Assistência domiciliar ao idoso: perfil do cuidador formal - parte i*

Assistência domiciliar ao idoso: perfil do cuidador formal - parte i*

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Kozue Kawasaki** Maria José D'Elboux Diogo***

Kawasaki K, Diogo MJD. Assistência domiciliária ao idoso: perfil do cuidador formal - parte I. Rev Esc Enferm USP 2001; 35(3): 257-64.

O idoso fragilizado, mantido em seu domicílio, requer cuidados específicos, os quais são realizados muitas vezes por pessoas contratadas, pelas famílias, sem necessariamente terem formação específica e são comumente denominadas cuidadores formais. Frente o aumento da oferta de trabalho destas pessoas e a escassez de literatura sobre seu perfil, desenvolvemos um estudo com 41 anunciantes que ofereceram seus serviços em dois jornais de maior circulação no município de Campinas, São Paulo, com os seguintes objetivos: 1. caracterizar estes cuidadores e 2. verificar as atividades propostas para a assistência ao idoso. No presente trabalho são apresentados os dados referentes as características dos cuidadores quanto: ao sexo, a idade, a formação e experiência anterior, disponibilidade de horário e remuneração exigida.

PALAVRAS-CHAVE: Idosos. Cuidados domiciliares de saúde. Cuidadores.

The frail elderly, maintained in its home, request specific cares, wich are accomplished many times by people contracted, denominated formal caregivers. With the increase of offer of these people's work and the shortage on its profile, we developed a study with 41 advertisers that offered its services in two newspapers of larger circulation in the city of Campinas, São Paulo, with the following objectives: 1. to characterize these caregivers and 2. to verify the activities proposals for care to the elderly. In the present work the referring data are presented the caregivers' characteristics as: to the sex, the age, the formation and previous experience, schedule readiness and demanded remuneration.

KEYWORDS: Elderly. Home nursing. Caregivers.

El anciano debilitado, mantenido en su habitación, carece de cuidados específicos, los cuales han sido realizados muchas veces por personas contratadas, denominadas cuidadores formales. Frente al aumento de oferta e trabajo de estas personas y a la escasez de literatura sobre el perfil, desarrollamos un estudio con 41 anunciantes que ofrecieron sus servicios dos periódicos de grande circulación en el municipio de Campinas, San Pablo, con los siguientes objetivos: 1. caracterizar estos cuidadores y 2. verificar las actividades propuestas para la asistencia al anciano. El presente trabajo presenta los datos referentes a las características de los cuidadores con respecto a: sexo, edade, formación y experiencia previa, disponibilidad de horario y remuneración exigida.

PALABRAS -CLAVE: Ancianos. Asistencia domiciliar. Cuidadores.

* Parte do trabalho de Iniciação cientifica com financiamento da FAPESP(Proc. N5 97/13702-9) Tema livre apresentado no 51º Congresso Brasileiro de Enfermagem, realizado de 02 a 07 de outubro de 1999, Florianópolis, SC. ** Aluna do Curso de Graduação em Enfermagem da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP.

*** Enfermeira. Professor Assistente Doutor no Departamento de Enfermagem da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. Email: mariadio@uol.com.br

O envelhecimento é um fenômeno do processo de vida que, assim como a infância, a adolescência e a maturidade, é marcado por mudanças bio-psico-sociais específicas, associadas à passagem do tempo. Mesmo sendo universal, varia de indivíduo para indivíduo, sendo essas diferenças, geneticamente determinadas mas também influenciadas, entre outros fatores, pelo estilo de vida, pelas características do meio ambiente e pelo estado nutricional de cada um.(1)

Apesar do envelhecimento populacional ser uma conseqüência natural do desenvolvimento e modernização, no Brasil, transformou-se em um grave problema social observando as condições de vida e bemestar a que a população idosa está submetida (2)

O processo de envelhecimento traz muitas alterações fisiológicas no organismo do idoso, fragilizando-o e facilitando a instalação de afecções. São, portanto, mudanças normais do organismo do idoso que causam o aumento da vulnerabilidade às doenças e grande dificuldade no restabelecimento da saúde.

A modernização e a melhoria nas condições sociais, econômicas e de saúde, o controle parcial das doenças evitáveis por meio de imunizações e campanhas, e a incorporação de sistemas de saneamento básico ao espaço urbano, levaram à mudanças nos padrões de morbidade e mortalidade. No Brasil a transição epedimiológica apresenta algumas peculiaridades, conforme aponta Chaimowicz(3): temos uma superposição entre as etapas que predominam as doenças transmissíveis e as doenças crônico-degenerativas e ainda encontramos uma contra-transição, caracterizada pela reintrodução de algumas doenças e o aumento de outras como a malária.Ademais, encontramos uma transição prolongada, caracterizada pelos elevados padrões de morbi-mortalidade.

