A condição de saúde de idosas residentes em instituição de longa permanência

A condição de saúde de idosas residentes em instituição de longa permanência

(Parte 1 de 3)

Maria Helena Lenardt¹, Tatiane Michel², Ana Elisa Casara Tallmann³

RESUMO: O estudo teve como objetivo revelar as características multidimensionais das condições de saúde da população idosa feminina residente em instituição de longa permanência no município de Curitiba/PR. Trata-se de pesquisa quantitativa transversal descritiva, realizada em uma instituição de longa permanência, junto a 20 idosas residentes, no período de abril a julho de 2008. Os dados foram coletados mediante aplicação do questionário Brazil Old Age Schedule (BOAS) e registros dos prontuários, e organizados por estatística descritiva e distribuição de frequência. A média de idade das idosas foi de 79,82 (±8,23) anos. As doenças crônicas mais frequentes foram: HAS (n=17;85%), dislipidemias (n=7;35%), depressão (n=7;35%), deficiência visual (n=6;30%), diabetes (n=5;25%), varizes (n=5;25%) e artrose (n=5;25%). A média de medicamentos utilizados foi de 6,05. Observou-se elevada prevalência de doenças crônicas e consumo de medicamentos na população estudada. A identificação de potencialidades e necessidades guia o planejamento e execução da assistência gerontológica. PALAVRAS-CHAVE: Idoso; Instituição de longa permanência para idosos; Assistência a idosos; Doença crônica.

ABSTRACT: The survey had the objective to reveal the multi-dimensional properties of the female aged residents’ health conditions on a long term care institution in Curitiba/PR. It is a quantitative transversal descriptive research, developed on a long term care institution, with 20 aged residents, from April to July 2008. Data were collectied through the questionnaire Brazil OldAge Schedule (BOAS) and the registries from the medical records and organized using descriptive statistics and distribution of frequency. The elderly’s mean age was of 79,82 (±8,23) years. The most frequent illnesses: SAH (n=17;85%) dislipidemias (n=7;35%), depression (n=7;35%), visual deficiency (n=6;30%), diabetes (n=5;25%), varices (n=5;25%) and arthritis (n=5;25%). The mean of medicines used was of 6,05. It was observed a high prevalence of chronic diseases and medicines consumption on the population studied. The identification of the potentials and necessities guide the planning and execution of the gerontological assistance. KEYWORDS: Homes for the aged; Aged; Old age assistance; Chronic disease.

RESUMEN: El estudio tuvo como objetivo revelar las características multidimensionales de las condiciones de salud de la población anciana femenina residente en institución de larga permanencia en el municipio de Curitiba/PR. Se trata de una investigación cuantitativa transversal descriptiva, realizada en una institución de larga permanencia, junto a 20 ancianas residentes, en el periodo de abril a julio de 2008. Los datos fueron recolectados por medio de aplicación de un cuestionario Brazil OldAge Schedule (BOAS) y registros de los prontuarios, y organizados por estadística descriptiva y distribución de frecuencia. El promedio de edad de las mujeres mayores fue 79,82 (±8,23) años. Las enfermedades crónicas más frecuentes fueron: HAS presión arterial alta (n=17;85%), dislipidemias (n=7;35%), depresión (n=7;35%), deficiencia visual (n=6;30%), diabetes (n=5;25%), várices (n=5;25%) y artrosis (n=5;25%). El promedio de remedios usados fue 6,05. Se observó elevada prevalencia de enfermedades crónicas y consumo de remedios en la población estudiada. La identificación de potencialidades y necesidades guía la planificación y ejecución de la asistencia gerontológica. PALABRAS CLAVE: Anciano; Institución de larga permanencia para ancianos; Asistencia a ancianos; Enfermedad crónica.

¹Doutora. Professora Sênior do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Paraná-UFPR. Líder do Grupo Multiprofissional de Pesquisa sobre Idosos-GMPI/UFPR. ²Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFPR. Bolsista PROF/CAPES. Membro do GMPI/UFPR. ³Professora do curso de Graduação em Enfermagem das Faculdades Integradas do Brasil-Unibrasil. Membro do GMPI/UFPR.

