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Paulo Sérgio de Vasconcellos

Objetivo/ALPRO – São Paulo 1998 Editora SOL

Índice

Faetonte e o carro do Sol Orfeu e Eurídice Narciso Prometeu, o primeiro benfeitor da humanidade Teseu e o Minotauro, Dédalo e Ícaro As aventuras de Hércules –O nascimento e a primeira façanha do herói

–Os doze trabalhos de Hércules – I

–Os doze trabalhos de Hércules – I A guerra de Tróia –As origens da guerra de Tróia

–A ira de Aquiles

–A morte de Heitor

–O calcanhar de Aquiles

–O cavalo de madeira e o fim de Tróia O retorno de Odisseu –Odisseu e o ciclope

–Na ilha da feiticeira Circe

–Odisseu vai ao reino dos mortos

–Os novos perigos da viagem

–A chegada de Odisseu e o massacre dos pretendentes Os deuses gregos –Genealogia divina – Os principais deuses

–A soberania de Zeus e sua esposa Hera

–Afrodite e Ártemis, a deusa do amor e a virgem caçadora

–Ares e Dionisio

–Apolo e Palas Atena

–Hermes e Hefesto

–Deméter e Possêidon, divindade da terra e do março Questionários Respostas

Os mitos gregos estão por toda parte ainda hoje. Estas narrativas, que um dia povoaram não só a imaginação como também a vida cotidiana de todo em povo, perduraram no tempo e ainda hoje fascinam escritores, cineastas, escultores, psicólogos, antropólogos, etc, etc. Pode-se fazer delas o uso mais variado, mas é curioso que guardam, em si mesmas e por si mesmas, um interesse inabalável para os leitores comuns, pessoas que sempre sentirão prazer em mergulhar na poesia de deuses nada perfeitos, cheios de defeitos muito humanos, ninfas que definham de amor por mortais, heróis que redimem a humanidade, vozes encantadoras de sereias, monstros brutos de um olho só, derrotados pela inteligência do homem. Os estudiosos podem tentar analisar os mitos como forma primitiva de explicação racional do universo, como ciência ingênua e rudimentar; outros podem vêlos como projeção de nossa vida inconsciente, etc. - o mito sobrevive a qualquer tentativa reducionista de enquadrá-lo em termos que não são os seus, reduzi-lo a alguma “chave” que supostamente o desvende – ele sobrevive inatingível, com o impacto de sua força narrativa. “O mito é o nada que é tudo”, já disse Fernando Pessoa, criador de mitos, como todo poeta.

Este livro reconta alguns mitos do vasto repertório de histórias da Grécia antiga, pensando no leitor leigo das nossas escolas de ensino fundamental, em especial os da quinta à oitava série.

Tentamos auxiliá-lo a se iniciar nesse universo, à primeira vista de difícil aproximação para os mais jovens, empregando linguagem mais simples, sem subestimar, porém, sua capacidade, acrescentando notas explicativas e exercícios de fixação dos conteúdos lidos. Sempre que possível, entretanto, fomos a alguma fonte da Antiguidade, por vezes quase traduzindo esse original: Ovídio, na história de Faetonte, Virgílio, na narrativa da queda de Tróia, etc. Assim, o leitor conhecerá, aqui, algumas versões que grandes poetas elegeram para contar mais uma vez a mesma história (já que o mito é sempre recontado, modificado, nunca exatamente o mesmo, a cada narrativa filtrado pela visão especial de cada artista). Como são pretendemos fazer obra de referência, geralmente evitamos acumular várias versões da mesma história ou aborrecer os jovens com eruditismos desnecessários.

Se o leitor se sentir atraído por esse universo no que ele tem de mais fundamental, a beleza de cada conto, seja qual for o uso que se faça dele, estaremos satisfeitos. E quem sabe o nosso leitor passe, então, a perceber como seu dia-a-dia moderno está repleto de evocações daquele mundo que subsiste vivíssimo mesmo depois de sua civilização material se encontrar reduzida a pobres ruínas.

Por fim, agradeço ao professor Francisco Achcar por muitas sugestões e correções; este livrinho certamente se enriqueceu com suas observações ou, pelo menos, livrou-se, com elas, de não poucas imperfeições.

