A Ópera do Malandro como documento histórico para análise do conceito de malandragem em Chico Buarque

A Ópera do Malandro como documento histórico para análise do conceito de...

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SÃO PAULO 2009

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura – Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito para obtenção do título de Mestre Educação, Arte e História da Cultura.

Orientador: Profª Drª. Maria Aparecida de Aquino

SÃO PAULO 2009

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura – Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito para obtenção do título de Mestre Educação, Arte e História da Cultura.

Orientador: Profª Drª. Maria Aparecida de Aquino

MEMBROS COMPONENTES DA BANCA EXAMINADORA: ORIENTADOR: Profª. Drª. Maria Aparecida de Aquino

MEMBRO TITULAR: Prof. Dr. Martin Cezar Feijó MEMBRO CONVIDADO: Profª. Drª Delacir Aparecida Ramos Poloni

Local – Universidade Presbiteriana Mackenzie Campus - São Paulo

Agradeço a todos que contribuíram direta ou indiretamente para esta realização, principalmente ao grande amigo Fernando Martins, que sempre tinha uma palavra de sabedoria para ajudar.

Agradeço à minha esposa Beatriz, por toda a compreensão, pelo amor, pelo apoio, pelo carinho e pelas noites mal dormidas nessa fase em que o tempo livre se torna extremamente raro.

Agradeço aos meus pais – Luiz e Eglair - por todas as oportunidades que me ofereceram durante minha vida.

Agradeço à minha filha Ana Luiza, pelo sorriso de menina que me lança, dando significado todo especial à vida.

Este trabalho tem como objetivo a análise do conceito de malandragem na Ópera do Malandro de Chico Buarque de Holanda em seus componentes histórico e literário. Em primeiro lugar, foi executado um levantamento do percurso da figura do malandro na sociedade brasileira, desde seu surgimento até a sua transformação na Era Vargas, utilizando-se estudos da Antropologia, Sociologia e Literatura. Passou-se, então, a um estudo da estrutura da obra, relacionando-a ao contexto histórico em que foi produzida e às críticas que dirige a esse contexto. Por fim, foram selecionadas algumas canções que não fazem parte da Ópera do Malandro, mas são do cancioneiro do autor Chico Buarque, servindo como apoio documental para entender o conceito de malandragem presente em sua obra. Para efetuar esta análise, partiu-se do exame do texto verbal das canções em busca de significados que possam estar implícitos. Conclui-se que a análise desses elementos estruturais integrados permitiu elucidar aspectos do contexto histórico e da criação ficcional que não são explicitados pelo enredo da obra.

Palavras – chave: Literatura. Música. Crítica literária. Malandragem. Chico Buarque. Malandro.

The objective of this work is the analyses of the concept of malandragem on Ópera do Malandro of Chico Buarque on it’s historical and literature components. In first place, its was made a survey of the malandro’s path on the Brazilian society, from the origins till its transformation on the Vargas Era, using the Anthropology, Sociology and literature studies. After than, its was made an analyses of the Ópera structure, connecting to the historical context in which was produced and the critics that make to that context. At last, it was selected some songs that wasn’t from the opera itself, but its part of the Chico Buarque’s songbook, functioning as a documental support for the understanding of the malandragem concept present in his work. To make this analyses, it was start from the exam of the verbal text of the songs searching for meaning that may be unspoken. We conclude that the analyses of this linked structure elements allowed to explicit aspects of the historical context and of the fictional creations which wasn’t elucidated by the storyline.

Keywords: Literature. Music. Literature critics. Malandragem. Chico Buarque. Malandro.

1. INTRODUÇÃO10

2. AS MALANDRAGENS PRESENTES NA ÓPERA DO MALANDRO 30

3. CHICO BUARQUE - UM ARTISTA E SEU TEMPO HISTÓRICO 76

4. O MALANDRO E SEU CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL 79

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS120
7. BIBLIOGRAFIA UTILIZADA124

5. O MALANDRO NAS CANÇÕES DE CHICO BUARQUE 108 8. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO 129

1 - INTRODUÇÃO

A Ópera do Malandro como documento histórico para análise do conceito de malandragem em Chico Buarque de Holanda.

“Eu fui fazer um samba em homenagem à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais. Eu fui à Lapa e perdi a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais.”. 1

A epígrafe, trecho da música Homenagem ao Malandro, de Chico Buarque de

Holanda, é dotada de elementos importantes para que reflexões possam ser feitas sobre a malandragem enquanto tema. O compositor propõe um tributo a um personagem que, segundo sua constatação, “não existe mais” devido às transformações pelas quais o mesmo passou no decorrer do tempo. Tais modificações, averiguadas por Chico Buarque, podem ser examinadas ao se considerar a figura do malandro presente em letras de música e obras de dramaturgia e literatura.