Autor correspondente: Tatiane Michel

Rua XV de Novembro, 1500 - 80060-0 - Curitiba-PRE-mail: tatiane.michel@uol.com.brRecebido: 12/05/09 Aprovado: 28/06/09

Cogitare Enferm 2009 Abr/Jun; 14(2):227-36

A progressão das doenças crônicas ocasiona amplas repercussões na vida das pessoas idosas afetadas. Muitas vezes elas são múltiplas e quando não são adequadamente acompanhadas ocasionam dificuldades na realização das atividades de vida diária e nas relações sociais. A atuação do profissional enfermeiro pode contribuir para prevenir ou retardar o aparecimento de condições incapacitantes(1).

As prevalências de doenças crônicas e de incapacidade aumentam com a idade, em ambos os sexos. Dos 28.943 idosos participantes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios-PNAD/98, observou-se que 69% possuem pelo menos uma doença crônica, 43,9% hipertensão arterial, 37,5% artrite e o gasto mensal com medicamentos compromete um quarto da renda de metade da população brasileira(2).

As mulheres tendem a viver mais, sendo sua expectativa de vida aos 60 anos de idade, em média, de 19,3 anos, enquanto que para os homens é de 16,8 anos. A ocorrência de deficiências físicas e mentais é maior entre elas, muitas moram sozinhas em decorrência da viuvez, têm menor nível de escolaridade e menor acesso a aposentadoria(3). Os aspectos sociais, somados aos longos períodos de doenças crônicas e a solidão tornam as mulheres idosas mais suscetíveis à incapacidade e à utilização dos serviços de saúde.

O processo de envelhecimento associado à presença de doenças crônicas aumenta a necessidade de apoio social e profissional. Das 251 instituições de longa permanência existentes no Estado do Paraná, aproximadamente 40% delas abrigam somente idosos independentes, enquanto que 25% abrigam semidependentes e 35% idosos dependentes para a realização das atividades de vida diária(4).

Para as instituições que abrigam idosos é imprescindível que tenham disponíveis os registros atualizados sobre as condições de saúde, bem como sobre os graus de dependência funcional e as deficiências físicas e cognitivas. Esses registros contribuem para a monitoração de alterações sobre o estado inicial, avaliação da eficácia terapêutica, identificação de potencialidades, riscos e demandas de cuidados e guiam o planejamento da assistência gerontológica multiprofissional.

As condições de saúde da população idosa podem ser determinadas a partir de seus perfis de morbidade e mortalidade, da presença de déficits físicos e cognitivos, da utilização de serviços de saúde, além de outros indicadores mais específicos, como a percepção da própria saúde(2). A capacidade funcional é um componente chave na avaliação da saúde do idoso, pois influencia diretamente sua autonomia, independência, bem-estar e sua manutenção na comunidade(5).

De acordo com a Organização Mundial de

Saúde(1), quando os fatores de risco comportamentais e ambientais de doenças crônicas e de declínio funcional são mantidos baixos, as pessoas permanecem sadias e capazes de cuidar de sua própria vida à medida que envelhecem. A saúde, participação e segurança constituem-se nos três pilares da estrutura política para o envelhecimento ativo.

As descrições situacionais trazem subsídios fundamentais para qualquer modalidade de ação junto à população idosa. A identificação das características e agravos à saúde gera contribuições significativas para o planejamento e execução de um cuidado digno, voltado às necessidades e especificidades das idosas residentes em instituição de longa permanência.

O objetivo deste estudo foi revelar as características multidimensionais das condições de saúde da população idosa feminina residente em instituição de longa permanência no município de Curitiba-PR.

Trata-se de pesquisa de caráter quantitativo com delineamento transversal classificada como descritiva. O estudo foi realizado em uma instituição de longa permanência de caráter privado e filantrópico onde residem 153 mulheres, no período de abril a julho de 2008.

