Automedicação em Idosos

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(Parte 4 de 5)

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social que originou uma grande massa populacional marginalizada em decorrência do modelo de desenvolvimento adotado (DUCHIADE, 1995).

O envelhecimento populacional caracteriza-se pela diminuição relativa do número de jovens e aumento relativo do número de idosos. Esta modificação é diretamente relacionada à diminuição da mortalidade que se expressa pelo aumento da esperança de vida ao nascer e pela diminuição na fecundidade (LAURENTI, 1990).

Entre os fatores que influenciam o envelhecimento da população, a queda da fecundidade é o de maior importância. A diminuição das taxas de fecundidade é secundária a transformações no comportamento reprodutivo das mulheres e vem decrescendo significativamente desde a década de 1970, principalmente nas regiões urbanas mais desenvolvidas economicamente. A redução destas taxas se deu principalmente pelas transformações nas relações de trabalho na cidade e no campo e pela difusão maciça de métodos anticoncepcionais (PATARRA, 1990). No ano de 1970, a taxa de fecundidade total era de 4,06% para o Brasil na zona urbana chegando a 2,3% em 2000 (FIBGE, 2000).

Para Chesnais (1992 apud SOUZA, 2002) a transição demográfica apresenta dois padrões distintos: Um tradicional, onde a característica principal é o alto nível de mortalidade e fecundidade, e um moderno que se caracteriza por baixa mortalidade e diminuição significativa da fecundidade.

Como a transição epidemiológica, a transição demográfica dos países da América Latina ocorreu diferentemente dos países industrializados, onde a passagem de uma população jovem para

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população velha deu-se lentamente. Na América Latina este processo aconteceu de forma extremamente brusca, numa velocidade nunca vista na história (LAURENTI, 1990).

A partir de 1960, com o declínio da fecundidade em algumas regiões mais desenvolvidas do Brasil, iniciou-se o processo de envelhecimento populacional. As Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNAD’s) da década de 70 passaram a demonstrar que o fenômeno se estendia paulatinamente às demais regiões brasileiras, tanto nas áreas urbanas quanto rurais, e a todas as classes sociais (CARVALHO, 1993 apud CHAIMOWICZ, 1997). A taxa de fecundidade total caiu de 5,8 para 2,7 filhos por mulher, entre 1970 e 1991, redução superior a 50% (IBGE, 1994; OLIVEIRA, L.; FÉLIX, 1991 In: FIBGE, 1995 apud CHAIMOWICZ, 1997).

Como conseqüência, o peso relativo dos jovens declinou de 41,9% para 34,7% no mesmo período e a proporção de idosos cresceu de 3,1% para 4,8%. O índice de envelhecimento da população, que era igual a 6,4 em 1960, alcançou 13,9 em 1991, incremento superior a 100% em apenas três décadas. Se no início do século a proporção de indivíduos que conseguia alcançar os 60 anos se aproximava de 25%, em 1990 ela superava 78% entre as mulheres e 65% entre os homens; a esperança de vida ao nascer, então, já ultrapassava os 65 anos (SANTOS, 1978 apud CAMARGO; SAAD, 1978; FIBGE, 1994).

Em 1999, os idosos já representavam 9,05% da população no Brasil, e em 2020, poderão totalizar 13% (LIEBER et al., 2002). Segundo especialistas, em 2025, o país será o sexto do mundo em números de pessoas na terceira idade, o que demanda cuidados especiais com essa população crescente. Quando não recebem o auxílio necessário, muitos caem no perigo da automedicação (on line: O perigo da automedicação de idosos). Por volta de 2080 a proporção de jovens e idosos

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deverão se estabilizar, com respectivamente 20% e 15% do total (CAMARANO et al., 1988; CARVALHO, 1993 apud CHAIMOWICZ, 1997; MACHADO, 1993). A partir de então, novos incrementos na proporção de idosos dependerão não mais do declínio da fecundidade, mas da redução da mortalidade após os 64 anos, como já ocorre hoje em países como Suécia, Inglaterra e Estados Unidos (BUTLER et al., 1993).

1.6 Transição Epidemiológica

O conceito de “transição epidemiológica” refere-se às modificações, a longo prazo, dos padrões de morbidade, invalidez e morte que caracterizam uma população específica e que, em geral, ocorrem em conjunto com outras transformações demográficas, sociais e econômicas. O processo engloba três mudanças básicas: A) substituição, entre as primeiras causas de morte, das doenças transmissíveis por doenças não transmissíveis e causas externas; B) deslocamento da maior carga de morbi-mortalidade dos grupos mais jovens aos grupos mais idosos; e C) transformação de uma situação em que predomina a mortalidade para outra em que a morbidade é dominante (FRENK et al., 1991).

A explicação para a mudança profunda do perfil epidemiológico, que se caracterizou pela queda progressiva das doenças infecciosas e parasitárias contrapondo-se ao aumento na ocorrência das crônico-degenerativas, deveu-se à indiscutível melhora dos níveis de saúde secundária a importantes transformações sociais trazidas pela Revolução Industrial, que possibilitou a melhoria dos padrões de consumo e qualidade dos alimentos, das condições de habitação e saneamento e à evolução tecnológica (ARAÚJO, 1992).

