Vulto como sobrevivência

Vulto como sobrevivência

Vulto como sobrevivência

Ao inaugurar a primeira edição do jornal Tapejara de 3 de Setembro de 1950, Faris Michaele, então fundador do Centro Cultural Euclides da Cunha da cidade de Ponta Grossa, região centro-sul do estado do Paraná, disse: sendo esta a primeira das palestras, limitar-me-ei a um esboço dalguns traços do vulto de Euclides da Cunha 1. E ao terminar a palestra, disse:

E assim, hoje, mais que ontem, o seu extraordinário vulto, ultrapassando fronteiras e mesquinhos regionalismos, dá indícios seguros de projetar-se pelos oceanos sem orlas do futuro, qual majestoso e grave testemunho do amor à Beleza e à Verdade no seio de uma humanidade melhor2.

O termo ‘vulto’, repetido duas vezes neste artigo, pode ser encontrado em diversos títulos de obras dispostas na estante da biblioteca do Centro Cultural3. Tivemos acesso a uma delas: Vultos e fatos de nossa história teve sua primeira edição em 1958. O prefácio, embora não seja da autoria de seu autor, deixa clara a intenção do livro: ‘uma coletânea de escritos patrióticos para reavivar a história dos episódios históricos”4. Três capítulos desta obra chamam atenção: Missão de Paz a Canudos; A célebre passagem a Cocorobó (Campanha de Canudos) e Arrancada heróica (Campanha de Canudos). O que se vê nesses capítulos são relatos da guerra de Canudos baseados na leitura de Os Sertões e de Documentos da Campanha de Canudos do Arquivo do Exército – segundo a bibliografia consultada pelo autor. Não se tem a definição de ‘vulto’ explicitamente, mas o autor queria chamar de vulto, já no título da obra, aqueles personagens ‘heróicos’ – generais, marechais, freis, majores, comandantes - por suas atuações em conflitos e guerras da Monarquia brasileira. “Heróis sem platéia”, dizia o prefácio. E ainda, heróis que “passaram despercebidos aos coevos e foram mal julgados pela posteridade”5.

Na palestra de Michaele, que citamos logo no início, ele traz a imagem de Euclides como um incompreendido, disse também que Euclides “sofria do mal irremediável de ser gênio e que sua obra não na consideraram devidamente”6. Identificamos algumas formulações sobre o herói homem moderno nos escritos de Michaele, que vinham da leitura dos escritos do historiador escocês Thomas Carlyle em especial na obra Heroes and Hero worship. Para Carlyle havia seis classes de heróis, tomados de diferentes épocas e países: o herói como divindade, o herói como profeta, o herói poeta, o herói como padre, o herói como homem de letras e por fim o herói como rei. O quinto tipo era com o qual Michaele mais se identificava, ou melhor, foi no herói das letras que Michaele encontrou Euclides da Cunha. Para Carlyle, o herói homem das letras governava de sua sepultura nações inteiras e gerações que não lhe deram e não lhe dariam pão, enquanto vivo7. Para Michaele, foi preciso que se editasse Os Sertões em inglês, francês, castelhano e alemão para que se lhe desse o valor que “o mestre” Euclides merecia, valor comparável a Dante, Cervantes e Shakespeare naqueles tempos. Michaele queria dizer que Euclides deveria ser lembrado como um dos mais importantes heróis modernos das Letras de seu tempo e das épocas futuras, lembrado como vulto, personalidade significativa.

Além das obras da biblioteca do Centro Cultural ainda pouco citadas, há um capítulo intitulado Três vultos da ciência atual8, da autoria de Michaele, com data de 1940. Neste capítulo, Michaele estabeleceu semelhanças entre três nomes do pensamento moderno, a quem denominou ‘vultos’ modernos: Alfred North Whitehead – matemático – pela leitura de Science and the modern world (1938); Arthur Stanley Eddington e suas obras Espacio, tiempo y gravitacion (1922) e The nature of the Physical World (1938); e J. Jeans com a leitura da obra L’Univers (1930), os dois últimos eram astrofísicos. “O traço comum aos três”, disse Michaele, “é o reconhecimento da existência do espírito (...); bem assim, êsse processo evolutivo, ininterrupto e grandioso; nem um tanto menos, a existência de Deus9. Michaele pensava a ciência moderna como uma posição anti-racionalista, de fé ingênua, de repúdio à filosofia, que não procurava justificar sua fé, nem seu sentido. Por outro lado, a filosofia moderna, vista por A. N. Whitehead, “tinha o afã de achar o sentido das coisas, embora agindo subjetivamente”10. No século XX, essas duas (ciência e filosofia), obedecendo ao ‘espírito’ do tempo, ‘interpenetram-se’, ‘interajudaram-se’, e nessa interação resultou um subjetivismoconciliatório e interpenetrante da época presente”11. Leia-se:

E como seja este o caráter de nossa época, e porque nos seja dado apreendê-lo, sem que lhe conheçamos os fatores diretos ou indiretos, mais fundamento achamos na necessidade de estudá-los, ainda que brevemente.

Dentre os inúmeros cientistas direta ou indiretamente responsáveis pelo atual estado de coisas, filosoficamente falando, destacam-se Jeans, Eddington e Whitehead12.

Subjetivismo, tal como é consentido por Michaele: “forte” e “de inegável predominância”, era que “cada ser humano é o defensor natural de sua própria importância”. Se a apreensão da realidade só se daria se conhecendo seus fatores diretos e indiretos, seus aspectos subjetivos, espirituais, religiosos, filosóficos em consonância com a ciência, (J. Jeans, A. S. Eddington e A. N. Whitehead como três referências dessa consonância, os três vultos), então, poderíamos pensar que o sentido de vulto para Michaele é o que é ou está subjetivado, não-apreendido, desconhecido para uma determinada época e em movimento: “interpenetrando” no tempo.

Temos até aqui duas definições de vulto: por um lado vemos vulto como escultura, figura notável, de importância, de representatividade no mundo a que pertence (se pertence ao mundo dos homens, das coisas ou dos animais), nesse sentido, podemos dizer ‘Euclides foi um escritor de vulto’, pois teve sua evidência e sua história. Por outro lado, vemos que vulto é sepultura, sombra, vulto é fantasma, é algo que está, mas não se vê nitidamente, algo não apreensível, separado da realidade, uma imagem indistinguível, um corpo ausente ocupando um lugar vazio, o lugar do morto. O vulto não é imóvel, ele é movimentado por aquele que o olha, ele avança e recua, aparece e desaparece, portanto, é uma potência visual: ele é aquele que vemos e aquele que nos olha.

Didi-Huberman, no capítulo O dilema do visível, ou o jogo das evidências, disse que o ato de “ver é sempre uma operação de sujeito, portanto uma operação fendida, inquieta, agitada, aberta”13. Mais adiante, esclarece:

Não há que escolher entre o que vemos (...) e o que nos olha (...). Há apenas que se inquietar com o entre. Há apenas que tentar dialetizar, ou seja, tentar pensar a oscilação contraditória em seu movimento de diástole e de sístole (a dilatação e a contração do coração que bate, o fluxo e refluxo do mar que bate) a partir de seu ponto central, que é seu ponto de inquietude, de suspensão, de entremeio. (...). É o momento em que o que vemos justamente começa a ser atingido pelo que nos olha – um momento que não impõe nem o excesso de sentido (que a crença glorifica), nem a ausência cínica de sentido (que a tautologia glorifica). É o momento em que se abre o antro escavado pelo que nos olha no que vemos14.

O que Didi-Huberman quis dizer, ao mencionar a tautologia e a crença, é traduzido no método de Francis Ponge em O partido das coisas. Quando o escritor descreve O seixo, disse:

O seixo não é uma coisa fácil de definir bem.

Se nos contentarmos com uma simples descrição podemos dizer inicialmente que é uma forma ou um estado da pedra entre o rochedo e o calhau.

Mas essa afirmação já implica da pedra uma noção que deve ser justificada. Que não me recriminem nesta matéria por remontar mais longe ainda que ao dilúvio15.