Uma análise da figura do malandro pode ser processada na musica popular brasileira, em compositores da década de 1920 e 1930. Podemos citar como exemplo Noel Rosa, poeta de grandes clássicos da música popular brasileira, que propõe retirar do título de malandro que é dado ao sambista qualquer aspecto que possa macular sua imagem, chamando-os de “rapaz folgado”.

“Malandro é palavra derrotista que só serve pra tirar todo valor do sambista. Proponho ao povo civilizado não te chamar de malandro, e sim, de rapaz folgado.” 2

1 BUARQUE, Chico. Ópera do Malandro. Círculo do livro, SP. 1978. p.103. 2 ROSA, Noel. Rapaz Folgado. In: SongBook Noel Rosa. [S.I]: Lumiar Discos, [s.d], CD.

O malandro apresentado por Noel Rosa é um indivíduo interessado apenas em sua própria sobrevivência, que faz do bar o seu lar e seu “escritório”, como na canção Conversa de Botequim,3 que tem muitas dividas e vive de pequenos expedientes, como em Fita Amarela 4 e tem uma identidade particular, pois seus gestos e sua maneira de falar “não tem tradução” 5 para outros idiomas. O malandro de Noel usa de sua astúcia para conseguir o que deseja.

Contrapondo ao perfil de rapaz folgado desenhado por Noel Rosa, podemos encontrar nas canções de compositores das décadas de 1940 em diante, caso do sambista Moreira da Silva, a configuração de outra face da malandragem associada à figura que usa de artifícios ilícitos para enganar os outros. Nas canções Bilhete Premiado 6 e O

Conto da Mala,7 o malandro cantado por Moreira da Silva assume ares de contraventor ao promover um “Cassino de Malandro” 8 no fundo de um botequim.

3 Para orientar o leitor transcrevo a letra de Noel: “Seu garçom faça o favor de me trazer depressa

/ Uma boa média que não seja requentada / Um pão bem quente com manteiga à beça / Um guardanapo e um copo d'água bem gelada / Feche a porta da direita com muito cuidado / Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol / Vá perguntar ao seu freguês do lado / Qual foi o resultado do futebol / [...] / Vá pedir ao seu patrão / Uma caneta, um tinteiro, / Um envelope e um cartão, / Não se esqueça de me dar palitos / E um cigarro pra espantar mosquitos / Vá dizer ao charuteiro / Que me empreste umas revistas, / Um isqueiro e um cinzeiro / [...] / Telefone ao menos uma vez / Para três quatro quatro três três três / E ordene ao seu Osório / Que me mande um guarda-chuva / Aqui pro nosso escritório / Seu garçom me empresta algum dinheiro / Que eu deixei o meu com o bicheiro, / Vá dizer ao seu gerente / Que pendure esta despesa / No cabide ali em frente / [...]”. ROSA, Noel. Guiba. [S.l.]: Empowerment, [s.d.], CD.

4 Eis a Letra da canção Fita amarela: “Quando eu morrer, não quero choro, nem vela / Quero uma fita amarela gravada com o nome dela / [...] / Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém / Eu vivi devendo a todos mas não paguei nada a ninguém / Quando eu morrer, não quero choro, nem vela / Quero uma fita amarela gravada com o nome dela / Quando eu morrer, não quero choro, nem vela / Quero uma fita amarela gravada com o nome dela / Meus inimigos que hoje falam mal de mim / Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim/ [...]”. ROSA, Noel. Guiba. [S.l.]: Empowerment, [s.d.], CD.

5 Igualmente, transcrevo trecho da música Não tem tradução: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia / Com voz macia é brasileiro, já passou de português”. ROSA, Noel. SongBook Noel Rosa. [S.l.]: Lumiar Discos, [s.d.], CD.

6 Eis a letra da canção Bilhete Premiado: “O moço, olha aqui / É que eu achei um bilhete /

Parece que está premiado / Duzentos contos de réis / E ainda tenho mais dez / Para levar num hospital de aleijado / Eu vou com muito cuidado / E o senhor confira na lista / E guarde o dinheiro e o bilhete também / Eu tenho medo de ladrão / Me dê quinhentos do seu / Que é para a despesa / E pagar a pensão, alí do capitão / Ele mete a mão no bolso e tira a pelêga e me dá / Sem falar nada e quer ter razão / Se ficar consigo aquele indivíduo / É um bobalhão, mas veio em boa ocasião / E o vigarista sorrindo / Desaparece na esquina / E o otário fica satisfeito / Com aquela bolada de grupolina / Que tanto fascina / O dr. Budina Joaquina Valentina”. SILVA, Moreira da. O último malandro. Rio de Janeiro: EMI, 2003, CD.