A instituição possui uma equipe multiprofissional composta por enfermeiros, médicos, administradores, assistente social, fisioterapeuta, nutricionista, terapeuta ocupacional, musicoterapeuta, odontólogo, farmacêutica, psicóloga, auxiliares de enfermagem, cuidadores de idosos e funcionários para a realização dos demais serviços como a limpeza, lavanderia, manutenção, cozinha, recepção, vigia, porteiro, motorista, marketing, publicidade, contabilidade e advocacia. De acordo com a definição da RDC n. 283(6), cuidadores de idosos são “as pessoas capacitadas para auxiliar o idoso que apresenta limitações para realizar atividades da vida diária”. A amostra do estudo foi selecionada segundo

Cogitare Enferm 2009 Abr/Jun; 14(2):227-36 os seguintes critérios de inclusão: possuir idade igual ou superior a 65 anos, completos até o dia do início da coleta de dados; residir na ILPI há pelo menos três meses; ser física e cognitivamente capaz de responder aos questionamentos do miniexame do estado mental- MEEM; obter pontuação no MEEM acima dos pontos de corte propostos por Bertolucci e colaboradores de 13 pontos para analfabetas, 18 pontos para aquelas com escolaridade baixa e média e 26 pontos para aquelas com escolaridade alta(7); preencher e assinar o termo de consentimento livre e esclarecido-TCLE.

A Organização Mundial de Saúde(1) demarca o início da velhice como sendo as pessoas com 65 anos de idade nos países desenvolvidos e 60 anos de idade para os países em desenvolvimento. Considerou-se pessoa idosa para este estudo aquela com idade igual ou maior de 65 anos a fim de facilitar os critérios de comparação às pesquisas realizadas em outros países.

Os critérios de exclusão foram: expressarem voluntariamente, a qualquer momento, o desejo de interromperem sua participação no estudo; apresentarem expectativa de vida inferior a seis meses, devido a doenças terminais devidamente diagnosticadas e documentadas; idosas que durante o período de pesquisa forem transferidas para outra ILPI ou hospital.

O processo de determinação da amostra teve início com a revisão dos prontuários a fim de selecionar as idosas aptas a participar do estudo por meio dos critérios de inclusão e exclusão. Neste item foram excluídas 46 idosas no critério etário, 2 pelo tempo de institucionalização e 17 com surdez, afasia ou retardo mental documentados nos prontuários.

A partir de observação e diálogo com as idosas foram identificadas aquelas com capacidade de manter diálogo, o que é necessário para a aplicação do miniexame do estado mental-MEEM. Nessa etapa, as idosas com demência em estágio avançado ou comprometimento cognitivo acentuado devido a doenças neurológicas ou psiquiátricas foram excluídas. Por tratarse de idosas residentes em instituição de longa permanência, é grande a prevalência desses transtornos físicos e cognitivos graves, restringindo o tamanho da amostra para o screening cognitivo a 34 idosas.

As 34 idosas selecionadas foram convidadas a realizar o MEEM. Utilizou-se nesse estudo o miniexame do estado mental proposto por Folstein em 1975(8) e adaptado por Brucki e colaboradores(9) e a partir dos escores obtidos e pontos de corte segundo a escolaridade foram selecionadas 20 idosas cognitivamente aptas a responder o questionário multidimensional de saúde.

A coleta dos dados primários constou de entrevistas junto às idosas com intuito de identificar a condição de saúde delas por meio de questionário multidimensional Brazil Old Age Schedule-BOAS, adaptado pelos membros do grupo multiprofissional de pesquisa sobre idosos-GMPI. As informações sobre a idade, tempo de institucionalização, doenças crônicas e medicamentos em uso foram obtidas mediante a utilização de formulário elaborado para a coleta dos registros dos prontuários.