Didi-Huberman assim como Ponge nos convidam não só a nos ater ao que é visto, ao visível, ao que está adiante, mas também a acreditar que todo o resto nos olha, que este ‘resto’, o vulto, segreda em si sua história e nosso destino. Temos que ir aquém da rocha para definir o seixo. Temos que ir aquém do movimento, para definir o vulto, pois é na condição de fazer desaparecer e fazer reaparecer que o vulto ganha sentido, é esse ir e vir que nos assusta, que nos inquieta. Ao constatarmos seu desaparecimento, a imagem-vulto de Euclides da Cunha apareceu no lugar do escritor-Euclides, e principalmente, apareceu porque não estava mais. O que apareceu no seu lugar?

Agambem ao dizer que o autor não está morto, disse também que pôr-se como autor significa ocupar o lugar de um morto16. Então se vulto é o que não está, quem está? O que sobra de Euclides quando travestido em vulto? Parafraseando Didi-Huberman: como mostrar um vulto? E como fazer desse ato uma forma17?

Ora, já havíamos dito que o vulto tem movimento, que só se movimenta quando olhado, logo é movimentado por quem o olha. Esse olhar está agregado de desejo, desejo de acrescentar um objeto aos objetos do mundo. A leitura de Heroes and hero Worship foi peçachave para a construção da imagem travestida, de Euclides para Michele. Ali Michaele encontrou-se, sabe-se lá quantas vezes, com Euclides poeta, herói, homem das letras, e também com o Euclides profeta. Michaele via vultos de Euclides em cada encontro, vejamos algum deles:

Altivo, sagaz, sincero, os mínimos atos lhe refletiam inegável rigidez de caráter, forma ressumada de atávicos elementos talvez. Porque, a bem falar, os seus extraordinários rasgos de bravura, o senso de justiça que lhe caracterizava as atitudes, a pureza de alma, enfim, com que se abria aos íntimos, lembrando-nos o lado apreciável do luso-ameríndio, explicam-nos o nomadismo de Euclides, por igual18.

Carlyle falava da sinceridade na Palestra II, parte na qual definiu herói como profeta:

I should say sincerity, a deep, great, genuine sincerity, is the first characteristic of all men in any way heroic. (…) The Great Man’s sincerity is of the kind he cannot speak of, is not conscious of: nay, I suppose, he is conscious rather of insincerity; for what man can walk accurately by the law of truth for one day? No, the Great Man does not boast himself sincere, far from that; perhaps does not ask himself if he is so: I would say rather, his sincerity does not depend on himself; he cannot help being sincere! The great Fact of Existence is great to him. (…) I wish you to take this as my primary definition of a Great Man19.

Um grande homem, de vulto, Euclides sincero. Desse homem sincero, aproximou-se a imagem do profeta, no dizer de Michaele, do vidente: “Euclides sofria do mal irremediável de ser gênio, vai daí que na segurança de um vidente, se avantajasse aos contemporâneos”20. Euclides profeta por que podia predizer o futuro por inspiração divina, e vidente porque possuía a visão natural das coisas passadas, presentes e futuras. Gilberto Freyre, em Euclides da Cunha, revelador da realidade brasileira, também havia notado essa característica profética de Euclides dizendo que seu perfil emerge há anos das ilustrações dos compêndios de literatura brasileira com alguma coisa de ascético e de profético21. Que visão dos tempos possuía este profeta das letras?

Leiamos na íntegra o que Calyle definia como “profeta”:

There are genuine Men of Letters, and not genuine; as in every kind there is a genuine and a spurious. If Hero be taken to mean genuine, then I say the Hero as Man of Letters will be found discharging a function for us which is ever honourable, ever the highest; and was once well known to be the highest. He is uttering forth, in such way as he has, the inspired soul of him; all that a man, in any case, can do. I say inspired; for what we call ‘originality,’ ’sincerity’, ‘genius,’ the heroic quality we have no good name for, signifies that. The Hero is he who lives in the inward sphere of things, in the True, Divine, and Eternal, which exist always, unseen to most, under the Temporary, Trivial: his being is in that; he declares that abroad, by act or speech as it may be, in declaring himself abroad. His life, as we said before, is a piece of the everlasting heart of Nature herself: all men’s life is, - but the weak many know not the fact, and are untrue to it, in most times; the strong few are strong, heroic, perennial, because it cannot be hidden from them. The Man of Letters, like every Hero, is there to proclaim this in such sort as he can. Intrinsically it is the same function which the old generations named a man Prophet, Priest, Divinity for doing; which all manner of Heroes, by speech or by act, are sent into the world to do22.

