Apostila de Nectologia - Mamíferos marinhos

Apostila de Nectologia - Mamíferos marinhos

(Parte 2 de 4)

Família ZiphiidaeNome Comum Berardius arnuxiiBaleia-bicuda de Arnoux

Berardius bairdiiBaleia-bicuda de Baird

Hyperoodon ampullatusBaleia-bicuda de nariz-degarrafa do norte

Hyperoodon planifronsBaleia-bicuda de nariz-degarrafa do sul Mesoplodon (14 espécies)

Tasmacetus shepardiBaleia-bicuda de Tasman Ziphius cavirostrisBaleia-bicuda de Cuvier

Família Physeteridae Physeter macrocephalus Cachalote

Família Kogiidae Kogia brevicepsCachalote pigmeu

Kogia simaCachalote anão

Família Platanistidae Platanista gangeticaSusu do Ganges

Platanista minorSusu do Indus

Família Pontoporiidae Pontoporia blainvillei Toninha, franciscana

Família Lipotidae Lipotes vexilliferBaiji, golfinho do Yang-tse

Família Phocoenidae Noephocoena phocoenoidesMarsopa sem dorsal

Phocoena (Australophocoena)dioptrica Marsopa de óculos

Phocoena phocoenaMarsopa do porto Phocoena sinus Vaquita Phocoena spinipinnisMarsopa de dorsal espinhosa Phocoenoides dalliMarsopa de Dall

Quadro 3. (cont.)

Família MonodontidaeNome Comum Delphinapterus leucas Beluga

Monodon monocerus Narval

Família Iniidae Inia geoffrensisBoto-vermelho ou da Amazônia

Família Delphinidae Cephalorhynchus commersoniiGolfinho de Commerson

Cephalorhynchus eutropiaGolfinho negro Cephalorhynchus heavisidiiGolfinho de Heaviside Cephalorhynchus hectoriGolfinho de Hector Steno bredanensis Golfinho-de-dentes rugosos Sousa teusziiGolfinho-corcunda do Atlântico Sousa plumbeaGolfinho-corcunda do Índico

Sousa chinensisGolfinho-corcunda do Indo-

Pacífico Sotalia fluviatilis Boto-cinza

Família Delphinidae Tursiops truncatus Boto, golfinho-flipper

Tursiops aduncusGolfinho-flipper do Indo-

Pacífico Stenella attenuata Golfinho-pintado

Stenella frontalisGolfinho-pintado do Atlântico Stenella longirostris Golfinho-rotador Stenella clymeneGolfinho-rotador de bico curto Stenella coeruleoalba Golfinho-listrado Delphinus delphis Golfinho-comum Delphinus capensisGolfinho-comum de bico longo Delphinus tropicalisGolfinho-comum da Arábia Grampus griseusGolfinho de Risso Lagenodelphis hoseiGolfinho de Fraser Lagenorhynchus albirostris Golfinho-de-bico-branco

Lagenorhynchus acutusGolfinho de flanco branco do

Atlântico

Lagenorhynchus obliquidensGolfinho de flanco branco do

Pacífico Lagenorhynchus obscurus Golfinho-escuro

Lagenorhynchus australisGolfinho de Peale Lagenorhynchus cruciger Golfinho-ampulheta Lissodelphis peroniiGolfinho-franco do sul Lissodelphis borealisGolfinho-franco do norte Peponocephala electra Baleia-cabeça-de-melão Feresa attenuata Orca-anã Pseudorca crassidens Falsa-orca Orcinus orcaOrca, “baleia assassina” Globicephala melasBaleia-piloto de peitorais longas Globicephala macrorhynchusBaleia-piloto de peitorais curtas Orcaella brevirostrisGolfinho do Irrawaddy

Biogeografia de Mamíferos Marinhos Para se compreender a distribuição de uma espécie é necessário que se tenha conhecimento tanto de sua ecologia com de sua história evolutiva. As necessidades ecológicas de um espécie limitam onde ela possa viver. Para os mamíferos marinhos os padrões de temperatura da água e a distribuição de produtividade primária influenciam suas distribuições atuais e passadas. As distribuições dos mamíferos marinhos atuais podem ser classificadas como cosmopolitas, anti-tropicais (disjuntas) e endêmicas.

Dois grandes processos históricos influenciaram a distribuição geográfica das espécies: dispersão (movimento de uma espécie para uma área) e vicariância (formação de uma barreira que divide a área ocupada por uma espécie). Um cladograma de área pode mostrar as relações filogenéticas entre espécies que habitem áreas diferentes. Se a distribuição geográfica das espécies for determinada principalmente por eventos vicariantes então o cladograma de área de um taxon deverá ser similar à história geológica da área ocupada. Filogenias já foram utilizadas para se estudar a biogeografia de relações hospedeiro-parasita (p.ex. nematódeos e focídeos) e a evolução e biogeografia da ecologia alimentar de peixes-boi.