Segundo Veras(4) "a medida que a expectativa de vida aumenta, haverá um aumento drástico e catastrófico na prevalência de distúrbios mentais e doenças crônicas em idosos." Muitas das doenças de fácil cura para um jovem ou adulto tornam-se crônicas e até fatais ao idoso, os sintomas são agravados, pois a fragilidade do organismo é acentuada na velhice e a falha do sistema imune pode causar piora do quadro patológico, interferindo diretamente na sua qualidade de vida.

Uma vez acometido por uma doença crônicodegenerativa, geralmente o idoso requer cuidados especiais, pois torna-se dependente. Nesse momento surge a figura do cuidador, que na maioria das vezes é um membro da família ou amigo próximo que auxilia este idoso, de forma parcial ou integral nas dificuldades ou incapacidades para realizar as atividades de vida diária. Essa pessoa é denominada cuidador informal.(5)

Esse cuidado informal normalmente é reservado para a mulher sendo considerada por Saad (2) como tradicional provedora de cuidados básicos aos idosos dentro da família. No entanto, a estrutura familiar na realidade brasileira vem mudando e a mulher não mais trabalha exclusivamente no lar, ao contrário, engaja-se cada vez mais no mercado de trabalho.

O cuidado diário e permanente ao idoso dependente produz perturbações, que por menor que sejam, afetam a vida familiar. A mudança no exercício de papéis, angustiante em virtude do envolvimento afetivo paciente idoso e família, a diminuição do tempo de relacionamento com amigos e vizinhanças, a solidão, a sobrecarga e a frustração por não conseguir colocar em prática seus próprios projetos de vida, fazem parte dessas perturbações que em determinado momento saturam o cuidador de tal forma que volte em busca de alternativas de cuidado como a contratação de um indivíduo para prestar assistência ao idoso. Esses indivíduos são denominados cuidadores formais que não raramente assumem sozinhos a assistência ao idoso, sem ter uma equipe para dividir as responsabilidades da tarefa. (6)

Os cuidadores formais que se habilitam a prestar assistência aos idosos no domicílio nem sempre possuem uma formação adequada para o desempenho dessa função. Muitas vezes são "acompanhantes com prática de enfermagem" segundo eles se autointitulam, conforme dados obtidos por Duarte(7), o que significa que não possuem qualquer curso de enfermagem, seja em nível médio ou superior, mas realizam cuidados de enfermagem, colocando em risco, muitas vezes, a qualidade de vida do idoso.

baseadas em saberes simples,não envolvem cuidados

Estas pessoas não são profissionais pois na área de enfermagem contamos com as seguintes categorias: enfermeiro, técnico de enfermagem e auxiliar de enfermagem. O atendente de enfermagem, considerado "ocupacional", embora seja um trabalhador que não possui formação formal regulamentada, está sendo qualificado por força da Lei n 7.498/86. Mesmo assim, ainda existem no mercado em grande número. Segundo a resolução COFEN- 185 de 1995 só é facultado ao atendente de enfermagem o exercício de tarefas elementares "ações de fácil execução e entendimento, diretos ao paciente...".

Os profissionais da equipe de enfermagem possuem formação específica para cada categoria (segundo e terceiro grau). Ademais devem ser registrados no Conselho Regional de Enfermagem (COREn), órgão fiscalizador das diferentes categorias. O aumento da população idosa dependente, que necessita de cuidados especiais de forma integral, acrescido da escassez de recursos do sistema de saúde

Assistência domiciliária ao idoso: perfil do cuidador formal - parte I Kawasaki K, Diogo MJD.

Assistência domiciliária ao idoso: perfil do cuidador formal - parte I Kawasaki K, Diogo MJD.

para atender a esta demanda tem favorecido o tratamento no domicílio. Inclusive, a Assistência Domiciliária ou Atendimento Domiciliário é uma das modalidades de atenção ao idoso previstas na Portaria nº 73 de 10 de maio de 2001 da Secretaria do Estado de Assistência Social. Esta portaria regulamenta a atividade, bem como dispõe sobre os recursos humanos necessários para tal modalidade assistencial, com a inclusão da figura do cuidador. No entanto, a falta de profissionais qualificados e a justificativa referente aos altos custos de um serviço particular de enfermagem, têm propiciado discussão no âmbito da gerontologia sobre a criação de novas ocupações e funções de nível médio como "geri sitter" ou assistente de geriatria e gerontologia e o atendente pessoal. (8)

Atualmente, as publicações têm considerado como cuidadores todos os que dispensam cuidados a terceiros sendo então utilizada uma classificação para as multi qualificações desses indivíduos. Segundo a classificação de Wanderley(9), existem vários tipos de cuidadores, listados abaixo com suas particularidades, porém a autora ressalta que não são categorias excludentes, mas sim complementares, podendo o cuidador apresentar mais de uma classificação.