Faetonte e o carro do sol

O Sol tirou da cabeça os raios que brilhavam para poder abraçar o filho. Depois de tê-lo

O jovem Faetonte, criado pela mãe desconhecia quem fosse seu pai. Um dia, ela lhe contou quem ele era: o Sol. Desejando comprovar se a revelação era verdadeira, Faetonte foi até a morada daquele astro, um palácio brilhante de ouro, prata e marfim. Depois de narrar o acontecido, disselhe: –Ó luz do mundo imenso, se minha não está mentindo, dê-me uma prova de que sou mesmo seu filho! Acabe de uma vez com essa minha dúvida! abraçado, disse: –Para que não tenha dúvida de que sou seu pai, peça o que quiser, e eu lhe darei. Juro pelo rio dos

Infernos, o Estige. Esse é o juramento que obriga os deuses a cumprirem sua palavra.

Faetonte, então, pede ao pai que lhe deixe guiar seu carro, que era puxado por cavalos alados (que tem asas). O pai se arrependeu da promessa, mas não podia voltar atrás. Tentou fazer o filho desistir da idéia: –Você é um mortal e o que está pedindo não é para mortais. Só eu posso dirigir o carro que leva o fogo do céu. Nem Zeus (pai e o rei dos deuses, veja quadro de genealogia) poderia fazer isso. Que espera encontrar nos caminhos do céu? Você passará por muitos perigos: os chifres da constelação de Touro, o arco de Sagitário, a boca do Leão. Além disso, há os cavalos, difíceis de domar, soltando fogo pela boca e pelas ventas (ventas=nariz). Peça outra coisa, filho, e se mostre mais sensato nos seus desejos.

Mas Faetonte não queria ouvir os conselhos do pai, que foi obrigado a satisfazer àquele pedido. Levou o rapaz ao carro. Era todo feito de ouro, prata e pedras preciosas. Faetonte olhou-o cheio de admiração.

Eis que no Oriente a Aurora começou a tingir o céu de rosa. O Sol ordena às Horas velozes que atrelem (atrelar=prender) os cavalos ao carro. Depois, passa uma pomada divina no rosto do filho, põe os raios ao redor da sua cabeça e profere estas recomendações: -Não use o chicote e segure as rédeas com firmeza. Os cavalos correm espontaneamente; o difícil é controlá-los. Cuidado para não se desviar da rota. Nem desça nem suba muito alto. Céu e terra devem suportar o mesmo calor, por isso vá entre um e outra.

Faetonte se instalou no carro, ligeiro ao suportar o peso de um jovem. Os cavalos alados do

Sol partiram, enchendo o ar com seus relinchos de fogo. Mas como praticamente não sentiam nenhum peso nem força nas rédeas, puseram-se a correr à vontade, para fora do caminho habitual. O carro ia para cima e para baixo, provocando grande confusão entre os astros.

Ao olhar do alto do céu para a terra, Faetonte empalideceu e seus joelhos tremeram de pavor. Já se arrependia do que pedira ao pai. Que fazer? Tinha um espaço infinito de céu às suas costas, outro tanto diante dos olhos. Não largava as rédeas, mas era incapaz de segurá-las com firmeza.

De repente, assustando-se à vista do Escorpião, Faetonte largou as rédeas. Os cavalos correram a toda velocidade por regiões onde jamais o carro do Sol tinha estado. A lua se espanta de ver os cavalos correndo abaixo dos seus. As montanhas mais altas da terra são as primeiras vítimas das chamas. Depois, o solo se fende, as águas secam, o verde se queima. Cidades inteiras, com sua gente, viram cinza. Foi naquela época, dizem, que os povos da África passaram a ter cor negra.