Para os pinípedes, a biogeografia histórica sugere alguns padrões. Os estágios iniciais da evolução dos odobenídeos se deu no Pacífico Norte. De lá as linhagens das morsas modernas entraram no Caribe a partir do Pacífico através da Passagem da América Central (5 a 8 Maa) e se dispersaram para o Atlântico Norte. Para os otarídeos a evolução ocorreu principalmente no Pacífico Norte e os lobos- e leões-marinhos se dispersaram para o hemisfério sul a aproximadamente 6 Maa. Já para os focídeos sua história evolutiva se iniciou no Atlântico Norte. Se formos aceitar a monofilia dos pinípedes precisa-se supor que um ancestral comum dos focídeos tenha migrado para essa área através da Passagem da América Central. Deteriorações climáticas teriam resultado em uma migração das focas monachinae para o sul, enquanto que os focinae se adaptavam para climas mais frios ao norte. Aparentemente os monachinae se diversificaram nas águas frias do hemisfério sul, para formar a atual fauna de focídeos antárticos. A diversificação e especiação dos focídeos no Atlântico Norte provavelmente foi afetada por eventos glaciais.

Tanto os cetáceos como os sirênios tiveram uma origem Tethyana. Os odontocetos e os misticetos mais antigos foram encontrados no hemisfério sul e aparentemente a evolução do mecanismo de alimentação por filtração dos misticetos está ligada ao início da Corrente Circumpolar Antártica e às rápidas mudanças criadas na produção zooplanctônica. Já a recente diversificação dos cetáceos deve estar ligada a mudanças no nível do mar, que pode ter promovido o isolamento e especiação em alguns casos e extinção em outros. Para os sirênios, apesar de terem tido uma grande diversidade no passado, o esfriamento do clima no final do Mioceno deve ter reduzido a disponibilidade de fanerógamas marinhas, diminuindo a disponibilidade de recursos. A linhagem que deu origem a vaca-marinha de Steller provavelmente foi uma adaptação para climas mais frios, e habitava o Mar de Bering até ser extinta pelo homem.

Sistema Tegumentário O tecido tegumentário dos mamíferos marinhos funciona na proteção, termorregulação e comunicação. A pele dos cetáceos e sirênios se distingue dos outros mamíferos pela ausência de glândulas e pelagem. A camada epidérmica externa da pele das belugas é única entre os cetáceos por apresentar uma muda anual.

A camada interna da pele (hipoderme) forma o blubber, um tecido conectivo frouxo composto de células adiposas entremeadas de feixes de colágeno, que se conecta fracamente ao tecido muscular subjacente. O blubber tem espessura e conteúdo lipídico variável, sendo sujeito a variações ligadas à idade, sexo, individuais e sazonais.

Os padrões de cor na pele e pelagem dos mamíferos marinhos tem como funções principais a camuflagem ou comunicação. Cracas e piolhos-de-baleia (crustáceos anfípodes do gen. Cyamus) que se instalam na pele das baleias são provavelmente mutualistas ou comensais ao invés de parasitas. É possível até que os piolhos-de-baleia sirvam como indicadores dos cardumes de zooplâncton.

A pelagem dos pinípedes, da lontra marinha e do urso-polar consiste de pêlos de guarda longos e espessos, com uma camada inferior de pêlos menores e mais finos. Estes últimos são os principais responsáveis pelo isolamento térmico, ao aprisionar bolhas de ar e não permitirem que a água encoste na pele. Uma camada de “tecido adiposo marrom” em focas recém-nascidas ajuda a mante-las aquecidas através de termogênese "sem arrepio", até que esta gordura se converta em blubber isolante. Uma vez que o poder isolante do blubber é uma função da sua espessura, espécies de clima mais frio tendem a ter um blubber mais espesso do que espécies que habitam águas tropicais. Pesquisas relacionadas à termorregulação de focas indicam que a temperatura do ar é um importante fator limitante na sua distribuição geográfica. Sistemas de contracorrente de troca de calor, que servem na termorregulação, estão presentes nas nadadeiras dorsais, peitorais e caudais, bem como nos órgãos reprodutivos dos mamíferos marinhos. Uma outra estratégia adotada pelos mamíferos marinhos para reduzir a perda de calor para o ambiente foi a redução da sua superfície e aumento do tamanho, o que diminui a relação superfície:volume.

Sistema Nervoso e Sentidos Um dos aspectos mais discutidos do sistema nervoso dos mamíferos marinhos é o relativamente grande tamanho cerebral de alguns odontocetos e sua suposta relação com a inteligência. Comparações entre o quociente de encefalização (relação entre peso do corpo e peso do cérebro, QE, Tabela 1) de diversos mamíferos marinhos mostram que os golfinhos tem a maior relação entre peso do cérebro e peso do corpo, e que isto está provavelmente relacionado com padrões de história de vida, tais como estratégias alimentares e comportamento social. O QE de sirênios está entre os mais baixos de todos os mamíferos e foi relacionado à sua baixa taxa metabólica e longo período de crescimento pós-natal.

Tabela 1. Quocientes de encefalizaçào de diversas espécies.

EspéciePeso doCérebro (g)Peso do Corpo

(kg)

(Cérebro / Corpo) x 100

Otarídeos

Focídeos

Odobenidae

Sirênios

Misticetos

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