Relacionamento Terapêutico e o Cuidado em Enfermagem Psiquiátrica e Saúde Mental

Relacionamento Terapêutico e o Cuidado em Enfermagem Psiquiátrica e Saúde Mental

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Costa18 explicitou, como acadêmica de graduação, sua experiência com um paciente hostil, ansioso e irritado, com sinais típicos de esquizofrenia, como desagregação do pensamento e delírios de grandeza. Segundo a autora, durante as primeiras conversas, o paciente se mostrou com uma certa hostilidade, substituída, em poucas semanas, pelo fortalecimento dos vínculos emocionais e a independência pessoal, culminando na alta hospitalar.

Consideramos que o relacionamento terapêutico, como tecnologia de cuidado, que guarda um conhecimento e que se viabiliza pela aquisição de algumas habilidades, tem importante contribuição para a prática da enfermagem psiquiátrica e saúde mental. Os estudos apresentados pelas autoras confirmam nossas afirmações. No entanto, a utilização do relacionamento terapêutico não exclui a necessidade de outras medidas terapêuticas. A complexidade do sofrimento psíquico de uma pessoa exige interlocução de saberes, de profissionais, de indivíduos, de contribuições.

Braun e Wielenska19, em seu trabalho com pacientes portadores de transtornos de humor, citaram que o relacionamento terapêutico deve ser associado às terapias biomédicas tradicionais, pois promove um menor desgaste do paciente e de sua família, possibilitando o estabelecimento de uma melhor qualidade de vida.

Lima e Rodrigues20 abordaram uma experiência com um paciente psiquiátrico agitado, sugerido para o estudo por alguns auxiliares de enfermagem da instituição pesquisada. Com o estabelecimento de uma relação empática, o paciente apresentou-se cada vez mais tranqüilo e disposto a cooperar e o entendimento da situação levou-o à

Kantorski LP, Pinho LB, Schrank G reflexão de seus atos e mudanças de atitudes, tornando-o mais confiante e independente.

Como pudemos observar nos relatos, todas as experiências vivenciadas pelos autores tiveram como alicerce o apoio psicológico e a empatia, que, para Stefanelli9, consistem nos principais ingredientes na constituição de uma relação interpessoal terapêutica. Através deles, o enfermeiro se coloca no lugar do paciente para entender seus problemas, mas não deve, nesse momento, perder sua identificação pessoal como terapeuta.

Essa relaçãointerpessoalcom fins terapêuticos tambémfoi descritapor Furegato8 como sendo uma relação de ajuda, na qual ocorre uma troca de saberes: de um lado, o profissional que se prepara para interagir terapeuticamente, sanando dúvidas e diminuindo a ansiedade, e de outro, o paciente que necessita entendimento, carinho e solidariedade.

Travelbee21 dividiu em quatro fases a relação interpessoal, a saber:

Fase1–F ase de Pré-interação: É a fase em que o enfermeiro começa a vinculação com o paciente, tentando compreendê-lo e colhendo dados através de uma observação não-participante e participante, respectivamente;

Fase2–F ase Inicial: É a fase do primeiro encontro, ou seja, a recepção e a apresentação do profissional, explanando seu comprometimento em ajudar e seus objetivos com o relacionamento interpessoal;

Fase3–F ase de Identidades: É a fase em que o paciente pode-se apresentar um pouco mais hostil, testando a competência do profissional e podendo ser levemente manipulativo. É nela que paciente e enfermeiro entendem-se como seres humanos, detectando dificuldades, impotências e incompatibilidades;

Fase4–F ase de Término: É a fase do fim do processo de relacionamento terapêutico, seja por alta hospitalar, agravamento do quadro do paciente ou outras razões. Nesta etapa surgem sentimentos como os de gratificação, independência ou indiferença.

Notamos também que todas as experiências visavam a criação de um ambiente propício para o autoconhecimento, já que o principal objetivo de uma relação de ajuda é fazer o paciente compreender seu sofrimento psíquico e encontrar, através de um processo de resgate do valor interno do próprio indivíduo, suas potencialidades, sendo copartícipe de seu tratamento.

Verificamos que Rogers (p.43) 2 definiu a relação de ajuda como umasituaçãonaqualumdosparticipantesprocura promovernumaounoutraparte,ouemambas,uma maiorapreciação,umamaiorexpressãoeumautilizaçãomaisfuncionaldos recursosinternoslatentes doindivíduo.

Consideramos, assim como Rogers22, que o mérito de uma relação de ajuda foi atingido quando o terapeuta foi capaz de despertar no paciente um sentimento mobilizador que facilitou o seu autoconhecimento, a autovalorização e o seu crescimento individual.

Contudo, ainda percebemos que alguns obstáculos prejudicaram, mesmo que momentaneamente, o estabelecimento de uma relação interpessoal terapêutica satisfatória. Nos estudos de Santos e Teixeira15, Dantas16 e Costa18, foram evidenciadas a agressividade e a manipulação de respostas como algumas dessas barreiras, que geraram uma certa situação de tensão.

Santos e Teixeira15 ressaltaram que o paciente estudado apresentava comportamento manipulativo, o que exigiu a imposição de limites e o resgate, por parte da profissional, das finalidades terapêuticas da inter-relação. Aos poucos, o paciente foi melhorando e tornando-se mais atento à conversa.

Dantas16 relatou que os medos e as inseguranças eram freqüentes e influenciavam diretamente na sua relação com o paciente, que somente foram minimizados com o estabelecimento da empatia e da vinculação afetiva.

Costa18 descreveu que a hostilidade do paciente era notável, com manifestação de comportamentos agressivos e irritabilidade emocional. Nesse caso, o fortalecimento dos vínculos emocionai s e a concretização da relação empática também foram decisivos para a manutenção da relação interpessoal e efetivamente terapêutica.