Chegamos, talvez, no momento do travestir. Pois o vidente Euclides também tinha sua opinião sobre as artes, sobre imagem e sobre escultura. Em A vida das estátuas Euclides ao descrever a estátua do Marechal Francês Ney, disse não entender como aquela atitude pudesse admirar alguém. A atitude de que falava Euclides a descrição da estátua do Marechal Ney aprumado...

num desgarre atrevido, mal equilibrado numa das pernas, enquanto a outra se alevanta em salto impetuoso, aparece no mais completo desmancho: a farda desabotoada, e a atitude arremetente num arranco terrível, que se denuncia menos na espada rijamente brandida que na faze contorcida, onde os olhos se dilatam exageradamente e exageradissimamente a boca se abre num grito de triunfo23.

Euclides quis dizer que essa atitude sintética das esculturas, “capaz de reproduzir toda a amplitude e toda a agitação de uma vida num bloco limitado e imóvel – este ideal é notavelmente favorecido pelo sentimento coletivo”24. Euclides sabia que a imagem, as sensibilidades ‘mortas’, as esculturas havia tanto a lhe dizer quanto a música ou a poesia:

A mais estática das artes, se permitem o dizer, vibra então na dinâmica poderosa das paixões e da estátua, um trabalho de colaboração em que entra mais o sentimento popular do que o gênio do artista, a estátua aparece-nos viva – positivamente viva, porque é toda a existência imortal de uma época, ou de um poço, numa fase qualquer de sua história que para perpetuar-se procura um organismo de bronze25.

Também dissemos que o vulto nos olha. Então talvez tenhamos encontrado a profecia de Euclides. O vulto é agora estátua. E assim, Michaele pôde modela-la, contempla-la, aprimora-la, exagerando por diversas vezes nos atributos superiores, transfigurando-a, para que restasse apenas um molde, um vulto, como previa Euclides:

O elemento passivo, ali, não é a pedra ou o bronze, é o seu gênio. A alma poderosa do herói, nascente do culto de toadas as almas, absorve-lhe toda a personalidade, e transfigura-o e imortaliza-o com o mais apagado reflexo da sua mesma imortalidade26.

Poder-se-ia estender a definição de vulto, e não limita-lo a considerações positivas como “homem notável”, “herói”, etc., e pensar que é a partir dela que Michaele vai retirar, mais tarde o ideal Indo-americano, fundamentado na idéia de espectro imperialista de Euclides da Cunha. Temos por definição que espectro é uma visão imaginária de um morto, de um fantasma, uma definição muito próxima de vulto, tal como é abordada aqui. Mas espectro também se define por aquilo que representa uma ameaça de perigo e dessa forma se assemelha ao que dizia Euclides sobre o termo, em Temores vãos27: “mania de perseguição”, “terror do estrangeiro”, “alarmante aspecto”, e ainda, um espectro “abala profundamente as almas”. Euclides falava dos perigos alemães, norte-americanos e italianos, e que como fantasmas, fantasias, estranhos – “são claros sintomas de um perigo maior, do perigo real e único que está todo dentro das nossas fronteiras e irrompe numa alucinação da nossa própria vida nacional: o perigo brasileiro”28.

O importante é salientar o que significou essa leitura para Michaele que escreve na primeira página da primeira edição do Tapejara:

Racismos nazistas, comunismos econômicos, ressurreições teocráticas de vários gêneros vão, assim, dentro da maior receptividade ambiente, impondo seus postulados, forçando seus princípios, implantando suas ambiciosos, como imperativos categóricos, a que não há fugir. Tudo isso é mito e está, portando, em consonância com a incerteza, provações e confusão espiritual do momento. Contrastando com semelhante desvio da realidade, eis se nos deparam em todos os paises americanos (ou, ao menos, em sua grande maioria) um como despertar de energias criadoras, um como grito de atávica autoconsciência, uma como iniludível compreensão de inatas possibilidades e inclinações. Agora, mais do que nunca, perfeitamente integrado na magia ecológica que o circunda, sente o habitante do Novo Mundo não poder, a menos que se lhe avilte a personalidade, relegar a plano secundário o incomparável da natureza americana, o soberbo das suas tradições e passado de gloria das civilizações pré-colombianas, a própria identificação fraternal pelo comum lastro ameríndio.29.