Faetonte vê o mundo se abrasar nas chamas do carro do Sol e não sabe que fazer. Ele mesmo mal pode suportar calor. Foi então que a Terra, esgotada pela seca, ergueu sua voz sagrada: –Se eu fiz por merecer isso, ó Zeus, mais poderoso dos deuses, por que não lanças teus raios contra mim? Se devo morrer pelo fogo, que seja ao menos por meio do teu! Já o mundo todo parece pronto para voltar ao caos original. Livra das chamas o que ainda resta. Preocupa-te em salvar universo! O pai dos deuses, então, ouvindo aquela súplica, lança um raio contra Faetonte. O jovem, com os cabelos em chamas, tomba do céu, deixando no ar um traço de fogo, como uma estrela cadente. Ninfas (ninfas=divindades dos bosques, das águas e dos montes) recolheram seu corpo e o sepultaram. Como epitáfio (Epitáfio=inscrição posta em túmulo), escreveram estas palavras: –Aqui jaz Faetonte, cocheiro do carro paterno. Não conseguiu dirigi-lo, mas morreu num ato de grande ousadia.

O pai de Faetonte ficou desolado. Dizem mesmo que durante um dia todo não houve sol sobre a terra.

Orfeu e Eurídice

Fugindo de um homem que a perseguia, a ninfa Eurídice pisou numa serpente venenosa oculta na relva. O réptil a picou no calcanhar, e ela desceu ao reino dos mortos, deixando inconsolável seu marido. Orfeu, poeta, músico e cantor, sempre empunhando a lira ou a cítara, era um artista insuperável. Com seu canto, os animais ferozes se tornavam pacíficos e o seguiam, as rochas se moviam, as árvores inclinavam as copas (copa=a folhagem da parte superior das árvores) em sua direção, os homens se acalmavam. Mas a dor pela perda da esposa foi tal que ele, fugindo do convívio humano, na solidão, só conseguia pensar em Eurídice. Sua música, agora triste, só cantava o amor por Eurídice. Por fim, resolveu descer ao sombrio Hades (Hades=o reino dos mortos; era também o nome do deus que reinava sobre essas regiões) para tentar trazê-la de volta.

Em meio às sombras e deuses das regiões subterrâneas, Orfeu fez ecoar a música de sua lira.

Nos infernos, Sísifo tinha sido condenado a rolar montanha acima uma pedra que, no alto, voltava a cair, obrigando-o a recomeçar a tarefa eternamente. Mas, com aquela música, como que por encanto a pedra de repente ficou parada, sem ninguém a segurar. Tântalo, como punição dos deuses, sedento e faminto, tinha sempre diante de si água e comida, que, porém, nunca conseguia alcançar. Mas, ao som da lira de Orfeu, esqueceu-se da fome e sede eterna. As Danaides tentavam encher de água um tonel furado; a música encantadora as fez descuidar da tarefa ingrata. Cantando o amor a Eurídice e a perda da esposa, comoveu a todos os habitantes do mundo infernal. Até mesmo de Hades, que tinha um coração de ferro, arrancou lágrimas.

Hades e Perséfone, os deuses infernais, concederam, então, que Orfeu levasse Eurídice volta à vida, com uma condição: na ida em direção à luz do dia, ele não deveria, de maneira nenhuma, olhar para trás antes de deixar o mundo das sombras.

Eis que Eurídice acompanha silenciosa Orfeu, rumo à superfície da terra. Vão regressando daquelas regiões escuras, povoadas pelas dos mortos. Percorrem um caminho abrupto (abrupto=ingrime, difícil), em meio a trevas e uma névoa espessa. E a luz já se aproximava, quando, tomado de intenso amor e esquecido da condição que lhe impuseram, Orfeu resolveu olhar para a sua Eurídice...Ouve-se um estrondo espantoso, e Eurídice diz ao esposo: –Que loucura foi essa que perdeu a mim e a ti, Orfeu? Já de novo os destinos cruéis me chamam e o sono começa a cerrar meus olhos. É hora de dizer-te adeus. A noite imensa me circunda e ergo em vão para ti as minhas mãos enfraquecidas.

Disse isso e desapareceu como fumaça nos ares. Orfeu ficou desesperado, pois sabia que sua música não poderia dobrar (dobrar=fazer ceder, tornar transigente) os deuses infernais: eles jamais se abrandavam com as súplicas humanas. Era impossível lutar contra suas duras leis. Por todo o resto e seus dias, sem descanso, sem trégua à dor, Orfeu cantou o amor por Eurídice, que perdera para sempre num descuido fatal*.