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De acordo com Laurenti (1990), estão descritos três modelos de transição epidemiológica: O clássico ou Ocidental, o de transição Acelerada e o Modelo de Transição Contemporânea ou Retardada.

Em sua teoria, Omram (1971) discute as mudanças ocorridas ao longo da história enfrentadas pela humanidade que para fins de entendimento, podem ser classificadas em três fases distintas: A Era da Fome e Pestilências, que caracterizou o perfil epidemiológico da Idade Média onde se observavam altos índices de natalidade e de mortalidade por doenças transmissíveis, epidemias, com mortalidade em massas e expectativa de vida em torno de 20 anos.

Na segunda fase, A era de Declínio das Pandemias, observou-se o gradual desaparecimento das grandes pandemias, permanecendo, no entanto, uma elevada mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias. A expectativa de vida dobrou havendo ainda aumento no crescimento populacional. Esse período permaneceu até o início da Revolução Industrial (OMRAM, 1971). A Era das Doenças Degenerativas iniciou-se com a revolução Industrial e permanece até os tempos atuais, caracterizando-se por significativa melhoria nas condições de vida.Coincide com o aparecimento da Era Bacteriológica, correspondente ao declínio da morbimortalidade por doenças infecciosas e a substituição das principais causas de mortalidade que passaram a ser as doenças crônico-degenerativas. Ocorreu ainda aumento significativo na expectativa de vida que se aproximou de 70 anos (ARAÚJO, 1992).

Entretanto quando se aprofunda a discussão sobre a transição epidemiológica, fica claro que o desenvolvimento diferenciado, as desigualdades sociais e econômicas têm estreita relação com às mudanças observadas. A distribuição desigual das riquezas coincide com as desigualdades

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observadas no processo saúde-doença, e, portanto, com as desigualdades na saúde (DUARTE et al., 2002).

O processo de transformação do perfil epidemiológico brasileiro se deu de forma desigual, gerando padrões distintos de perfis de morbimortalidade e, por ainda persistirem, permanecem até hoje, como uma transição epidemiológica “desigual”. Isto é confirmado pela análise do processo saúde-doença e de determinantes, bem como dos fatores de exposição e dos riscos de adoecimento e morte (DUARTE et al., 2002).

Outros fatores, como os aspectos demográficos, ambientais, o acesso aos serviços de saúde, as políticas sociais implementadas, entre outros, foram determinadas no processo da transição epidemiológica (DUARTE et al., 2002).

De acordo com Duchiade (1995 In: Minayo, 1995), a esperada transição epidemiológica presenciada nos países desenvolvidos, onde as doenças crônicos-degenerativas substituiriam as epidemias de doenças infecciosas e onde há a predominância das doenças da modernidade, não ocorreu. Ao contrário dos países desenvolvidos, onde a predominância das doenças degenerativas só ocorreu após o controle das patalogias infecciosas, o Brasil apresenta um perfil epidemiológico onde há superposição de velhas e novas doenças. Atualmente observa-se inclusive, um quadro de maior gravidade secundário ao agravamento de problemas sanitários com aumento da morbidade por doenças transmissíveis, reintrodução da cólera e da dengue, permanência da tuberculose, urbanização de endemias como malária e risco de urbanização da febre amarela, além do surgimento da AIDS.

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Ao mesmo tempo se constata o aumento da mortalidade por causas externas, principalmente homicídios, acidentes em trânsito e a desnutrição. Diferentemente dos chamados países desenvolvidos onde as pessoas morrem mais por colisão de veículos, os brasileiros vitimados pelo trânsito na maioria pedestre, sobretudo na faixa de 20 a 29 anos e no percurso para o trabalho, mas também na idade escolar de 5 a 14 anos e idosos. Esse detalhe denuncia a pouca atenção para duas fases da vida (infância e velhice) que deveriam ser alvos de cuidados da sociedade e do poder público.A violência afeta a saúde em primeiro lugar porque é um risco ao processo vital humano. Como descreve Agudelo (1989), “cada evento violento que se concretiza interfere nesse processo vital: ameaça a vida, altera a saúde, produz doenças e coloca em cena a morte como realidade possível”.

Ao comparar a nossa situação com a de outros países, constata-se uma impressionante diferença no risco de morrer por desnutrição na velhice, sendo 71,1% maior que nos EUA e 32,13% maior que na Costa Rica (WHO, 1990). Os dados básicos para o estudo da mortalidade por desnutrição (CID 260-269) no Brasil na década de 80 foram obtidos por meio do sistema de informação de mortalidade do Ministério da Saúde. A principal responsável pelas mortes por deficiência nutricional é a desnutrição protéico-calórica (CID 260-263) explicando cerca de 9% de todos os óbitos nos anos estudados.A análise de mortalidade no período demonstra a preponderância de óbitos por desnutrição entre os lactentes, pré-escolares e idosos. Em 1989, foram registrados no Brasil 7.146 óbitos por desnutrição, sendo os de menores de 1 ano (4%), de pré-escolares (10%) e de idosos (28%), o que resulta em quase um óbito por hora (NASCIMENTO A., 2003).