O questionário BOAS(10) é composto por 9 seções, num total de 113 questões, abordando a saúde física, utilização de serviços de saúde, atividades de vida diária, recursos sociais e econômicos, saúde mental, necessidades e problemas que afetam as pessoas idosas. Este questionário foi adaptado para as especificidades da população residente em instituição de longa permanência. Algumas atividades, como cozinhar o próprio alimento, atender ao telefone e lavar suas roupas não fazem parte das atividades rotineiras executadas por esses idosos, a maioria deles não tem sequer contato com o telefone, recebe suas refeições prontas sempre no mesmo horário, e a roupa é lavada por funcionários da instituição.

Os dados coletados foram organizados por estatística descritiva e distribuição de freqüência empregando-se o programa Epi Info versão 6.01. Os resultados obtidos foram apresentados sob a forma de tabelas e gráficos e discutidos na linguagem descritiva.

As questões éticas deste estudo foram alicerçadas na Resolução n. 196/96 do Ministério da Saúde. O projeto de pesquisa foi aprovado em 06 de março de 2008 pelo Comitê de Ética do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná por meio de parecer consubstanciado sob o nº 475.012.08.02. As participantes foram consultadas e esclarecidas quanto à sua participação na pesquisa, sendo resguardado a qualquer momento o direito de desistir. A instituição foi comunicada quanto à viabilidade do estudo e do compromisso de manter o anonimato e autorizou a realização do estudo em suas dependências.

Na Tabela 1, visualizam-se os resultados sobre a idade, tempo de institucionalização, escolaridade, presença de tabagismo e etilismo e a situação econômica atual em comparação a quando tinha 50 anos de idade.

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Tabela 1 - Distribuição da amostra de idosas residentes em instituição de longa permanência segundo as características sócio-demográficas, Curitiba-PR, 2008

A idade média das idosas foi de 79,82 (± 8,23) anos. A metade das idosas entrevistadas (n=10; 50%) possui 80 anos ou mais, 7 (35%) possuem entre 70 a 79 e 3 (15%) entre 65 a 69 anos. Quanto ao tempo de institucionalização, 7 idosas (35%) residem de 1 a 5 anos, 3 delas (15%) entre 6 a 1, enquanto que as outras 10 (50%) residem entre 20 até 5 anos.

Das idosas entrevistadas, a metade delas não sabe ler e escrever (n=10; 50%), e as outras 10 idosas (50%) são alfabetizadas; 10 idosas (50%) nunca frequentaram a escola, 4 (20%) possuem ensino primário incompleto, 3 (15%) ensino primário, 1 (5%) primeiro grau, 1 (5%) segundo grau e 1 (5%) com curso superior. Sobre a atual situação econômica em comparação a quando tinha 50 anos de idade, na Tabela 1 mostra-se que para 13 idosas (65%) está melhor, 4 (20%) acham que está a mesma coisa e para 3 (15%) está pior. Foram identificados nove tipos diferentes de trabalho que as idosas tiveram durante a maior parte de suas vidas: 7 delas (35%) eram donas de casa, 3 (15%) eram empregadas domésticas, 3 (15%) trabalharam em sítio (na roça), 2 (10%) faziam artesanato, 1 (5%) era auxiliar de cozinha, 1 (5%) cuidou de doentes no asilo, 1 (5%) estudava, 1 (5%) era professora de dança e 1 (5%) trabalhou na saúde pública.

As mulheres possuem tradicionalmente o papel de donas de casa e a responsabilidade dos cuidados com a família, em detrimento de trabalho remunerado. O atual envelhecimento populacional vem acompanhado de mudanças nas estruturas e papéis da família e nos padrões de trabalho, em que mais mulheres têm se tornado força de trabalho formal(1). Esses resultados sugerem que a população idosa feminina residente na instituição é, em grande parte, de idade avançada (acima de 80 anos) e analfabeta ou com baixa escolaridade. A presença de características como a pobreza, baixa escolaridade e a presença de múltiplas deficiências e doenças crônicas entre a população idosa feminina, principalmente naquelas com idades mais avançadas, as tornam frágeis e sujeitas à institucionalização(1).

