O papel de exclusão das instituições totais e o conceito de loucura sob uma perspectiva sócio-histórica

O papel de exclusão das instituições totais e o conceito de loucura sob uma...

E S E F A P

Bacharelado em Enfermagem

ERIKA DORETTO BLAQUES

O PAPEL DE EXCLUSÃO DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS E O CONCEITO DE

LOUCURA SOB UMA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA

TUPÃ-SP

2007

E S E F A P

Bacharelado em Enfermagem

ERIKA DORETTO BLAQUES

O PAPEL DE EXCLUSÃO DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS E O CONCEITO DE

LOUCURA SOB UMA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA

Trabalho apresentado à ESEFAP como requisito parcial à conclusão da disciplina de Enfermagem em Saúde Mental sob a orientação da Professora Lucineide R. Ferraz .

TUPÃ-SP

2007

O PAPEL DE EXCLUSÃO DAS INSTITUIÇÕES TOTAIS

O papel das Instituições totais relatado no livro Manicômios, prisões e conventos é excluir, separar da sociedade tida como perfeita, os indivíduos que são vistos como “loucos”, ou seja, os indivíduos que não atendem as normas estabelecidas socialmente. Ao ingressar numa instituição destas o indivíduo perde contato com o meio externo e muitos de seus direitos acabam sendo negados permanentemente, passando então por um processo mortificante caracterizado pela despedida da vida fora da instituição e um recomeço ali dentro. Isto acontece nos manicômios com pacientes que ali estão confinados por cometerem atos não intencionais, mas que “ameaçam” a vida em sociedade, não lhes questionam a aceitação ou não da internação, apenas os obrigam a obedecer, seguir a risca as normas estabelecidas por esta instituição, sendo os mesmos sujeitos a maus tratos, não tendo o respeito e nem a consideração pela vida digna. Já nas prisões encontram-se confinadas pessoas que praticaram atos intencionais e ilícitos, onde estes indivíduos são exclusos e isolados da sociedade e também sujeitos a muitos maus tratos, o que dificulta uma possível reabilitação dos mesmos, pois a marginalidade e a crueldade acabam por tornar-se muito mais presente nestas instituições. Nos quartéis e conventos as pessoas ali estão por vontade própria, mas seguem um regime rigoroso com normas já estabelecida por essas instituições. A sociedade não consegue assimilar, aceitar o que foge dos padrões vistos como normais e excluem, rejeitam, internam nestas instituições totais o que lhes “ameaçam”. Quem nestas instituições se encontra acostuma-se com dificuldade e sofrimento ao isolamento e por fim acabam preferindo e optando pela solidão. Antigamente o modo como estas pessoas viviam nestas instituições era totalmente desumano, eram trancafiados em jaulas como se fossem animais, punidos ora por estarem agressivos, alterados e ora por indisciplina. Hoje com o progresso e a conscientização desta crueldade a que eram sujeitos estes indivíduos o tratamento encontra-se diferente pelo menos um pouco mais humanizado, não se fazendo mais o uso de eletrochoque. Loucos serão sempre taxados como loucos, mesmo quando estão passando por um período mais tranqüilo e calmo, os familiares e a sociedade sempre os verão como loucos e assim os tratarão com receio e preconceito, essas pessoas praticamente não vivem, vegetam, nem sua própria família conseguem e tem o direito de constituir. Já com indivíduos que estiveram em cadeias e presideos a sociedade também é preconceituosa, mas pelo menos muitos conseguem apesar das dificuldades tocar a vida pra frente, trabalhando dignamente e constituindo família, mas claro que muitos ou ate mesmo quase a maioria não se reabilita. Finalizando, o sentimento de tempo morto, explica o valor que o doente mental dá a sua própria distração e muitos depois do fim de tanta violência preferem se manter isolado, pois acaba encontrando segurança em sua própria solidão.

