Família e transtornos alimentares: as representações dos profissionais de enfermagem de uma instituição universitária de atenção à saúde mental1

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FAMÍLIA E TRANSTORNOS ALIMENTARES: AS REPRESENTAÇÕES DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM DE UMA INSTITUIÇÃO UNIVERSITÁRIA DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL1

Lucia Helena Grando2 Marli Alves Rolim3

Grando LH, Rolim MA. Família e transtornos alimentares: as representações dos profissionais de enfermagem de uma instituição universitária de atenção à saúde mental. Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembrodezembro; 13(6):989-95.

O estudo é qualitativo, de caráter descritivo, cujo recorte se constitui na questão da família da pessoa com transtorno alimentar. Portanto, buscou-se contextualizar essa temática e apreender, dos relatos dos profissionais entrevistados, as representações acerca da família desses pacientes e sua influência na gênese e no desenvolvimento da doença. Inicialmente, os dados apontaram para representações da família como um grupo social primário que faz cobranças e que, como elemento formador, tem participação na origem do distúrbio. Posteriormente, o tema família surge mais encaminhado para a compreensão da mesma como elemento mantenedor do transtorno alimentar, na qual os limites pouco definidos entre os membros conturbam a relação, evidenciando muitas vezes a alteração na hierarquia: os pais passam a ser controlados pelo filho.

DESCRITORES: família; transtornos da alimentação; enfermagem psiquiátrica

This qualitative and descriptive study takes the family of patients with eating disorders as a starting point. We aimed to contextualize this theme and apprehend, from the reports of interviewed professionals, their representations about the family of these patients and its influence on the genesis and development of the illness. Data showed that, at first, the family is represented as a primary social group which is always expecting certain behaviors and which, as a formative element, participates in the origin of the disorder. Subsequently, the family theme appears to be more directed to understanding the family as an element that maintains the eating disorder, in which the not very defined limits among its members disturb the relationship, often evidencing an alteration in the hierarchy: the parents start to be controlled by their child.

DESCRIPTORS: family; eating disorders; psychiatric nursing

Este estudio es cualitativo, de carácter descriptivo, cuyo recorte es la familia de la persona con trastorno alimenticio. Para tanto, se buscó contextualizar tal temática y aprehender, de los relatos de los profesionales entrevistados, las representaciones a cerca de la familia de esos pacientes y su influencia en la génesis y desarrollo de la enfermedad. Inicialmente, los datos apuntaron hacia representaciones de la familia como un grupo social primario que hace cobranzas y que, como instancia formadora, tiene participación en el origen del disturbio. Posteriormente, el tema familia surge destinada a la comprensión de la misma, como elemento de manutención del trastorno alimenticio, en la cual los límites poco definidos entre los miembros turban la relación, evidenciando muchas veces alteración en la jerarquía: los padres pasan a ser controlados por el hijo.

DESCRIPTORES: familia; trastornos de la conducta alimentaria; enfermería psiquiátrica Trabalho extraído da dissertação de mestrado; Doutoranda em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, Assistente Técnica de Saúde I do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, Docente da Universidade Guarulhos, e-mail: lhgrando@hotmail.com; Professor Doutor da Escola de Enfermagem, da Universidade de São Paulo, e-mail: minie@usp.br

Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):989-95 w.eerp.usp.br/rlae Artigo Original

990 INTRODUÇÃO

A motivação pela temática decorreu da experiência profissional da autora na enfermaria infantil e de adolescentes do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, a qual deu origem à dissertação de mestrado(1).

O tema família da pessoa com transtorno alimentar surge como questão de suma importância e se torna o ponto de partida para o presente estudo.

A enfermeira freqüentemente lida não apenas com o indivíduo, mas também com sua família. Mesmo quando ela está lidando apenas com um indivíduo, é impossível a interação não afetar e ser afetada por sua família, conseqüentemente, as interações com um indivíduo são vistas como interações indiretas com a família dele. “O comportamento de um indivíduo é imensamente influenciado por sua família e, por sua vez, quaisquer alterações em seu comportamento invariavelmente afetarão sua família. Quer se adote essa perspectiva ou não, é difícil negar que a enfermeira, para ser eficaz, precisa compreender a família”(2). Acreditase, inclusive, que o núcleo familiar deve ser inserido em qualquer proposta terapêutica, pois “os familiares podem apresentar uma série de incapacidades que se sedimentaram frente ao adoecimento psíquico de um familiar”(3).

