Guia do Ilustrador

Guia do Ilustrador

(Parte 1 de 11)

Ricardo Antunes com revisão de:

Angelo Shuman, Benício, Eduardo Schaal,

Gonzalo Cárcamo, José Alberto Lovetro/Jal,

Kako, Montalvo Machado, Mozart Couto, Orlando Pedroso e Rogério Vilela

(Inclui trechos e adaptações autorizadas do “Manual do Estagiário” de Eugênio Mohallem) revisão jurídica de Dr. Eduardo Pimenta

O Guia do Ilustrador é um documento elaborado por 1 ilustradores profissionais (além da ajuda extra de outros 4 profissionais).

Completamente gratuito, compartilha décadas de experiência para ajudar os ilustradores a se tornarem melhores profissionais, mais bem organizados e unidos.

É um Guia bastante prático de sobrevivência na selva. Por enquanto este Guia estará disponível na internet somente em sua versão PDF.

No futuro poderá haver uma versão impressa, e quem sabe assim uma versão ilustrada.

Tentamos fazer um Guia o mais completo possível, no entanto sempre podem surgir informações adicionais ou notícias atuais de interesse geral, e estas informações extras irão constar no site oficial do Guia.

Por isso consulte o site periodicamente, dessa forma o Guia do Ilustrador e o site oficial serão duas ferramentas importantes de ajuda no seu trabalho.

w.guiadoilustrador.com.br

1- INTRODUÇÃO

1- INTRODUÇÃO

Minha mãe dizia que eu tinha jeito para desenho, e resolvi tentar ganhar dinheiro com isso...

Normalmente é assim que muitos ilustradores começam a carreira, e muitos se deram bem, o que leva a crer que, na maior parte das vezes as mães estão mesmo certas.

Mas ser ilustrador não depende só da vontade, do talento e do empurrão inicial da mãe, depende também de dedicação, de persistência e paciência, de muito estudo, da necessidade de ler e ver muito sobre arte, cinema, literatura, cultura geral, além de conhecimento teórico e prático do rabisco.

No entanto, revendo a profissão de ilustrador de 50 anos para cá, se percebe que a evolução das técnicas permitiu uma facilidade crescente no trabalho: nos anos 40/50 para trás era a tinta óleo e o guache, tudo no pincel; nos anos 70/80 veio em força a ajuda do aerógrafo; e no meio dos anos 90 o computador.

Ahhho computador! Enquanto o aerógrafo era a tábua de salvação de muitos ilustradores

no passado, o computador então se tornou questão de vida ou de morte para alguns hoje em dia, pois a facilidade e os diversos programas e filtros permitem que cada vez mais pessoas expressem o que quiser, mesmo sem nunca antes ter pego em um lápis na vida.

Isso permitiu a entrada rápida de muita gente nesse mercado, queimando etapas, fazendo com que muitos ilustradores entrem na área quase como um Miojo, de forma instantânea, muitas vezes sem qualquer conhecimento sobre o assunto, ou então profissionais que por puro acidente não tiveram o acesso necessário à informação para uma melhor formação teórica e prática.

Para agravar a situação, a profissão do ilustrador não é regulamentada. Em termos jurídicos ela simplesmente não existe, e conseqüentemente não existem também escolas, faculdades ou cursos de formação profissional de ilustrador. Apenas cursos de arte onde se ensinam as técnicas de desenho e pintura, sem nunca se falar da postura profissional.

Assim, o início de todos os ilustradores, todos sem exceção, se dá de forma amadora e improvisada, devido à mais absoluta falta de orientação profissional.

E dessa situação, depois de muita conversa entre centenas de ilustradores, se percebeu a necessidade de um guia. Algo que servisse para orientar os iniciantes, dar mais embasamento para os que já estão há algum tempo no mercado e estabelecer uma relação mais homogênea entre todos os profissionais.

Esse guia, no entanto, não tem a intenção de servir de regra ou lei em que todos deveriam seguir religiosamente feito monges enclausurados, chicoteando as costas ao menor desvio. Será apenas isso, um guia, onde cada um tem a liberdade de trabalhar como quiser, mas agora consciente do que pode ou não ser adequado.

Espero que assim, somado ao talento, os ilustradores possam ser um grupo mais unido, coeso e informado.

Ricardo Antunes

2- O QUE É ILUSTRAÇÃO?

A definição geral que se poderia encontrar em dicionários é que ilustração é toda imagem, desenho ou foto, que serve para ilustrar algo, normalmente um texto, de forma a facilitar a sua compreensão.

Foto? Sim, foto também é uma imagem, e consequentemente pode servir para ilustrar algo, portanto também é uma ilustração. Mas com o tempo, e para se evitar confusões, convencionou-se chamar "foto" de foto mesmo, e "ilustração" passou a designar o desenho, independentemente da técnica de acabamento.