A maioria das idosas (n=13; 65%) referiu que nunca fumou e 7 (35%) afirmaram que fumam ou já fumaram. Dessas 7, 3 delas pararam de fumar de 8 a 10 anos, e 4 ainda fazem uso de cigarro. 13 (65%) nunca ingeriram bebida alcoólica e 7 (35%) ingerem socialmente (de vez em quando). Apenas uma idosa referiu que ingeria diariamente em uma fase de sua vida em que teve problemas familiares, mas atualmente superou esses problemas e faz uso apenas socialmente.

O tabagismo é um fator de risco para diversas doenças crônicas, como a hipertensão arterial, o câncer e doenças pulmonares obstrutivas, e é visto como a principal causa evitável de doenças e morte prematura. As mudanças de metabolismo que acompanham o processo de envelhecimento aumentam a suscetibilidade dos mais velhos às doenças relacionadas ao consumo de álcool, como a desnutrição, doenças do pâncreas, estômago e fígado. Além disso, as pessoas idosas possuem maior risco de quedas e lesões associadas ao consumo de álcool e da mistura deste com medicamentos(1).

Na Tabela 2 apresentam-se os resultados da seção de saúde mental do questionário BOAS. Foram

Cogitare Enferm 2009 Abr/Jun; 14(2):227-36 sacitsíretcaraC .n% edadiralocsEs atebaflanA0 10 5 oirámirponisnE otelpmocni 40 2 oirámirponisnE3 51 uargoriemirP1 51 uargodnugeS1 51 roirepusosruC1 51 lautaacimônoceoãçautiS rohleM3 15 6 asiocamseM4 51 roiP3 02 omsigabaTu omufacnuN3 15 6 ramufeduoraP3 51 amuF4 02 omsilitEu iregniacnuN3 15 6 etnemlaicoseregnI7 53 utilizados os pontos de corte propostos pelos autores, que utilizam: 0 a 2 pontos (não há indicadores de demência), 3 a 5 pontos (leve) e mais de 6 pontos (severa). Para a depressão utilizam: até 7 pontos (não há indicadores), 8 a 12 pontos (leve) e mais de 13 pontos (severa). Observa-se que 6 idosas (30%) não possuem indicadores de demência, 5 (25%) há demência leve e 9 (45%) demência severa e, 13 idosas (65%) não possuem indicadores de depressão, 6 (30%) depressão leve e 1 (5%) depressão severa.

Esses resultados apontaram baixa prevalência de indicadores de depressão na amostra estudada e, por outro lado, elevada prevalência de indicadores de demência. Ressalta-se que um dos critérios utilizados para a seleção da amostra foram os escores no miniexame do estado mental-MEEM acima dos pontos de corte(7) sugeridos por Bertolucci e colaboradores. O screening cognitivo prévio à aplicação do questionário permitiu selecionar aquelas com melhor condição cognitiva para participar do estudo.

Tabela 2 - Distribuição da amostra de idosas residentes em ILPI segundo a presença de indicadores de demência e depressão, Curitiba-PR, 2008

Com a realização do MEEM, a prevalência de declínio cognitivo encontrada foi de 26,47% e estas idosas foram excluídas da amostra. Ainda assim, observa-se que 14 (70%) das entrevistadas apresentaram indicadores de demência (leve ou severa), o que pode ser atribuído à baixa sensibilidade do MEEM na detecção de declínios cognitivos leves ou, por outro lado, a não utilização pelo BOAS de pontos de corte diferenciados conforme o grau de escolaridade e a elevada proporção de pessoas analfabetas e com baixa escolaridade na amostra deste estudo.