Ao planejar como intervir com os membros da família, a enfermeira pode considerar a necessidade de um preparo profissional que inclua a educação sobre o transtorno para si mesma, tão bem como ajudar a família a criar habilidades para assistir, dar apoio e impor limites ao cliente, se necessário(4).

Uma das premissas básicas que deve nortear o processo de cuidar desses indivíduos é que os profissionais necessitam ter a convicção de que o ser humano está intrinsecamente ligado à sua família e ao seu meio social e que esses são a fonte primordial, não só das pressões, mas também de recursos de apoio(5).

Vários autores enfatizam a necessidade de incluir a família no tratamento dos indivíduos com transtornos alimentares e a terapia familiar “está sempre indicada pela característica observada de que determinados comportamentos familiares parecem perpetuar comportamentos alimentares alterados”(6).

“A orientação familiar deve ser dada via de regra a todas as famílias” e o “aconselhamento familiar tem a intenção de educar a respeito da doença, afastar as idéias de culpa que os pais sempre trazem e orientar para o retorno ao padrão alimentar natural daquela família” (7).

Corroborando essas afirmações, pode-se identificar na literatura sobre a assistência de enfermagem a pacientes com distúrbios alimentares o fato de que um dos diagnósticos de enfermagem essenciais é o de “Processos Familiares Alterados”, definido como um sistema familiar disfuncional(8-10), caracterizado por mudanças nas alianças de poder, padrões e rituais, relacionados à alteração do poder de membros da família e à troca dos papéis dessa família, bem como à alteração do estado de saúde de um de seus membros.

Considerando essa peculiar dinâmica que se estabelece, os autores acima recomendam como principais intervenções de enfermagem: - explorar o grau de dependência e envolvimento entre os membros da família; - discutir com o paciente e a família as funções, papéis e limites adequados, bem como formas de comunicação mais efetivas. Identificar as regras dentro da família que reforçam o comportamento inadequado do paciente e, juntamente com a mesma, buscar mecanismos para adequá-las; - ajudar o paciente a desenvolver habilidades na resolução de problemas e proporcionar condições para que teste os resultados; - realizar ou encaminhar para grupos de terapia de família ou de psicodrama familiar.

Com relação ao plano de tratamento de enfermagem é ressaltada a importância de “incluir familiares na avaliação e no processo de planejamento do tratamento”, bem como a necessidade de “avaliar a família como sistema e o impacto do transtorno alimentar” e de “iniciar terapia de grupo para mobilizar o apoio social e reforçar respostas adaptadas”. Esses pacientes beneficiam-se do envolvimento dos familiares e do trabalho com um grupo que ofereça apoio(1).

Os autores sugerem que a assistência à família seja por intermédio de terapia de família, aconselhamento ou orientação, de forma a construir contextos mais flexíveis, favorecedores de expressão e aceitação de diferenças relativas às idéias, sentimentos e ações sem a ameaça de perda da pertinência, ao grupo familiar, de algum membro ou da dissolução do próprio grupo(12).

A partir das considerações acima, que deixam explícita a necessidade da inclusão da família na

Família e transtornos alimentares...Grando LH, Rolim MA.Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro; 13(6):989-95 w.eerp.usp.br/rlae assistência aos indivíduos com transtornos alimentares, determinou-se para o presente estudo o objetivo de apreender, dos relatos dos profissionais entrevistados, as representações acerca da família desses pacientes e sua influência na gênese e no desenvolvimento da doença. Tal proposta busca repensar as relações acomodadas e cronificadoras que se estabelecem entre profissionais, famílias e pessoas que sofrem com tais transtornos.

Considerou-se que o primeiro passo para compreender como os profissionais de enfermagem cuidam dessa família seria por meio das representações sociais que eles construíram acerca desse núcleo social primário.