Uma última definição de espectro faria-nos deparar com a idéia de mito de Michaele, pois se considerarmos espectro uma evocação ou uma lembrança que se insinua na mente de maneira insistente, então temos a definição de mito, que nas palavras de Michaele era: “imperativo categórico, a que não há fugir”.

Voltemos, por um instante, ao que dizia Didi-Huberman sobre o inquietar-se com o entre, em outras palavras, estar em estado de inquietação é dar chance à criação, é suspeitar que nada está em ordem, é fazer aparecer o ser na experiência, é dar sentido ao contemporâneo, é resgatar, pôr em circulação. Aqui o círculo se fecha.

No artigo Séries e sertões: a questão da heterogeneidade, Raúl Antelo falava do sentido:

Todo sentido é tributário da série, porque nenhum sentido é imanente a um objeto individual, deslocando-se, entretanto, no interior dos agenciamentos discursivos. Mas, ao mesmo tempo, o sentido é igualmente exterior à consciência do intérprete porque nenhum discurso dispõe, a princípio, de uma proliferação, em que o nome não vale por si mas por sua combinação, visto que o nome, na verdade, é um tropo30.

Por esta definição de sentido, no que acrescentou Antelo: “a palavra não dispõe, a rigor, de uma forma especifica mas é dotada de uma força de disseminação e proliferação. Melhor dizendo, o nome não vale por si mas por sua combinação”31, Michaele estaria disseminando, dando movimento, fazendo girar (vendo vulto) a seguinte profecia de Euclides:

Formar-se-á, inevitavelmente, uma harmonia salvadora entre os belos atributos da nossa raça e as fórmulas superiores da República, empanados num eclipse momentâneo; e desta mútua reação, deste equilíbrio dinâmico de sentimentos e de princípios, repontarão do mesmo passo as regenerações de um povo e de um regímen32.

Essa profecia do “equilíbrio dinâmico de sentimentos e de princípios”indica, para nós, que o vulto simboliza novas combinações, o vulto é um regime de verdades no qual há movimento e retorno. E vulto como imagem é criação. Ora, Michaele dedicou vinte e cinco anos de sua vida escrevendo artigos para o Tapejara e propondo um novo comportamento do homem e da mulher americanos. Um comportamento de identificação baseado na idéia de que homem e mulher americanos tinham o mesmo traço comum, o traço ameríndio. Michaele configurou um cenário no qual se viveria em fraternidade, em identificação e união permanentes33. O círculo se fecha, mas não para sempre, pois o vulto agora toma forma de crítica contemporânea, de sobrevivência.

Se tomamos vulto como crítica, é para que ele permaneça diante de nós, imortal, e é também para que temamos atravessá-lo. Porque se vulto e quem o olha olham um ao outro, então eles podem conversar e flagrarem um ao outro. A crítica retoma o vulto, inova-o. Ela pressente seu fim, pressente seu desaparecimento, mas como vulto, ele retorna sob outras formas, interminavelmente. Euclides nos ensina como tratar um vulto, em A esfinge:

Aproximavam-se dois vultos. Nada tinham de alarmantes porque a guarda, velando à entrada da rua, lhes permitira a passagem. Chegaram até à borda da plataforma, onde uma lanterna clareava o estrado num raio de dois metros; e pararam. Aproximei-me saudando-os. Um (reformado do Paraguai que a República retirou de um cartório de tabelião para o fazer senador e general), com aprumo varonil a despeita da idade, correspondeu-me britanicamente, corretíssimo e firme. O outro, murchou-lhe a mão num cumprimento frio. À meia penumbra da claridade em bruxuleios, lobriguei um rosto imóvel, rígido e embaciado, de bronze; o olhar sem brilho e fixo, coando serenidade tremenda, e a boca ligeiramente refegada num ríctus indefinível – um busto de duende em relevo na imprimidura da noite, e diluindo-se no escuro feito a visão de um pesadelo. Reconheci-o e emudeci, respeitando-lhe o incógnito. (...) Fez um gesto breve, despedido-se, e seguiu acompanhado do companheiro desempenado e vivo, desaparecendo ambos a breve trecho – duas silhuettes agitando-se um momento, ao longe, ao brilho escasso de um lampião distante e embebendo-se depois, inteiramente, na noite34.

