(Parte 1 de 7)

1 o NÚCLEO - DESCRIÇÃO

1 - Definição: o que é descrever

Descrever é representar com palavras um objeto - uma coisa, uma pessoa, uma

paisagem, uma cena, ou mesmo um estado, um sentimento, uma experiência etc -fundamentalmente

por meio de nossa percepção sensorial, nossos cinco sentidos: visão, tato,

audição, olfato e paladar.

No texto descritivo, o sujeito cria uma imagem verbal do objeto - entenda-se a palavra

no sentido mais amplo possível -, dando suas características predominantes, apresentando os

traços que o singularizam, de acordo com o objetivo e o ponto de vista que possui ao realizar o

texto.

Leitura Comentada: Um Texto Descritivo

Ela possuía a dignidade do silêncio. Seu porte altivo era todo contido e movia-se pouco. Quando

o fazia, era como se estivesse procurando uma direção a seguir; então, encaminhava-se diretamente, sem

desvios, ao seu objetivo.

O cabelo era louro-dourado, muito fino e sedoso, as orelhas pequenas. Os olhos tinham o brilho

baço dos místicos. Pareciam perscrutar todos os mistérios da vida: profundos, serenos, fixavam-se nas

pessoas como se fossem os olhos da consciência, e ninguém os agüentava por muito tempo, tal a sua

intensidade. O olho esquerdo tinha uma expressão de inquietante expectativa.

Os lábios, de rebordos bem definidos, eram perfeitos e em harmonia com o contorno do rosto, de

maçãs ligeiramente salientes. O nariz, quase imperceptível na serenidade meditativa do conjunto. Mas

possuía narinas que se dilatavam nos raros momentos de "cólera sagrada", como costumava definir suas

zangas.

A voz soava grave e profunda. Quando irritada, emergia rascante, em estranha autoridade, dotada

de algo que infundia respeito. Tinha um pequeno defeito de dicção: arrastava nos erres por causa da

língua presa.

A mão esquerda era um milagre de elegância. Muito móvel, evolucionava no ar ou contornava os

objetos com prazer. No trabalho, ágil e decidida, parecia procurar suprir as deficiências da outra dura,

com gestos mal controlados, de dedos queimados, retorcidos, com profundas cicatrizes.

Cumprimentava às vezes com a mão esquerda. Talvez por pudor, receosa de constranger as

pessoas, dirigia-se a elas com economia de gestos. Alguns de seus manuscritos eram quase ilegíveis.

Assinava com bastante dificuldade, mas utilizava ambas as mãos para datilografar.

Era profundamente feminina, exigia e se exigia boas maneiras. Bem cuidada no vestir, vaidosa,

mas sem sofisticação.

Nunca saía sem estar maquilada e trajada às vezes com algum requinte: turbante, xale, vários

colares e grandes brincos. O branco, o preto e o vermelho eram uma constante em seu guarda-roupa.

O batom geralmente era de tom rubro forte; o rímel negro, colocado com sutileza, aumentava a

obliqüidade e fazia ressaltar o verde marítimo dos olhos. Indiscutivelmente era mulher interessante, de

traços nobres e, talvez, inatingível.

Quanto à afetividade, acreditava que, quando um homem e uma mulher se encontram num amor

verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importando brigas e desentendimentos.

Ambicionava viver numa voragem de felicidade, como se fosse sonho. Teimosa, acreditava,

porém, na vida de todos os dias. Defini-la é difícil. Contra a noção de mito, de intelectual, coloco aqui a

minha visão dela: era uma dona-de-casa que escrevia romances e contos.

Dois atributos imediatamente visíveis: integridade e intensidade. Uma intensidade que fluía dela

e para ela refluía. Procurava ansiosamente, lá, onde o ser se relaciona com o absoluto, o seu centro de

força - e essa convergência a consumia e fazia sofrer. Sempre tentou de alguma maneira solidarizar-se e

compreender o sofrimento do outro, coisa que acontecia na medida da necessidade de quem a recebia. O

problema social a angustiava.

Sabia o quanto doíam as coisas e o quanto custava a solidão.

São muitos os "mistérios" que aos olhos de alguns a transformaram em mito. Simplesmente,

porém, em Clarice não aparecia qualquer mistério. Ela descobria intuitivamente o mistério da vida e do

ser humano; em compensação, era capaz de dissimular o seu próprio mistério.

(Olga Boreli - Clarice Lispector, Esboço para um possível retrato - texto adaptado - Rio de Janeiro, Nova Fronteira,

1981)

Comentários

Vejamos, comentando o texto apresentado, algumas características fundamentais do

texto descritivo:

a) Descrição: Objetivo e Ponto de vista

Repare que o objetivo da autora, no texto lido, é traçar um perfil físico e psicológico de

Clarice Lispector, grande escritora da literatura brasileira, de quem foi amiga.

O seu ponto de vista ao realizar a descrição pressupõe, portanto, proximidade com o

objeto descrito, o que percebemos pela qrande quantidade de detalhes reveladores de

convivência íntima, presentes no texto.

Além disso, a imagem de Clarice que Olga Boreli pretende transmitir ao leitor está

explicitada na seguinte passagem do texto: Defini-la é difícil. Contra a noção de mito, de

intelectual, coloco aqui a minha visão dela: era uma dona-de-casa que escrevia romances e

contos.

Perceba que para recriar descritivamente esta imagem, ou seja, para colocar a sua

visão, o seu ponto de vista a respeito da escritora, a autora ora se detém em características

físicas, ora em características psicológicas, e mais comumente mescla ambos os tipos de

(Parte 1 de 7)

Comentários