A teoria das representações sociais é considerada um referencial apropriado para desvendar como os profissionais de enfermagem apreendem o familiar do indivíduo portador de transtorno alimentar e, em função dessa representação, como se organizam e orientam suas ações na prática cotidiana. Ela parte do pressuposto de que o conhecimento é socialmente elaborado e compartilhado, tendo o objetivo prático de contribuir para a construção de uma realidade comum a um determinado grupo social, possibilitando a comunicação e a ação conjunta.

Essa teoria diz “respeito aos conteúdos do pensamento cotidiano e ao suprimento de idéias que dá coerência às nossas crenças religiosas, às idéias políticas e às conexões que criamos tão espontaneamente como respirar. Elas nos capacitam a classificar pessoas e objetos, a comparar e explicar comportamentos e os objetiva como parte do nosso cenário social”(13). Assim, as representações sociais permitem que o homem perceba o significado dos acontecimentos que ocorrem em sua vida cotidiana.

ABORDAGEM METODOLÓGICA Natureza do Estudo

A pesquisa qualitativa configurou-se como a mais pertinente uma vez que ela não se preocupa em quantificar, mas em lograr explicar os meandros das relações sociais consideradas essência e resultado da atividade humana criadora, afetiva e racional, que pode ser apreendida através do cotidiano, da vivência e da explicação do senso comum(14).

Cenário do Estudo

O presente estudo teve como cenário as enfermarias que atendem indivíduos com transtorno alimentar, ou seja, mista e infantil e de adolescentes do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Esse hospital tem por finalidade a assistência, o ensino e a pesquisa; assim sendo, a veiculação do conhecimento científico se insere à prática, favorecendo a formação das representações sociais através da imbricação do conhecimento científico com o senso comum; universo “reificado” e consensual.

Sujeitos

Realizou-se entrevistas com 6 enfermeiros, 1 técnico de enfermagem e 5 auxiliares de enfermagem. Esse número se mostrou significativo para atingir os objetivos deste estudo, uma vez que, segundo a lógica da pesquisa qualitativa(14), o número de sujeitos deve ser significativo, suficiente para conhecer suas vidas e obter os elementos necessários para compreender melhor sua problemática e poder propor assistência para suas necessidades. Portanto, esse número não foi pré-determinado e o encerramento das entrevistas ocorreu a partir do momento em que foi constatada a invariância do fenômeno. Essas entrevistas permitiram explorar os conteúdos e as informações relativas às representações sociais desse tema.

Coleta de dados

A coleta de dados foi realizada no período de novembro de 1998 a março de 1999, por meio de entrevista realizada em local privativo, na própria instituição. As entrevistas foram gravadas com autorização dos sujeitos.

O projeto foi submetido e aprovado pela

Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa, sob número de Protocolo 634/98, que considerou que o mesmo respeitava rigorosamente as normas éticas e os sujeitos assinaram o termo de consentimento pós-informado.

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992 A sistematização e análise dos dados

A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de análise de conteúdo, mais especificamente a temática. Após a organização do material discursivo, optou-se por seguir as etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos e interpretação.

A partir dos relatos dos profissionais, foi possível identificar aspectos importantes dessa população – as representações sociais que construíram acerca do familiar do indivíduo com transtorno alimentar. Conseqüentemente, é a partir dessas representações que surgiu uma forma singular de cuidar, ancorada em conhecimentos prévios, já estabelecidos e oriundos de diversas fontes teóricas, de sua prática diária, mais ou menos intensa, em conceitos e preconceitos sociais, estigmatizantes em maior ou menor grau, em crenças e vivências pessoais.

Da análise dos dados, obteve-se duas categorias centrais: - a família, na condição de grupo social primário, tendo participação na origem do transtorno; - a família como instância mantenedora do transtorno.

A figura a seguir permite a visualização e a compreensão dos resultados.

Filho sem autonomia e sem domínio da própria individualidade

Estrutura familia

Família como grupo social primário Ancoragem na perspectiva social

Familía problema (desorganizada e desestruturada)

Boicote ao tratamento

Manutenção do transtorno

Participa na origem do transtorno

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