- cuidador remunerado: recebe um rendimento pelo exercício da atividade de cuidar;

- cuidador voluntário: não é remunerado;

- cuidador principal: tem a responsabilidade permanente da pessoa sob seu cuidado;

- cuidador secundário: divide, de alguma forma, a responsabilidade do cuidado com um cuidador principal, auxiliando-o, substituindo-o;

- cuidador leigo: não recebeu qualificação para o exercício profissional da atividade de cuidar;

- cuidador profissional: possui qualificação específica para o exercício da atividade (enfermeiro, terapeuta, etc.);

- cuidador familiar: tem algum parentesco com a pessoa cuidada;

- cuidador terceiro: não possui qualquer grau de parentesco com a pessoa cuidada.

Assim, o cuidador que denominamos formal pode ser entendido nesta classificação como cuidador remunerado, principal, leigo, profissional e terceiro uma vez que nesta classificação sobrepõem-se grau de parentesco, remuneração e formação.

Isto posto, a questão a ser trabalhada recai sobre esses cuidadores formais, qual é o perfil desses cuidadores, suas qualificações e quanto exigem pelo trabalho de cuidador.

Há escassa literatura científica publicada sobre essa questão, no entanto a oferta dos serviços dessas pessoas vêm crescendo visivelmente na imprensa escrita, principalmente nos jornais de grande circulação e em revistas não científicas.

A descrição desses trabalhadores é impres-cindível para conhecermos as características dos indivíduos que dispensam cuidados aos idosos no domicílio.

O objetivo desse trabalho é caracterizar o perfil do indivíduo que se oferece para cuidar de idosos em domicílio, no município de Campinas, quanto ao sexo, a idade, a formação e a experiência anterior, disponibilidade de horário e remuneração exigida.

Trata-se de parte de um estudo exploratório realizado com indivíduos que se oferecem para cuidar de idosos em domicílio, localizados a partir de anúncios em jornais de maior circulação.

SUJEITOS DA PESQUISA: Os sujeitos da presente pesquisa foram 41 anunciantes de ambos os sexos que ofereceram seus serviços por meio dos jornais de maior circulação no município de Campinas.

com agências de emprego de enfermagem

Para este trabalho será apresentado a primeira parte do instrumento utilizado para a coleta de dados na pesquisa como um todo. Esta parte visou levantar as características do cuidador como idade, sexo, qualificação, curso preparatório, local da assistência, experiência anterior no cuidado de idosos, disponibilidade de horário, esquema de folgas, trabalho em outro emprego, remuneração exigida e sua relação

O termo qualificação foi utilizado para se designar as diferentes categorias dos anunciantes, mesmo considerando que o acompanhante e o atendente de enfermagem não possuam qualificação específica. No item qualificação, o atendente de enfermagem foi assim denominado uma vez que existe no mercado em grande número e continuam a ser assim denominados principalmente quando oferecem seus serviços.

Os dados serão apresentados em tabelas onde foram empregadas as abreviações para as qualificações: E para o enfermeiro, TE para o técnico, AE ao auxiliar, AT para o atendente e AC para o acompanhante.

Os anúncios foram obtidos através dos jornais

Correio Popular e Diário do Povo, por serem considerados os de maior circulação na cidade de Campinas. O período de coleta foi de três meses, com início no mês de julho e término em setembro de 1998. A estratégia usada para a coleta de dados foi a entrevista através do contato telefônico, realizado uma vez por semana, embora os anúncios fossem recortados diariamente. Muitos desses anúncios se repetiram no decorrer do período, assim dos 74 recortes, foram realizados 4 contatos telefônicos sendo três deles de agências de enfermagem. No entanto, nem sempre o número telefônico anunciado correspondia ao local de contato do anunciante. O entrevistado era informado sobre a realização da presente investigação, garantindo o seu anonimato e respeitando a não concordância do mesmo em participar desse trabalho. Com o objetivo de homogeneizar a necessidade dos cuidados a serem dispensados pelo cuidador, foi apresentado a ele, uma situação hipotética de uma idosa necessitando de cuidados.

Durante a coleta de dados foram excluídos os anúncios de agências de enfermagem, totalizando três, que ofereciam indivíduos de várias qualificações (auxiliares, atendentes de enfermagem e acompanhantes) e que atendiam não somente a idosos, mas politraumatizados e pacientes com câncer e Aids.

Os resultados serão apresentados e discutidos seguindo o roteiro do instrumento utilizado na coleta de dados.

Tabela 1 - Distribuição dos anunciantes segundo a idade, o sexo e a qualificação. Campinas,1998.

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TOTAL Idade (anos)

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