Assim, foto e ilustração servem mesmo para se acompanhar um texto ou servir de complemento de informação.

É diferente de uma pintura ou de uma obra de arte, como há em galerias, em paredes e exposições, porque serve a um propósito, a uma solicitação, um cliente, ou para comunicar uma idéia ou conceito através de uma linguagem não-verbal.

A diferença da obra de arte, ou fine arts, como alguns chamam, é que nas artes plásticas a obra não necessita de um propósito específico, é algo interpretativo, e muitos artistas realmente contam com a sensibilidade do espectador para que ele interprete como quiser. A comunicação é mais receptiva do que transmissiva.

Na ilustração é o contrário, existe uma mensagem clara e definida, que precisa ser comunicada e recebida conforme o ilustrador a concebeu. Podem haver metáforas, comparações, sínteses, mensagens subliminares, e até um certo nível de mensagem cifrada, códigos de comportamento ou regionalismos, um "sotaque" entre aspas, mas o artista neste caso quer que o espectador entenda o que ele quis dizer.

Mas o fato da ilustração ser feita sob encomenda não significa que não seja uma obra de arte, é apenas uma outra forma de expressão dentro das artes plásticas.

Algumas das mais belas obras de arte universal são, na verdade, ilustrações de livros. As gravuras de Gustave Doré são ilustrações para a Divina Comédia de Dante. Botticelli também havia feito ilustrações para o mesmo livro muitos anos antes, assim como William Blake e Salvador Dali, em versões mais recentes.

Desde os pergaminhos egípcios, passando pelo Livro de Kells até as histórias em quadrinhos atuais feitas por Bill Sienkiewicz são exemplos de artes plásticas do mais alto nível.

Toulouse Lautrec e Alphonse Mucha eram ilustradores, receberam encomendas, todas com briefing, e hoje tudo o que produziram estão entre as mais belas obras de arte.

Portanto, a ilustração é uma forma de expressão artística que existe para comunicar, complementar textos e tornar a vida bem mais atraente.

3- GUIA DO ILUSTRADOR

Há uma característica muito forte na carreira do ilustrador que pouquíssimas profissões têm: todas os ilustradores, sem exceção, acabam optando por essa carreira acima de tudo por paixão.

Só isso já é meio caminho andado para uma carreira bem sucedida, mas é importante haver uma base sólida para que essa paixão não se perca pelo caminho.

Não adianta esconder, a carreira de ilustrador, tal como qualquer outra nos dias de hoje, sofre diversos tipos de pressão e dificuldades, no entanto um profissional bem formado terá mais chances de ser bem sucedido, e para isso é necessário que se prepare muito antes de se lançar no mercado.

Essa preparação passa por vários contextos: é preciso antes de mais nada cuidar de uma boa formação teórica e prática.

Tomar gosto por artes plásticas, literatura, cinema, teatro, quadrinhosa formação

COM UM PÉ NAS ARTES cultural de um ilustrador será preciosa durante a sua carreira, pois como se verá mais adiante o ilustrador não é só aquele rapazinho bom de lápis que sabe pintar um pouco. Será necessário pensar, criar e conceber bem idéias, muitas vezes complementando a criação de outros.

Tudo isso só será possível através de uma formação cultural sólida.

Cursos de formação, workshops, palestras, tudo isso ajuda. Acompanhar a carreira de ilustradores profissionais também, que servirão sempre como grandes exemplos, aliás isso é uma constante mesmo entre os que já estão firmados no mercado, a troca de informação entre profissionais é sempre frequente e enriquecedora para todos.

Assim, com certeza o futuro profissional do ilustrador será fortalecido e receberá uma injeção de vitalidade constante, fazendo com que a profissão seja sempre algo prazeiroso, apesar das dificuldades naturais de qualquer carreira.

Ter toda essa formação cultural, intelectual e artística dará ao ilustrador a segurança de ser um bom profissional e a possibilidade de se destacar no mercado, visto que hoje em dia o computador tem nivelado por baixo o padrão de qualidade de muitos ilustradores iniciantes (e muitos que já estão no mercado).

O computador é uma excelente ferramenta, mas não vai fazer tudo por você, não vai criar talento por você, e acima de tudo, não vai pensar por você. Infelizmente muitas vezes não é bem isso o que se vê por aí...

Começar a carreira de ilustrador é quase tão difícil quanto arrumar vaga de astronauta na Nasa. E a vida dos astronautas é mais fácil, porque o Universo é infinito, enquanto que trabalhar em ilustração a concorrência é enorme, por isso não bobeie e muita atenção ao Primeiro e Fundamental Mandamento do Ilustrador Iniciante.

Não seja mala. A menos que você queira uma vaga na Samsonite. O mercado onde se utiliza a ilustração é um mundinho pequeno, uma área onde todos se conhecem. Se o rótulo de "mala" grudar em você e se espalhar, você estará acabado antes de começar.

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