Os indicadores de depressão foram observados em 7 participantes (35%), a mesma porcentagem que possui registros dessa doença crônica nos prontuários e que realiza tratamento farmacológico. Entretanto, há coincidência entre 5 dessas idosas que foram detectadas pelo BOAS e que realizam tratamento farmacológico. Enquanto que 2 idosas realizam tratamento farmacológico e não apresentaram sintomas detectados pelo BOAS e 2 apresentaram sintomas e não realizam tratamento farmacológico, 1 dessas últimas é a que apresentou indicadores de depressão severa. Esses resultados apontam para a importância de avaliações periódicas da presença de sinais e sintomas depressivos na população idosa, com a utilização de escalas de depressão. Isso é útil para a identificação de novos casos e para monitorar a eficácia do tratamento farmacológico e não farmacológico. A presença de sintomas depressivos causa um dano adicional e está associada a maior morbidade e mortalidade.

De acordo com a literatura, existe uma associação significativa entre os sintomas depressivos e as relações sociais. Os idosos socialmente mais integrados e satisfeitos com as relações familiares relatam menor número de sintomas depressivos. As mulheres idosas tendem a ser mais depressivas do que os homens idosos e as condições de saúde, comportamentos de risco e limitações físicas aumentam o número de sintomas depressivos. Esse autor sugere que encorajar o envolvimento social e a formação de redes amplas de suporte social para o idoso poderá ter um impacto positivo na saúde mental, especialmente naqueles que estão isolados por não terem parentes próximos, por terem baixo status sócioeconômico e por terem saúde precária(1).

As doenças crônicas registradas nos prontuários das participantes do estudo foram: hipertensão arterial sistêmica (n=17; 85%), dislipidemias (n=7; 35%), depressão (n=7; 35%), deficiência visual (n=6; 30%), diabetes (n=5; 25%), varizes (n=5; 25%), artrose (n=5; 25%), osteoporose (n=3; 15%), Alzheimer (n=3; 15%), deficiência física incluindo paralisia infantil, pé torto congênito e deformidade nos pés (n=3; 15%), esquizofrenia (n=2; 10%), hipertireoidismo (n=2; 10%), insônia (n=2; 10%), deficiência auditiva (n=2; 10%), hipotireoidismo (n=1; 5%), Parkinson (n=1; 5%) e insuficiência cardíaca congestiva (n=1; 5%).

Esses resultados são semelhantes aos encontrados no estudo Saúde, bem-estar e envelhecimento-SABE, em que as prevalências de doenças crônicas encontradas entre indivíduos idosos de ambos os sexos, foram: pressão alta (53,3%), artrite, artrose, reumatismo (31,7%), problemas cardíacos (19,5%), diabetes (17,9%), osteoporose (14,2%), doença pulmonar obstrutiva crônica (12,2%). Destaca-

Cogitare Enferm 2009 Abr/Jun; 14(2):227-36 serodacidnI. n% aicnêmeDá hoãN6 03 eveL5 52 areveS9 54 oãsserpeDá hoãN3 1 56 eveL6 03 areveS1 5 se que os problemas osteomusculares (osteoporose, artrite, artrose) são mais frequentes em mulheres e as doenças crônicas pulmonares predominam nos homens. A hipertensão arterial é a mais frequente das doenças crônicas não transmissíveis em todo o mundo, em ambos os sexos. Nos idosos sua freqüência aumenta bastante, o que leva a uma grande demanda à assistência médica para o seu controle e suas complicações, particularmente os acidentes vasculares cerebrais (12).

A maior parte das idosas (n=17; 85%) faz uso de algum tipo de medicamento e 3 (15%) negaram a utilização contínua de medicamentos. Os registros dos prontuários dessas 3 idosas mostram que uma delas utiliza, quando necessário, codeína ou paracetamol e as outras duas fazem uso contínuo de medicamentos, entre eles os anticolinesterásicos. Em geral, as entrevistadas não souberam informar exatamente quais os medicamentos que estavam utilizando, e referiram o número de comprimidos, os horários aproximados (de manhã, no café, de noite, no jantar) e a finalidade (para pressão alta, para dor). Como, por exemplo, o que responderam duas delas:

Estou tomando três comprimidos de manhã e dois de tarde, mas não sei o nome.

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