinto com seus compartimentos; o arquiteto decidiu assim e todo mundo continua indo e vindo assim”. Tati critica os arquitetos modernos, opondo novamente a arquitetura tradicional, anônima, à projetada por profissionais da arquitetura, uma profissão moderna desenvolvida em nosso século.

(Parte 1 de 8)

Comentários