Percepções do graduando de enfermagem sobre a dimensão humana no seu aprendizado

Percepções do graduando de enfermagem sobre a dimensão humana no seu aprendizado

(Parte 2 de 3)

Passei a respeitar mais os colegas e professores (Camila). Por meio do estágio na disciplina Saúde

Mental, pode-se notar que as alunas Josefa, Maria e Camila sentiram-se estimuladas e interessadas na medida em que perceberam a importância de se ter uma visão psicológica do ser humano, bem como aprimorar suas relações interpessoais, demonstradas pela satisfação em ter aprendido a desenvolver o relacionamento terapêutico. Na medida em que as pessoas passam a compreender a subjetividade do outro, aprimorando suas relações interpessoais, percebe-se também a importância do respeito nas relações, que é, sem dúvida, parte fundamental para a compreensão do outro. Compreender inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e projeção. Sempre intersubjetiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade (4).

Destaca-se esse processo de empatia, de identificação e projeção pelas falas dos sujeitos.

Esse estágio foi muito interessante, pois houve um envolvimento com o paciente e criamos um vínculo (Manolo).

Ao passar por essa vivência, aprendi a enxergar melhor o lado subjetivo das pessoas (Rafaela).

Aprendi muito, porque houve mudança na minha maneira de olhar as pessoas e ver que as mesmas também têm emoções (Roseli).

A incompreensão de si é fonte importante de incompreensão do outro. No momento em que se passa a compreender a si mesmo, entra-se em contato com nossa subjetividade, por meio da prática mental do auto-exame permanente, descobre-se que se é um ser falível, frágil, insuficiente, carente. Descobre-se que todos necessitam de mútua compreensão(4). O ser humano necessita compreender melhor a si mesmo e ao outro, pois quando se entende o outro e a si próprio, o relacionamento torna-se mais espontâneo e efetivo(8).

A frase a seguir mostra que a aluna permitiuse a prática mental do auto-exame, um dos objetivos da disciplina Saúde Mental.

Mudou muito minha maneira de viver, pois fui uma pessoa antes do estágio prático e agora procuro ser outra pessoa me preocupando com sentimentos do paciente, pois é muito importante, e até mesmo fundamental para sua melhora (Sônia).

A compreensão do outro requer a consciência da complexidade humana. Diante disso, é importante que se esteja aberto para o outro e que se tente interiorizar a tolerância, ou seja, capazes de aceitar a expressão de idéias, convicções, escolhas contrárias às proprias. Na medida em que se sintoniza com o outro em alto grau de empatia, o ser humano tornase realmente compreensivo(8). O planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensões mútuas. Eis então a importância fundamental da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em todas as idades(4).

A disciplina Saúde Mental, no campo de estudo em questão, oferece sua contribuição fundamental na medida em que proporciona a digna tarefa na compreensão do outro.

Respeito humano: a importância de ouvir

Ouvir é renunciar. É a mais alta forma de altruísmo, em tudo quanto essa palavra signifique de amor e atenção ao próximo. Talvez, por essa razão, a maioria das pessoas ouve tão mal, ou simplesmente não ouve(9).

Nossa tendência a fragmentar é mais forte que a necessidade de integrar. Não se sabe ouvir. Quando alguém fala, em vez de se escutar até o fim o que ele tem a dizer, logo se começa a comparar o que está sendo dito com as próprias idéias e referenciais prévios. O processo mental é chamado de automatismo concordo-discordo(10). Para ouvir até o fim, sem concordar nem discordar, são atos extremamente difíceis para todos. Esse automatismo concordo-discordo funciona da seguinte maneira: quando o interlocutor começa a falar, de imediato o ouvinte assume duas atitudes: a) “já sei o que ele vai dizer e concordo; portanto, não vou perder tempo continuando a ouvi-lo”; b) “já sei o que ele vai dizer e discordo; assim, não tenho por que ouvi-lo até o fim”. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: nega-se a quem fala a capacidade ou a possibilidade de dizer algo de novo, o que, na prática, pode corresponder à negação de nossa própria existência(10).

Enquanto se ouve, é importante ter consciência do que se sente. É preciso que se esteja

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Online atento às próprias reações ao que se ouve, pois a comunicação é fundamentalmente determinada pela percepção de quem a recebe, e não exclusivamente pelo que é expresso por quem comunica(10).

As alunas Manoela, Isabel e Goreti aprenderam que a importância de ouvir está relacionada ao respeito e à compreensão humana. Vejamos as frases seguintes.

verdade(Manoela).