7 Transcrevo trecho da letra: “O moço, eu tenho uma herança / Alí no banco em frente / No testamento pode ver / Não sei o que vou fazer / Tanto dinheiro / Vim da roça / Sou um fazendeiro, sou mineiro / E não conheço bem o Rio de Janeiro / Olhe esta procuração / Que eu lhe espero / Na Frei Caneca, na minha pensão / É bem de frente à detenção / Otário cansou de esperar / Partiu para a Frei Caneca / Bateu no portão / Veio atender o prontidão / Vim procurar prá entregar / Este dinheiro a João do

Essa metamorfose de rapaz folgado em criminoso ou contraventor possivelmente ocorre a partir da constituição brasileira de 1937, sob influência da política implantada por Getúlio Vargas. Tal constituição, no artigo 136 9 , estabelece o trabalho como um

“dever social” protegido pelo Estado. O estatuto legal condena a malandragem e deposita sobre o malandro a categoria de marginal. O Estado Novo passa a ser então o divisor de águas da posição que o malandro ocupa na sociedade.

Os malandros descritos por Noel Rosa e por Moreira da Silva em suas canções são, em sua maioria, habitantes dos morros e das ruas cariocas, freqüentadores de botequins. O que os diferencia é justamente o aspecto do malandro narrado por Moreira, que aparece como contraventor e tem como modo de ganhar a vida o ato ilícito com intuito de lograr o próximo. Talvez o fato de Noel Rosa ter falecido em 1937 possa explicar a hipótese de que não tenha tido tempo para retratar em seus sambas as modificações que ocorriam na sociedade durante o governo de Getúlio Vargas, bem como as mudanças em relação à imagem do malandro.

E são essas mudanças que envolvem as características da malandragem um dos temas da obra escrita por Chico Buarque de Holanda, a Ópera do Malandro, produzida em 1978. Uma peça de teatro que foi montada em um período - ainda que em processo de abertura política - em que o Brasil vivia sob a vigilância dos militares. Chico Buarque, por não ter a liberdade de criação que o permitisse criticar abertamente o regime, o fez das mais variadas formas. Para a Ópera do Malandro, Chico Buarque optou por um distanciamento épico, ou seja, outro período da história do nosso país é utilizado como pano de fundo temporal para sua trama, que se passa em meados da década de 1940, sob o governo de Getúlio Vargas.

Aragão / Foi quem me deu a direção / Ô moço, é tapiação / O tal mineiro é um espertalhão / Mala vazia tal herança / Perca a esperança / Vá à polícia se queixar depressa / Me levaram na conversa”. SILVA, Moreira da. Moreira da Silva – MO“RINGO”EIRA [S.l.]: Continental, 1970, CD.

8 Da mesma forma em relação à música Cassino de malando: “Tenho um bom golpe, e no baralho / Conheço todos os cortes. Não admito / Que algum Vargulino vá lá no meu cassino /soltar o fricote – Eu pulo logo no cangote / Tenho bons parceiros, sempre cheios de dinheiro / No meu famoso cassino, lá também dá bom grã-fino./ Promovo a bebida, e no final da partida / O otário é quem perdeu, e quem ganhou tudo fui eu./ Tenho licença, faço e desfaço tudo com inteligência”. SILVA, Moreira da. Para sempre: Moreira da Silva. Rio de Janeiro: EMI, [s.d.], CD.

9 “Art.136 – O trabalho é um dever social. O trabalho intelectual, técnico e manual tem direito a proteção e solicitude especiais do Estado. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto e este, como meio de subsistência do indivíduo, constitui um bem que é dever do Estado proteger, assegurando-lhe condições favoráveis e meios de defesa”. BRASIL. Constituição Brasileira de 1937. Direitos Humanos. Disponível em: <http://w.dhnet.org.br/direitos/brasil/leisbr/1988/ 1937.htm>. Acesso em Março/2009.

Escrever sobre a Era Vargas foi uma das maneiras que Chico Buarque encontrou para fazer uma crítica social à situação vigente que não era aberta às críticas - o regime militar. A relação entre diferentes momentos é feita de imediato pelo leitor/espectador.

A Lapa, no Rio de Janeiro, conhecida como reduto da boemia e da malandragem, é o cenário em que os personagens principais são cafetões, prostitutas, contrabandistas:

“O bairro da Lapa foi fundado em 1751 e se desenvolveu ao redor da Igreja Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro no largo e dos Arcos da Carioca o aqueduto concluído em meados do século XVIII durante a administração do Governador–Geral Gomes Freire de Andrade. Esta situada no centro da cidade, e destaca-se como um dos principais símbolos do Rio de Janeiro, por sua notória vida noturna devido aos antigos cabarés e zonas de meretrício [...] sem falar nos míticos malandros com seus chapéus Chile, terno de linho branco e sapatos bicos finos [...]” 10

Assuntos comuns à vida burguesa, como a ética e a moralidade, são postos em segundo plano neste tipo de ambiente. O que não significa a inexistência de uma moral regendo o comportamento das pessoas. Porém, tal moralidade não seria aceita em meios sociais mais conservadores. A peça retrata a decadência da Lapa, ou o fim de uma malandragem genuína - de indivíduos que não trabalham e vivem de trambiques - e o princípio da industrialização do país, com o surgimento de uma malandragem profissional, advinda de uma burguesia hipócrita e consumidora.

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