Automedicação em Idosos

Automedicação em Idosos

(Parte 5 de 5)

Cavalcanti e Saad (1990) acreditam que, em São Paulo, idosos em situação econômica menos privilegiada freqüentemente são forçados a “dilapidar suas parcas economias em internações particulares. Em Belo Horizonte, dentre os indivíduos com 60 anos ou mais que recebem até um salário-mínimo em 1992 (um terço do total), mais de metade gastava parte considerável de sua renda – 18,6% com remédios (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1993). E 10% declaram despender recursos com consultas médicas sendo que, entre os que recebiam até um saláriomínimo, 4% do orçamento em média era empregado com esta finalidade. Ainda segundo o estudo, como conseqüência destas dificuldades, um quarto desses indivíduos utilizava

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medicamentos sem receita médica, a mesma proporção observada no Rio de Janeiro (VERAS, 1994).

Uma visão holística do problema tende a rejeitar um sistema de saúde que esteja centrado no especialista (cardiologista, nefrologista, etc...), pois ele claramente não pode responder às necessidades dos idosos, e da população de maneira geral, resultando em baixo rendimento a um alto custo. Neste contexto, o estudo das características do consumo dos medicamentos na Terceira Idade assume relevância, pois pode vir a fornecer subsídios aos gestores do Sistema Único de Saúde, que permitam traçar diretrizes de ação para suprir as necessidades desta faixa etária no que tange à assistência farmacêutica. Isto significa oferecer produtos em quantidade e qualidade adequadas, isto é, que sejam compatíveis com os avanços científicos, cujos gastos sejam suportáveis pelo sistema de saúde e que, minimizem a ocorrência de reações adversas (ROZENFELD, 1997). A Percepção de morbimortalidade na população estudada, segue o que se poderia esperar de uma população idosa – O perfil geral assim o de doenças específicas, como diabetes e hipertensão. A mortalidade no sexo feminino corresponde a 0,9% do total de idosos de 60 anos e do sexo masculino de 0,92% do total de idosos no município, por doenças do aparelho circulatório, por doenças endócrinas e metabólicas, aparelho digestivo e respiratório (MINISTÉRIO DA SAÚDE / DATASUS,2003).

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Este estudo se insere no campo da Farmacoepidemiologia ou Epidemiologia do Medicamento

1.8 Farmacoepidemiologia Porta e Hartzema (1989) afirmam que a Farmacoepidemiologia é uma nova disciplina no campo da pesquisa com fármacos; é definida como a aplicação do conhecimento epidemiológico, dos métodos e da lógica dos estudos dos efeitos (benéficos e adversos) e dos usos dos fármacos em populações humanas. Objetiva descrever, explicar, controlar e predizer os efeitos e os usos dos tratamentos farmacológicos numa determinada população, num tempo e espaço definido.

Para Laporte e Tognoni (1989) o objetivo da Epidemiologia do Medicamento é a vigilância da vida do medicamento na comunidade, que é descrita mediante técnicas adequadas, padronizadas e comparáveis; ela aparece na literatura farmacológica como o conjunto dos fatos relevantes sobre a relação do fármaco com a medicina, produzidos no cenário científico e com imagem pública.

Carvajal et al. (1993) define a Farmacoepidemiologia como a ciência que estuda ao mesmo tempo o impacto dos fármacos em populações humanas utilizando para isto o método epidemiológico. Resulta esta atividade da conjunção da farmacologia clínica e da epidemiologia. A primeira estuda os efeitos dos fármacos na espécie humana, ao passo que a epidemiologia fornece o método que é próprio e permite assim conhecer o que ocorre com os medicamentos quando são utilizados por grandes populações.

Para Strom (1994) a Farmacoepidemiologia é considerada como o resultado do casamento entre a Farmacologia e a Epidemiologia; é definida como o estudo do uso e dos efeitos dos

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medicamentos no conjunto das pessoas, sendo sua principal preocupação os efeitos adversos identificados após a comercialização dos produtos.

Zubioli (2004) diz que a Farmacoepidemiologia aplica os conhecimentos, métodos e raciocínio da epidemiologia ao estudo dos efeitos positivos, negativos e usos de fármacos em grupos populacionais. Trata-se de uma área de marcada interdisciplinaridade em que se utilizam a farmácia clínica, a farmacologia clínica, a epidemiologia, as ciências sociais e econômicas, e a bioestatística.

Trata-se de um campo que conceitual e metodologicamente está em fase de construção e colocado diante de questões cruciais relacionadas aos seus limites e a sua existência como disciplina autônoma (ROZENFELD, 1997).

Farmácia é o sistema sanitário que presta um serviço de saúde à comunidade segundo um conhecimento sobre os produtos farmacêuticos e seus efeitos no ser humano, assim como o farmacêutico é o profissional sanitário especialista em fármacos. Portanto, a farmacoepidemiologia tem um enfoque multidisciplinar na área saúde, e a presença do farmacêutico, especialmente clínico, é imprescindível em seu desenvolvimento, tendo em vista que os dados do uso de produtos se encontram nos serviços de farmácia (UNIVERSIDAD DE CHILE, 1989).

No âmbito da farmacoepidemiologia, o farmacêutico vem prestando valiosa colaboração nas seguintes áreas: Ü Farmacovigilância;

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Ü Estudos de Utilização de Medicamentos; Ü Farmacoeconomia; Ü Centros de Informação de Medicamentos.

Por essa e outras razões, esse campo novo e fascinante da farmacoepidemiologia é da mais significante importância para o farmacêutico e encontra-se em ampla expansão na comunidade (ZUBIOLI, 2004). Uma das contribuições significativas da farmacoepidemiologia certamente reside na institucionalização dos sistemas de farmacovigilância e nas estratégias adotadas pelos mesmos.

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1.9 Justificativa

Embora a automedicação seja uma necessidade, tendo inclusive uma função complementar aos sistemas de saúde, particularmente em países pobres (OMS, 1986), é evidente que este hábito, utilizado de maneira inadequada, pode ter como conseqüência efeitos indesejáveis, enfermidades iatrogênicas e mascaramento de doenças evolutivas, representando, portanto, problemas a serem prevenidos (ARRAIS et. al., 1997). Se for levado em conta que “todo medicamento é um veneno em potencial, dependendo da dose” (Paracelso), poder-se-á avaliar por alto, o risco a que se expõe diariamente um indivíduo, quando realiza a automedicação. Todo medicamento tem seus efeitos colaterais e a prescrição médica é individualizada para as características de cada paciente.

Fica clara, assim, a importância de se mapear o fenômeno da automedicação para que se possa instruir a população particularmente no caso dos idosos, uma vez que estes freqüentemente fazem uso simultâneo de vários medicamentos, são excluídos dos ensaios clínicos, e por tanto, estão mais vulneráveis a riscos. O município de Salgueiro foi escolhido por apresentar essas peculiaridades neste grupo que necessitam de cuidados especiais com os medicamentos. Os conhecimentos gerados podem transformar-se em subsídios para a implantação de programas de atendimento e intervenção adequadas a realidade do município, contribuindo com qualidade de vida plena, que ao menos tenda para tal direção.

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