Livro: "Virando a Própia Mesa" Ricardo Semler

Livro: "Virando a Própia Mesa" Ricardo Semler

(Parte 1 de 5)

DIGITALIZAÇÃO E REVISÃO Argo, o "virador"

Este livro é dedicado a Antônio Curt, que teve a sabedoria de indicar o caminho do mar ao rio que insistia em transbordar para as margens.

Reconhecimentos

À Renée e à Susan, que sempre desejaram muito sucesso; à Irene, por sua dedicação extraordinária e eterna boa vontade de recomeçar quando deveríamos estar no fim; à Beth e à Edi, pela datilografia bem-humorada, que dava nova interpretação ao que eu tinha escrito; ao Zuzinho, por significar muito mais do que é capaz de imaginar; ao Gomes de Mattos, da José Olympio, pelo incentivo incondicional; à Liloca, pelo primeiro empurrão; a Clóvis, Arno, Batoni e Vendramin pela paciência da revisão, com o devido desconto de não terem bolado o famigerado título; ao Gikovate, pelas dicas e reforços de ego; à Gregola, pelo saltitante e descabido otimismo; ao Richard Civita, Iara e companhias, pela editagem editorialmente edificante; e, por último e mais importante, ao pessoalzinho todo lá da Semco, sem os quais esta realizada não poderia ter sido obra. . .

Vide Bula

Composição: Quinze capítulos, escritos em nove dias, datilografados em três, e ainda não digeridos. Cada 0,1 mg de sarcasmo contém meia verdade. Para os crédulos, em forma de creme ou pomada, e para os descrentes, em forma de injeção intramuscular.

Modo de ação: Lento e doloroso, requerendo sempre de 12 a 24 meses além do previsto para surtir efeitos tranqüilizadores.

Indicações: Burocratice crônica, estressite aguda, hipertensão administral e hipertrofia organizacional.

Posologia: Para adultos e crianças acima de 12 anos (em cargos de direção), uma vez só. Mais do que uma dose pode gerar crises de devaneio inverossímil.

Contra-indicações e reações adversas: Durante a leitura podem surgir crises de urticária, subidas abruptas de calor menopáusico, inchaço de olhos esbugalhados, insônia diurna, distúrbios gastrintestinais, taquicardia, palpitações sem palpites e, principalmente, dor de cabeça.

Tendo lido o livro e persistindo os sintomas, procure orientação médica.

Prefácio13
1 Memórias de um Velhinho de 28 Anos15
2 Peixe Fora D'Água30
3 Ficando Grisalho40
4 Rumo à Obsolescência53
5 Vai um Fordeco Aí?67
6 Repensando a Empresa Familiar87
7 Filosofia na Empresa — Vamos Ser Práticos?1

Sumário

ou É Só Papo Furado?130
9 Um Dia na Vida de um Estressado150

8 A Gestão Participativa Existe

Como Diagnosticá-las Antes do Estado de Coma179
1 Mexendo com o Bicho Gente203
12 Marketeiros, Marketólogos e Markeopia225
13 Os Retalhos Finais239
14 Quem Está se Preparando para o Futuro?251
15 A Experiência Prática da Semco259

10 As Doenças da Empresa — Posfácio 274

À Guisa de Prefácio

Virando a Própria Mesa é um livro que fala por si, e que, na realidade, dispensa apresentações. Dependendo da atitude mental de quem o lê, pode ser aceito como uma contribuição válida a novos conceitos de administração, ou rejeitado como cheio de fantasias temerárias, que não levam em conta os ditames da experiência. Mas não é livro de deixar o leitor indiferente. Pelo contrário. Provocativo e estimulante, inovador e iconoclasta, tem o sabor da irreverência e da espontaneidade.

Relatando, ainda em plena mocidade, suas experiências pessoais e empresariais, sem esperar que o tempo as cristalize, Ricardo Semler consegue uma vivacidade de apresentação muito sedutora, e prende o interesse e a atenção do leitor, independente de se concordar ou não com as idéias que sugere e defende.