Houve uma mudança significativa, pois aprendi a ouvir melhor as pessoas, a valorizar mais o ser humano...A ouvi-lo de

as pessoas, escutando(Isabel).

Ouvir primeiro e falar depois...A gente quer falar sempre...Nesse estágio, eu percebi o quanto é importante acolher

Precisamos ouvir mais o paciente e ter maior consideração por ele...Se a gente ouvisse mais, talvez os pacientes tivessem uma melhor recuperação, pela satisfação de ter alguém lhe dando de fato, a devida importância (Goreti).

Existem algumas maneiras de ouvir, pois, às vezes, as pessoas são melhores ouvintes em certas situações do que em outras. O interesse governa o comportamento, ouvi-se melhor quando se tem a atenção estimulada. Esse estímulo variará de acordo com os interesses, e ouvir-se-á melhor sempre que se precisa compreender assuntos do próprio interesse, quando a curiosidade for despertada e quando alguém se referir a qualquer assunto que nos afete pessoalmente (9).

A ampliação da visão, quanto à importância de ouvir o outro, diz respeito à própria subjetividade, o que favorece trocas profissionais e interpessoais, facilitando o enfrentamento de conflitos e o compartilhamento de experiências, o que, na verdade, constitui a matriz de identidade para atenção humanizada.

Saúde Mental: contribuindo para uma visão contextualizada do paciente

Um dos princípios bastante propagados pela enfermagem é o de assistir o indivíduo globalmente. Porém, fica aquém das expectativas uma vez que é priorizado o aspecto tecnicista. Não se questiona a necessidade de desenvolver a competência técnica do acadêmico de enfermagem, contudo, o desenvolvimento de habilidades não pode se limitar a questões centradas no agir, mas também no pensar e no sentir. Faz-se necessário enfatizar a compreensão do outro, o respeito ao outro na sua complexidade, já que o ser humano é, a um só tempo, biológico, psicológico, cultural e social. Nesse sentido, a importância da disciplina Saúde Mental foi assim documentada, como apresentada abaixo.

A disciplina Saúde Mental contribuiu, pois fiquei mais humano...Mais tolerante e mais compreensivo (Manolo).

A disciplina Saúde Mental contribuiu, pois houve uma noção de Saúde Mental e de prevenção por meio da Saúde Mental olhando o paciente como um todo...Ver tudo...Não só a doença ou o corpo, mas enxergar a pessoa (Isabel).

Na área da saúde, a tecnologia não pode anular o homem. Ser solidário com o outro, valorizar a dimensão humana, prestar assistência, dentro de uma visão complexa e criar relação de ajuda com empatia fazem da humanização a base do exercício do profissional enfermeiro. Sabe-se que a meta é caminhar na direção da humanização e, quando se procura humanizar o trabalho, tornamo-nos mais humanos. Para que isso se concretize, o aluno precisa ter conhecimento sobre a humanização da assistência, sobre seus valores pessoais a respeito do ser humano, ou os valores que poderá agregar à sua conduta, e instrumentalizar-se para saber como agir terapeuticamente. Cuidar é a razão de ser da enfermagem e, conseqüentemente, sua ética(5,8).

Diante disso, o aluno precisa ser conduzido à reflexão do que vem a ser “o humano”, para que possa praticar um cuidar complexo, ou seja, não apenas na dimensão biológica, mas na dimensão biopsicossocial plena.

Graduação em enfermagem: “sinais e sintomas” indesejáveis da profissão

A enfermagem no Brasil, não muito diferente de outros países, passou a desvalorizar o cuidado humano, atendendo à ideologia de cura. Hoje, as ações curativas ocupam a maior parte das atividades, utilizando-se tecnologias materiais cada vez mais sofisticadas. Diante dessa realidade, alunas, com base na participação de estágios inerentes ao Curso de Graduação em Enfermagem comentam o trabalho dos profissionais da Enfermagem. Observe-se os trechos a seguir.

As pessoas agem esquecendo o lado emocional. Muitos só pensam no aspecto técnico, de como cuidar de um curativo...O paciente é mais que uma ferida, que uma doença (Roseli).

Eu percebo...Quando eu observo os profissionais que trabalham no hospital, eu vejo que eles não colocam em prática o que aprendem, ou seja, a valorizar o aspecto emocional (Carmem).

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Online

É uma profissão muito mecânica. Tudo é técnica...Tudo tem horário, tudo é muito corrido. O lado emocional fica em terceiro plano (Manoela).

