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3 - Descrição objetiva e descrição subjetiva: visão comparativa e conceito de

predominância

Enquanto a descrição objetiva pressupõe uma postura de distanciamento emocional

do sujeito em relação ao objeto, o que lhe possibilita apreendê-lo através de um tipo de

percepção mais exata, dimensional, a descrição subjetiva pressupõe uma postura de pro-ximidade.

Essa postura, por sua vez, implica que o sujeito descreve o objeto através de um

tipo de percepção menos precisa e mais contaminada por suas emoções e opiniões.

É necessário colocar aqui uma observação fundamental para que se compreenda bem

em que consistem ambos os tipos de descrição e, mais do que isso, qual a funcionalidade da

distinção tendo em vista a produção desse tipo de texto.

Na verdade, não existem textos totalmente objetivos ou totalmente subjetivos, já que as

noções de sujeito e objeto são interdependentes: é impossível imaginar tanto um objeto que

independe do sujeito quanto um sujeito que independe do objeto; no limite, o primeiro caso

corresponderia a pensar o mundo (objeto) sem o homem, e o segundo a pensar o homem

(sujeito) sem o mundo.

Portanto, todo texto objetivo pressupõe uma presença, ainda que imperceptível, de

subjetividade, e reciprocamente todo texto subjetivo pressupõe um mínimo de objetividade.

Podemos então usar o conceito de predominância para distingui-los, colocando de um

lado, o lado da predominância da objetividade, os textos técnicos e científicos, e de outro,

o lado da predominância da subjetividade, os textos literários.

Vejamos duas opiniões interessantes sobre o assunto:

"A descrição técnica apresenta, é claro, muitas das características gerais da literária,

porém, nela se sublinha mais a precisão do vocabulário, a exatidão dos pormenores e a sobrieda-de

da linguagem do que a elegância e os requisitos da expressividade lingüística. A descrição

técnica deve esclarecer, convencendo; a literária deve impressionar, agradando. Uma traduz-se

em objetividade; a outra sobrecarrega-se de tons afetivos. Uma é predominantemente denotativa;

a outra, predominantemente conotativa".

(Othon M. Garcia - Cormunicação em Prosa Moderna - Rio de Janeiro. Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996)

"A redação técnica é necessariamente objetiva quanto ao seu ponto de vista, mas uma

objetividade completamente desapaixonada torna o trabalho de leitura penoso e enfadonho por

levar o autor a apresentar os fatos em linguagem descolorida, sem a marca da sua

personalidade. Opiniões pessoais, experiência pessoal, crenças, filosofias de vida e deduções

são necessariamente subjetivas, não obstante constituem parte integrante de qualquer redação

técnica meritória".

(Margaret Norgaard - citada por Othon M. Garcia - Comunicação em Prosa Moderna - Rio de Janeiro. Editora da

Fundação Getúlio Vargas, 1996)

Visualizando ambas as opiniões e acrescentando-lhes outros elementos, podemos criar o

seguinte esquema:

Descrição

objetiva

ênfase na impressão despertada pelo objeto como tal

principais características: precisão do vocabulário, exatidão dos pormenores

e sobriedade da linguagem, predominantemente denotativa

objetivo: deve esclarecer, convencendo

ponto de vista: predominantemente objetivo

Exemplo: descrição técnica

Descrição

subbjetiva

ênfase na expressão que a alma empresta ao objeto

principais características: elegância e presença dos requisitos da

expressividade lingüística - tons afetivos, polissemia, linguagem

predominantemente conotatìva

A VISAO, A AUDICAO, O PALADAR, O TATO E O OLFATO – CONSTITUEM O ALICERCE DA DESCRICAO

Leitura Comentada: Um Texto Narrativo

Caso de Secretária

Foi trombudo para o escritório. Era dia de seu aniversário, e a esposa nem sequer o abraçara, não

fizera a mínima alusão à data. As crianças também tinham se esquecido. Então era assim que a família o

tratava? Ele que vivia para os seus, que se arrebentava de trabalhar, não merecer um beijo, uma palavra ao

menos!

Mas, no escritório, havia flores à sua espera, sobre a mesa. Havia o sorriso e o abraço da

secretária, que poderia muito bem ter ignorado o aniversário, e entretanto o lembrara. Era mais do que

uma auxiliar, atenta, experimentada e eficiente, pé-de-boi da firma, como até então a considerara; era um

coração amigo.

Passada a surpresa, sentiu-se ainda mais borocochô: o carinho da secretária não curava, abria

mais a ferida. Pois então uma estranha se lembrava dele com tais requintes, e a mulher e os filhos, nada?

Baixou a cabeça, ficou rodando o lápis entre os dedos, sem gosto para viver.

Durante o dia, a secretária redobrou de atenções. Parecia querer consolá-lo, como se medisse

toda a sua solidão moral, o seu abandono. Sorria, tinha palavras amáveis, e o ditado da correspondência

foi entremeado de suaves brincadeiras da pane dela.

‘O senhor vai comemorar em casa ou numa boate?'

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