Não vou opinar sobre essas idéias, nem discuti-las nestas breves considerações, embora me seduzam bastante. O leitor deve chegar a suas próprias conclusões. Algumas dessas idéias são mais revolucionárias do que outras, e em quase todos os casos sua aplicação é demasiado recente para se poder aferir com segurança seus resultados e conseqüências. Mas é muito sintomático o que Ricardo Semler conseguiu, nas empresas que dirige, em termos de crescimento. Em parte procurando transpor para o nosso meio métodos e sistemas que vêm sendo empregados com sucesso em países industrializados, notadamente os escandinavos, mas que aqui são encarados com apreensão e ceticismo, em parte valendo-se de uma visão original e personalíssima, Ricardo Semler obviamente não se deixa impressionar pelo fato de que certos problemas "sempre foram resolvidos assim". Não tem nenhum temor reverenciai pelas soluções consagradas, cuja validade questiona com coragem e senso de humor. Acho isso altamente positivo, e espero que as reflexões e discussões que este livro certamente provocará tenham o dom de quebrar muitos tabus que estão emperrando o desenvolvimento da empresa brasileira.

Um grande mérito do livro é ter sido escrito com o propósito de transmitir experiências vividas pelo próprio autor. Não se trata de uma visão acadêmica, ou de conselhos dados de fora para dentro. Ricardo Semler não é um consultor (contra quem, aliás, não tenho preconceitos), e sim ele próprio um empresário questionador da tradição, e um inovador. Usou suas empresas como laboratório, demonstrando com isso confiança em suas idéias.

Só me cabe desejar sucesso para este livro, e para as idéias que defende, esperando que o autor não se limite a esta primeira obra, e nos mantenha informados, no correr do tempo, do andamento de suas experiências.

Memórias de um Velhinho de 28 Anos

A grande desvantagem de ter apenas 28 anos é não ter tido tempo de acumular dezenas de histórias e "causos" pra contar. Para contar histórias com essa idade é preciso vasculhar os primeiros anos de vida. E preencher um capítulo inteiro com quedas de triciclo e primeiros beijos não vai ser fácil.

Porém, quem compra um livro acha que tem o direito de ouvir detalhes picantes, lados obscuros e impropriedades variadas. Farei o possível para agradar.

Lendo o livro do Iacocca, fiquei com vontade de ser um pobre imigrante italiano para dar a volta por cima, despejando rancor e bílis em cima do mundo malvado. Já o Akio Morita me fez querer ter nascido no Oriente para poder andar a 180 quilômetros por hora com cara de quem está participando de uma cerimônia de chá.

Enfim, não vai dar para partir de nenhum empurrão ambiental como estes. Vou ter que me ater a fatos bem menos cinematográficos, e dificilmente o leitor fará uso do lencinho que preparou para as passagens emotivas.

Na maternidade

Nasci no mês de junho. Mantive minha mãe em trabalho de parto durante catorze horas. Meu pai dizia que eu era facilmente reconhecido no berçário pelo berreiro ininterrupto. Os outros bebês chamavam as enfermeiras para elas arrumarem uns soníferos para eu deixar de encher o saco. Ou seja, parece que já comecei não agradando muito. Com o passar dos anos, fui descobrindo que esta minha característica não era passageira.

Junho. Junho é mês de Gêmeos. Gêmeos é um signo difícil de aturar. Como o nome indica, nunca faz uma coisa só de cada vez. Demorou muitos anos para minha mãe se conformar com a idéia de que assistir televisão, colocar fones de ouvido e estudar um livro de Química, tudo ao mesmo tempo, era razoável. Não é necessário dizer que as notas de Química eram péssimas.

Dirigir, então, devia ser proibido para quem é do signo.

Olhar anúncios novos, pensar na mudança do tempo e ler o jornal enquanto dirijo faz com que eu descubra de vez em quando que estou indo para o Guarujá pela Via Dutra. Quando me mudei, a senhora que ficou na minha casa antiga me ofereceu um cafezinho nas duas ocasiões em que estacionei na garagem dela, esquecido de que eu já havia feito a minha mudança.

Bem, estávamos na Maternidade São Paulo. De lá, fui transferido para uma casa na Avenida República do Líbano, onde morei com a família até que fosse desapropriada pelo prefeito Paulo Maluf para virar ponto de prostituta. Não tenho certeza se era esse o intuito do prefeito, mas foi no que deu. Às vezes penso que foi a mesma coisa que aconteceu com o Brasil no meio tempo.