1 MICHAELE, Faris Antonio Salomão. Euclides da Cunha. Tapejara, ano 1, n.1, Set./1950, p.1.

2 Idem.

3 OLIVEIRA, João Pereira. Vultos e fatos de nossa história. 1959; GICOVATE, Moisés. Euclides da Cunha: uma vida gloriosa. São Paulo: Edições Melhoramentos, s.d. (Grandes Vultos das Letras nº.2). Estante CCEC (Centro Cultural Euclides da Cunha): Geral. Prateleira Euclides da Cunha; JORNAL DO BRASIL. Galeria Nacional. Vultos proeminentes da historia brasileira (v. 1, 2, 3, 6). Rio de Janeiro: Of. Graf. Jornal Brasil, 1931.

4 OLIVEIRA, Gen. João Pereira. Vultos e fatos de nossa história, 3e.d, 1985. p. 7. Prefácio de General E. Leitão de Carvalho. João Pereira Oliveira, então autor da obra, foi presidente da Academia de Letras do Rio Grande do Sul em 1942. Foi Chefe do Estado Maior da 3ª Região Militar em Porto Alegre e serviu em Ponta Grossa não se sabe até que data, acreditamos que durante sua estada na cidade relacionou-se com o CCEC. Foi colaborador do Tapejara com três artigos, mas na época que escreveu os artigos, já não estava mais na cidade.

5 Idem.

6 MICHAELE, Faris Antonio Salomão. Euclides da Cunha. Tapejara, ano 1, n.1, Set./1950, p.1.

7 CARLYLE, Thomas. On heroes, hero-worship and the heroic in history. Wiley & Halsted: New York, 1859. p.137.

8 MICHAELE, Faris Antonio Salomão. Ensaios contemporâneos: ciência e filosofia. Curitiba: Editora Guaíra, 1940. p.59.

9 Idem. p. 66.

10 In: Idem. p.66.

11 Idem. p. 61.

12 Idem. p. 61.

13 DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Prefácio de Stéphane Huchet; tradução de Paulo Neves. São Paulo: Ed.34, 1998. p.77.

14 Idem.

15 FRANCIS, Ponge. O partido das coisas. Editora Iluminuras: São Paulo, 2000. p.157.

16 GIORGIO, Agambem. Profanações. Tradução de Silvino José Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007. p. 58.

17 DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha, ... p.35.

18 MICHAELE, Faris Antonio Salomão. Euclides da Cunha. ... p.1

19 CARLYLE, Thomas. Heroes and hero Worship,… p. 41.

20 MICHAELE, Faris Antonio Salomão. Euclides da Cunha. ... p.1.

21 CUNHA, Euclides da. Euclides da cunha obra completa. V.1 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p.17.

22 CARLYLE, Thomas. Heroes and hero Worship,… p.139-140.

23  CUNHA, Euclides da. Euclides da Cunha obra completa. V.1 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p.142.

24 Idem.

25 Idem.

26 Idem. p.143.

27 CUNHA, Euclides da. Temores vãos. V.1, 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 196.

28 Idem. p. 199.

29 MICHAELE, Faris Antonio Salomão. Tapejara. Tapejara, ano 1, n.1, Set./1950, p.1

30 ANTELO, Raúl. Séries e sertões: a questão da heterogeneidade. In: Outra travessia – Revista de Literatura n.2. Ilha de Santa Catarina, 1ºsemestre de 2004. p. 17.

31 Idem. p.16.

32 CUNHA, Euclides da. Temores vãos. V.1, 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p.199.

33 Há dezessete artigos de Faris Michaele que tratam do tema do indoamericanismo desde 1950 à 1971.

34 CUNHA, Euclides da. Esfinge. V.1, 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p.204. Os dois vultos, a conversa, o semblante de um deles que Euclides viu e descreveu, podem ter sido provocados pela leitura de Thomas Carlyle. Pois Euclides a interrompera por causa das aparições.

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