A formação de profissionais voltada apenas para o desempenho técnico específico da sua área de atuação não pode mais ser aceita pelas instituições de ensino superior. Sua preocupação deve voltar-se para a formação do profissional cidadão, competente técnica e cientificamente, mas, sobretudo, com ampla visão da dimensão humana. A dificuldade muitas vezes de se enxergar a dimensão humana evidenciase, como nas falas.

Muitas vezes o paciente está triste por estar internado e não paramos para conversar com ele, somente realizamos nossa tarefa e vamos embora (Ivone).

É uma profissão mais mecânica do que emocional. Eu vejo o comportamento frio das pessoas. Eu não quero ser assim (Rafaela).

Por formarem profissionais que lidam com a saúde e com a vida das pessoas, os cursos de graduação necessitam repensar a formação e a prática pedagógica, os quais, ainda hoje, são inspirados no modelo mecanicista. Um dos preceitos desse modelo é dividir o objeto de estudo ou as dificuldades surgidas em tantas parcelas quantas necessárias para resolvêlas, o que provoca a divisão do conhecimento em áreas cada vez mais especializadas(5,1).

Até à revolução cartesiana, os terapeutas, de um modo geral, tratavam seus pacientes como seres compostos por corpo e alma, dentro de um contexto social e espiritual. Porém, com o modelo biomédico, a divisão entre corpo e mente, reduziu o corpo humano a uma máquina, cujo funcionamento depende do estado de operação em que se encontra seu mecanismo biológico. A partir de então, as ciências têm investigado o funcionamento biológico até o nível molecular, enquanto que as influências de fatores como psico-emocional e o socioambiental no processo saúde-doença deixaram de ser consideradas(5), com se nota nas frases seguintes.

A grade curricular não permite melhor valorização do aspecto emocional, pois somos cobrados mais pela parte técnica (Isabel).

esquecidos os aspectos emocionaisA gente é avaliado pela
raciocinamosPelo conhecimento científico...Aí, a gente se afasta

Há uma priorização de valores técnicos, sendo maneira como fazemos os procedimentos e pela maneira como do emocional do paciente (Josefa).

É preciso considerar a possibilidade de uma formação mais humana que privilegie uma visão complexa do homem, reconhecendo-se a importância dos aspectos psico-emocionais e ambientais no processo saúde-doença e no relacionamento do profissional com o cliente. Essa formação, certamente, não será objeto de uma ou algumas disciplinas da área de ciências humanas e, sim da filosofia que deverá nortear o desenvolvimento do curso, com envolvimento de todos os professores e alunos(5).

Após essa discussão, espera-se aqui, que o ensino em Cursos de Graduação em Enfermagem se paute cada vez mais no contato com as dimensões emocionais das pessoas, na diminuição da dicotomia entre os problemas ditos físicos e os ditos psíquicos, no estímulo para perceber e lidar com a própria bagagem emocional, no preparo para adquirir experiência e habilidade em falar com pessoas, ouvir estórias, reconhecer e expressar sentimentos e certamente ter mais condições de cuidar do paciente, desenvolvendo sua própria grandeza como pessoa e como profissional. O futuro enfermeiro não se constitui apenas como um elemento técnico e hábil, mas acima de tudo é um ser humano(12).

As categorias expostas apresentam pontos de contato, de relacionamento e de permuta. Abrem caminhos para o aprimoramento da verificação e da análise das percepções apresentadas por alunos de um Curso de Graduação de Enfermagem, após o estágio em Saúde Mental. Dessa forma, não se pretende esgotar o tema em questão, ao contrário, espera-se que novos olhares contribuam para o aprimoramento deste estudo.

É importante resgatar que a mola propulsora para a realização do presente estudo foi a necessidade de uma investigação a respeito das percepções apresentadas por alunos de um Curso de Graduação em Enfermagem, após o estágio em Saúde Mental, aprofundando o olhar para verificar se, após esse estágio, houve valorização dos aspectos emocionais na mesma proporção que são valorizados os aspectos tecnicistas.

A livre expressão conferida aos sujeitos da pesquisa foi decorrente de entrevistas semiestruturadas. Partiu-se de um roteiro norteador e os conteúdos das entrevistas possibilitaram o reconhecimento das categorias que, na seqüência, foram discutidas e interpretadas quanto aos seus

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Online significados, como fontes orientadoras para um ensinoaprendizagem humanizado, em um Curso de Graduação em Enfermagem.

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