De acordo com o Documentário Exclusão e Violência Social, toda sociedade escolhe e rejeita o que quer e a forma que se relaciona com o que rejeita é excluindo, internando. A exclusão passou a ser a forma mais eficaz de punição e de curar,mas facilita o surgimento de uma comunidade cada vez mais delinqüente, o isolamento aumenta a marginalidade. O que fazer com tudo o que não podemos chamar de racional? Sendo que a razão não é natural nos homens, foi construída pela sociedade, pela cultura, sendo então o processo da nossa civilização. O homem procurou e procura afastar os que deliram, os que fogem da razão, tudo que é estranho, diferente no outro gera a sensação de exclusão pela sociedade, pois a mesma não consegue assimilar alguns componentes fora do considerado normal, mas será que ao excluir a loucura a nossa razão não estaria tornando-se mais fraca e mais triste?É algo que realmente deva-se pensar. Estas instituições em construídas em locais afastados das cidades, afim de realmente se isolar quem ali estivesse confinado, sendo os pacientes sujeitos a maus tratos bárbaros, onde a sociedade civil somente veio a constatar este fato na década de 80. O relato de uma pessoa confinada no leprosário de Bauru é de uma pessoa que foi excluída da sociedade por causa da doença que na época não existia a cura e que sofreu muito por preconceito e mesmo após a cura relata não querer sair dali e ali mesmo ser enterrado.O indivíduo acostuma-se e adapta-se a vida que ali leva e prefere ali mesmo ficar, para não sofrer novamente no mundo externo com preconceitos e exclusões. No filme Um Estranho no ninho encontra-se no sanatório pessoas que também não se encaixam nos padrões tidos como normais pela sociedade, por isto o manicômio é um lugar de exclusão não só de loucos, de doentes mentais, mas também de indivíduos que não seguiam estes padrões impostos pela sociedade. O papel desta instituição é o de exclusão, isolamento, onde os pacientes são confinados e submetidos a uma rotina diária que não os ajudava e nem os favorecia em nada, mas que sim facilitava o controle dos mesmos. Não existia de fato uma preocupação com a vida humana, com os sentimentos, com os temores e medos, com sentimentos destes pacientes, que eram tratados de maneira fria, mecânica, sem nenhuma compaixão ou demonstração de afeto, onde nesta instituição o eletrochoque era utilizado não como intuito de acalmar o paciente,mas sim de puni-lo por qualquer indisciplina. No sanatório encontravam-se pessoas totalmente diferentes entre si, um suicida, um intelectual, um presidiário que ali estava para ser avaliado mentalmente, um “surdo-mudo”, que nem surdo e nem mudo era,, pessoas que mesmo após vencido o tempo de internação permaneciam ali, por medo de sair e voltar a encarar a vida de frente,pois todos tinhas problemas familiares, medo do preconceito, medo de não serem aceitos novamente. Que tipo de profissionais são estes que não prezam pela dignidade de viver destas pessoas? Que simplesmente nem tentam de fato ouvir os problemas destes, não fazem nenhuma pequenina mudança na rotina diária pelo fato de que muitos demoram em adaptar-se a uma nova rotina, quando de fato era muito mais cômodo não inovar nada e não modificar nada, era mais fácil deixar tudo como estava. Este tipo de profissional se encaixa no perfil do protagonista do livro O Alienista, que ansiava tanto em buscar a perfeição no próximo, nos outros, que não era capaz de perceber que cada um tem uma personalidade única e acaba por não se encontrar em si mesmo.

O CONCEITO DE LOUCURA SOB UMA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA COM BASE NA LEITURA DE “O ALIENISTA”

O conceito de loucura percebido pelo protagonista do livro é que primeiramente ele interna na Casa Verde, o manicômio criado por ele com intuito de estudar os limites entre a razão e a loucura, pessoas que não se encaixam nos padrões tidos como normais pela sociedade, ele internou praticamente 80% da população de Itaguaí,onde alguns moradores tentaram intervir quanto a estes atos de Simão, configurando uma crítica a muitas revoluções ocorridas na História e que também ainda estão por ocorrer,entendendo que essas revoluções são movidas na realidade por interesses coletivos autênticos que acabam por ser manipulados e servindo de trampolim para que determinadas pessoas subam ao poder, por outros motivos mais egoístas. Após analisar que praticamente quase toda a população da cidade tinha sido confinada por ele na Casa Verde, o mesmo determina a soltura de todos “os loucos”, pois estatisticamente sua teoria estava errada, mas todos tinham que se encaixar a uma norma. Dentro de sua nova teoria ele chega à conclusão que louco era quem mantinha regularidade, firmeza de caráter, e volta novamente às internações e algumas pessoas que demonstram firmeza em sua personalidade são consideradas curadas quando demonstram um desvio de caráter, mas Simão vai por fim descobrindo que esta sua segunda teoria também é falha, pois a sua busca era pela perfeição e todos que não eram considerados seres humanos perfeitos eram considerados loucos, pois ninguém naturalmente tinha uma personalidade reta, perfeita, com exceção dele próprio e após muito refletir ele conclui que o único anormal era ele mesmo, mais uma vez solta todos os internados e encerra-se sozinho na Casa Verde para o resto de sua vida.

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