•O mito de Orfeu e Eurídice tem fascinado a imaginação dos artistas através dos tempos. No cinema, dois famosos filmes o trataram. Um é o do francês Jean Cocteau (pronuncie jã coctô), de 1949, em que Orfeu é um poeta da Paris contemporânea. O outro é Orfeu Negro, do também francês Marcel Camus (não pronuncie o s final; quanto ao u, representa um som intermediário entre /u/ e /i/ ). Este último filme, uma produção de 1959, foi rodado no Rio de Janeiro e é baseado em texto de Vinícius de Moraes, que também compôs, com Tom Jobim e Luís Bonfá, a trilha sonora. Aqui, Orfeu é um sambista carioca. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Narciso

Quando Narciso nasceu, sua mãe, uma ninfa belíssima, consultou o adivinho Tirésias para saber se aquele filho de extraordinária beleza viveria até o fim de uma longa velhice. Pareceram sem sentido as suas palavras: –Sim, se ele não chegar a se conhecer.

Narciso cresceu, sempre formoso. Jovem, muitas moças e ninfas queriam o seu amor, mas o rapaz desprezava a todas. Um dia, Narciso caçava na floresta quando a ninfa Eco o viu. Eco, por causa de uma punição que Hera (Hera=na mitologia latina, Juno, rainha dos deuses) lhe infligira, só era capaz de usar da voz para repetir os sons das palavras dos outros. Ao se deparar com a beleza de Narciso, a ninfa se apaixonou por ele e se pôs a segui-lo. Quando resolveu manifestar o seu amor, abraçandoo, Narciso a repeliu. Desprezada e envergonhada, Eco se escondeu nos bosques com o rosto coberto de folhagens. O amor não correspondido a foi consumindo pouco a pouco, até que, depois de reduzida pele e osso, seu corpo, se dissipou nos ares. Restou-lhe, apenas, a voz e os ossos, que, segundo dizem, tomaram a forma de pedras.

Um dia, uma das muitas jovens desprezadas por Narciso, erguendo as mãos para o céu, disse: –Que Narciso ame também com a mesma intensidade sem poder possuir a pessoa amada!

Nêmesis, a divindade punidora do crime e das más ações, escutou esse pedido e o satisfez. Havia uma fonte límpida, de águas prateadas e cristalinas, de que jamais homem, animal ou pássaro algum se tinham aproximado. Narciso, cansado pelo esforço da caça, foi descansar por ali. Ao se inclinar para beber da água da fonte, viu, de repente, sua imagem refletida na água e encantou-se com a visão. Fascinado, quedou (quedar=ou quedar-se, deter-se, ficar parado) imóvel como uma estátua, contemplando seus próprios olhos, seus cabelos dignos de Dioniso (Dioniso=na mitologia latina, Baco, deus do vinho) ou Apolo, suas faces lisas, seu pescoço de marfim, a beleza de seus lábios e o rubor que cobria de vermelho o rosto de neve. Apaixonou-se por si mesmo, sem saber que aquela imagem era a sua, refletida no espelho das águas. Nada conseguia arrancar Narciso da contemplação, nem fome, nem sede, nem sono. Várias vezes lançou os braços dentro da água para tentar inutilmente reter com um abraço aquele ser encantador. Chegou a derramar lágrimas, que iam turvar a imagem refletida. Desesperado e quase sem forças, foram estas suas últimas palavras:

–Ah!, menino amado por mim inutilmente! Adeus!

O lugar em que estava fez ecoar o que dissera. E quando proferiu “Adeus!”, Eco também disse “Adeus!”. Em seguida, esgotado, Narciso se deitou sobre a relva, e a Noite veio fechar seus olhos. Dizse que, nos Infernos, Narciso continua a contemplar sua imagem refletida nas águas do rio Estige. As ninfas, juntamente com Eco, choraram tristemente pela morte de Narciso. Já preparavam para o seu corpo uma pira quando notaram que desaparecera. No seu lugar, havia apenas uma flor amarela, com pétalas brancas no centro.

(Narciso é outro mito que reaparece constantemente nas artes. Em Sampa, de Caetano Veloso, há esta passagem, na qual o poeta descreve a primeira impressão negativa que teve ao ver a cidade de São Paulo:

não vi o meu rosto,
chamei de mau gosto

“Quando eu te encarei frente a frente, o que vi, de mau gosto, mau gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho...”

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