A minha infância parecia ser insuficiente para alimentar meus desejos. Assim, onde o desejo não era correspondido, eu fazia corresponder. Uma professora chamou meus pais ao colégio para dizer que eu estava perturbando a ordem. Quando um amiguinho meu queria um brinquedo que seus pais não tinham lhe dado, eu o confortava com a informação de que meu pai estava para viajar à Lua, e que poderíamos

MEMÓRIAS DE UM VELHINHO DE 28 ANOS acompanhá-lo. Parece que acalmava o rapagote por algum tempo, mas perturbava a professorinha.

O mesmo aconteceu quando eu decidi que era hora de ter uma irmãzinha e isto não coincidia com os planos de meus pais. Foi facilmente resolvido: comuniquei a todo o jardim de infância que minha pequena irmã estava a caminho. Isto acalmou meus ânimos, mas não o dos meus pais, que provavelmente ficaram com cara de estéreis aos olhos de meus coleguinhas de classe.

Talvez meus pais não soubessem na época, mas teriam um contato mais íntimo com meus professores do que haviam imaginado. Um tópico aparentemente interessante nessas conversas era o das notas. Nunca iam além do mínimo necessário para passar. Boa parte da razão para isto vinha da questão da lição de casa. Sempre achei que já era suficiente me manterem encarcerado das 8 da manhã às 3 da tarde — só faltava quererem que eu ainda estudasse em casa. O que me salvou em todos os anos do colégio foi que vários professores no fundo (bem no fundo) achavam que as crianças precisavam de mais tempo para serem crianças. Assim, muitos deles faziam vista grossa para aqueles que não eram entusiastas da lição de casa. Quando não havia compreensão ideológica e disciplinar dos professores para esta falha, eu passava a contar com a suprema solidariedade do ser humano — copiava a lição dos outros no ônibus a caminho da escola.

O pessoal da minha classe que andava no meu ônibus já sabia — era só eu entrar e já estendiam a mão com o caderno.

Do boletim, então, nem se fala. Tinha um campo para comentários do professor. As frases invariavelmente mencionavam minha distração, excesso de conversas no fundão da sala e preocupação com tudo, menos moléculas, raiz quadrada e Machado de Assis. Ora bolas, era um problema de currículo. Se houvesse disciplinas como "História Geral dos Beatles" ou "Educação Moral e Cívica com a Brigitte Bardot", eu teria tido notas muito melhores.

Havia um professor de primário, um certo sr. Carmo, que sabia o valor da liberdade. Ele deixou que um colega e eu fizéssemos um pequeno forte apache para dois no canto da sala de aula. Vários artefatos de madeira e aço foram usados para selar a pequena área, que continha nossas duas carteiras. De lá assistíamos à aula através de uma janela que subia para esse propósito. Tudo funcionou muito bem até o dia em que resolvemos baixar a janela bem no meio de uma aula que achávamos pouco interessante. Foi assim que percebemos que o exercício da democracia parece ter uma correlação com a opressão.

Mas toda instituição tem seus subversivos, e assim era também no caso dos pais e mestres. Uma das mães foi convencida por nós de que o almoço da escola não fazia justiça aos nossos apetites sofisticados. Fundou-se assim o Clube Gourmet. Pulávamos a cerca dos fundos da escola durante a última aula antes do almoço, e o motorista desta mãe subversiva estava aguardando para nos levar para nadar na piscina dela e almoçar em sua casa. Isto funcionou bem até o dia em que dois diretores da escola estavam nos esperando na volta. Nossa coerente explicação de que estávamos todos fazendo uma lição de casa especial em conjunto parecia conflitar com os cabelos molhados.

Enfim, acho que vem deste período todo meu respeito pela desobediência civil e pela liberdade.

Adolescendo

Uma das fases felizes de minha vida foi a do rock'n'roll.

O primeiro conjuntinho partiu de um violão eletrificado e uma bateria que compramos na Rua Aurora. Quando chegamos em casa com a nova aquisição, percebemos que nenhum de nós sabia montar a geringonça. Tivemos a boa idéia de procurar num gibi americano — Os Archies — onde um dos personagens tocava bateria. Observando os vários quadrinhos do gibi, montamos a danada e ensaiamos durante meses.