A “primeira revolução epidemiológica” refere-se à diminuição de mortalidade por doenças infecciosas, observada em praticamente todo o mundo. A “segunda revolução epidemiológica”

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diz respeito à redução de incidência de doenças crônicas – degenerativas, de etiologia não – infecciosa (ROZENFELD, 1997).

Assim como houve um declínio nas doenças infecciosas, haveria, no futuro, também uma redução das crônicas – degenerativas. A maioria dos óbitos, nessa nova fase, não decorreria de morte prematura causadas por doenças ou acidentes, mas por “morte natural” decorrentes da debilidade associada ao processo de envelhecimento e à falta de motivação, com falência progressiva dos mecanismos fisiológicos de regulação da vida. Na realidade alguns países industrializados já apresentam redução dos níveis de mortalidade por doenças cardiovasculares e por alguns tipos de neoplasias. A diminuição da prevalência de fatores de risco, na população, e a melhoria no atendimento médico são explicações para essa mudança de tendências (ROZENFELD, 1997).

A transição demográfica e epidemiológica tende a acarretar mudanças no sistema de saúde. Alguns problemas de mais fácil solução vão sendo equacionados e resolvidos, como o tratamento da maioria das doenças infecciosas e parasitárias, emergindo outros, mais complexos, para os quais não dispomos de medidas adequadas de controle. Entre eles, encontra-se a saúde dos idosos (ROZENFELD, 1997).

1.7 Idosos

A vida humana tem um limite biológico, embora haja controvérsias quanto ao seu valor numérico: alguns estudiosos do assunto colocam esse limite em 85 anos, enquanto outros, um pouco mais além, nos 100 ou 120 anos. Um misto de problemas ligados ao envelhecimento e à

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doença é responsabilizado por essa situação. Isto significa, considerar-se o limite biológico de 85 ou 100 anos, que alguns países já estão muito próximos desse valor, podendo acrescentar às suas populações, em termos estatísticos, apenas uns poucos anos mais de vida (PEREIRA, M., 1996).

Uma importante constatação é a de que a duração da vida humana tem-se mantido constante, através do tempo. No passado e no presente, são raros os indivíduos centenários. O número e a proporção de pessoas idosas é que tem crescido, através de ganhos na expectativa de vida. O crescimento do número de idosos, na população, está associado ao aumento da prevalência das doenças crônicas e de incapacitados, já que, na atualidade, as pessoas ficam, por mais tempo, com problemas de saúde, por diversas razões, em especial, pela melhor assistência médica. Em conseqüência, poderá ocorrer que a vida seja mais longa para muitos, porém em piores condições de saúde. Daí a questão que se impõe: será que a população com maior longevidade tem melhor nível de saúde? Para responder tal questão, novos indicadores estão sendo utilizados, baseados no grau de “autonomia” dos indivíduos tais como “a proporção de pessoas com restrição de atividades”, “o índice de desempenho das atividades diárias” e “a esperança de vida em boa saúde” (PEREIRA, M., 1996).

Em indivíduos maiores de 60 anos a predominância de óbitos relacionados às doenças crônicodegenerativas é evidente. No Brasil, em 1990, mais da metade dos óbitos em idosos foram causados por doenças do aparelho circulatório e 15% por neoplasias (FIBGE, 1994). Na região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), mo mesmo ano, quase 70% dos óbitos foi por doenças cardiovasculares e 60% daqueles por neoplasias ocorreram neste grupo etário e representaram, respectivamente, 45,4% e 16,5% do total de óbitos entre idosos da RMBH (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1993; FIBGE, 1994).

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É possível que haja reações ao quadro de saúde delineado, de maneira a fazer reverter o perfil epidemiológico que se esboça para o futuro. O aumento da expectativa de vida também pode vir a ser acompanhado de outras modificações, por exemplo, o maior controle de fatores de risco, o que contribuirá para que se eleve a idade de aparecimento de doenças crônicas incapacitantes, no futuro, e conseqüentemente, diminuindo sua prevalência. Esse é o desafio que muitas sociedades já estão enfrentando: o da chamada “segunda revolução epidemiológica” (ROZENFELD, 1997).

O maior número de idosos, na população, significa maior número de pessoas dependentes que precisam de cuidados, não só quanto à questão de doença, mas também com respeito à própria realização das atividades do cotidiano, que garantem a sobrevivência. Uma pessoa idosa hipertensa, com dificuldade de visão e audição, portadora de artrite e de problemas dentários, vivendo isolada e recebendo mensalmente uma aposentadoria de valor irrisório, não necessita somente de atenção médica, mas de toda uma ampla gama de apoios (ROZENFELD, 1997).

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