Evidenciamos que o relacionamento terapêutico, como recurso tecnológico para cuidar de pessoas portadoras de transtorno psíquico, continua sendo relacionamento e se dando entre pessoas. Desse modo, ele é permeado de contradições, questionamentos, zonas de tensão, desejos e subjetividades. O tensionamento, entretanto, é necessário para que possa estabele -

O relacionamento terapeutico cer-se confiança e vínculo para se permitir ser cuidado e desenvolver autonomia durante este processo.

Segundo Arantes, Stefanelli e Fukuda13,a relação interpessoal terapêutica, à medida em que se configura como uma relação de ajuda, deve oferecer segurança e confiabilidade ao paciente ao diminuir gradativamente sua ansiedade e aumentar o sentimento de independência pessoal. Porém, referem que há a necessidade de se estabelecer limitações para evitar a liberdade total de ações e comportamentos que poderiam colocar em risco a sua própria integridade, a da enfermeira e de outros pacientes, norteando o indivíduo, conseqüentemente, para o desenvolvimento de padrões de conduta socialmente aceitos.

Outro agravante no estabelecimento de uma relação terapêutica consiste no não-envolvimento emocional, o qual consideramos prejudicial à reabilitação integral do paciente. Filizola e Ferreira23 estudaram a equipe de enfermagem de um hospital do interior do estado de São Paulo e verificaram que a opção pelo não-envolvimento com os pacientes é freqüente. Segundo os entrevistados, o relacionamento com seus pacientes poderia, em algum momento, trazer malefícios para os profissionais, principalmente no que tange à sua vida extra-hospitalar, o que se configuraria como um grande empecilho na prescrição e efetivação do cuidado de enfermagem com os pacientes.

Entendemos que a permissividade de atitudes e a atitude de não-envolvimento podem acarretar um processo de incomunicabilidade entre enfermeiro e paciente dentro dos serviços de saúde, levando à inviabilização da relação interpessoal terapêutica. Assim, pensamos que os princípios da relação empática, o resgate do papel terapêutico do enfermeiro, o asseguramento que permite reorientar comportamentos inadequados, o oferecimento de continência, de possibilidades de expressão do sofrimento psíquico e o redirecionamento de atitudes hostis podem auxiliar na qualificação desta relação entre enfermeiro e paciente.

Enfatizamos que o enfermeiro, elemento vivo na totalidade do processo saúde-doença, pode dispor do relacionamento terapêutico como tecnologia de cuidado em saúde mental. E nesse sentido, a universidade, como órgão protagonista e fomentador de novos enfermeiros, tem papel fundamental na desconstrução dos medos e inseguranças que permeiam as relações interpessoais, devendo oferecer ao acadêmico contato com formas de reabilitação, nas quais a premissa básica é o respeito às vertentes humanas, sociais e culturais dos seus pacientes.

Com os resultadosobtidos, verificamos que a temática do relacionamento terapêutico foi bastante enfatizada e utilizada por enfermeiros em suas práticas assistenciais. Como pudemos observar, na produção científica da enfermagem de 1980-2000, 13 artigos abordavam especificamente o relacionamento terapêutico e seus benefícios para os pacientes.

Constatamos que seis artigos relatavam experiências com pacientes, nas quais a relação interpessoal, mesmo diante de dificuldades, configurou-se como o elemento norteador da terapêutica, um artigo procurou analisar a prática propriamente dita do relacionamento terapêutico com membros da equipe de enfermagem e seis artigos realizavam uma reflexão teórica acerca das transformações na atenção em saúde mental, abordando a temática como sendo uma delas.

Salientamos a grande preocupação dos enfermeiros em abordar suas experiências e desafios no cuidado ao paciente utilizando as relações humanas como subsídio e, nesse sentido, acreditamos que as terapêuticas tradicionais não são exclusivas no processo de saúde-doença, devendo ser incorporadas a práticas que visem a assistência ao ser humano de uma maneira integral com base também no respeito às suas vertentes sociais, culturais e psicológicas.

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Kantorski LP, Pinho LB, Schrank G

RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN: El presente estudio objetiva realizar una reflexión teórica acerca del abordaje de la temática de relación terapéutica en la producción científica de enfermería psiquiátrica y salud mental, en el período de 1980-2000. Se trata de un estudio bibliográfico, en que realizamos una búsqueda de la producción científica de enfermería en los últimos 21 años en 14 periódicos con nivelAyB ,d e acuerdo con la clasificación de la CAPES, de 2001. Encontramos 13 artículos sobre la temática y verificamos que seis de ellos se refieren a experiencias con pacientes, uno trabaja con el equipo de enfermería y los otros seis abordan teóricamente las transformaciones de la asistencia psiquiátrica y hacen reflexiones sobre la inserción de la relación terapéutica en la enseñanza y en la práctica de enfermería. Resaltamos la gran preocupación de los enfermeros al utilizaren las relaciones humanas como subsidio en la asistencia, debiendo ser incorporadas a la terapéutica tradicional, pues objetivan asistir al individuo integralmente con base también en el respecto a las sus vertientes sociales, culturales y psicológicas. Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave: Enfermería; relación terapéutica; salud mental.

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Recebido em: 09.04.2003 Aprovado em: 28.07.2003

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NotasNotasNotasNotasNotasDocente da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Federal de Pelotas / RS. Doutora em Enfermagem pela EERP–USP. Apoio CNPq.Acadêmico do 9º Semestre do Curso de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Federal de Pelotas / RS. Apoio CNPq.Acadêmica do 8º Semestre do Curso de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Federal de Pelotas / RS. Apoio CNPq.

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