MEMÓRIAS DE UM VELHINHO DE 28 ANOS

Muitos anos mais tarde percebemos que o personagem daquele gibi era canhoto, e que havíamos tocado todo aquele tempo com a bateria ao contrário. Uma aula sobre os riscos da cópia.

Foram anos de cabelo comprido e rabo-de-cavalo. Anos em que fotos que minha mãe mostrava às visitas davam a entender que ela tinha duas filhas, e não um casal. A paciência de meus pais era grande. Na medida em que a coisa avançava, o conjunto ficava maior e mais barulhento. O terraço em cima do apartamento tinha virado o estúdio do conjunto, e chegamos a ter lá dezenas de caixas de som e instrumentos, num total superior a 3 0 watts. Depois do almoço de sábado e domingo, meus pais colocavam algodão no ouvido e iam dormir. O conjunto musical é uma aula de trabalho em equipe. Marcou muito a idéia de que cada um sozinho pode até virar estrela se quiser, mas que o mérito está no que se faz quando todos tocam a mesma partitura.

Essa fase do cabelo comprido gerou um incidente engraçado. Havia um programa de televisão chamado Perdidos no Espaço. Eu era muito parecido com o pequeno astro da série, o Will Robinson. Quando ele fez um filme, já com dezesseis anos de idade — Abençoai as Feras e as Crianças —, fomos com uma turma assisti-lo no Guarujá. Durante a sessão, percebemos que o ator e eu, que tínhamos a mesma idade, éramos extraordinariamente parecidos. Quando saímos do cinema, meus "amigos" começaram a gritar: "Olha o Will Robinson!" Passei quase uma hora distribuindo autógrafos à fila que se formou. Aprendi que não há nada tão fácil quanto alimentar a vaidade própria à custa do sucesso dos outros.

A aula do esporte

Para mim, o atletismo foi uma aula de vida. Praticava 100 metros rasos, 400 metros e salto em altura. Na corrida de

100 metros rasos, aprendi duas coisas. Primeiro, a sensação de liberdade absoluta, de que o mundo todo vai ficando para trás se você se dispuser a decolar. Segundo, quando alguém passa à frente e o vence, a sensação de que apenas dois décimos de segundo separam a glória da derrota.

Nos 400 metros perdi muita corrida saindo rápido demais e ficando sem fôlego no fim. Houve um evento que me marcou muito. Foi uma final de campeonato de atletismo no Clube Pinheiros. Estava com a adrenalina à toda e decidido a ganhar. Aquilo me subiu à cabeça, e, quando a pistola soou, tomei a dianteira. Estava na pista interna, que começa mais atrás. Corri com velocidade suficiente para estar à frente já depois de 100 metros. A sensação que tive foi a de estar vencendo a corrida por antecipação. Virei a curva para entrar nos últimos 100 metros com uma vantagem substancial sobre os outros sete concorrentes. Uma força incrível parecia ter desabrochado dentro de mim, como se algo estivesse esperando para se soltar — um pássaro deve se sentir assim. Naquele momento comecei a sentir as pernas um pouco bambas e desligadas do resto do corpo. Faltando cerca de 50 metros, fui tomado por uma sensação de pânico ao perceber que não controlava mais minhas pernas. Elas cederam e fui caindo, lentamente, enquanto via um corredor após outro me passar. Fiquei quinze ou vinte minutos ofegante, num estado que era meio termo entre acordado e desacordado. Parecia um pesadelo ao vivo e em cores — tudo girava incessantemente.

Hoje em dia, quando vejo empresários expandindo em enorme velocidade, lembro-me desse evento. Sair com grande velocidade e ser líder do páreo por 80 por cento do percurso não é difícil. O difícil é ser um dos primeiros a chegar. Ou, ao menos, chegar.

O salto em altura foi o esporte que pratiquei com mais seriedade. Durante dois anos e meio treinei durante duas horas diárias, depois da escola. Todos os meus amigos jogavam bola e tentavam me incentivar a fazer o mesmo. Acontece que eu

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